Uma gente que ri quando deve chorar e não vive, apenas aguenta.

Versos de Maria, Maria, de Milton Nascimento.


A miscigenação fez do nosso povo algo inédito no mundo: ele possui uma tolerância à prova de qualquer dificuldade. Se há um povo que poderá sobreviver às piores crises que a humanidade ainda há de provocar, é o brasileiro.

Há porém uma parcela da nossa população que é absolutamente intolerante, arrogante e preconceituosa. É aquela que há séculos mantém a maioria no cabresto e que soube inculcar nos seus descendentes esses mesmos sentimentos, a fim de continuar mandando e desmandando neste país abençoado por Deus (sem ironia!), mas desprezado por aqueles seus filhos que se deram as melhores oportunidades e que sonham viver no exterior, em países “de primeiro mundo” ou em paraísos fiscais para onde enviam seu dinheiro.

Mas por que não vão para lá??? Porque nesses lugares não teriam a quem espoliar, a quem desprezar ou espezinhar. É o ódio que move esses nossos concidadãos “de bem”, esses que nunca subiriam em um ônibus ou num metrô lotado, esses que se incomodam com a presença de pessoas mais “humildes” nos aviões de carreira, esses que fazem questão de deixar seus empregados domésticos à disposição em qualquer horário. Mas, principalmente, esses que nunca matriculariam seus filhos numa escola pública, onde seriam obrigados a conviver com cidadãos muitas vezes mais inteligentes do que eles. Esse é o real perigo, que a miscigenação “de inteligências” chegue ao país!

Este texto não é “fora Temer”, “contra a PEC 241”, “contra a reforma do Ensino Médio”, ou coisa que o valha. Ele pretende mostrar minha tristeza ao ver nossos adolescentes mais inteligentes e determinados, esses que teriam condições de virar a mesa e fazer deste país uma nação democrática e igualitária, ocupar suas escolas públicas na esperança de serem vistos e compreendidos. Mas não! Eles são agredidos e escorraçados por uma polícia comandada por esses que se dizem mantenedores de “ordem e progresso”. Eles são perseguidos, um a um, por diretores de escola e de ensino ignorantes, tapados e preocupados apenas em manter seu emprego, benesses e licenças “premio”.

Este texto é uma constatação da nossa tremenda COVARDIA - nossa, de quem entende o que estou falando – em deixar jovens e adolescentes que não tiveram nossas mesmas oportunidades de frequentar boas escolas, de viver o suficiente para entender que mundo é esse, tomar a frente de uma luta que é NOSSA, mas que deixamos pra lá, por preguiça ou conveniência.

Se esses jovens e adolescentes se trancam dentro de suas escolas, numa atitude de quem finalmente se apropria de sua consciência e cidadania, é porque nós, adultos e “estudados”, nos trancamos em nossas casas, sem lotar as ruas, sem gritar por eles e por seu futuro! Porque enviamos os modernos “capitães do mato” para prendê-los e reprimir suas atitudes. Porque nossa “vidinha” vai muito bem, obrigado. E as periferias?... Onde é que ficam, mesmo?

O Brasil vai superar esta e muitas outras crises, porque possui um povo maravilhoso, inteligente e tolerante a ponto de entender que não adianta pegar em armas, mas só vai se tornar uma verdadeira nação quando a maioria da população conseguir levar uma vida digna. Metade das residências brasileiras não possuem água encanada ou esgoto; sobre os serviços de saúde e educação nem precisamos falar, não é mesmo? Isso não é vida, a mentira de que tudo vai melhorar “nos próximos 20 anos” está no ar e a lavagem cerebral está pegando direitinho...

Essa virada depende de todos nós, que despertemos nossa coragem de tomar a frente de uma luta que é NOSSA e que deixamos para aqueles que não tiveram as mesmas oportunidades. Jovens e adolescentes muito mais corajosos do que nós, pois estão entendendo a realidade em que vivemos e tomam atitudes! Enquanto isso, nós acreditamos que “eles” são manipulados e que melhor seria se prepararem para o Enem, sem provocar esse “transtorno” que são as ocupações de escolas, tomando precioso espaço de nosso jornal preferido e azedando nosso café da manhã...

Né?

Parabéns, meninos e meninas que tomaram a frente dessa luta que é de todos nós e que não temos coragem de enfrentar! Vocês saíram às ruas e não fomos atrás, então se sentiram obrigados a ocupar o único espaço que lhes restou, suas escolas. Que possamos aprender a lição que estão nos dando, sair de nossos refúgios e ocupar essas ruas que são nossas, mas que por covardia deixamos aos donos do poder e aos “capitães do mato”.

Em tempo: não podia deixar de publicar o link para o depoimento da estudante Ana Júlia, que descobri no Facebook após ter postado este artigo. Ela humilhou os deputados da Assembleia Legislativa do Paraná durante o lindo discurso que fez a respeito das ocupações das escolas. Parabéns, Ana Júlia, parabéns jovens e adolescentes que nos fazem acreditar no futuro do país e nos humilham com o brilho da sua inteligência e sua força de vontade!


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