Cabelo espetado? Colares, brincos? Expulsão neles!


Recebemos a seguinte mensagem de um pai de Minas Gerais, cujo nome não divulgamos para evitar as costumeiras perseguições/represálias que podem atingir seu filho:

"Recentemente meu filho recebeu da escola onde estuda bilhete endereçado aos pais, sobre a apresentação individual que deverá ser seguida dentro da instituição, a saber:
1- Que o corte de cabelo masculino deverá ser desbastado com máquina nº 02, proibindo os penteados chamativos (moicanos, surfista e o topete );
2- Proibição do uso do boné;
3- Proibição das tinturas exóticas que fogem aos padrões da normalidade: verde, azul, roxa, vermelha entre outras;
4- Proibição do uso de colares, brincos;
5- Proibição de tatuagens que ficam expostas fora do contorno das peças dos uniformes

Face ao exposto, solicito ajuda, para que possa enviar correspondência a aquela escola, no meu entendimento, do abuso que estão cometendo, interferindo na individualidade de cada um, pois a escola é estadual e não militar."

Resposta do EducaFórum:

Prezado, infelizmente você está muito longe geograficamente, por isso não podemos ajudar de forma direta.

Já ouviu falar que uma andorinha não faz verão?... Se você estiver sozinho, sem o apoio de outros pais dentro da escola, você poderá ser simplesmente convidado a tirar seu filho de lá. Se você bater o pé, seu filho corre o risco de ser expulso. Chocado?

A escola pode ser estadual, mas se o Conselho de Escola resolver que quer um regimento militar, é isso que vai valer! Essa é a escola pública brasileira, onde não se respeita nem mesmo a Constituição Federal. E muito menos o Estatuto da Criança e do Adolescente, que você muito sabiamente colou á sua mensagem:

Art. 53 - ll - A criança e o adolescente têm o direito de serem respeitados por seus educadores.

Mas você veio parar no lugar certo! Nós conseguimos, no ano passado, reintegrar dois alunos EXPULSOS de uma escola de São Paulo por usar corte de cabelo moicano, piercings e colares. Mas não foi fácil: eu mesma tive que passar um dia inteiro na escola, durante a segunda sessão de expulsão - sim, eles foram expulsos, os pais recorreram e na segunda sessão a EXPULSÃO FOI CONFIRMADA. Como então conseguimos a façanha?

As mães dos dois alunos eram pessoas bem informadas e inconformadas como você, dispostas a chegar às últimas consequencias para reintegrar os filhos na escola. Nossa estratégia foi a seguinte:

Após a CONFIRMAÇÃO DA EXPULSÃO pelo Conselho de Escola, do qual a diretora da escola era presidente (aqui na rede estadual de São Paulo o diretor é sempre o presidente...), levamos as mães à Secretaria da Educação, onde foram ouvidas e puderam alegar que os alunos haviam sido expulsos por motivo fútil, já que em seu histórico escolar nada constava que os desabonasse. Mas temos certeza de que não foi apenas isso que garantiu a reintegração dos garotos. Orientamos as mães a procurar também o Ministério Público, para reforçar a denúncia, pois a Secretaria da Educação poderia agir de forma corporativista, já que trata-se de um órgão lotado de professores e diretores de escola... Aqui em São Paulo, por exemplo, até a "Ouvidoria da Educação" é formada por profissionais da educação e sempre dá ganho de causa para eles, tanto que a chamamos de "Surdoria"...

Veja clicando neste link todo o trabalho que deu a reintegração desses alunos! E clique também no link interno, que mostra todo o histórico do caso.

Portanto, amigo, você está com a razão e coberto de boas intenções, mas saiba que vai mexer no maior vespeiro...

Nossa orientação:

  1. Procure outros pais que tenham a mesma filosofia e forme um grupo de pelo menos três.

  2. Peçam por escrito o Regimento Escolar na direção da escola. Provavelmente isso vai ser negado, pois a maioria dos regimentos estão em desacordo com a lei. Caso vocês consigam o documento, nos enviem o texto escaneado para o e-mail educaforum@hotmail.com Caso a escola se recuse a entregá-lo, anotem em sua solicitação o nome do funcionário, a data e o horário em que o regimento foi negado.

  3. Nos informem e aguardem nova orientação.

  4. Dependendo do item 2, poderemos encaminhar vocês à Secretaria da Educação, ao Conselho Tutelar ou ao Ministério Público.

Se isso servir de consolo, saiba que a maioria das escolas públicas brasileiras não respeita o aluno. Caso você não tenha o apoio da comunidade ou a coragem de enfrentar o "vespeiro", a dica é mudar seu filho para uma escola menos autoritária. Existem!

Muito boa sorte! Mande notícias!

Comentários

victor zazuela disse…
Que o corte de cabelo masculino deverá ser desbastado com máquina nº 02, proibindo os penteados chamativos (moicanos, surfista e o topete );
2- Proibição do uso do boné;
3- Proibição das tinturas exóticas que fogem aos padrões da normalidade: verde, azul, roxa, vermelha entre outras;
4- Proibição do uso de colares, brincos;
5- Proibição de tatuagens que ficam expostas fora do contorno das peças dos uniformes

"Máquina nº 2", "fogem aos padrões de normalidade". O que é isso?
Estado do terror?
Que anacronismo....
Giulia disse…
Pois é, só ficamos sabendo de mais esse "anacronismo" porque esse pai relatou... Imagine quantos outros casos não existem! É que nem a história da projeção da fita pirata Tropa de Elite: as mães da EE Imperatriz falaram disso em passant, como se não fosse uma coisa grave. A população não sabe avaliar o que acontece na escola.
Vitor Souza disse…
Pois na escola em que eu leciono, a vice-diretora queria mandar uma aluna ao psicólogo (ou psiquiatra, até) por ela ser lésbica. Como professor de história que sou, expliquei pacientemente que a homossexualidade era tratada como doença e distúrbio durante o século XIX, e que hoje já se sabe tratar-se de uma questão genética, ou seja, a pessoa nasce homossexual e é uma pessoa NORMAL, e tratá-la como anormal é crime. E, sem contar, o anacronismo de pensar como se estivéssemos no século XIX.
Giulia disse…
Isso não é nada, Vitor! Acabamos de receber uma denúncia gravíssima de uma menina de 14 anos que foi expulsa do internato por "ser lésbica". Ela foi simplesmente colocada dentro de um ônibus e despachada para casa...
A mãe está desesperada. Vamos ver como podemos ajudar.
Víctor Zazuela disse…
Meu Deus, são coisas inacreditáveis em pleno século XXI.
Isso tudo me lembra a discussão em torno da criminalização, com pena de morte, em Uganda.
Maria Elvira disse…
Giulia,
Oi. Achei esta lista bem absurda, apesar de que eu sempre peço aos meus alunos que não fiquem de boné na sala de aula. Mas eu entrei aqui para te perguntar se vc pode documentar aqui casos de expulsão de alunos ai em São Paulo. Aqui no Rio eu sempre sou informada pelas duas secretarias onde trabalho que não existe expulsão de alunos em escolas públicas. Quando muito podemos sugerir ao aluno que pense em estudar em outra escola, se ele assim quiser. E ai? As escolas expulsam mesmo? Vc pode documentar isto para mim?
Um abraço
Giulia disse…
Oi, Maria Elvira, sei do trabalho sério que você faz aí no Rio de Janeiro. Aqui também a expulsão não existe oficialmente, ela é chamada de "transferência compulsória"... Nosso blog já completou 5 anos e tem N casos de expulsão documentados, vou ter o prazer de fazer um histórico para você. Segue no final de semana. Grande abraço!
Caroline disse…
Olá Giulia! Neste caso, acho um absurdo, mas como proceder com alunos que fazem o que querem na escola? Xingam professores e diretores, gritam, jogam o material dos colegas pela janela, rasgam cadernos, roubam materiais e inclusive urinam embaixo da mesa da professora durante a aula? Este aluno em questão já está na escola há 3 anos, descumprindo todas as regras e incentivando os colegas a fazer o mesmo, já que nada acontece com ele. O aluno foi para o 3°ano (por determinações de psicólogas) e não sabe escrever seu nome, não sabe os numerais até 10. A mãe diz que não sabe o que fazer com o filho, a psicóloga diz que ele tem a auto estima rebaixada e a escola (pública) diz que não pode fazer nada. As mães dos outros alunos estão reclamando, as crianças da turma já não aguentam mais... A professora quase teve um infarto! Está certo aceitarmos alunos assim??? A culpa continua sendo das professoras pelas quais ele passou que, segundo nossa colega psicóloga Rosely, não tem competência para ensinar a todos os alunos?
Giulia disse…
Prezada Caroline, esse caso que você está relatando parece ser um caso limite. Provavelmente, esse menino tem TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade - viu como a gente sabe das coisas? rsrs) e precisa ser tratado como tal. Nota zero para a psicóloga dele! Mas não pense que essa incompetência seja apenas da rede pública. Conheço um garoto que estuda na renomada escola Waldorf Rudolf Steiner, e também lá não sabem o que fazer com ele. Às vezes me pergunto se além de incompetência não é falta de amor à profissão...
Então, se o único problema da sua escola for essa criança, trata-se mesmo de uma exceção e ela precisa ser resolvida. É até possível que o garoto seja superdotado! De repente ele "se recusa" a aprender da forma maçante à qual as crianças normais se sujeitam... Se for esse o caso e a escola não tomar providência, será mais um cérebro jogado no lixo.
Caroline disse…
Giulia, estamos fazendo todo o possível para contornar este caso... Felizmente posso lhe dizer que na minha escola existem profissionais muito competentes e lhe garanto que as aulas são muito boas e os alunos muito bem cuidados! Lhe garanto, portanto, que não é falta de competência, nem muito menos falta de amor a profissão, pois todas que ainda permanecem lá, sem dúvida, é justamente por amor a profissão. Este aluno não tem superdotação, já foi avaliado por diversos profissionais e a única coisa que souberam nos dizer foi que tem a auto estima rebaixada por ter sido abandonado pela mãe...
Por isso, não posso concordar quando dizem, com tanta propriedade, que a culpa é dos professores, afinal, que medida vcs nos sugerem? O aluno não pode ficar sem recreio, já que ele tem direito ao brincar, não podemos obrigá-lo a comprar cadernos novos para os colegas, nem muito menos a limpar o chão da sala em que ele urinou... Se um aluno picha a escola e a professora o faz pintar a parede, vira caso nacional, a professora será processada por ter submetido a criança a uma situação vexatória.
Infelizmente, estamos de mãos atadas... Acredito que precisamos nos convencer que todos temos nossa parcela de culpa em relação a educação: professores, pais, pedagogos, psicólogos e até mesmo o governo.
Creio que se cada um fizesse seu papel ao invés de somente criticar e culpar a outra parte, teríamos, sem dúvida, muito menos fracasso na educação.
Giulia disse…
Caroline, não é questão de culpa! É questão de buscar uma solução. O Brasil prima pela ignorância nos casos de dislexia e TDAH! Fui eu mesma, há 10 anos, que sugeri ao Fantástico fazer uma matéria sobre dislexia. Foi a primeira vez que a mídia abordou um assunt6o tão importante. Hoje, 10 anos após, nada mudou para melhor!!! Se N profissionais não souberam diagnosticar o menino, então que sejam procurados outros. O que a escola não pode fazer é cruzar os braços. Levar o assunto á Secretaria da Educação, exigir que uma grande universidade faça um estudo do caso, caminhos não faltam.
Maria Elvira disse…
Oi Caroline,
Temos um caso parecido com este aqui em Niterói. Contudo, conseguimos uma ajuda extraordinária. Tem um pastor batista que resolveu fazer um trabalho voluntário na escola formando uma banda. Este menino se encantou coma idéia e quis fazer parte. Inicialmente ele foi vetado mas o tal pastor resolveu convida-lo mesmo assim e aos poucos com muita conversa e até mesmo algumas repreensões ele está conseguindo domar a fera ( no bom sentido é claro!), isto porque o menino era louquinho para aprender a tocar um instrumento qualquer e a banda caiu do céu.
Ele ainda não é nenhum anjinho não e está longe de ser o melhor aluno da turma, mas já aceita as regras da sala e tem colaborado muito com o pastor na hora dos ensaios. Está até vindo mais limpo para a escola. Quem sabe vocês não poderiam procurar uma atividade extra-classe para este menino. Não digo que seja a solução, mas não custa nada tentar. Boa sorte.
Um abraço
Giulia disse…
Obrigada, Maria Elvira! Não só não custa nada tentar, como não se pode deixar de buscar caminhos. Cada conquista é uma vitória. Parabéns pelo seu trabalho, aí no Rio!
Caroline disse…
Giulia, é exatamente este o caminho que estamos buscando. Semana passada já tentamos entrar em contato com o pessoal de Secretaria da Educação e tenha certeza, não iremos desisitir enquanto não resolvermos este "caso". Quanto às Universidades, achei uma excelente ideia. Obrigada pela sugestão!
Concordo plenamente com você, o Brasil, infelizmente, prima pela ignorância em muitos casos e acredito que, se nada fizermos, a educação continuará fadada ao fracasso.
Caroline disse…
Olá Maria Elvira!
Obrigada pela excelente sugestão! Ele já frequenta diversos projetos no contra turno, mas não custa nada tentar outro. Ao que tudo indica, iremos recomeçar a fanfarra da escola e podemos tentar incluí-lo. Quem sabe essa solução servirá também para ele.

Muito obrigada mais uma vez.
Abraços,
Caroline
Metas - Bernake disse…
Acredito que somos livre e podemos agir do modo que acharmos melhor. Quantos do q aqui estão não usaram calças boca de sino nas decadas passadas!!!

Eu particularmente acho ridiculo, nunca usei e nunca usaria, mas essa é minha opinião e devo respeitar a dos outros tb. Se eles gostam deixe com que assim se vistam, penteiem, pintem e assim por diante.

Estamos no sec. 21 e não na era medieval.

Agora em relação a caso citado pela Caroline, infelizmente a nossa sociedade esta em uma situação muito ruim, muitos familias desfeitas, pobres adoslecentes tomando conta de seus irmãos mais jovens...

Mas isso tudo esta relacionado a todos nós como a Caroline afirma, pais, educadores, governantes, e dai vai....