
Costumo dizer que o maior problema da educação pública brasileira não é a falta de qualidade do ensino, mas a falta do respeito devido ao aluno, a começar pelos secretários da educação até todos os níveis da hierarquia educacional, permitindo acidentes absolutamente evitáveis como esse de Araraquara e até crimes atrozes como esse de Campos Mourão.
O aluno costuma ser tratado como estorvo, principalmente quando é de família pobre - ou seja, a maioria. A própria falta de qualidade do ensino decorre desse descaso. Já dizia Plínio Marcos que a escola é a grande castradora das vocações. Na prática, quem está interessado em que o aluno aprenda a pensar? Em São Paulo, por exemplo, aluno que se atreve a questionar qualquer atitude do professor ou da escola tem sua expulsão garantida através do Conselho de Escola, onde o diretor induz os pais de outros alunos a votar pela sua expulsão, uma prática perversa e inconstitucional que chega ao cúmulo de unir o INJUSTO e o ILEGAL.
Na rede publica de ensino, mero reduto da corporação, aluno incomoda. Por isso as classes começam cheias no início do ano e terminam com metade dos alunos, principalmente no ensino médio. Esse é um fenômeno que deveria ser estudado com seriedade pela nossa “academia”, mais interessada em proporcionar bolsas de estudos para a elaboração de teses de mestrado e doutorado que nada acrescentam ao progresso do país...
A mídia ajuda a manter o status quo, já que jornalista (a não ser a dona do blog Escola pública não é de graça, que por isso mesmo virou notícia nacional) mantém seus filhos na escola particular. Por esses dias, por exemplo, a Folha publicou um editorial responsabilizando o aluno pelo estresse dos professores e reforçando a tendência de demonizar a criança e o adolescente, em alta na mídia. Quanto mais pobre o aluno, pior. Na Veja da outra semana, até Gustavo Ioschpe, que parecia ter uma visão lúcida da educação, afirma que alunos de bom nível social e cultural se saem melhor na escola. Isso é até óbvio em certas famílias tradicionais, que interferem na instrução dos filhos até massacrá-los de aulas particulares. Isso é garantia de bom desempenho escolar?... Mas essa teoria não se aplica à maioria das crianças e adolescentes brasileiros, que têm, sim, inteligência de sobra para serem bem alfabetizados em letras, números e leitura do mundo.
No país inteiro pipocam experiências bem sucedidas de alfabetização em regiões carentes, com métodos que valorizam a curiosidade e a inteligência da criança. Enfiar na cabeça do aluno que B + A é BA sem despertar sua atenção para o som das palavras, sem brincar com as sílabas e o desenho das letras, sem mostrar que existem palavras dentro de palavras, sem usar as lindas cantigas e parlendas da tradição popular, é fazer pouco caso da inteligência infantil e eventualmente MATAR essa inteligência, que depende da curiosidade, da fantasia e do prazer para se desenvolver.
Não é por ser pobre ou de família analfabeta que a criança brasileira não se alfabetiza, é porque a escola é incompetente, é porque o professor não percebe ou não admite sua ignorância, não busca se aprimorar e às vezes até despreza o colega bem sucedido.
Hoje, o aluno e a família são cada vez mais responsabilizados pelo fracasso da escola, numa inversão de valores absurda que permite à corporação deitar e rolar na incompetência geral. Não vejo luz no fim do túnel, enquanto essa visão distorcida prevalecer.
Existe no Brasil um apartheid velado que promove a separação dos alunos das redes pública e particular, impedindo que crianças e adolescentes com igual potencial intelectual sentem nos mesmos bancos escolares, recebendo de seus mestres igual respeito e ensino de qualidade. Por enquanto, o princípio de igualdade garantido na Constituição brasileira não passa de letra morta.
Existe no Brasil um apartheid velado que promove a separação dos alunos das redes pública e particular, impedindo que crianças e adolescentes com igual potencial intelectual sentem nos mesmos bancos escolares, recebendo de seus mestres igual respeito e ensino de qualidade. Por enquanto, o princípio de igualdade garantido na Constituição brasileira não passa de letra morta.
Para fingir que seus filhos são mais inteligentes e que merecem mais respeito do que os nascidos nas classes “populares”, a elite brasileira costuma entoar uma cantiga que lembra a música do Chico:
Joga pedra no Guri!
Joga pedra no Guri!
Ele é feito pra apanhar!
Ele é feito pra cuspir!
Maldito Guri!
Joga pedra no Guri!
Ele é feito pra apanhar!
Ele é feito pra cuspir!
Maldito Guri!
Comentários
Tem bandido dentro da escola, concursado, ganhando bem e fazendo nada de bom.
Mas também tem muita gente boa dentro da escola pública. Trabalhando muito, ganhando pouco e até correndo risco de vida.
Eu gostaria que seus seguidores soubessem dessa diferença.
Eu acho que sua sobrinha não deve ser excelente aluna: excelente aluno tem espírito crítico e vai além da cópia/decoreba que é o resumo da escola hoje. Excelente aluno visita bibliotecas, busca informações fora da escola e não desiste de estudar. A sua teoria da saída dos bons alunos faz muita água...