A educação não precisa de "grandes cérebros"!


Mais um debate sobre educação, desta vez na Globo News. Até que os "moços" são bem intencionados e deram algumas dicas interessantes, mas, em certos pontos, até o mediador foi mais fundo no âmago da questão, quando, por exemplo, descobriu que a sociedade brasileira não considera a educação como um "valor", mas um mero instrumento para conseguir emprego.

Para variar, a principal questão debatida foi o salário do professor... rs. Por sorte estava lá Gustavo Ioschpe para colocar um freio no delírio dos outros debatedores, que querem "grandes cérebros" para gerir o sistema de ensino e "os melhores" para dar aula. Disseram que a carreira não atrai os jovens que saem da faculdade e que esses preferem a bolsa do mestrado ao duro trabalho em sala de aula, tudo "por um troco a mais"...

Essa visão é muito estreita e não leva em conta outros fatores que desmotivam os jovens a entrarem no magistério, mais precisamente na rede pública. A seguir, registramos esses fatores e colocamos links para esclarecimento:
  • A demonização do aluno, tão bem orquestrada pelos sindicatos da "educação", que conseguiram manipular a grande mídia a ponto de a vítima se tornar algoz, como se vê, por exemplo, aqui.

  • O exemplo dos maus profissionais contamina aqueles que não têm verdadeira vocação pelo ensino. Desta forma, o ambiente escolar não é de profissionalismo, assiduidade e pontualidade, mas de descaso, como você pode ver aqui.

  • A politicagem que reina na rede pública de ensino dificulta a continuidade dos bons projetos e, consequentemente, a construção de uma carreira satisfatória. Veja aqui, por exemplo, como a politicagem pode prejudicar uma escola e os bons profissionais.

  • A corrupção anda à solta na rede pública de ensino, assunto TABU que a mídia faz questão de ignorar. Jovens bem formados passam ao longe do faroeste que virou a educação no país, veja por exemplo aqui.

Dizer que melhores salários resolvem o problema educacional é pura falácia, também muito bem orquestrada pelos sindicatos da classe. Além disso, a educação brasileira não precisa de "grandes cérebros", muito menos para alfabetizar crianças... Eu diria aliás o seguinte: muito mais do que um alto QI, os educadores precisam de um bom QE, ou seja, Inteligência Emocional, que faz muita falta nas escolas. O clima dentro de uma escola pública é de gritaria e descontrole por parte daqueles que deveriam ser exemplo de equilíbrio para crianças e adolescentes, naturalmente espontâneos e vivazes.

Concordo com Gustavo Ioschpe quando diz que muita coisa pode ser melhorada, desde já, na rede pública de ensino:

  • PROFISSIONALIZAR os SERVIDORES. Sim, são servidores, não donos da escola. Que sejam cobrados em PONTUALIDADE, ASSIDUIDADE e RESULTADOS. Isso foi falado por todos os debatedores do programa e está de acordo com o que sempre defendemos aqui.

  • ACABAR COM A INDICAÇÃO para diretor de escola, que infesta 50% da rede pública de ensino. Os "cargos de confiança" servem para manter a descontinuidade dos bons projetos e favorecem a corrupção.

  • ACABAR COM O COITADISMO do professor, ou seja, com o discurso sindical de que o profissional do ensino é a vítima do sistema educacional. Esse discurso gera inércia e permite a realização de todo tipo de crime contra o aluno, tratado como estorvo.

  • CAPACITAR OS COORDENADORES PEDAGÓGICOS, que sejam escolhidos entre os que realmente conhecem as práticas pedagógicas e têm psicologia para lidar com alunos, pais e professores.

Discordamos de Gustavo Ioschpe quando fala em aumentar a aula expositiva e a lição de casa. Na rede pública isso não funciona. As aulas expositivas mal são compreendidas pelos alunos e a lição de casa acaba sendo cobrada dos pais, que não têm escolaridade suficiente para ajudar os filhos. Esperar que o professor corrija TAMBÉM a lição de casa, quando ele mal corrige o caderno dos alunos em sala, é utopia. O que precisa, urgentemente, é acabar com a AULA VAGA (que solapa de 25 a 40% do ano letivo), com a falta de pontualidade e o absenteísmo do professor. E, principalmente, COBRAR RESULTADOS.

Quanto à grave questão do analfabetismo no país, é lamentável que o assunto não tenha sido debatido, mas apenas rotulado de "vergonha". Para alfabetizar crianças (mais uma vez) não é necessário ser um "grande cérebro", mas ter prática no assunto, prática que precisa iniciar na faculdade, em estágios supervisionados. Quantos e quantos "educadores" assinaram estágio fajuto para os alunos que deveriam aprender junto com eles numa sala de aula?... Além disso, o alfabetizador precisa gostar de lidar com crianças, caso contrário, que faça sim seu mestrado e doutorado, sem impingir sua impaciência aos pequenos, que precisam de um ambiente favorável ao aprendizado, em vez de aturar mau humor e gritos.

Os debatedores perderam uma boa oportunidade para citar os numerosos exemplos dados na revista Nova Escola, que todo ano premia os melhores projetos educacionais do país, geralmente realizados em áreas carentes e por professores que ganham aquilo que os sindicatos chamam de "salário de fome"... Essa revista é a melhor publicação educacional do país, por ser de simples leitura e trazer práticas testadas e eficazes nas mais variadas comunidades brasileiras. Baratíssima, poderia ser leitura de cabeceira para todos os iniciantes na profissão de educador, principalmente os alfabetizadores. A assinatura anual custa R$ 34, ainda divididos em 2 parcelas. Depois de dar esta superdica, rs, preciso porém fazer uma crítica à revista Nova Escola: ela se guia pelo princípio do "politicamente correto", sem nunca mostrar a podridão do sistema, que aparece sempre pasteurizado...

Crítica semelhante vai para a grande mídia, onde o jornalismo investigativo na educação morreu há muitos anos. A última grande reportagem foi feita em 94 pelo Jornal da Tarde, quando publicou a manipulação das verbas do ensino por parte do prefeito Paulo Maluf. Mesmo assim, essa reportagem só saiu porque infestamos a seção de cartas do JT de provocações ao Maluf, até que um dia o editor me ligou e disse que o bate-boca estava ficando impossível e que portanto o jornal havia decidido investigar o assunto. Aleluia! rsrs

Estamos para ver algo parecido acontecer novamente... O milionário desvio de verbas da educação na região de Araraquara já rendeu 20 volumes de notas fiscais frias e mesmo assim a mídia não dá a mínima. Sinal dos tempos!

A última questão que vou abordar sobre esse debate é a falta de pressão popular. Isso foi colocado como fator determinante para que a qualidade do ensino tome um rumo. Existe no Brasil um apartheid muito bem estruturado que separa as crianças e os jovens em alunos da rede particular ou pública. Interesses poderosos estão por trás desse fenômeno e alimentam o preconceito que impede à sociedade brasileira quebrar esse tabu. Exigir que uma população não escolarizada perceba a má qualidade do ensino oferecido a seus filhos é inviável. (Diga-se também de passagem que a qualidade da escola particular deixa muito a desejar.) Mesmo assim, esses pais percebem a diferença no tratamento que seus filhos recebem, em comparação com os filhos de quem pode pagar uma escola privada. Por que não se revoltam? A resposta só é conhecida por quem teve seus filhos discriminados, perseguidos ou até expulsos devido às denúncias que fez. Esse é mais um assunto TABU que só vai vir à tona quando algum sociólogo se interessar em fazer um estudo sobre a forma como a sociedade brasileira encara a educação de seus filhos. Já lançamos esse desafio há anos, mas, aparentemente, também os sociólogos não dão a mínima para a educação do país...

Comentários

Cristiano disse…
Que tal escrever um post da série "que tipo de monstro?" falando sobre o aluno de 25 anos que quebrou os braços e os dentes de uma (professora) senhora?
Fernando Tsukumo disse…
Giulia, entendo e concordo com alguns dos seus argumentos quando diz que melhores salários não garantem bons professores. Acho que a curto prazo e para esses maus professores que aí estão, o aumento realmente não terá muito efeito, pois os baixos salários são a desculpa de agora e quando melhorar, serão outros problemas a justificar a sua inércia e inépcia.

Mas ao mesmo tempo não dá para querer que a nossa educação se veja livre desses maus professores sem pleitear melhores salários. Vemos isso diariamente... Aqueles bons professores que ficam no estado o fazem por idealismo puro, pois aqueles que não têm esse idealismo, acabam desistindo e vão parar na rede particular de ensino, atraídos por salários melhores. Por muito pouco, esses professores deixam a rede pública e se rendem à 12 ou 13 reais por hora aula. Sem salários melhores, continuaremos na guerra sem fim contra os maus professores que continuamente veremos entrar na rede pública, pois "foi o que deu pra pegar de emprego".

Pessoalmente acredito que sim, é necessário cobrar esses cabideiros de emprego e que eles vão procurar um emprego em outra área em que não comprometam tantas vidas com suas práticas (ou não-práticas) abomináveis. Mas concomitantemente, se queremos uma melhora a longo prazo, é necessário que exija uma melhora nessa política horrorosa de salários da rede pública.
Giulia disse…
Cristiano, infelizmente não dá, pois postamos sempre matérias que mostram os dois lados. Mas a mídia é sempre parcial quando a agressão parte do aluno, que nunca é ouvido, portanto não dá para fazer o post.
Cristiano disse…
Quer dizer que existe uma justificativa para um sujeito de 25anos espancar uma senhora de 57?
Giulia disse…
Não existe justificativa para qualquer ato de violência, mas é preciso ter ética na informação. Se a grande mídia não liga para isso, nós fazemos a nossa parte.
cremilda disse…
Mas como sempre a história não foi bem aquela.
Postei lá no meu blog
O aluno que supostamente teria agredido a professora.
Só ir garimpando e no fim perceber a verdade.
Eu postei
E participei o debate do Folhaon line
Maria Elvira disse…
Oi Giulia,
Sou eu, metida como sempre.
Só queria fazer um apartezinho. O Sr. Gustavo Iochpe não deveria falar do que ele não sabe. Aulas expositivas são o pior tipo de aula. Para quem não sabe é aquela em que o professor escreve alguma coisa no quadro, dá alguma explicação e orienta o aluno a buscar mais informações nos seus livros e nas tarefas de casa. Ao contrário do que ele disse (eu assisti este programa) são largamente utilizadas nas nossas escolas pq são aulas baratas (somente professor quadro e caneta) como nós professores costumamos chamar de "cuspi e giz". Imagino que por não ser muito bem informado sobre educação ele deve ter pensado que expositiva é aquela aula em que o professor apresenta materiais diversificados aos alunos. Ledo engano. Da mesma forma a defesa constante das tarefas de casa. A maioria dos nossos alunos estudam sozinhos em casa, quando estudam. Digo quando pq a televisão, o futebol e as brincadeiras na rua sempre vencem. Logo, muito do trabalho de fixação e avaliação tem que ser feito na sala de aula mesmo. Outro equívoco nas palavras dele foi afirmar (pela enésima vez) que escola que aplica prova aprova mais. Só quem nunca elaborou uma prova para dizer tal coisa. Prova não prova nada. O aluno pode não estar num bom dia, a prova pode ter sido elaborada para avaliar o que ele não sabe e não o que ele sabe (vide os nossos vestibulares). Eu posso elaborar uma prova para aprovar toda a turma mesmo que eles não saibam nada e tb posso elaborar uma que vai reprovar o melhor aluno da sala. Estes critérios são do avaliador e não do avaliado. O aluno não estuda mais pq tem prova. O aluno estuda mais pq está mais motivado. E prova definitivamente não é um evento motivador.
Ele é um economista, deveria debater com o Mantega o futuro da nossa economia, como a volta da CPMF por exemplo. Aliás pq nenhum professor nunca é convidado para debater sobre educação? Se fosse um debate sobre medicina e saúde pelo menos um médico seria convidado.
Bom, era só isso.
Giulia disse…
Maria Elvira, é para comentar, mesmo! Só assim consegue-se avançar um pouco na construção da opinião pública, que no Brasil é muito dividida, por isso a educação é tão ruim. Discordo de Gustavo Ioschpe em alguns pontos, mas ele ainda é o único na grande mídia que se preocupa com o aluno, embora tenha uma visão elitista. Fazer o quê?... Seria bom que ele viesse aqui para debater conosco, mas isso as "personalidades" não fazem: elas lêem o que a gente escreve, mas não se posicionam. O mesmo acontece com os gestores públicos: a banda podre da educação acompanha direitinho tudo o que escrevemos, mas não se posiciona, a não ser através de comentários anônimos impublicáveis.
Victor Zazuela disse…
Concordo com o Fernando. Salários maiores não resolvem problema algum. Por outro lado, baixos salários só atraem gente sem talento e despreparados.Talvez não necessitemos dos "melhores" nas escolas, mas sem dúvida temos que incentivar os que lá estão pra que se tornem melhor do que são hoje. E este incentivo passa sim, por reajustes em vencimentos. Mas reajustes atrelados à avaliações, cursos e busca pelo conhecimento pessoal. Hoje, na rede, temos 'vagabundos' que ganham o mesmo que os sérios que se desdobram na busca de capacitação. Ora, isso está errado. É um absurdo. Também apenas políticas que compensem miseravelmente o esforço pessoal de nada adianta. Cursar uma faculdade pra se ter míseros R$35,00 de aumento em promoções é ridículo. No caso dos funcionários é isso que ocorre. Sem contar que pra se concorrer a esta grande "promoção" tem-se uns interstício de 5 anos entre uma e outra.
Rafael Caruccio disse…
Salário não é o único problema, mas é fundamental. Tem mais, achar que o problema é só da escola é papo furado.
Em volta da escola tem uma comunidade, tem o aluno indo pra casa e vendo o pai e a mãe subempregados. O poder público que coloca ônibus com ar condicionado nas linhas que passam por bairros bacanas, mas latas velhas na periferia. Temos o aluno que não consegue integração digital porque banda larga não sai por menos de 100 reais ao mês. Falta de calçamento nas ruas, falta de sistema de esgoto, limitações do SUS. Violência, porque a polícia não vai até a periferia para dar segurança, vai só para bater.
Junto com boas escolas e bons professores tem todo um pacote incluído.
Celso Furtado já dizia que desenvolvimento não pode ser somente econômico, tem que ser social (Furtado era economista!!).
Quanto ao Gustavo Ioschpe, ele erra até quando fala de Paulo Freire. É um cara que não é capaz de fazer uma rápida pesquisa antes de falar sobre alguma coisa. Simplesmente deprimente!
Anônimo disse…
Tenho pena do Gustavo Ioschpe riquinho incompetente se fosse um aluno brilhante seria um grande educador e não um perseguidor de educador. Bom a gente sabe que os artigos dele são publicados em uma revista de grande circulação, ele ganha muito bem para escrever tantas inverdades, está em uma sala bem ventilada, com tecnologia de ultima uma geração. Gustavo seja homem com H vai para uma sala com quarenta alunos adolescente e giz, um livro didático. A minha proposta é que você vá para uma escola onde as ruas são de terra não tenha cadeiras e mesas suficientes para todos os alunos. O salário tem que ser menor do que o do piso nacional PRESTE ATENÇÃO esse é o salário que mais de 89% dos professores do BRASIL ganham para ficarem 8 horas por dia, ou seja, 40 horas semanais em sala de aula . Esse rapaz deve ter algum problema e muito dinheiro para humilhar tanto assim os educadores do Brasil