A escola que deseduca VIII - Educar ou punir?


Recebemos do professor Fernando uma mensagem, por sinal muito educada (obrigada, Fernando!), questionando certo tendencionismo do blog no sentido de "culpar o professor e o sistema por tudo o que há de errado na educação", isentando o aluno, a família e a sociedade de suas responsabilidades. A mensagem do Fernando você encontra copiada nos comentários.

O Fernando aborda a questão do ECA, legislação que seria "a mais frouxa do mundo" com respeito aos "atos infracionais" dos menores.

Fico sempre assustada com esse tipo de argumento, pois não acredito em punir, mas em educar. Punir uma criança ou adolescente é, sim, necessário, quando todos os possíveis recursos já foram esgotados. Punir o adulto é SEMPRE necessário, pois entende-se que ele já tem maturidade suficiente para entender a gravidade do ato que cometeu.

Falar em "ato infracional" quando se trata de crianças e adolescentes é uma moda que pegou no Brasil há algumas décadas, desde que iniciou o movimento de desqualificar o ECA e a tentativa de rebaixar a idade penal. Parece que a sociedade brasileira entende que crianças e adolescentes são os maiores criminosos deste país, quando apenas 1% dos crimes são cometidos por pessoas nesta faixa etária. Bem entendido: esses "criminosos" infanto-juvenis são sempre filhos "dos outros", ou seja, das faixas mais pobres da população = alunos da rede pública, quando não já expulsos ou evadidos da escola.

A tentativa de rebaixar a idade penal e focar nos "atos infracionais" de crianças e adolescentes é uma forma extremamente eficaz de desviar a atenção dos reais CRIMES dos adultos, em um país que é campeão na injustiça social e judiciária.

Fernando, você parece ser um professor dedicado e bem intencionado, mas tome cuidado para não ser manipulado por aquela parte da corporação que, isso sim, tenta isentar o profissional do ensino de suas responsabilidades, imputando a "culpa" aos alunos e seus pais.
Se "o professor e o sistema" estão sendo responsabilizados pelas mazelas da educação, isso se deve a um pensamento lógico. Vamos então comparar:
  • Se uma empresa como um todo vai mal, o que se faz? Trocam-se os clientes, ou então a direção e os funcionários?
  • Se um time de futebol não funciona, trocam-se os espectadores, ou então o treinador e os jogadores?
  • Se um eletricista fez uma instalação que não funciona, troca-se o eletricista, ou então a casa?

Jogo de "culpa" é pensamento primário e inconsistente. Os problemas da educação no país são sérios e nunca se consegue chegar a debater seriamente a questão da qualidade, pois existem falhas e vícios mais graves na base do sistema. Assistam por exemplo a este vídeo:


Certamente metade dos leitores deste blog acreditará na versão da escola e da regional de ensino (que confia na versão da escola...). Mas vamos refletir: qual o professor que deixa a classe toda esperando, para "delicadamente" conduzir um aluno de 8 anos para beber água?... E o "pobrezinho" teria escorregado da mão do professor devido ao chão encerado?!... Eu também não gosto de palavrão, então nem vou comentar esse conto da carochinha.

Esse tipo de situação ocorre em escolas de norte a sul do país por causa da IMPUNIDADE. Mas também por causa do preconceito contra o aluno da rede pública, considerado um "infrator" em potencial. No caso específico desse vídeo, ele está sendo tratado como tal! Tenham certeza de que a escola, apoiada pela regional de ensino, não vai tomar qualquer providência para punir ou afastar esse professor, que provavelmente vai continuar tendo o mesmo comportamento com outros alunos, pois foi "inocentado" e nada indica que se arrependeu ou entendeu a gravidade do seu ato. O aluno, tachado de mentiroso, vai levar essa pecha durante toda sua vida escolar, principalmente por ter aparecido na mídia e os pais não terem conseguido fazer BO, o único instrumento que lhes permitiria processar a escola. Aparentemente, esse aluno é bem amparado pela família, que provavelmente o mudará de escola e cuidará de que não fique traumatizado ou abandone os estudos. Mas a tendência é essa: aluno maltratado por professor, diretor ou outro funcionário da "educação" tem vida escolar curta, pois acaba sendo discriminado como "aluno-problema", ou seja, coloca-se sempre a questão: O que será que ele fez, para ser agredido? Daí, para a expulsão ou evasão, é um pulo.

Mas parece que não é essa a preocupação da sociedade brasileira, dividida em duas: uma paga duas escolas, para seus próprios filhos e para os filhos "dos outros". A outra parte paga uma escola onde não pode nem mesmo cobrar um tratamento civilizado para seus filhos, além de quase não ter a possibilidade de mudá-los de lá.

Fernando, você já se perguntou se o aluno "que grita e impede que uma sala toda tenha aula" não poderia ser tratado de outra forma, que não seja a suspensão ou expulsão? Que tal uma aula interessante? Talvez ele seja um líder: que tal dar-lhe tarefas que revelem essa qualidade?

De modo geral, o aluno da escola pública não passa de um número, suas potencialidades não são descobertas nem reveladas. Que ele não se atreva a ser "diferente! A escola pública brasileira não tolera o aluno que se destaca, por um motivo ou outro: seja por sua inteligência, que se traduz em questionamentos, seja por sua inquietude, que revela uma personalidade independente, menos ainda por sua vivacidade, que atrapalha uma "aula" baseada na cópia e na decoreba. Então, em lugar de ser educado, ele é punido. A responsabilidade pela boa educação é atribuída exclusivamente à família, dessa forma a escola está livre e desimpedida para deseducar à vontade, como em inúmeros casos que trazemos aqui, casos que são minimizados, pois não indignam os formadores de opinião, cujos filhos estudam na rede particular...

Então, você que têm seus filhos na escola particular, se indignaria ao ver no Fantástico histórias como essas?

É normal chamar aluno de "bicha", diz Secretaria da Educação

Mas não precisa se preocupar, histórias como essas não são divulgadas na grande mídia, elas são abafadas, pois incomodam os sindicatos da "educação" e todas as esferas governamentais, que controlam a mídia nacional. Democracia? Hein???...

Pronto: agora virei uma "destruidora" da escola pública!rs Ao contrário, eu defendo e luto por uma escola pública de qualidade PARA TODOS, inclusive para os cérebros brilhantes desperdiçados pela escola particular, como essas meninas que não se atrevem a quebrar a "bolha" onde foram inseridas desde o nascimento. Eu tenho certeza de que só a escola pública, com a participação da comunidade fiscalizando seus atos, poderá garantir que o Brasil se torne, um dia, uma grande Nação.

Mais uma reflexão, já que este é um blog tachado de chato (e é mesmo, rs): que tipo de adultos os senhores professores imaginam formar tratando seus alunos por ameba, retardado, bicha ou atirando-lhes apagadores e livros na cabeça? Que recompensa pretendem ter? Não serão esses mesmos professores "crias" de outros que os trataram dessa forma? O "ato infracional" de um professor maltratando aluno não é mais grave do que o mesmo ato cometido por uma criança ou adolescente, seres em formação que aprendem ATRAVÉS DO EXEMPLO?

Comentários

Fernando disse…
Sou professor e observando este blog de vossas senhorias entendo que há certo tendencionismo, pois dá impressão que tudo que há de errado na educação é culpa do professor e do sistema, sem que o aluno, o pai e sociedade também devem assumir sua responsabilidade pela educação.

O Brasil é um dos paises do mundo que tem a legislação mais frouxa quanto a atos praticados por menores, seja na escola ou nos atos infracionais em geral. Expulsão, suspensão é prática comum nas escolas do mundo inteiro e tem o objetivo de mostrar aos jovens que atos devem ter conseqüências, afinal mostrar isso também faz parte da tarefa de educar, caso contrário teríamos no futuro adultos inconseqüentes prontos inclusive a ceifar outras vidas. Conflito entre jovens e as escolas existem no mundo inteiro, inclusive nos paises escandinavos que consideramos os mais evoluídos em educação e qualidade de vida, prova que os conflitos não existem somente pela pobreza e sim porque em todo aglomerado humano o conflito surge. Se não há punição a quem desrespeita regras haveria o caos. Imaginem se não se punisse o bandido? Com certeza haveria o caos e barbárie!!!

Evidentemente vossas senhorias estão corretos ao denunciar práticas de injustiça onde jovens são punidos sem a devida apreciação de sua defesa, visto que a ampla defesa é pressuposto do Estado Democrático, como também estão certos em denunciar professores faltosos e que faltam com respeito a seus alunos. Vejo até que em grande maioria as denuncias feitas no site expressam que realmente foi cometida alguma injustiça por professores, direção e pelo sistema de forma geral, sendo que as denuncia são importantes para correção dos problemas, mas por outro lado uma defesa cega dos alunos traz outros graves problemas.

Evidentemente estar dentro de uma escola é direito sagrado expresso na constituição, mas não existe direito absoluto, ou seja, todo direito é relativo. Nem o maior de todos os direitos que o direito a vida é absoluto, haja vista que podemos tirar a vida de uma outra pessoa para proteger a nossa, isto é o direito de legítima defesa, ou até abortar nos casos previstos em lei. Da mesma forma o direito a educação também não é absoluto, sendo que o próprio ECA afirma que os direitos previstos no estatuto devem ser interpretados com prevalência dos aspectos coletivos sobre os individuais. Imagine um aluno que por qualquer problema fica gritando e berrando e impede que uma sala toda tenha aula. Será que o direito deste aluno é superior ao direito dos demais em terem uma aula tranqüila?? Certamente este aluno deverá ficar um tempo afastado da sala até que o problema que o estimula a tal comportamento seja sanado, seja até com ajuda de psicólogos e outros profissionais.

Gostaria que vossas senhorias refletissem um pouco!!!!
Fernando
Anônimo disse…
Sim, acho que o professor Fernando tem razão.
A tendêcia deste blog é defender o mais fraco.
Estão muito acostumados a responsabilizar o aluno e endeusar os professores de modo absoluto.
Os pais são os maiores interessados que os seus filhos sejam homens de bem, serão seus filhos a vida toda.
O filho que se desviam do caminho e os filhos difíceis, são os que mais tomam a atenção dos pais.
Já professor não. Aluno difícil ele joga na rua.
O ECA na verdade é muito duro com os menores de idade. Os transformou sujeito de deveres mas não garante os seus direitos.
O ECA diz que aluno tem direito a opinião e expressão, mas aluno que revida a agressão vira bandido que agrediu a santa professorinha. Tem que apanhar e ficar caladinho
Aluno que responde a agressão verbal exercendo seu direito de opinião e expressão, é conduzido a delegacia em camburão por ter desacatado a professora.
Afinal, aluno tem ou não tem direito de opinião e expressão ?
E vai por aí afora...
Anônimo disse…
Então o aluno que grita na sala de aula, ele grita o seu descontentamento com o professor medíocre, agressivo e incapaz, deve ser afastado da escola ( suspenso )???
Fica em casa até aprender a ser cordeirinho.
Deve ser encaminhado ao psicólogo, deve ser louco...
Imagina contestar, gritar e incomodar o professor que não faz nada, ou faz mal...
Este blog deve estar mesmo incomodando todo mundo.
Que dizer que a culpa é do aluno e dos pais todo mundo diz.
Vem um blg e diz que não.
Que o buraco é bem mais embaixo.
Diz com uma coragem singular.
Deve incomodar muito, mas com certeza reflete muito, e está fazendo muita gente refletir e incomoda muito também..
Cristiano disse…
E o aluno que grita e agride o professor que está tentando trabalhar? Não é só com os professores medíocres que os alunos se rebelam. Eles se rebelam contra os que tentam trablahar direito, também. Quem está VERDADEIRAMENTE "DENTRO DA ESCOLA" SABE DISSO.
Giulia disse…
Cristiano, releia o que você escreveu, o texto contém a explicação.

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