Expulsão de alunos: mais um recorde internacional!



No que se refere às crianças e adolescentes, o Brasil tem a legislação mais avançada do mundo, o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA. Em compensação, trata-se do país mais hipócrita do mundo, pois viola essa legislação da forma mais leviana e impune que se possa imaginar.

Uma coisa tem a ver com a outra: o ECA foi criado há 20 anos justamente em resposta à forma brutal e desumana como eram tratadas as crianças e adolescentes (principalmente as pobres) no país. A resposta da sociedade, de lá para cá, tem sido dura: crianças e adolescentes brasileiros continuam sendo violados em seus direitos básicos, com o agravante de que essas violações são feitas "às barbas" do próprio ECA.

Pior que a existência de crianças e adolescentes sem teto, pior que o abandono de crianças em latas de lixo ou sendo atiradas pela janela, muito pior que tudo isso, é ver a maior riqueza do país, a infância, evadir ou ser expulsa do lugar onde deveria receber o bem maior: o conhecimento.

A Constituição Federal de 1988 - Art. 206 - I - garante aos cidadãos "Igualdade de condições para o acesso e permanência na escola". Nesse aspecto, a Carta Magna não passa de papel de embrulho.

Na rede pública estadual de São Paulo (de onde essa "moda" se alastrou para todo o país) a expulsão de alunos foi implementada há pelo menos uma década, sob o nome de "transferência compulsória". Essa manobra foi possível graças a um dos piores "educadores" que flagelaram a já extremamente sucateada rede pública estadual: o ex-secretário Gabriel Chalita. Enganando toda a sociedade com sua hipócrita "pedagogia do amor", Chalita permitiu que os Conselhos de Escola começassem a expulsar alunos a bel prazer, o que passou despercebido da mídia, ocupada em divulgar os melosos escritos e as convenções em que o então secretário "consagrou" a suposta pedagogia...

De lá para cá, a expulsão de alunos via Conselho de Escola em São Paulo virou a coisa mais natural do mundo. Estivemos recentemente na assessoria jurídica da Secretaria da Educação e o Prof. José Luiz, chefe do setor, bateu o pé de que o Conselho de Escola é "soberano" na transferência compulsória de alunos. Veja, portanto, professora Maria Elvira (que nos consultou sobre a expulsão na rede pública paulista): não só a expulsão é comum em São Paulo, como também é considerada legal!!! Quem sabe, uma discussão do tema em nível nacional possa fazer o Governo de São Paulo perceber o absurdo dessa situação.

Profª Maria Elvira, veja nos links a seguir alguns casos bem interessantes de expulsão no Estado de São Paulo:
  • EE Jardim Iguatemi - São Paulo Capital, bairro de São Mateus. 2 alunos que usavam cabelo "espetado" e colares foram expulsos em reunião de Conselho de Escola. Os pais recorreram do veredicto e foi feita nova reunião, em que a expulsão foi confirmada. Após encaminharmos os pais à Secretaria da Educação e ao Ministério Público, conseguimos que os alunos fossem reintegrados.
  • Secretário da "Educação" de Barueri - SP xinga 41 alunos expulsos de uma única escola e manda que vão estudar "nos quintos dos infernos".
  • EE Carlindo Reis - Ferraz de Vasconcelos, Grande São Paulo. 5 alunas foram expulsas por se envolverem numa brincadeira no Orkut. Sem desenvolver qualquer trabalho pedagógico a esse respeito, a diretora da escola achou mais fácil induzir o Conselho a expulsar as alunas. Detalhe: o papel de transferência das 5 meninas, assinado pela diretoria de ensino de Suzano e entregue aos pais, estava com a data de TRÊS DIAS ANTES DA REUNIÃO EM QUE AS ALUNAS FORAM EXPULSAS...
  • EE Armando Gabam, São Paulo Capital. Essa é uma das escolas que mais expulsam alunos em São Paulo. Foi uma grande satisfação, para nós, ver um aluno conseguir ser reintegrado apenas usando seus próprios argumentos! Esse é o sentido do nosso trabalho: orientar os pais e alunos a exercerem sua cidadania. É por esse motivo que costumamos publicar no blog textos e citações legais que podem servir de base ou até serem copiados e entregues às autoridades.
  • EE Padre Josué Silveira de Matos, São João da Boa Vista, Estado de SP. Este é um caso dos quais temos mais orgulho - certamente o que nos deu mais trabalho! Uma garota dessa escola foi acusada injustamente de ter colocado fogo na lixeira da classe. A diretora precisava de um bode expiatório e aproveitou para acusar a menina, uma das melhores alunas da escola, mas que era bastante questionadora. Assim a diretora se livraria de dois problemas... Essa diretora fez o jogo mais sórdido que se possa imaginar: após suspender a aluna, fez lavagem cerebral em toda a classe (2 sessões de tortura psicológica de 2 horas cada!) para que os colegas caguetassem a menina - e conseguiu. Com base nesses "testemunhos", a aluna foi expulsa pelo Conselho. Questionamos o absurdo da situação e conseguimos que a Secretaria da Educação a reintegrasse à escola. Inconformada com a volta da aluna, a diretora arrastou a menina e 4 colegas da mesma classe para um tribunal, na esperança de que o juiz desmoralizasse a aluna de uma vez por todas. Foi gol contra! Em cinco minutos o juiz percebeu a armação da diretora, pois os colegas da menina entraram em contradição: um disse que ela havia usado fósforo para incendiar a lata do lixo, outro disse que havia usado isqueiro, outro ainda inverteu a ordem dos fatos, e assim por diante. Esse é o caso mais típico que podemos citar para mostrar a incompetência pedagógica, o autoritarismo e a PERVERSIDADE de certos "educadores", que não esitam em destruir a vida de um jovem para disfarçar seu próprio mau caratismo. Essa garota (olá, Francieli, tudo bem com você?) entrou em depressão profunda após a expulsão e foi a firmeza da mãe, que gastou rios de dinheiro em interurbanos para se comunicar conosco, a possibilitar a solução desse caso. No ano passado Francieli conseguiu se formar e já está livre das garras desses urubus que quase destruíram seu futuro.
Maria Elvira, vamos parar por aqui, pois já deu, né? rsrs
Ah, só para esclarecer, já que me perguntaram como posso afirmar que o Brasil é o campeão em expulsão escolar: não há um comparativo internacional, mas é fato que metade dos alunos brasileiros do Ensino Médio não concluem o curso. Nem todos são expulsos oficialmente, muitos são "convidados" a saírem da escola e a maioria evade por desinteresse, já que o curso é jurássico. Aproveito para recomendar a leitura da excelente reportagem Os segredos dos bons professores, na revista Época desta semana. A discutir em um próximo post!

Comentários

Maria Elvira disse…
Giulia,
Estou chocada. Dá até vergonha de ser uma profissional da educação lendo este relatos. Vamos nos revoltar e lutar para que esta vergonha acabe.
Não dá para ser potência mundial com tantas crianças fora da escola.
Paulo disse…
POr que os alunos foram expulsos ?
Eu trabalhei no estado , um aluno que chegou atrasado e passava drogas na escola deuuma voadora na porta e esta bateu em mim me machucando .
Foi expulso .... muito bem feito pra ele e para todos nós .
Aquilo foi a gota d agua ... exonerei do estado e aagora dou aula numa escola particular .
Sou bem remunerado , trabalho meio periodo na escola o resto faço em casa e ganho 5 vezes mais , sem contar que na escola em que trabalho os alunos não dão voadora e nem passam drogas .
Estado nunca mais .... prefiro ficar na particular. É bom demais depois encontrar alunos que agora estão nas federais ... e sentir a gratidão que eles tem por você .
Mas claro nesse site o aluno é santo ... é excluído do mecanismo escolar ... tudo gira em torno dele .Isso pode até ser verdade no ensino infantil , mas no ensino médio o aluno faz parte e tem grande responsabilidade pra mudar a escola .
Eu dava matéria no estado e eles viravam as costas .. uma maravilha!! Depois somos nós que não trabalhamos . É muito motivador trabalhar com esse material humano !
Na particular onde leciono há 4 anos , nunca cheguei perto de tal absurso, ao contrário eles me amam muito e eu idem .... comprove isso no orkut
Paulo Makay .. pra não falar que isso é invenção de um professor mentiroso.
Fabiana disse…
Giulia a Francieli esta bem, graças a ajuda de vocês ela pode sair de cabeça erguida depois da formatura esta trabalhando, tirando carta de motorista.
Continua cuidando de minha mãe e sendo uma boa filha.
Fabiana/ Santos
Giulia disse…
Fabiana, obrigada pelas informações! Eu deveria ter mencionado que a Francieli tinha, além de uma mãe dedicada e corajosa, uma irmã solidária e determinada. Sem a sua ajuda e as preciosas informações que você nos passava por e-mail, tudo teria sido mais difícil. Parabéns pela irmã e filha que você é! Um grande abraço e continue conosco.
agasol disse…
Giulia

Aquela reportagem da época tá uma merda.Sinceramente eu esperava uma coisa melhor.A professorinha q ganhou a capa só tá lá pq aponta para a porta da sala p/ os alunos "q não querem nada" pq "não tem tempo a perder com eles" Isso é q é didática Giulia.Não esperava q vc apoiasse isso.Desistir do aluno é a melhor forma de educá-lo??
No mais a reportagem é uma droga.Não é um professor q vai fazer a diferença é a equipe escolar inteira e isso passa principalmente pl gestão.Boas escolas têm bons gestores.Isso é fato.
Giulia disse…
Sabe por que gostei da reportagem? Porque ela sugere que os professores tenham a HUMILDADE de aprender com outros professores. As universidades brasileiras ensinam que os professores tem que ter "autonomia"...
Pra quê? Pra continuar tudo como está?...
Isso que você fala, sobre a importância de uma equipe escolar coesa, é a mais pura verdade, mas não existe na rede pública brasileira, onde o que reina é a "dança das cadeiras" e o descompromisso da maioria dos profissionais.
Boas escolas têm bons gestores. Certíssimo! Já postamos aqui reportagens sobre as melhores escolas públicas do país, que não são de classe média, mas se encontram em bolsões de pobreza. Não houve comentários! Ninguém quer saber de pobreza, neste país. Imagine as professoras das escolas públicas "de classe média", muitas delas esposas e parentes de políticos, aceitarem receber orientação de professores de escolas da periferia! Só rindo, mesmo...
Severo disse…
Paulo, eu também já fui agredido por alunos, vejo alunos passando droga, uma vez tive que evitar que uma professora fosse espancada numa sala de terceiro ano de ensino médio (e ainda recebi a recomendação de tirar uma licença para não ser processado, ou seja, agi em legítima defesa de uma pessoa e, pelo fato do agressor ser um "aluno", apareceu um monte de gente pra defender e culpar a agredida e a mim). Estou falando de "alunos" que não querem estudar e usam a escola para outros fins. Os alunos que querem estudar e os professores que querem trabalhar ficam presos a essa situação.
Laerte disse…
Olha eu não sabia que podia denunciar um educador de ensino
porque minha filha sobre perseguição do diretora e professoa
na escola em que estuda

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