31 julho 2014

A escola tabu nº 69 - O aluno, esse estorvo!

O aluno, esse desconhecido, não tem voz na escola, nas secretarias da educação e muito menos na mídia, neste país que tradicionalmente despreza sua infância e juventude, principalmente a que vive em bolsões de pobreza.

Este blog é um dos poucos meios que permitem a livre expressão dos jovens e frequentemente recebe mensagens que, por sua espontaneidade, mostram claramente o autoritarismo da instituição escola. O e-mail a seguir foi recebido de uma aluna da rede estadual de São Paulo, de 12 anos de idade, que junto com alguns colegas tomou uma atitude rara, mostrando espírito de iniciativa e de liderança, qualidades que a escola brasileira tende a abafar. A mensagem pinta também um quadro da desolação cultural e pedagógica em que estão mergulhadas as escolas de periferia das metrópoles brasileiras, onde a singela iniciativa dessas crianças poderia enriquecer a vida escolar, fugindo à mesmice. Mas, como é habitual, aqui também o aluno foi tratado como estorvo e sua atitude deu início a um processo de repressão que instituiu o terror. Por este motivo omitimos o nome da escola e dos alunos envolvidos. Essa é a escola que mata o protagonismo e a liderança em sua origem, limitando-se a formar alunos apáticos e conformados. É a típica "gaiola" de que fala o saudoso Rubem Alves, a escola que não apenas desencoraja, mas reprime o voo de seus alunos.

Estamos encaminhando o assunto à Secretaria da Educação, para que mais uma vez tome ciência do autoritarismo comum em suas escolas e proteja os alunos das habituais perseguições. 

Bom dia, sou aluna da rede pública, curso o sétimo ano, sexta série. Junto com alguns amigos resolvemos fazer um abaixo assinado para que a escola levasse a um passeio. Pois a escola nunca, em momento nenhum saiu para passeios, nem educativos nem recreativos. Moramos em um bairro pobre, e não temos muitos recursos, nosso único meio de participar de eventos recreativos e educativos, como conhecer museus, o Masp,o Cata Vento, e até mesmo o Hopi hari, seria através de excursões da escola. Perguntamos a uma professora se podíamos fazer um abaixo assinado, ela disse que sim, então fizemos o abaixo assinado, levamos em sala em sala e todos os alunos assinaram, pois todos nós queríamos sair um pouco. Já havíamos visto varias vezes ônibus de excursão saindo de uma escola vizinha a nossa, e como ela também é do estado, pensamos que também podíamos. Mas não, as coordenadoras disseram que não podiamos, que nem podíamos ter feito um abaixo assinado, que menores não podem fazer abaixo assinado e que iriam chamar nossos pais. Na ultima aula elas foram a nossa sala e nos deram um sermão, pior acharam que a professora que disse que podíamos fazer o abaixo assinado estava envolvida e na verdade ela não estava, só deu permissão. Pois bem, a aula acabou e elas pediram que eu e mais uma amiga que começamos o abaixo assinado continuasse na sala, mesmo depois do sinal bater, e nos disse que não podemos de forma nenhuma fazer esse tipo de documento porque somos menores e que não podíamos sair da  escola porque o Estado não autoriza passeios, que era perigoso e que não era para insistir senão ia chamar as mães. Cheguei em casa tremendo,e minha mãe já estava no portão preocupada porque cheguei tarde, me senti muito mal, parecia que eu havia cometido um crime. Por favor, me responda, tudo isso que ela disse é verdade? E porque só nossa escola não pode, se todas as outras escolas vizinhas podem? E se podemos, o que devo fazer para conseguir esse benefício para mim e meus amigos.Tenho certeza que se pudéssemos sair de vez em quando os alunos se sentiriam mais felizes e recompensados, já que a escola só nos da regras, se ela nos desse algum beneficio tudo seria mais fácil para todo mundo.


20 julho 2014

Ouvidoria da Educação, cada vez mais surda


Começamos a chamar a Ouvidoria da Educação do Estado de São Paulo de "Surdoria" já em 2005, ao recebermos (depois de dois meses) uma resposta absurda a uma denúncia sobre uma escola em Mongaguá, o que deixou toda a comunidade revoltada. Além de não ter havido qualquer solução dos problemas apontados, a denúncia para a Ouvidoria resultou na perseguição de alunos, como é habitual quando as "apurações" desse órgão inocentam a escola de qualquer responsabilidade.

Desde então, fizemos muito pouco uso desse órgão inútil e tentamos resolver os problemas diretamente na Secretaria da Educação, onde tivemos muito êxito na época em que o Prof. José Benedito de Oliveira dirigia a extinta COGSP, entre 2008 e 2012. Muitas saudades do Prof. José Benedito! Até hoje dizemos que nosso trabalho é de formiga e nada conseguimos "no atacado", mas o José Benedito resolvia todos os problemas "no varejo", ou seja, reintegrava alunos expulsos injustamente, exigia que as escolas tratassem os alunos com respeito e de acordo com a legislação. Desde a saída dele da SEE estamos novamente órfãos e temos muitas dificuldades para ajudar os pais e alunos a resolver seus problemas. Alguns nos procuram após buscar a ajuda da Ouvidoria e confirmam que a solução nunca vem ou então que a resposta chega após a saída do aluno da escola... 

O atendimento ficou ainda pior (se é que essa Ouvidoria tem alguma razão de existir) em 2012, quando foi desativado o e-mail ouvidoria@edunet.sp.gov.br e as denúncias passaram a ser recebidas diretamente através de um link da Ouvidoria, dentro do site da Secretaria. Muitos pais de alunos da rede pública têm pouco traquejo para navegar pela internet e pelo jeito esse endereço foi desativado para receber ainda menos denúncias de pais e alunos!

Há vários dias recebemos mensagem de uma mãe que precisava de transferência da filha para outra escola e que também tentou contato com a Ouvidoria e não foi... ouvida. Por essas e outras acabamos de solicitar da SEE as seguintes informações:

"Em função de diversas queixas de pais e alunos com respeito à ineficiência da Ouvidoria da Educação, gostaríamos que nos informassem o número de demandas de pais e alunos respondidas em 2012 e 2013 por esse órgão e a média de tempo que foi utilizada para a solução dos problemas. Também solicitamos informações sobre as verbas gastas para manutenção da Ouvidoria da Educação, a fim de podermos avaliar o custo/benefício."

Tão logo recebamos alguma resposta, vamos informar por aqui.

06 julho 2014

Falta de respeito ou incompetência?...






Em mais de duas décadas de "corpo a corpo" com escolas da rede pública e particular em todo o país, nada temos a comemorar.

Às vezes chegam mensagens - principalmente de profissionais da educação - dizendo que não estamos tão mal assim, que o país está progredindo...

Mais uma vez respondemos que o maior problema do país ainda não é a qualidade do ensino, é a FALTA DE RESPEITO pelo aluno. E é por isso que o nosso twitter tem o lema: Respeito pelo aluno: um bom começo!

As denúncias que recebemos são as mais variadas possíveis, como se vê pelo histórico do blog. Mas hoje vamos fazer diferente, trazendo algumas frases de alunos e pais, pinçadas de centenas de mensagens recebidas apenas no último trimestre. Elas mostram que o respeito pelo aluno ainda está longe de ser uma realidade em todo o país, seja em escolas públicas ou particulares, em todos os níveis de ensino e por todas as autoridades envolvidas, desde o professor, o diretor da escola, o supervisor ou dirigente de ensino, o secretário da educação, o vereador, o deputado etc. etc. Percebe-se também que, em muitos casos, a falta de respeito é acompanhada por uma boa dose de incompetência pedagógica.


Eu tenho uma dúvida: meu irmão tem 10 anos e estuda em uma escola pública. Ele é um pouco lento para entender as coisas e copiar a matéria. Por conta disso a professora já o deixou  sem recreio duas vezes, sendo que ele não faz por querer, ele é realmente bem devagar para entender as coisas. Isso pode? deixar o aluno sem recreio? ele chega em casa com fome...
(Aluno estuda em escola municipal em MG)

Toda sexta feira a professora passa filmes sem planejamento didático, a vice diretora declarou que ela tem o direito de passar filmes pelo simples prazer. Isso faz sentido? Meu filho sofre bullying dentro da escola, os colegas o chamam de recalcado e a professora dá risada junto com a turma. Isso é postura de uma professora?
(Aluno estuda em escola municipal de Praia Grande, SP)

Estou cursando o primeiro ano do ensino médio e já trabalho. Portanto algumas vezes acabo chegando alguns minutos atrasada e me impedem de entrar na instituição. Houve uma vez há pouco tempo em que fui a uma consulta médica acompanhada pela minha mãe e cheguei 2 minutos atrasada e não me deixaram entrar mesmo com o atestado médico. 
(Aluna estuda em escola estadual na Bahia)

A vice da escola esta me proibindo de entrar por eu ter cortado a manga e a gola do uniforme, que comprei com o meu dinheiro por que a escola não o fornece. Não ficou vulgar, está sem exagero, e o simbolo da escola esta intacto e a cor também). Isso é certo? Ela pode fazer isso? Eu estudo no turno da noite, trabalho o dia todo e não acho justo ter um uniforme desconfortável e quente, levando em consideração o calor que faz no meu estado.
(Aluna estuda em escola de Belém, PA)

Minha filha tem 8 anos e estava no pátio da escola quando se desentendeu com uma coleguinha, passado a "briga" a  coleguinha estava dando lingua para ela, e minha filha  a chamou de macaca (esta menina é da cor negra), logo uma outra colega que estava junto disse que minha filha também era uma macaca e palhaça. Nesse momento a diretora veio e retirou minha filha do pátio, chegando na secretaria deu um livro para ela ler e assinar, onde dizia que ela tinha agido de preconceito e que nós pais poderíamos ser presos por isso. Ela mandou minha filha ler 3 vezes em voz alta pra entender bem o assunto. Dois dias depois recebi um bilhete na minha casa pedindo para eu ir na escola para "resolver" o  caso. O que mais querem da minha filha, ela já entendeu que errou! 
(Aluna de escola particular)

Hoje minha filha sofreu um acidente na escola na hora do intervalo, ela brincando cortou a orelha e teve que levar pontos. Quando perguntei como ela havia se machucado me responderam simplesmente que tinha sido no arame farpado. Como assim, arame farpado em uma escola infantil?
(Aluna estuda em escola municipal em S. José do Rio Preto, SP)

Meu sobrinho de 3 anos é criado por mim, por seus avos e pais com o maior zelo, fica na creche pois trabalhamos. Minha mãe foi dar banho nele hoje e quando foi lavar a cabecinha ele disse pra não pegar na orelha, minha mãe curiosa foi ver e tinha um pequeno corte. Ele disse que foi a professora que puxou pois ele brigava com o coleguinha, disse também que ela puxava a orelha de 3 outros amiguinhos.
(Criança matriculada em creche municipal, SP)

Minha filha ganhou uma advertência por estar brincando de pega pega na hora do recreio, chegou em casa chorando porque o diretor passou nesse mesmo dia nas salas avisando para não correrem na hora do recreio e que quem corresse ganharia uma advertência. Mas como ela sempre teve notas ótimas e excelente comportamento, não entendeu direito e achou que isso era para quem corria para machucar os outros e que brincar podia. O pior é que ela não quer mais ir à escola porque se sentiu humilhada na frente de outras crianças que ficaram rindo dela e a ATP foi bastante severa e disse para as crianças que não quer nenhum pai ou mãe na escola pedindo explicação sobre isso, que eles mesmos tinham que se explicar com os pais. 
(Aluna estuda em escola pública de Apiúna, SC)

Meu sobrinho tem 8 anos e hoje quando fui levá-lo a escola uma funcionaria pediu pra que ele retirasse a jaqueta jeans pois não faz parte do uniforme escolar, caso contrário não poderia assistir aula. A escola vende um casaco que custa R$ 90,00 e ainda não comprei. Por fim, meu sobrinho entrou na escola sem agasalho. Entendo que o aluno deve ir devidamente uniformizado, mas a minha dúvida é se a escola pode proibir um aluno de assistir aula com um casaco diferente do que eles vendem.
(Aluno de escola particular)

Ontem levei à escola minha carteira e documentos, pois iria realizar a inscrição do enem, mas a esqueci no colégio. Pela manhã fui buscá-la e percebi que estava vazia, levaram tudo. Procurei o diretor e a coordenadora e disseram que não podiam fazer absolutamente nada. Será que eles não podem fazer nada mesmo? não digo acusar alguém, mas ao menos conversar e explicar ao colégio eles não podem? a escola é um lugar que prepara cidadãos, eles não poderiam nem dar uma orientação em geral? para que talvez quem cometeu esse ato nunca mais pense em fazer isso novamente, ou ao menos se conscientize e devolva apenas os documentos, que são o mais importante de fato...
(Aluna de escola estadual de Gameleiras, GO)

Meu filho estuda numa escola muito bem conceituada, onde trabalham com as crianças respeitando suas diferenças! Ele tem 8 anos é um menino intenso, e a escola reclama da sua agitação. Eu nunca deixei de atender aos pedidos da escola e depois de várias avaliações descobrimos que ele tem inteligência acima da média, e nível inibitório um pouco baixo. Já iniciamos a introdução de medicação com um profissional respeitado inclusive pela escola, e terapia com outro profissional indicado pela escola. Enfim, ele está em tratamento e a escola mesmo assim disse que não quer mais meu filho lá, alega que a relação com os colegas está desgastada. Não acredito, pois freqüento festas infantis com ele, e a turma o acolhe! A escola pode nos expulsar?
(Aluno de escola particular)

Em uma certa reunião de formatura comentei com uma professora, mulher do diretor, que o valor estava caro e que eu achava um roubo. Saindo da tal reunião fui chamado na sala do vice diretor, conversamos e expliquei minha opinião. Passando alguns dias chamaram minha mãe para conversar sobre o assunto e disseram que eu havia sido suspenso, sem assinar nada nem explicar nada, não deram uma única justificativa. Procurei a diretoria de ensino e disseram que o supervisor estava vendo o assunto. Os professores passaram a me tratar de forma grosseira, estou preocupado em ser expulso e estou no último ano do ensino médio!
(Aluno de escola estadual de Lins, SP)

Estou cursando a disciplina de metodologia científica no 3º período e agora no dia 20 de maio terá uma festividade de São João, onde a professora juntamente com a coordenação decidiram que os alunos que forem trabalhar no evento como "voluntários" terão  5 pontos garantidos na composição da 2ª nota+portfólio que também valerá  5 pontos....quem não participar do forro terá que fazer a prova...a dúvida é: se a faculdade prega que a prova é um documento escrito que tem que ficar anexado na faculdade, eles podem substituir essa nota por um serviço prestado à mesma? Ainda mais na disciplina de metodologia científica?
(Aluna de faculdade no Recife, PB)