30 maio 2009

Araraquara: que pena é essa?


No dia 18 de abril publicamos uma matéria muito pessimista sobre o esquema de desvio de verbas da educação em Araraquara (Leia a matéria aqui) e recebemos agora uma informação que nos permite ter um pingo de esperança. O resumo é que, no dia 21 de maio, o Diário Oficial do Estado publicou que a ex-dirigente Sandra Rossato recebeu pena de suspensão de 90 dias. Por qual crime...?

Aí é que está: o que a comunidade escolar de Araraquara sabe é uma coisa, mas o que consta do processo administrativo movido contra a ex-dirigente é puro tabu. Quando estivemos na SEE em 31 de março, para pedirmos ao novo coordenador da CEI seu posicionamento sobre a questão (Leia o relato de nossa reunião aqui), ele nos disse que conhecia o assunto apenas superficialmente, mas concordou que os processos administrativos são realizados de forma superficial e que fatos como empresas fantasmas e notas frias não são devidamente investigados.

É exatamente disso que se trata: a rede de ensino de Araraquara foi castigada durante dez anos por um gravíssimo esquema de desvio de verbas das APMs de quase todas escolas da região, com farta documentação de notas frias emitidas por empresas fantasmas e a manipulação de pais membros das APMs, induzidos a assinarem cheques em branco e balancetes falsificados. Tudo supostamente orquestrado pela dirigente de ensino, pois seria impossível que milhões e milhões de reais de 50 escolas tenham sido desviados sem o conhecimento da dirigente e dos supervisores. Não faria também algum sentido que a dirigente e os supervisores soubessem do esquema e compactuassem com ele sem obterem qualquer vantagem...
A punição recebida pela ex-dirigente não representa grande prejuízo para ela, nem do ponto de vista moral nem financeiro, pois já está aposentada e bem de vida. Além disso, não estará sujeita ao constrangimento de enfrentar o ambiente de trabalho após a suspensão.

A pergunta que não quer calar é esta: a dirigente foi punida por qual crime?
Pois punida ela foi!
Se for verdade que recebeu parte das verbas desviadas pelas escolas e pela própria diretoria de ensino, essas verbas precisam ser devolvidas!

Bem, vivemos no país da impunidade e já sabemos que aqui a corda sempre arrebenta do lado mais fraco. Apoiada por políticos poderosos, a ex-dirigente de Araraquara recebeu uma pena branda pela manipulação de verbas milionárias. Vamos ver agora o que vai acontecer com os pais de alunos membros das APMs que ingenuamente assinaram cheques em branco ou balancetes falsificados, JÁ QUE TODO ANO PEDIMOS PARA QUE A SEE FAÇA CAMPANHAS DE ESCLARECIMENTO À COMUNIDADE SOBRE A IMPORTÂNCIA DA APM E DO CONSELHO DE ESCOLA, MAS NADA É FEITO!

Será que só os pais serão punidos??? Com o intuito de esclarecermos essa questão, após a reunião de 31 de março com o coordenador da CEI pedimos à chefia de gabinete do novo Secretário da SEE, Paulo Renato, para agendar uma reunião com pais de alunos da região de Araraquara, que estiveram em São Paulo nos dias 14 e 15 de maio. Nossa solicitação, feita por escrito no dia 07 de maio e recebida pela assessora Irene Morita foi absolutamente ignorada. Ligamos diversas vezes para cobrarmos um retorno, mas fomos apenas informados das "dificuldades de agenda". Duvidamos que o problema tenha sido simplesmente de agenda! Provavelmente a chefia de gabinete achou que o assunto era muito "quente", pois a vinda dos pais a São Paulo coincidiu com a fase final do processo contra a ex-dirigente, e achou por bem não informar ao Paulo Renato nosso pedido de reunião. A última resposta que recebemos da assessora foi de que ela "não havia conseguido encaixar um horário, pois as solicitações de reunião eram enormes"...

Em quem confiar, numa Secretaria onde os pais de alunos, CLIENTES da rede, são tratados com tamanho descaso? Em quem confiar, numa Secretaria que permite a constituição de tribunais de exceção nos Conselhos de Escola para a expulsão de alunos? Em quem confiar, numa Secretaria que permite a venda de uniformes dentro das escolas e a proibição da entrada de alunos não uniformizados? O que esperar de uma Secretaria que permite a cobrança de taxa de carteirinha, taxa de xerox e - cúmulo do absurdo - a realização de bailes funk dentro das próprias escolas (leia aqui)?

O que esperar, Secretário Paulo Renato?

24 maio 2009

Pobres cartunistas, rsrs


A repercussão da compra do livro Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol pela Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, comentada no último post, foi absolutamente hilária. O que se leu na mídia em geral, inclusive em alguns blogs de renome, não foi a indignação pelo absurdo de se "escolher" um livro de quadrinhos destinado ao público adulto, para alunos de Terceira Série. A indignação geral foi em defesa dos "pobres cartunistas" autores do livro, cuja obra foi taxada de chula ou imoral...

Os cartunistas devem estar se matando de rir da ingenuidade da população, pois certamente estão lucrando bastante, já que as vendas do livro devem ter chegado à estratosfera. Um livro de quadrinhos com bastante palavrões e alusões a sexo, quem não quer, no país da "bunda"?... E certamente não é a periferia que vai correr atrás: o livro custa quase R$ 50,00 nas livrarias! Parece que a editora deu um bom desconto ao governo...

Nossa sociedade anda anestesiada a ponto de pensar que as "vítimas" da situação são os autores do livro. Ninguém da mídia parou para perguntar-lhes se NÃO HAVIAM ASSINADO RECIBO DE DIREITOS AUTORAIS SOBRE A COMPRA DO LIVRO PELO GOVERNO E SE ANTES DISSO NÃO FORAM INFORMADOS QUE O LIVRO SERIA LIDO POR CRIANÇAS DE TERCEIRA SÉRIE.

A verdadeira vítima dessa situação absurda é o aluno da rede pública de ensino, QUE NUNCA É LEVADO A SÉRIO NEM PELO GOVERNO NEM PELA MÍDIA. O problema é sempre o mesmo: os filhos dos políticos e buRRocratas que “administram” a rede pública de ensino, os filhos dos donos da mídia e dos jornalistas estudam na rede particular.

Um dos autores do livro disse que "quem escolheu o livro não deve tê-lo lido". Isso é mesmo bem provável. PRA QUÊ? QUALQUER COISA com letras e imagens serve para alunos da rede pública, não é? Eles são burros, não é mesmo?… Assim costumam ser chamados por muitos “mestres”, diretores de escola e outros “pedagogos” dependurados nas tetas do governo e pagos com os nossos impostos. E provavelmente os autores do livro - que se sentiram ofendidos e lesados pelos comentários depreciativos feitos à obra - estariam hoje todos satisfeitos com o dinheirinho do direito autoral, se esse “escândalo” não tivesse vindo à tona. Escândalo à moda tupiniquim: não vai dar em nada!

Outro exemplo cabal da falta de respeito com que são tratados os alunos da rede pública também não teve grande repercussão na mídia: foi a exibição da fita pirata Tropa de Elite, no ano retrasado, para alunos de Sexta a Oitava Séries, em todo o Estado de São Paulo. Uma verdadeira febre! Esse outro “escândalo” só veio à tona porque a aluna de uma escola passou mal durante a exibição e a mídia se interessou pelo assunto. Se isso não tivesse acontecido, o filme seria exibido até hoje nas escolas, como mais um tapa-buraco para AS AULAS VAGAS, que são A ÚNICA CERTEZA NA VIDA ESCOLAR DOS ALUNOS DA REDE PÚBLICA DE ENSINO EM TODO O BRASIL.

23 maio 2009

Mídia nota zero - A série - IV




O falso moralismo do jornal Folha de São Paulo

As reportagens SP distribui a escolas livro com palavrões (19/05) e Compra de livro com palavrão vai ser punida, afirma Serra (20/08) soam hipócritas, pois o jornal Folha de São Paulo também está sendo distribuído nas escolas e ele reproduziu alguns palavrões e outras expressões chulas do livro Dez na Área, Um na Banheira e Ninguém no Gol. (leia aqui e aqui).

Não foi nenhuma surpresa constatarmos que a reportagem pseudo-moralista foi feita justamente pelo jornalista que acha a EE Lucia de Castro Bueno (Taboão da Serra-SP) "a melhor escola pública de SP"... Esse jornalista não acha imoral divulgar uma mentira... esse jornalista também não acha imoral fazer propaganda de um diretor-ditador que pré-seleciona seus alunos, expulsa os "mais fracos", ataca a democracia e governantes legitimamente eleitos pelo povo...

Aliás, recentemente tivemos prova do "moralismo-seletivo" do repórter e da Folha de São Paulo. Usaram o caso do "quebra-quebra" na EE Antonio Firmino de Proença para dar voz ao autoritário presidente do sindicato dos diretores e culpar alunos e seus pais pela situação caótica das escolas públicas e do ensino...
Mas não houve nenhuma palavra sobre o fato dessa escola dispensar alunos para promover "baladas noturnas", com denúncias da presença de alunos de até 12 anos e consumo de bebidas alcoólicas e drogas... Leia aqui
Detalhe importante: a grana arrecadada com as "baladas" é dividida entre a direção da escola e a empresa organizadora... Por que será que o repórter omitiu esta informação fundamental? Será que ele ficou com medo de perder a confiança dos diretores das escolas? Ou foi puro fanatismo pela ditadura?

Cremilda Estella Teixeira

Leia toda a série Mídia nota zero

19 maio 2009


Mensagem de um aluno


Meu nome é Diego, sou de Barra Mansa, RJ. Eu estou escrevendo porque um dia desses eu encontrei o Blog de vocês. E quero dar-lhes os parabéns e agradecer por essa ajuda que vocês dão à sociedade! Gosto muito de ler o Blog e tento divulgá-los, pois é o mínimo que posso fazer por vocês!

Depois de ver escândalos, roubos de verbas e outras barbaridades políticas, achava que o Brasil não tinha mais jeito, pensava que não existiam pessoas honestas, e vocês mudaram completamente a minha concepção! Estou admirado pelo trabalho que fazem. Espero que continuem, e que algum dia alguém os ajude a ampliar essa solidariedade.

Eu quis fazer um curso mais a minha cara, que é direito. Porém esse curso é muito buscado e acabei me inscrevendo em vários vestibulares de universidades federais, mas não passei em nenhum! Como ultima solução, busquei o PROUNI, para um curso não muito concorrido que é Serviço Social. No caso, ele era a segunda opção! Sinceramente, eu juro ter até confundido com ciências sociais, só depois que eu entrei e tive as aulas que entendi o que estava relamente acontecendo. Estou cursando, mas espero um dia poder fazer o curso que sempre quis! Depois de formado, pretendo trabalhar e pagar o meu curso!

Pelo menos eu sou o segundo aluno mais novo da sala, vou completar 18 no proximo mês, e isso me dá vantagens. Mas estudei a minha vida toda em escola pública e queria me formar em uma universidade pública. Sem falar que aquela burocracia do PROUNI chegou a me dar medo! Nunca achei que para demonstrar que sou pobre era necessário um monte de papel. Eles deveriam ver o que eu como, onde eu moro, e entenderiam que essa bolsa é necessária! Agora que consegui, pretendo um dia ajudar aqueles que não podem, pois esse vai ser meu papel mesmo, né, "Garantir Direito"!

Se não existisse o PROUNI, acho que estaria trabalhando como motoboy ou cobrador de ônibus (não tenho nada contra a profissão), em vez de ter a oportunidade de mudar de vida!
E a respeito dos vestibulares eu tenho uma experiência imensa, pois fiz a UERJ, UFRJ, UFF, UniRIO e UFRRJ, além do PROUNI(ENEM) e do CEDERJ. Obs.: A UENF não tem Direito, por isso não fiz ela, foi a unica instituição federal do Rio em que não fiz inscrição!

A cada prova que eu fazia e não passava eu ficava mais nervoso comigo e com o meu ensino! Poxa, estudei 12 anos da minha vida em escola pública, para chegar nas provas e ter media 4? Todas as provas são cansativas, fazem perguntas querendo detalhes, só passa quem realmente estuda muito! Em todas as provas que eu fiz algumas pediam a escola e davam uma lista perguntando de qual eu era. Enquanto eu olhava a lista com mais de 80% de instituições privadas, eu me perguntava: cadê o ensino publico? (A lista era feita com base nos alunos que fizeram o vestibular anos antes...)

E quando eu ia para a sala de aula, entendia o porquê. De 40 alunos na sala, eu era o único que queria ensino superior de graça! Eu achava que era como aquela frase "Pior do que um pássaro ficar preso, é que ele se acostuma!" (mais ou menos isso). Ninguém quer lutar pelo que é nosso!

Um fato, as provas da UniRIO e da UFRJ foram as mais burguesas. Quando eu ia fazer a prova percebi o acumulo de Playboys e Patricinhas! Acho que uma minoria mesmo, mais ou menos 20%, não tinham condições de pagar a faculdade. Eu não sabia se ia fazer o vestibular ou se estava em um desfile de carros: Vectra e Astra 2007, Honda civic, C4, Peugeot 306, Zafira, Meriva, e outro que eu nem sabia o nome, mas que sabia que eram caros!

Que país é este? que quem estuda em escola pública a vida inteira tem que se formar na particular, e quem faz ensino privado a vida inteira, vai para a universidade pública??? Eles estavam tirando uma vaga que era para mim e outros alunos! E o pior, ninguém liga!
É por isso que gosto do seu trabalho! Meus mais sinceros agradecimentos.


Diego, é um imenso prazer receber mensagens como a sua! Ver que o sistema não conseguiu matar a inteligência, a vontade de aprender e a curiosidade de alguns dos nossos alunos é um estímulo para continuar esta luta inglória. Continue dando notícias e contribuindo com seus comentários inteligentes.

17 maio 2009

Projeto de primeiro mundo para crianças carentes. Vai pegar?...


Há vinte anos estamos andando em círculos: é uma trabalheira para reintegrar alunos expulsos da escola, garantir a vaga para os que são obrigados a pagar transporte porque a escola próxima de casa seleciona os alunos, pedir o afastamento de diretores e professores autoritários e/ou relapsos, quando não criminosos, etc. etc. Parece pouco, não é?

Mas é tanto trabalho que nunca conseguimos focar no âmago da questão, ou seja, a qualidade do ensino! Chegamos à conclusão de que a política educacional brasileira não vai mudar, ou seja, o tráfico de vagas não vai diminuir, os alunos vão continuar sendo expulsos, a aula vaga vai comer solta, diretores e professores autoritários e incompetentes permanecerão reinando na rede pública, porque... enquanto houver problemas tão graves, a qualidade do ensino vai ficar em segundo plano. E assim o apartheid disfarçado em que vive nossa sociedade vai continuar ad aeternum.

Trocando idéias com a amiga Cremilda, chegamos à conclusão de que os governos federal, estadual e municipal desejam, em termos de educação, que nós batamos as botas, rsrs. Sim! No dia em que não estivermos mais aqui, quem é que vai pentelhar com essas questões? Somos uma geração de indignados que está acabando...

O que mais preocupa é que existem escolas democráticas e eficientes no Brasil, mas elas são ignoradas, a não ser as que visam a exclusão ou a elitização dos alunos. Veja por exemplo o endeusamento que a mídia está fazendo da escola Lúcia de Castro Bueno, uma daquelas que selecionam seus alunos.

Hoje vou falar de um projeto que, se der certo, poderá acabar com a educação carcomida que assola todo o país, acabar com a incompetência e a má vontade que resultam no analfabetismo funcional das novas gerações. Um projeto educacional que aliás já deu certo, mas lá em Natal, bem longe dos interesses da "inteligência" brasileira, concentrada no eixo São Paulo/Rio/Minas. Por isso a repercussão por aqui é pequena, tão pequena quanto as mentes e as boas intenções de quem manda na educação dos maiores estados brasileiros.

Por ironia, o autor desse projeto é um neurocientista paulistano, considerado um dos dez mais importantes em todo o mundo, inclusive indicado ao Prêmio Nobel. Já foi capa do NY Times, do Washington Post e das maiores revistas de ciência do mundo. Aqui, em terra tupiniquim, ele é mais conhecido como filho da escritora de livros infanto-juvenis Giselda Nicolelis...

O desafio de Miguel Nicolelis, que como a maioria dos grandes cérebros construiu seu trabalho de pesquisa fora do Brasil, foi não apenas criar um centro educacional voltado para a ciência, mas fazê-lo numa área extremamente carente, com o IDH (índice de desenvolvimento humano) dos mais baixos do país. Com isso, ele quis e conseguiu mostrar que crianças mal nutridas e de famílias sem instrução podem desenvolver o mesmo potencial ou até superar as habilidades e competências de alunos das melhores escolas particulares.

Assim, em 2007, nasceu a escola de Educação Científica Alfredo J. Monteverde (entre no link, ela é real!), em Natal e Macaíba, RN, concentrando nas duas unidades mais de mil alunos. Trata-se de uma escola complementar à de ensino fundamental ou médio, ou seja, os alunos estudam um período na escola regular e outro na de educação científica. Vi um vídeo sobre a escola na TV e não acreditei na expressão concentrada dos alunos, às voltas com aparelhos e instrumentos de laboratório, como telescópios, motores e mil engenhocas.

A escola faz parte do Instituto Internacional de Neurociências de Natal, dirigido por Miguel Nicolelis, que recebe verbas de instituições privadas do mundo inteiro. O Instituto tem outros projetos de cunho social, como um centro de saúde voltado à gravidez de alto risco, e parte do princípio de que a ciência pode ser um agente de transformação social.

Leia aqui a entrevista de Miguel Nicolelis para a revista Caros Amigos e vai entender porque esse projeto, que causa inveja aos próprios Estados Unidos - onde não existe nada parecido - é e continuará sendo ignorado pela mídia e pelas autoridades estaduais brasileiras. O Governo Federal deu apoio inicial ao projeto, mas o objetivo do Instituto é espalhar novas unidades de escolas de Educação Científica até atingir um milhão de crianças brasileiras. Isso só será possível se as grandes fortunas brasileiras, além dos governos estaduais e municipais, tiverem INTERESSE em investir no projeto. Do jeito que as coisas andam por aqui, o interesse será elitizar essas escolas, caso elas cheguem às nossas metrópolis... Qual o seu palpite?

Ah: esqueci de dizer que em lugar deste texto eu ia falar de uma resposta absolutamente ridícula que o EducaFórum recebeu da SEE sobre um assunto que já vinha do ano passado... Mas pra que falar de abobrinhas, rsrs?

13 maio 2009

Mídia nota zero - A série - III


Já cansamos de alertar sobre os riscos que os alunos da escola pública correm diariamente. Os 25% de aulas vagas que eles "recebem" não prejudicam apenas seu desenvolvimento e seu futuro. Muitas vezes, os alunos são sumariamente dispensados já no portão da escola ou após uma ou duas aulas. Outras vezes, eles são largados na quadra ou no pátio sem supervisão e se machucam. Ficou "famoso" o caso do garoto que quebrou os pulsos, não foi socorrido e até foi impedido de usar o celular para ligar para a mãe. Numa atitude inédita, Gustavo Ioschpe fez um apelo nacional através da revista Veja, buscando um advogado que apoiasse a família do aluno numa ação contra o Estado, mas ninguém se dispôs a enfrentar a impunidade nos crimes da escola no Brasil.

Os dois casos relatados a seguir pela Cremilda são ainda mais graves, mas foram recebidos friamente pela mídia: uma aluna dispensada após duas aulas foi assassinada a caminho de casa e duas alunas impedidas de entrar na escola por falta de uniforme foram nadar na represa e morreram afogadas. Três mortes que não sensibilizaram a mídia nem as autoridades brasileiras. Por muito menos, jornais, revistas e a mídia televisiva provocam a opinião pública durante semanas. Mas quem se importa com crianças e adolescentes pobres no Brasil?...



SECRETÁRIO DIZ QUE VAI APURAR A RESPONSABILIDADE DA MORTA

A Escola Estadual Flavio La Selva, SP, é vizinha de um matagal.
Não tem aula e às 10:30 dispensa os alunos que deveriam sair às 12:30. Uma aluna não chega em casa. O pai vai às 12:30 buscar a filha e descobre que todos os alunos tinham sido dispensados duas horas antes. A aluna foi morta e encontrada no matagal.

Isso acontece todo dia. A escola dispensa alunos sem ter a menor preocupação com sua segurança. Ou não os deixa entrar por motivos fúteis. Sobre esse caso o Secretário foi entrevistado pelo Datena e quer de todo jeito livrar a cara da direção da escola, responsabilizando a aluna. Ela tem idade mental menor que sua idade cronológica. O Secretário então declara várias vêzes que vai investigar se a aluna devia ou não estar matriculada nessa escola. O programa de inclusão, para ele, agora não vale. Quer é livrar a cara da escola. E já adianta que a diretora afastada poderá voltar. Claro que volta, é só a poeira assentar, só que ele não precisava falar isso, a gente está cansado de saber que diretora e professora de escola pública são inimputáveis.

Tem pouco tempo, duas alunas tidas como normais também morreram. A direção da Escola Estadual Mario Arminante impediu que duas alunas também de 13 anos entrassem na escola por estarem sem uniforme. Elas então em vez de voltar para casa foram nadar na represa e morreram as duas. Então em questao de dias morrem tres alunas de 13 anos....

A escola vai continuar colocando alunos fora da escola e eles continuarão morrendo aos montes. O Secretário de Educação de São Paulo está a postos para defender a diretora, responsabilizar as mortas e está tudo bem... Na Escola Estadual Flavio La Selva a culpa é da aluna, que não devia estar matriculada lá, as outras duas o Datena nem cobrou. E a diretora da Escola Mario Arminante não suspendeu as aulas no dia da morte nem no dia do enterro das duas alunas. Eram apenas duas alunas pobres de periferia...

Que Deus se apiede do Secretário...

09 maio 2009

Mídia nota zero - A série - II


Este segundo post da nova série Mídia nota zero reforça tudo o que foi falado no primeiro,


Há mais de uma semana, a mídia maria-vai-com-as-outras não encontra outro assunto a tratar, além da suposta “melhor escola” da rede estadual de São Paulo, a EE Lúcia de Castro Bueno. Após o Jornal da Tarde e o Agora São Paulo, comentados no post anterior, a Folha de São Paulo deu destaque ao assunto, repetindo as mesmas lengalengas e não avançando em nada na informação sobre a qualidade do ensino na rede pública - se é que a mídia tem algum interesse em promover uma investigação neste sentido...

A entrevista dada pelo diretor da escola à Folha de São Paulo em 04/05 (“Governo do Estado só me atrapalha”) mostra a inabilidade do jornalista Fábio Takahashi, que aumenta um ponto à incompetência do Jornal da Tarde e do Agora São Paulo em suas matérias anteriores. A Folha também não se preocupa em esclarecer aos leitores que os resultados do Enem não refletem a qualidade da escola e perde uma boa oportunidade para fazer a seu diretor perguntas sobre a forma como a escola é gerida. Ficamos apenas sabendo que ele criou um currículo próprio e que dirige a escola há 22 anos sem utilizar os programas do governo. Ele “não vê caminho” para a escola pública, que dependeria de “talentos isolados”. De fato, ele criou uma escola pública “de classe média”, altamente seletiva.

Além de não esclarecer o que foi omitido pelos outros jornais, ou seja, que o resultado do ENEM não vale para chamar a EE Lúcia de Castro Bueno de “melhor escola”, essa entrevista da Folha mostra o ego inflado de um diretor canastrão, como todos aqueles que batem no peito ao falar “minha escola”. Entretanto, ele tem colocações corajosas, como dizer que o "programa de formação” só serve para tirar professor de sala de aula e que o ensino de tempo integral é uma bobagem, pois as escolas nem conseguem cumprir quatro horas diárias, devido às aulas vagas. Seus comentários sobre os modismos e a politicagem dos secretários estaduais nos últimos doze anos é também bastante acertada e nas entrelinhas da entrevista percebe-se que o governo não tem qualquer controle sobre as escolas, para não dizer que a política educacional é proforma. Basta uma escola passar nos testes oficiais, nada se questiona, nem mesmo uma declaração como a desse diretor: “A democracia não se aplica ao ensino”. Em time que ganha não se mexe!... Falta saber quem ganha nesse time e essas são as perguntas que a Folha deixou de fazer a esse diretor: como é feita a seleção dos alunos para admissão na escola? Como é feita a eleição do Conselho de Escola? Qual é o nível de reprovação em cada série?

A mídia continua alienada à questão do ensino público, assunto que não é de seu interesse, já que filho de jornalista estuda na... rede particular.

07 maio 2009

Escola pública: a vítima é sempre culpada


Em 8 de outubro de 2007 estivemos no gabinete do Secretário Alexandre Schneider acompanhando duas mães e seus filhos, alunos da EMEF Imperatriz Dona Amélia, para relatarem denúncias da escola, denúncias agravadas por perseguições e represálias. As mães haviam decidido visitar a SME após terem ouvido o Secretário declarar, em um programa de rádio, que estava aberto ao diálogo com a comunidade. Na época, ele não se dispôs a atendê-las, as denúncias deram em "apuração preliminar" e o resultado só foi informado às mães alguns dias atrás, quando, por coincidência, o Secretário finalmente aceitou agendar uma reunião com elas. Entretanto, elas não receberam cópia do processo, apenas leram o resumo, monitoradas por funcionárias da SME.
O resultado lido deu na responsabilização das próprias mães, dentro da prática mais comum na rede pública de ensino: culpar a vítima.

Quem acompanhou o caso desde o início sabe do que estamos falando. A situação ficou ainda mais grave, pois suspeitamos que o resultado da apuração preliminar, processo interno da SME, tenha sido usado pela diretora da escola para entrar com processo criminal de difamação contra as mães.

Hoje, um ano e meio após a primeira visita à SME, acompanhamos novamente as mães à Secretaria e finalmente fomos atendidos por Alexandre Schneider. A pauta da reunião foi a seguinte:
  1. Solicitar que o resultado da apuração preliminar seja investigado e que as mães possam finalmente receber cópia do processo, o que foi prometido pelo Secretário.

  2. Solicitar que as denúncias protocoladas em 08/10/07 e fartamente documentadas sejam finalmente apuradas, o que não ocorreu, já que os livros de atas de Conselho de Escola e de Ocorrências relatam diversos crimes contra os alunos e o patrimônio, sem que tenha havido punições que possam coibir novos crimes.

  3. Solicitar que os alunos filhos das denunciantes deixem de ser finalmente perseguidos na escola. Nesse aspecto, o Secretário também concordou em tomar providências, pois reconheceu textualmente que não cabem perseguições na escola.

  4. Solicitar que a eleição de Conselho de Escola e APM do ano corrente, realizadas sem a devida convocação da comunidade e decididas por indicação dos membros, seja investigada e anulada, inclusive em vista da ausência repetida dos "eleitos" às reuniões.

  5. Pedir o restabelecimento do Disk-Denúncias da SME, que o Secretário afirma nunca ter existido na Secretaria, para que os pais possam ter um canal de encaminhamento de suas denúncias e sugestões.

  6. Pedir o posicionamento do Departamento Jurídico da SME sobre o processo criminal de difamação aberto pela diretora da escola contra as mães denunciantes, baseado na apuração cujo resultado lhes foi negado até o agendamento da reunião com o próprio Secretário, realizada nesta data.

Após as primeiras denúncias, de crimes que já ocorriam nessa escola há pelo menos dois anos e meio, as perseguições e represálias contra as crianças e as mães foram se intensificando, devido à recusa de elas transferirem os filhos para outra escola, medida que lhes foi apresentada como "solução" pela direção e supervisão da escola, inclusive por um advogado da própria diretoria de educação de São Mateus. Essa "solução" todos os pais questionadores e conscientes de seus direitos conhecem de sobra.

Queremos dar um voto de confiança ao Secretário, na esperança de que ele finalmente entenda a gravidade das denúncias encaminhadas e resolva tomar providências, que não consistem, é claro, em pedir para que a Diretora de Educação de São Mateus, presente à reunião de hoje, opine sobre os fatos, mas em coletar provas como livros de atas e de ocorrências, notas fiscais e outros documentos. Ficamos muito, mas muito preocupados, quando o Secretário elogiou incondicionalmente a Diretora de Educação como sendo "a melhor de todas", sendo que ela passou a reunião inteira praticamente calada e está no cargo há quatro anos, sendo indiretamente responsável pelas irregularidades na EMEF.

Leia os principais fatos relatados sobre a EMEF Imperatriz Dona Amélia durante os últimos 18 meses:

http://educaforum.blogspot.com/2008/12/cobranas-para-sme.html

http://educaforum.blogspot.com/2008/12/o-direito-vingana-e-impunidade.html

03 maio 2009

Mídia nota zero - A série - I


Nada pode ser pior, em um país dito democrático, do que uma mídia desinformada e preguiçosa, para não dizer dependente das verbas públicas para sobreviver ou manter o padrão de vida de seus editorialistas, chegados a um bom charuto e whisky 16 anos...

No Brasil, não existe jornalismo investigativo na educação. Quem manda na mídia são os sindicatos das categorias "docentes", que manipulam os meios de comunicação a bel prazer.

Apenas um exemplo, entre os que daremos durante esta nova série, que promete ser longa:

É de grande interesse da classe "docente" acabar com a progressão continuada, que dá muito trabalho. Não que ela seja efetivamente praticada, ela está apenas no papel, mas "pegaria mal" para dirigentes e supervisores de ensino, diretores de escola, coordenadores "pedagógicos" e professores, se "um dia" a mídia finalmente investigasse e divulgasse o descalabro que é o sistema de ensino de modo geral: planejamento deficiente e mesmo assim ignorado pela maioria dos professores, 25% em média de aulas vagas, recuperação de alunos inexistente ou ineficiente, professores entrando em sala de aula com até meia hora de atraso, bibliotecas fechadas e... que alunos e pais não se atrevam a reclamar: é perseguição ou expulsão na certa!

(Calma, srs. professores: exceções existem e estamos sempre aqui para aplaudi-las! Mas o IDEB e o IDESP confirmam que A MAIORIA DAS ESCOLAS DO PAÍS ensina mal.)

Então a "estratégia" é a seguinte: divulgar meia dúzia de escolas "fortes", aquelas que escolhem seus alunos a dedo e "puxam" a matéria. Se o aluno não entender, que a família se vire para pagar professor particular (afinal, é para isso que essas escolas escolhem os alunos, além de as famílias poderem pagar altas taxas de APM, cobradas religiosamente). Nessas escolas, o diretor bate no peito ao falar "minha escola", não admite a entrada de alunos sem uniforme e convoca o Conselho para expulsar os indesejados. Essa "meia dúzia" de escolas não podem ser tomadas como escolas "padrão", pois são na verdade excludentes e preconceituosas. Trata-se, efetivamente, de "escolas publicas de classe média", ou melhor, de "escolas semiparticulares ilegais", devido às altas taxas de APM que os pais são convidados a pagar, o que exclui automaticamente os alunos mais pobres.

Mas quem, no Brasil, está interessado em efetivar o que está na Constituição: uma escola pública de qualidade PARA TODOS? Quando, finalmente, a repetência for reconfirmada em todo o país, será o triunfo da classe "docente" preguiçosa e incompetente, que se livrará da sua responsabilidade com apenas uma canetada: REPROVADO! No ano seguinte, o aluno que permanecer na escola vai "aprender" o mesmo que no ano anterior e, no subsequente, vai levar o pontapé final para a marginalidade.

Se os podres poderes públicos do país estão, principalmente, interessados em manter a ignorância da população, a mídia também não fica atrás.

Vejamos então a preguiça e a malemolência do Jornal da Tarde em seu editorial de hoje, Escola bem avaliada reprova no meio do ciclo, que exalta uma "escola pública de classe média" como se seus resultados positivos no Enem fossem indicativos de qualidade, quando TODOS OS CIDADÃOS MINIMAMENTE INFORMADOS SABEM QUE ESSE EXAME NÃO REFLETE A QUALIDADE DO ENSINO MÉDIO, POR SE LIMITAR A UMA AMOSTRAGEM MANIPULADA PELAS ESCOLAS. É muito cômodo, para o jornal, fazer coro ao sindicalismo, que quer acabar com os ciclos antes que se comprove que o fracasso é devido à incompetência e preguiça da classe "docente" e seus dirigentes.

Na brilhante análise de nosso amigo Mauro, o Jornal da Tarde perdeu uma boa oportunidade de publicar uma "receita de bolo" em lugar desse editorial, que valoriza a postura ditatorial do diretor dessa escola. O mesmo diretor declarou a outro jornal, o Agora São Paulo, que "a democracia não se aplica ao ensino".

Este exemplo é realmente típico da tendenciosidade e preguiça da mídia: em vez de buscar fontes de informação variadas para investigar a "qualidade das escolas pelo Enem", um jornal copia do outro... Pra que aprofundar o assunto? Pra que informar que o Enem é um exame facultativo e que as escolas desestimulam os alunos fracos e incentivam os melhores a fazê-lo?... Pra que investigar como as escolas trabalham em seu dia-a-dia?... E isso seria tão fácil! Bastaria conversar com os alunos entrando e saindo do portão sem se identificar como jornalista, e fazer perguntinhas básicas:
  • Quantos professores faltaram hoje?
  • Quando a aula é vaga, para onde vão os alunos?
  • Durante as aulas de educação física o professor fica com os alunos na quadra?
  • Quais professores costumam chegar no horário?
  • Em que dias a biblioteca da escola está aberta para os alunos?
  • As aulas são claras?
  • Os professores explicam as dúvidas?
  • Existem aulas de recuperação? Elas funcionam?
  • O coordenador pedagógico atende os pais e alunos?
  • O diretor da escola costuma estar presente e atender os pais e alunos?

Há alguns anos, jornalistas da Rede Globo e da Folha de São Paulo nos pediram "estatísticas" que confirmassem os 25% de aulas vagas que os alunos da rede pública "recebem" durante o ano letivo. Respondemos que cobrassem essas estatísticas do INEP(t), para o qual cansamos de pedi-las. Não o fizeram. Sugerimos então que distribuíssem para seus funcionários operacionais (vigias, faxineiros, motoristas) o formulário de controle de aulas vagas do Site PaisOnline. Também não fizeram. Enfim: a verdade incomoda!