30 maio 2014

A escola expulsando e enterrando os futuros pensadores



Lembram do jovem retratado no post Expulsar Rui Barbosa, que tal? Ele permanece o símbolo do aluno brilhante desvalorizado pela escola, a ponto de correr o risco de expulsão. Esse caso foi um daqueles que exigiram uma estratégia muito especial: levamos o aluno (acompanhado pelo pai, por ser menor de idade) para o departamento jurídico da Secretaria da Educação, no exato dia e hora marcados para ele comparecer na escola e assinar sua "transferência compulsória", expressão usada pela SEE para abafar a expulsão. Só assim conseguimos garantir sua permanência na escola. Mas o que mais chama a atenção nessa história é o fato de um aluno educado, respeitoso e com rendimento escolar bem acima da média incomodar a escola, a ponto de ela tentar se livrar dele. Outro caso emblemático foi da aluna de São João da Boa Vista, uma das melhores da escola, expulsa por uma manobra sórdida da diretora, e só reintegrada depois que enviamos à Secretaria da Educação uma mensagem tocante e muito bem escrita pela menina, demonstrando a injustiça da expulsão.

Uma das principais queixas dos alunos que nos escrevem é a respeito do cala a boca que recebem quando se atrevem a dar opinião ou a discutir qualquer assunto em sala de aula ou - pior - na diretoria da escola. A escola brasileira, salvo raríssimas exceções que confirmam a regra, não está preparada para receber o aluno que discute, debate e principalmente não aceita o cala a boca. Se ele for expulso da escola, poderá ser recrutado pela marginalidade, que está hoje muito melhor "preparada" do que nosso serviço de inteligência. Ou não está??...

Para ilustrar o estrago que cometem nossas escolas - não apenas as públicas! - segue um brilhante texto de Augusto Cury, retirado de O código da Inteligência. Escolhemos Augusto Cury, provavelmente o autor brasileiro mais lido no mundo, por ser um educador desprezado pelas nossas universidades, da mesma forma como a escola renega seus alunos de melhor potencial intelectual. Sinal dos tempos!

Desde os primeiros dias escolares as crianças deveriam descobrir o prazer de expressar seus pensamentos, comentar suas opiniões. Mas não incentivamos as crianças a falarem porque se procura em sala de aula um silêncio doente, um silêncio antipedagógico, que castra o debate de ideias. Claro que enquanto o professor está transmitindo as informações, o silêncio é fundamental. Mas a cada cinco ou dez minutos o professor deveria interromper o silêncio e provocar a mente dos alunos. Deveria perguntar, debater, estimular o pensamento e a expressão das opiniões. Assim, seus alunos aprenderão a ser pensadores e não servos do sistema social.

Muitos profissionais da educação querem mudar o sistema, mas não têm meios ou cacife para isso. O sistema impõe um monólogo em sala de aula, um conteúdo programático extenso e fechado e um regime rígido de provas. Creio que mais de 95% das informações que são transmitidas aos alunos não serão lembradas ou utilizadas.

A pauta educacional não deveria ser em primeiro lugar a quantidade de informações, o detalhismo de dados, mas o raciocínio esquemático, o debate de ideias. A sala de aula deveria ser um teatro onde professores e alunos são construtores do conhecimento.

Por que não incentivamos as crianças e adolescentes a debater? Porque tumultua o ambiente, e suas respostas são erradas ou superficiais. Achamos que primeiro elas precisam ter bagagem, milhares de informações, para depois aprender a se expressar. Crasso engano! Depois que produzimos zonas de conflitos que bloqueiam a inteligência queremos que falem, respeitem seus pares, não sejam alienados, tenham compromissos com a sociedade e com o futuro. Com excelentes intenções, cometemos erros educacionais imperdoáveis.

A juventude mundial tem sido treinada sistematicamente para a passividade. A educação que faz da memória um depósito de informações é prejudicial à formação da personalidade, gera doenças e não saúde psíquica. Tem muito mais chances de formar algozes do que altruístas.

Se um aluno não aprende a questionar seu professor, o conhecimento que lhe é transmitido e muito menos quem e como o produziu, terá grandes chances de ser um mero repetidor de ideias. Sem aprender a fazer debate sobre esses quatro elementos, não saberá transformar informações em conhecimento, conhecimento em experiência e experiência em sabedoria. A escola clássica deveria incentivar a rebeldia saudável e não a submissão, a inquietação e não o conformismo, a participação e não a quietude, a construção e não a servidão.

O embrião da formação de pensadores começa na pré-escola e no ensino fundamental. É lá que promovemos ou enterramos os futuros pensadores. Nas universidades, apenas fazemos a “missa do sétimo dia”.

25 maio 2014

A escola sem educação



Por estes dias recebemos duas mensagens de alunos que mostram bem o que sempre colocamos aqui: o maior problema da escola pública brasileira NÃO é a qualidade do ensino, mas a... falta de educação!

Ambas mensagens mostram duas escolas bem "mal-educadas": a primeira tem uma diretora desequilibrada e muito provavelmente corrupta, a segunda tem uma direção relapsa e omissa. Com esses exemplos, como exigir que nossas crianças e jovens desenvolvam um comportamento ético??

Esclarecemos que não se trata de casos isolados, o que é raro é receber mensagens tão claras como as duas que copiamos abaixo. Resguardamos o nome das escolas e dos alunos, porque o sistema educacional brasileiro é muito autoritário e qualquer denúncia provoca perseguições e represálias que nunca falham! Publicar o nome das escolas desencadeia terríveis "caças às bruxas", em que alunos são chantageados e pressionados até delatarem colegas eventualmente inocentes, para se livrarem das ameaças. 

A escola pública brasileira, em geral, carece de educação justamente por parte daqueles que deveriam ser exemplo e modelo! E ainda tenta esconder essa falha atrás de uma cortina de fumaça que virou hit em toda a sociedade: a expressão "A educação vem de casa"...

Mensagem de um aluno da rede estadual de São Paulo:
Ontem, 15 de maio, a diretora chamou a polícia e fez um boletim de ocorrência contra mim (sou menor de idade, mas meu pai foi junto) alegando coisas absurdas como por exemplo que eu teria dito que explodiria ela e a escola, ela me humilhou e ainda queria que eu fosse na viatura como se eu fosse um bandido. Não é a primeira vez que ela me humilha, uma vez no intervalo fui falar com ela bem educadamente e ela apontou o dedo na minha cara e disse que não falava com alunos sem uniforme, fui explicar a situação e ela disse que era problema meu e que não tinha nada a ver com isso e saiu andando. Ontem, também, ela mandou a professora mediadora ir entregar uma convocação pros meus pais irem lá e falou que ela [diretora] não ia mais falar comigo. Bom... não da pra explicar tudo por aqui, mas além desses problemas tem coisas absurdas como maltratar professores e funcionários, mandar embora alunos sem uniforme, aulas vagas de monte, etc...

Mensagem de uma aluna da rede pública de Goiás:

Estou com uma dúvida em relação as condutas de coordenadores e diretores da minha escola, gostaria que vocês pudessem me orientar. Curso o ensino médio em um colégio estadual no horário noturno, ontem levei minha carteira e meus documentos, pois iria realizar a inscrição do enem. Na hora do recreio despercebida deixei minha carteira embaixo da própria carteira escolar(mesa escolar), e terminando a aula fui embora e a esqueci. Pela manhã fui buscar a carteira no colégio e percebi que estava vazia, levaram uma quantia em dinheiro e todos os documentos e papéis importantes que ali estavam. 

Devido a isso fui procurar o diretor e a coordenadora ( mesmo ciente que será difícil recuperar o dinheiro) e me disseram que eles não podiam fazer absolutamente nada. Aí surge minha dúvida, é claro que sei que eles necessariamente não conseguirão recuperar os pertences, mas nem ao menos conversar com a turma, ou com o colégio, explicar o ocorrido, orientar aos alunos que essas práticas são crimes e não podem ser praticadas em lugar algum, muito menos no colégio? Será que eles não podem fazer nada mesmo? Não digo acusar alguém, ou aplicar algum  método severo, mas nem ao menos conversar e explicar ao colégio eles não podem? A escola é um lugar que prepara cidadãos, e será mesmo que eles não podem nem dar um conselho e orientar a escola em geral, na esperança de quem cometeu esse ato nunca mais pense em fazer isso novamente, ou a menos se conscientize e devolva apenas os documentos, que são os mais importantes de fato. Então, minha dúvida é essa, o diretor e o coordenador não podem ajudar de nenhuma forma?

08 maio 2014

SME: TRANSPARÊNCIA ZERO

Há anos batemos na tecla da importância da educação infantil PARA TODAS AS CRIANÇAS. Aqui em São Paulo o déficit de vagas deve superar 130 mil, mas, quem confia em números, em um país que não investe em estatísticas? É possível que haja muito mais crianças fora da educação infantil, em São Paulo.


Já cansamos de repetir que as crianças que entram no ensino fundamental sem base anterior costumam estar em desvantagem, inclusive porque a maioria dos professores não são alfabetizadores competentes e seu trabalho não se baseia em estimular a curiosidade natural da criança, mas na ineficiente cópia/decoreba, instrumento consagrado pelos governos que pretendem manter seus povos no analfabetismo. O Brasil é um dos campeões mundiais de analfabetismo funcional, o que confirma esta teoria.

Uma educação infantil de qualidade é portanto um grande diferencial na vida escolar de toda criança. Como ficam então os milhares de crianças que nem mesmo têm acesso a essa modalidade, sendo que os pais são obrigados a “matriculá-las”? – mais um contrassenso tupiniquim...

Desde o início do ano estamos tentando obter da SME informações claras sobre a matrícula de alunos nas creches e EMEIs da prefeitura de São Paulo, estivemos inclusive pessoalmente na Secretaria, mas as explicações não convencem. O caso da menina Sarah foi resolvido, ela já está matriculada, mas parece que tudo ocorre como “passe de mágica”. Depois disso, enviamos à SME uma troca de e-mails com outro pai, que inclusive comprovou a flutuação inexplicável da posição de sua filha no ranking das inscrições, da seguinte forma:

No dia 4 de fevereiro a criança estava na 12ª posição.
No dia 6 de março sua posição era a 57ª, ou seja, 45 crianças haviam entrado na sua frente!
No dia 01 de abril ela estava na 2ª posição.
Foram dadas explicações nebulosas para justificar essa flutuação, que não convenceram em absoluto, e - o que é pior – mesmo estando em segundo lugar no ranking das inscrições, essa criança continua fora da escola... Ainda por cima, a pessoa com quem estávamos em contato na SME entrou de férias e ninguém está nos respondendo no lugar dela. Nosso pedido de reunião com o Secretário Cesar Callegari não foi aceito nem negado, simplesmente ignorado... Como interpretar toda esta situação? Crianças seriam apenas números???