24 outubro 2015

Para justificar o fechamento de escolas, basta esvaziá-las!



Recebemos uma mensagem muito, muito esclarecedora mesmo, sobre a "reorganização" da rede estadual de ensino. No meio de tantas reclamações de alunos, este apelo de uma professora é um verdadeiro raio X de como está sendo articulada essa ação criminosa da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Essa professora é muito corajosa e vamos procurar apoiá-la o quanto pudermos, mas, como sempre, temos que respeitar sua integridade, que seria seriamente ameaçada se seu nome viesse a público. Por isso, omitimos qualquer dado que possa identificá-la, inclusive o nome da escola e do município.

No entanto, o que ela relata não é caso isolado, trata-se de uma estratégia comum de ESVAZIAMENTO das escolas da rede estadual. Se essa professora não tivesse relatado tantos detalhes sobre a forma como é articulado esse esvaziamento em sua escola, o assunto poderia ser resumido apenas à reclamação que costumamos receber de centenas de alunos do período noturno, ou seja, a proibição de entrar na segunda aula, quando chegam atrasados do trabalho. Mas ela conseguiu desmascarar um esquema bem mais complexo. Seguem trechos da longa mensagem:

Gostaria que vocês me ajudassem indicando dentro da legislação algo que permita aos alunos trabalhadores do EJA (educação de jovens e adultos) entrar na 2ª aula do período noturno. Muitos outros alunos do ensino médio regular também trabalham e apresentam declaração do empregador, mas também são barrados para entrar na segunda aula.

Por estes dias, a supervisora da escola circulou em todas as salas com as listas de presença dos alunos nas mãos e informou que a partir daquela data não seria mais tolerado o atraso de nenhum aluno, seja ou não trabalhador. Ninguém mais poderia entrar na 2ª aula, mesmo com declaração de trabalho.

A supervisora foi ainda mais explícita, declarando que os alunos que não conseguissem entrar na primeira aula deveriam pedir transferência da escola ou dar um jeito no trabalho para conseguir chegar na escola no horário correto. Que eles se virassem para procurar uma escola com horário flexível.

Os alunos do último ano do Ensino Médio argumentaram que faltam apenas dois meses para terminarem o curso e que não era justo imporem essa regra na reta final.

Mas a supervisora foi inflexível e simplesmente respondeu que se não estivessem satisfeitos que saíssem, procurassem outro lugar. Inclusive os alunos que por algum motivo já tiveram que abandonar os estudos não estão conseguindo retornar, a Diretoria de Ensino está dificultando sua volta à escola.

Desconheço a legislação vigente sobre este assunto e gostaria de saber como posso auxiliar meus alunos, qual lei os protege contra esse ato arbitrário e qual é o melhor caminho para eles percorrerem. Será que seria necessário entrar com um mandado de segurança, para garantir a permanência desses alunos na escola?

Nossa escola está na lista das que vão fechar, e outras coisas estão sendo impostas pela Diretoria de Ensino e acatadas sem questionamentos pela nossa gestão escolar. Por exemplo, a partir de agora, as reuniões com os pais de alunos serão conduzidas apenas pela direção da escola, nós professores perdemos esse espaço de diálogo com os pais. Agora, quem melhor do que o professor para interagir com os pais de seus alunos? Existem famílias preocupadas com seus filhos, mas parece que o sistema não está nem aí.

Parabéns para essa professora por ter procurado ajuda, quando a maioria se cala, por medo ou indiferença. Não deveria haver necessidade de proteger os alunos para garantir seu direito líquido e certo de Acesso e Permanência na escola, mas, um sistema "educacional" que pretende fazer caixa esvaziando e fechando escolas, utiliza todos os subterfúgios, desde a simples expulsão de alunos, até o estímulo à evasão.

O mandado de segurança é sem dúvida um excelente meio para cobrar a permanência dos alunos na escola, mas seu efeito seria garantido se houvesse um clamor generalizado, pois "uma andorinha não faz verão".

É preciso que a sociedade paulista desperte do torpor e enxergue com clareza o que está acontecendo na rede estadual de ensino há 20 anos. Já demos um panorama bem amplo no post anterior e também cansamos de apontar a negação de acesso à sala de aula e os inúmeros casos de expulsão de alunos, seja de forma direta ou branca.

13 outubro 2015

SEE: quantas escolas fecharam? E quantas vão fechar?


                                Imagem Amanda Gomes Lemos

Graças aos protestos de alunos de diversas escolas do Estado de São Paulo, você ficou sabendo que a Secretaria da Educação pretende fechar muitas escolas. Quantas, eles não vão revelar, da mesma forma como esconderam a quantidade de escolas que já fecharam, desde o início da gestão Rose Neubauer, em 1995.

Naquela época, já houve uma “reorganização” da rede estadual, com o mesmo pretexto de separar os alunos de acordo com os níveis de ensino. Agora preste atenção no que ouvíamos da Secretaria naquela época, quando encaminhávamos alguma crítica ou denúncia: “Nossa rede é a maior do país, temos 5 mil e tantas escolas, é claro que nem tudo é perfeito, existem alguns casos isolados, mas sempre tentamos resolver todos os problemas.”

Agora ouça o discurso atual, sempre que surge alguma crítica ou denúncia: “Nossa rede é a maior do país, temos 4 mil e tantas escolas, é claro que nem tudo é perfeito, existem alguns casos isolados, mas sempre tentamos resolver todos os problemas.”

Percebeu a diferença? A resposta é a mesma, só muda o número de escolas, de “5 mil e tantas” para “4 mil e tantas”...

Pois é, a “reorganização” da rede iniciou com a secretária Rose Neubauer, em 1995, prosseguiu com o famigerado Gabriel Chalita (de quem já falamos bastante aqui no blog), com os secretários subsequentes e até hoje têm sido fechadas escolas, classes e turnos, bem na moita.

A grande dúvida é: afinal, quantas escolas já foram fechadas durante esses 20 anos de má gestão da rede estadual? Estamos lançando este desafio para quem tiver essa informação na ponta do lápis, já que a Secretaria nunca nos revelou o número exato, e olha que nossos filhos estudaram na rede naquela época. Vamos tentar algumas continhas por cima, baseando-nos em números publicados pela Carta Capital:

Uma pela outra, as escolas estaduais têm em média mil alunos. Então, se nos anos 90 a rede chegou a ter 5 milhões e 500 alunos, eram mesmo “5 mil e tantas” escolas, talvez 5.500. Mas, naquela época, a rede tinha até unidades de Educação Infantil e a ideia era municipalizar o máximo possível de escolas de Ensino Fundamental. Se hoje a rede conta apenas 3 milhões e 800 mil matrículas, quantos alunos foram “pelo ladrão”?... Quantas escolas foram municipalizadas? Hoje, como ontem, não temos dados confiáveis, a falta de transparência é total. Além disso, a primeira “reorganização” da rede pública paulista causou enormes transtornos e traumas às famílias e comunidades.

Um dos casos mais tristes que presenciamos, na década de 90, foi de um garotinho de 7 anos, transferido para uma escola a 2 km de sua casa. A mãe trabalhava fora e o menino ia a pé para a escola, sempre chegando alguns minutos mais cedo. Até hoje as escolas públicas não têm dó nem piedade dos alunos pequenos que ficam do lado de fora, aguardando abrir o portão. Um dia, esse menino sentou no meio fio e começou a comer o lanche que havia levado de casa. Ele ficou “invisível” para um caminhão que vinha estacionando atrás dele, foi atropelado e perdeu uma perna. Naquela época, até que a mídia deu alguma repercussão ao caso, estamos falando dos extintos Diário Popular e Jornal da Tarde, os únicos que acompanhavam os dramas dos alunos da rede pública. O menino conseguiu uma prótese através de uma ONG, mas precisava de acompanhamento para tomar o ônibus até à escola e a família não tinha dinheiro para bancar essa passagem. Estivemos com a mãe na Secretaria da Educação e responderam friamente que não podiam fazer nada, que a mãe entrasse no Ministério Público e na saída uma funcionária atirou para ela uns trocados para pagar sua passagem de volta...

A situação dos alunos de Ensino Médio foi ainda pior naquela época, pois os adolescentes se reúnem em “tribos” e, ao serem separados de suas turmas, acabaram formando gangues nas periferias dos centros urbanos. Na época, a mídia registrou muitos casos de violência devidos a essa reestruturação, e nada indica que no próximo ano, quando está prevista nova “reorganização” das escolas, a adaptação será melhor. Mas isso não é problema dos buRRocratas da SEE, seus filhos estudam em escolas particulares.

E este é um assunto que sempre abordamos: o “lobby” da rede particular junto às diretorias de ensino atua fortemente, já desde a década de 90, tendo levado ao fechamento de muitas escolas em bairros de classe média. A técnica para garantir o fortalecimento da rede particular e inibir a migração de alunos para a rede pública funciona perfeitamente e é fundada sobre estes dois pilares:

1.       Garante-se “aulas vagas” de no mínimo 20%, ou seja, os alunos da rede pública costumam ter, no mínimo, 20% a menos de aulas durante o ano letivo, sendo que essa percentagem chega a 50% no período noturno! Até hoje, a expressão “aula vaga” é proibida na rede pública, porque constitui “oferta irregular de ensino”, o que contraria a Constituição. Mas, atenção! Só a expressão é proibida, a AULA VAGA é a realidade mais concreta nas escolas públicas de todo o Brasil, onde os profissionais faltam a bel prazer, pois têm direito a N faltas, sem qualquer supervisão. Os poucos diretores de escola que se atrevem a cobrar pontualidade e assiduidade são punidos, como já denunciamos várias vezes aqui no blog.
2.       Criam-se situações de violência e pânico na escola, até ela ser considerada perigosa. Eu mesma salvei um aluno acusado injustamente de ter estourado uma “bomba” dentro da escola onde estudava: pedi para ver os vestígios da tal bomba, que não apareceram. Se eu não tivesse comparecido à reunião do Conselho naquele dia, o aluno teria sido expulso e a escola teria sido tachada de “violenta”. Essa pecha assusta os pais de alunos de classe média, que se matam para pagar uma escola particular (geralmente também ruim !!!), para seus filhos.

Os pais de alunos da rede particular acabam, assim, pagando duas escolas: uma para terem certeza de que seus filhos terão aula todos os dias, dentro de um ambiente minimamente tranquilo – e outra para os filhos “dos outros”, que vão ter que se virar.

E agora a SEE quer fazer uma nova “reorganização”, deslocando alunos da escola próxima à sua casa para outra até 1,5 km de distância, o que vai dar mais ou menos as mesmas confusões que deu na década de 90, quando famílias foram simplesmente desestruturadas, obrigando mães a correr o dia inteiro para levar e buscar filhos em escolas diferentes. Mas, desta vez, muitos alunos resolveram se mexer para garantir seu direito de “permanecer na escola”, como garante a Constituição. Afastar o aluno da escola onde estuda pode significar sua evasão, pois obriga as famílias a também mudarem sua rotina, o que muitas vezes é impossível.

Não vamos então falar do aluno trabalhador, aquele que estuda no período noturno e é o mais prejudicado de toda a rede! Ele já tem muitas dificuldades para conciliar estudo e trabalho, costuma chegar na escola com alguns minutos de atraso e tem o portão fechado na cara, sem poder entrar na segunda aula. Quando consegue chegar, está morrendo de fome e não tem direito a merenda, o que prejudica seu aproveitamento escolar. É por isso que os cursos do período noturno estão “fechando” e são cada vez mais sucateados, com o pretexto de que os alunos “não querem estudar”.

E agora vamos colocar o dedo na maior ferida, que é justamente a evasão escolar, muitas vezes disfarçando uma “expulsão branca”. De acordo com o IBGE, 15% da população paulista de adolescentes entre 15 e 17 anos, ou seja, os alunos que deveriam estar no Ensino Médio, está fora da escola.

O problema já vem do Ensino Fundamental, quando o aluno não consegue acompanhar as aulas. Até alguns anos atrás, ele era considerado culpado por ter essa dificuldade: os “problemas” iam desde a desnutrição até à sua classe social. Graças a “Deus” (?), o exemplo de regiões carentes, como por exemplo no Ceará, veio comprovar que a responsabilidade pelo fracasso da escola é de uma política educacional equivocada, como tem sido a do Estado de São Paulo. Seus inúmeros “trens da alegria”, com programas e mais programas de capacitação de professores, mantiveram o nível de ensino no marasmo, a ponto de o aluno sair do Ensino Fundamental sem estar plenamente alfabetizado. Contribuem para a mediocridade geral a falta de continuidade devida às aulas vagas, às repetidas greves etc., etc.

A questão da expulsão escolar, em todos os níveis, porém mais acentuada no Ensino Médio, é talvez o maior problema da rede, pois essa "moda" partiu do Estado de São Paulo e se alastrou em todo o país, desde a gestão Chalita, quando os Conselhos de Escola tornaram-se verdadeiros tribunais de exceção para eliminar os alunos indesejados, as famosas "laranjas podres que contaminam as outras". Fizemos tanto barulho para denunciar essa prática inconstitucional, que hoje a maioria das escolas da rede parou de usá-la, mas entenda bem: continua-se expulsando alunos a rodo, porém não mais via Conselho de Escola. A nova técnica é a seguinte: pergunta-se aos pais se já não preferem buscar uma outra escola para o filho, para evitar que seja submetido ao constrangimento de passar por um julgamento do Conselho de Escola, que já decidiu por seu afastamento... Pronto: quais são os pais que vão preferir passar por esse vexame? Ah!, de uma vez por todas: a expulsão (outra expressão proibida na rede) é um afastamento real, OK? A SEE fala em "transferência compulsória", mas o aluno não é transferido para lugar algum, os pais "tem que se virar para buscar outra escola". 

Além do problema da expulsão, a situação do Ensino Médio na rede paulista é muito crítica: as classes costumam iniciar com mais de 60 alunos, é isso mesmo! Mas essa superlotação é uma “técnica” planejada que só vai poder ser desmascarada por um trabalho sério de investigação: as listas de presença de cada classe já contam com uma evasão de pelo menos 30% de alunos, ou seja, a SEE “sabe” que no final do ano vão sobrar apenas uns 30 ou 40 alunos em cada sala. Além disso, essa lista inicial costuma contar com diversos “alunos-fantasmas”, uma realidade que é denunciada há pelo menos duas décadas em todo o Brasil e que ninguém se digna apurar, muito menos o INEP, que provocamos há anos.

Um dos erros mais graves que o governo federal cometeu, também na década de 1990, foi extinguir a modalidade de Ensino Médio integrado ao Técnico, que poderia ter “salvo” diversas gerações de alunos brasileiros, que até hoje não têm outra opção a não ser ingressar num ensino médio pobre e desestimulante, praticamente sem chance de passar para o ensino superior. Hoje, quem quiser fazer um curso técnico concomitante ao ensino médio tem que estudar em dois turnos e muito poucas escolas oferecem os dois cursos no mesmo prédio, ou seja, o aluno teria que correr de uma escola para outra em um período de tempo muito curto, sem tempo de almoçar... Além disso, quantos adolescentes brasileiros podem se dar ao luxo de estudar em tempo integral? Só os de classe média, que já estudam em escolas particulares. No Estado de São Paulo, a rede Paula Souza, que já criticávamos naquela época, continua firme e forte em seu projeto elitista, ou seja, o acesso é por vestibulinho e o aluno regular dificilmente tem vez. Enfim, a maioria dos alunos entre 15 e 17 anos está mesmo condenada à evasão e não há interesse algum, por parte da SEE, em mantê-los na escola.

Ontem, como hoje, a "política educacional" da SEE/PSDB se resume a uma palavra: enxugamento, o que significa economizar às custas de crianças e adolescentes tolhidos em seu direito básico de "acesso e permanência numa escola de qualidade", como garantem diversos instrumentos legais, veja aqui. A SEE enxerga a educação como custo, não como investimento.

Este texto é muito longo e repleto de links que remetem a fatos passados. Leia com calma e entenda como sendo a retrospectiva de duas décadas de desacertos, que só podem ser entendidas com algum esforço. Para nós, que tivemos nossos filhos prejudicados por essa des-política educacional, é penoso relembrar esses fatos, mas “alguém tem que fazê-lo”, como nos escreveu um famoso expoente da academia brasileira - que porém não nos autorizou a divulgar seu nome... por que será?...

09 outubro 2015

Direitos?... Quais são os direitos do aluno brasileiro?




A aluna Camila nos escreve:

Por que o aluno não tem direito de se defender? A direção da escola tem que respeitá-lo, ouvir e compreender a situação do aluno. E se o aluno for desrespeitado pelo diretor, ele tem o direito de reclamar, por não ter sido compreendido? E se o aluno for maior de idade, tem algum direito?

A mensagem é bastante clara, mesmo colocada como pergunta: o aluno não tem o direito de se defender! Essa é a realidade dos alunos da rede pública (e também particular!) em todo o país. Não adianta argumentar, discutir, espernear. Às vezes o aluno acaba perdendo a paciência e revida as ofensas dos diretores e demais profissionais da escola, isso provoca uma tragédia, pois ele nunca conseguirá provar que foi desrespeitado, mesmo com testemunhas! É sempre a palavra dele contra a das "autoridades"...

Se o aluno for "levado a Conselho" - isto significa estar a caminho da expulsão - as cartas já estão marcadas e qualquer tentativa de defesa é inútil. Se as provas a favor dele forem consistentes, pior! A direção da escola vai fazer "o diabo" para reverter a situação - e em 99% dos casos vai conseguir. Aluno questionador, inteligente e decidido constitui forte ameaça para o status quo de um sistema educacional autoritário e incompetente como o nosso. E não é preciso comprovar esta "opinião", já que todos os indicadores nacionais e internacionais mostram a incompetência geral da educação brasileira. Até alguns anos atrás, este blog era xingado por "denegrir" a instituição escola, a ponto de termos tido que moderar os comentários. Hoje já temos os indicadores oficiais para nos "defender", mas não temos prazer algum em continuar constatando a mediocridade geral. Além disso, esses indicadores detectam apenas a falta de qualidade do ensino, não consideram os demais direitos básicos do aluno, como o de ser respeitado como ser humano e sujeito da escola.

Respondendo mais diretamente à aluna que nos escreveu:

Camila, ter direitos, neste país, de nada vale! O aluno brasileiro tem, no papel, todos os direitos possíveis, veja neste link. Na prática, a situação é complicada, pois depende de muitos fatores. Já começa pelo mau exemplo que vem "de cima", ou seja, a falta de compromisso das "AUTORIDADES MAIORES", ou seja, do ministério e das secretarias da educação, que não têm interesse algum em manter bons projetos pedagógico, que tenham continuidade. Governo vai, governo vem, cada um faz o que quer e tudo fica como está. Isto você já entendeu, né, Camila? Não interessa para o governo brasileiro, seja federal, estadual ou municipal, proporcionar aos alunos uma educação de qualidade, pois povo educado entende quando está sendo prejudicado e não deixa barato. Por sua vez, as "AUTORIDADES MENORES", ou seja, os profissionais das diretorias de ensino e das próprias escolas, sendo supervisores, diretores, coordenadores, professores etc. sentem-se perfeitamente à vontade para também fazer o que querem, já que não são cobrados. E assim forma-se esse círculo vicioso que mantém a escola na mediocridade, para não dizer coisa pior. 

Mas vamos refletir: será que tudo tem que ser regido por leis? Será que o simples ato de ouvir, dialogar, procurar chegar a um consenso, respeitar a opinião de outro, compreender que alguém possa ter um problema e tentar ajudar, será que tudo isso exige leis?? Leis existem para resolver questões difíceis, que envolvem total desacordo ou prejuízos consideráveis. Muitos problemas podem se resolver com bom senso e educação. Ou então, em que civilização vivemos?... 

Pois é, infelizmente o ambiente escolar costuma ser muito tumultuado e existe aí uma tremenda inversão de valores: profissionais que deveriam ser preparados para lidar com crianças e adolescentes - seres em desenvolvimento - cobram deles um comportamento que eles próprios não têm! Para colocar panos quentes nesta situação absurda, criaram a campanha "a educação vem de casa", amplamente divulgada pela mídia através da assessoria de imprensa dos sindicatos da "educação". 

Você coloca também a questão do aluno adulto, pois percebeu que seus "direitos" são ainda menores... Pois é: para o aluno adulto, que estuda no período noturno, as aulas vagas chegam até a 50%! Além disso, nenhum diretor de escola tem tolerância para sua condição de aluno trabalhador, que deveria receber até mais respeito, pois se trata de alguém que dá muito duro para completar seus estudos. Mas não! O portão da escola se fecha na sua cara, se ele chegar alguns minutos atrasado e, se conseguir chegar no horário, vai passar muita fome, pois não há merenda para o aluno adulto. Além disso, que não se atreva a discutir ou argumentar com algum diretor ou professor, ele arrisca sair algemado da escola.

Seria muito bom se a resposta às suas perguntas pudesse ser mais positiva, Camila, mas esta é a situação da educação pública no país. A boa notícia é que alunos como você já perceberam que estão sendo prejudicados e procuram seus direitos. A união faz a força!

Veja agora este vídeo feito por aluno, ele confirma o que foi dito acima e ainda explica por que as escolas proíbem o uso do celular em sala de aula. Este caso é uma exceção, pois as escolas são rigorosíssimas em recolher os celulares, principalmente quando percebem a gravação de algo comprometedor...

03 outubro 2015

Não há lei que resolva a incompetência da escola!



Gostamos de receber mensagens de professores e educadores, geralmente da escola particular... pois os profissionais da pública "morrem de medo" de serem identificados e de sofrerem alguma represália dos órgãos superiores (sinal de um tempo ainda muito sombrio!). Sempre que possível, tentamos ajudar.

Geralmente, porém, essas mensagens de professores e educadores da rede particular confirmam o que já sabemos: existe uma incompetência geral na área educacional, em todos os níveis, de norte a sul do país. Quem nos escreve costumam ser pessoas com pouco tempo de profissão, que não recebem orientação de seus superiores, também incompetentes. Uma tristeza!

Segue uma das mensagens "padrão" que recebemos desses profissionais. Os dizeres podem ser diferentes, mas o pedido é sempre o mesmo: tentar resolver problemas disciplinares através da legislação...

Faço a coordenação de uma escola pequena/particular no município do Rio de Janeiro. A questão é a seguinte: alunos que são colocados para fora da sala de aula por mau comportamento, estou falando de crianças do Pre II e 1º ano, não concordo com isso, mas as professoras alegam não conseguirem dar a aula dentre outras coisas. Existe na lei algo que possa ser usado para amenizar a situação? Sei que o art. 232 do ECA fala de constrangimento, porém preciso de mais embasamento, uma vez que pretendemos e precisamos somar novas medidas ao nosso regimento escolar.

Certamente, colocar crianças para fora da sala de aula constitui constrangimento, mas esclarecer sobre a legislação não vai diminuir a "irritação" das professoras, que talvez, pela impossibilidade de se livrar dos alunos "indisciplinados", começarão a ralhar com eles e a tornar um inferno a sala de aula...

Esse tipo de mensagem é "padrão", pois resume a queixa mais comum do professorado brasileiro. Existem porém vários tons nas diferentes mensagens. Essa jovem coordenadora não concorda com a corriqueira prática de colocar alunos pra fora da sala de aula, mesmo não sabendo como resolver o "problema". A maioria das outras mensagens que recebemos de professores sobre indisciplina tem um tom muito diferente, questionando por que defendemos que não se deve usar essa prática e por que não podem suspender ou até expulsar alunos da escola.

Não há lei que resolva a incompetência de uma escola! O buraco é muito mais embaixo, especialmente se tratando de alunos da Educação Infantil e dos primeiros anos do Ensino Fundamental. Se a escola não é atraente, se as aulas não são dinâmicas, se os professores não gostam do que fazem, isso se reflete no comportamento dos alunos... diferentes, desde os mais inteligentes, até os de personalidade menos dócil. Enfim, os únicos que se conformam com uma aula chata, "dada" por quem não gosta de estar numa escola (ou até nem sabe o que está fazendo lá...), são os alunos já acostumados de casa a obedecer incondicionalmente.

A maior prova da incompetência geral da educação brasileira se reflete na expressão mais falada dentro das escolas, públicas ou particulares: "A educação vem de casa". Ela exprime como as escolas desejam que os alunos cheguem à sala de aula: quietinhos, bonzinhos, cordeirinhos, ou seja, já podados em sua necessidade básica de desenvolver a inteligência e criatividade. Qualquer demonstração de vivacidade, qualquer pergunta "fora do script", são considerados indisciplina. Não falemos então de comportamento pessoal: basta que o aluno se dirija ao colega com uma simples expressão como "bobo, burro, idiota", que dê um tapa ou uma puxada de cabelos, já se instala um caos que leva a uma advertência ou suspensão. De alguns anos para cá, a campanha do "politicamente correto" chega até a inibir a ação de bons profissionais, que saberiam separar uma briga de alunos ou brincar com o vocabulário usado por eles. A escola devolve para a família toda e qualquer manifestação de comportamento "indesejado". Nas escolas públicas a situação é mais grave, pois muitos profissionais não têm o mínimo constrangimento de xingar seus alunos, ao mesmo tempo que exigem que eles não usem esse mesmo vocabulário. Isso ocorre porque o aluno da rede pública não costuma contar em casa de que forma é tratado na escola, pois os pais não se arriscam a questionar as autoridades educacionais: é a palavra do aluno contra a do professor ou do diretor da escola... Assim, à incompetência pedagógica soma-se o mau exemplo dado por aqueles que deveriam zelar pela disciplina!

Enquanto a escola não se olhar no espelho e não perceber sua incompetência pedagógica e suas limitações, nada vai mudar para melhor. A grande mídia nacional também contribui para manter essa enorme mediocridade. O Jornal Nacional apresentou, há alguns dias, uma reportagem sobre as escolas de Campo Grande, onde uma nova lei obriga os alunos - da rede pública, claro... - a lavar os banheiros e o pátio da escola, por "mau comportamento". E todos dizendo amém! QUE HORROR!!! Fica assim configurado que lavar banheiro é um castigo, não uma ação boa e corriqueira, que cabe a todos, inclusive aos diretores de escola, se for o caso. É bem possível que essa moda pegue em todo o Brasil, dada a hipocrisia nacional e a incompetência geral de todas as autoridades que lidam com o assunto educação, inclusive os jornalistas da Globo. Pois é, os filhos desses "formadores de opinião" certamente não estudam na rede pública e provavelmente nem mesmo lavam o próprio prato de comida em casa, quanto menos o banheiro da escola...

Apesar da boa vontade da coordenadora que nos enviou essa singela mensagem, nenhum adendo ao regimento escolar vai melhorar a "disciplina" dos alunos, se houver incompetência pedagógica por parte dos profissionais da escola.