30 novembro 2008

O esquema V – Tudo por dinheiro e poder


Você não entende por que seu filho não aprende nada na escola? Não entende por que ele é perseguido? Também não entende por que a escola do seu filho costuma expulsar alunos? Está difícil entender por que a escola exige a compra de uniforme, taxa para carteirinha, para papel, para a APM?

Tudo muito fácil de explicar, mas não pense que a TV Globo ou outra mídia vá esclarecer suas dúvidas. O esquema é poderoso e os tentáculos chegam aonde você nem imagina...

A educação é o negócio mais rentável deste país. Não estamos falando apenas de $$$, mas também de poder e dividendos eleitorais.

Recebemos notícias do Brasil inteiro, mas vamos nos limitar ao nosso estado, o de São Paulo, pois temos dados mais concretos e contatos mais diretos com pais, alunos, diretores de escola e outros profissionais da educação.

Repare bem: o presidente do Conselho de Escola, na rede estadual de São Paulo, é SEMPRE O DIRETOR. Entenda agora por que a eleição dos Conselhos de Escola e das APMs não é feita de forma aberta e transparente. As escolas recebem muitas verbas, estaduais e federais, que chegam às contas da APM. As normas exigem que a prestação de contas seja feita de forma muito rígida, por exemplo, verba para jardinagem não pode ser utilizada para troca de fechaduras etc.

Os pais que participam de Conselho e APM são geralmente escolhidos a dedo pelos diretores de escola e não recebem qualquer instrução ou treinamento sobre como administrar as verbas. Então a impressão que eles têm é que se trata de tarefa muito difícil e vão fazendo tudo o que os diretores pedem, desde assinar cheques em branco, até aceitar manobras do tipo: a jardinagem pode esperar, pois surgiu a emergência de precisar trocar as válvulas de todos os banheiros. Mas para isso não veio verba! As válvulas dos banheiros podem estar em perfeito estado, mas, na boa fé, os pais acatam a idéia do diretor e assim se faz uma reunião da APM para resolver o “problema”. Já que a verba é destinada a outra despesa, a solução não é simples. Mas profissionais sem ética tiram o assunto de letra! Alguém da comunidade certamente conhece um encanador, alguém que possa fazer esse serviço sem exigir nota, não é mesmo? Ele vai receber pelo serviço, mas a prestação de contas vai ser feita de outra forma. “Alguém” vai fornecer uma nota de serviços de “jardinagem”, mas é claro que o valor será maior, pois essa nota tem um “custo”. Trata-se da famosa “nota fria”. Esse valor a maior vai provavelmente ser dividido entre diversas pessoas, pois quem constrói um esquema arruma cúmplices para amarrar seu “rabo”. Está bem claro o português?... Se isso acontece com verbas públicas, pagas com o dinheiro suado dos seus impostos, imagine então o que acontece com as taxas da APM e as demais que as escolas exigem que você pague, sem recibo nem prestação de contas...

Segundo as informações que nos chegaram, o escândalo de Araraquara, relatado nos últimos posts, funcionou mais ou menos dessa forma, durante dez anos. 90% das escolas da cidade teriam aderido ao esquema, ou seja, os diretores faziam manobras desse tipo, as notas frias eram fornecidas por um escritório de contabilidade e uma parte do lucro era repassado à dirigente de ensino, que, óbvio, não era burra a ponto de declarar que embolsava aquele dinheiro. Ela alegava que “uma outra escola” da região estava necessitada de algum conserto ou equipamento, mas que não havia verba. Ou então, a mentira era de que a própria diretoria de ensino estava desprovida disso ou daquilo...

O esquema era poderoso e não podia tolerar diretores dissidentes ou caguetas. A cidade tem mais de 50 escolas estaduais e apenas alguns diretores se negaram a participar. Aconteceu com eles exatamente o que acontece com os pais de alunos que percebem alguma irregularidade na escola de seus filhos e resolvem reclamar ou denunciar: esses diretores começaram a ser perseguidos e prejudicados. Como?

A dirigente de ensino armou diversas situações que você, mãe e pai de aluno, conhece de sobra, mas nunca pensou que estivessem ligadas ao desvio de dinheiro da educação: através de supervisores, professores e outros profissionais que participavam do esquema, ela criou uma rede de calúnias contra esses diretores, para que toda a comunidade se voltasse contra eles. Isso é muito fácil para um dirigente de ensino: basta fazer algumas trocas de professor nas escolas, colocando seus aliados em pontos estratégicos. Esses se encarregam de jogar “lama” em quem não participa do esquema e os pais, alunos e membros da comunidade acreditam piamente. Assim, os poucos diretores honestos na cidade acabaram sendo processados com base em calúnias. O “feitiço”, porém, se voltou contra o feiticeiro. O esquema foi denunciado e a própria dirigente de ensino está sendo processada, junto com mais de 20 diretores de escola. No país da “pizza”, porém, isso não significa nada, a não ser que a corda costuma arrebentar do lado mais fraco. Até hoje, apenas dois diretores foram exonerados, os demais vão provavelmente ser livrados de pena e os restantes 30, que também estavam envolvidos no esquema, não foram sequer chamuscados pelo escândalo!

O mais grave de toda essa história é que NENHUM SUPERVISOR DE ENSINO foi processado, sendo que PRATICAMENTE TODOS estavam envolvidos no esquema. Quanto à dirigente de ensino de Araraquara, temos quase certeza de que a Secretaria da Educação vai deixar prescrever o processo administrativo, como é de praxe.

Para que fosse feita JUSTIÇA, seriam necessárias duas ações:

Que os deputados estaduais investigassem o esquema e exigissem a punição de todos os culpados. Duvidamos que isso aconteça, pois os primeiros processos abertos em Araraquara datam do ano de 2003 e estão próximos da prescrição. Provavelmente, alguns políticos influentes estão acobertando o esquema. Entendeu agora por que falamos de dividendos eleitorais? A educação é a maior “fábrica” de cabos eleitorais do país!

Que a mídia divulgasse esse escândado com isenção e detalhamento. Os jornais locais têm dado alguma cobertura, mas o escândalo é abafado em rede nacional. A própria TV Globo local registrou os fatos, mas eles não foram divulgados nem no Jornal Nacional e muito menos no Fantástico, que virou o porta-voz do "pobre" profissional da educação. Exatamente o que ocorre com as agressões de alunos pela PM. As Secretarias da Educação deste país são as instituições mais poderosas!

Bem, mãe ou pai da APM: agora você entendeu o que ocorre com as verbas da educação quando você assina cheques em branco ou entra na conversa da diretora da escola dos seus filhos, que manda lavar a caixa d´água todos os meses, por exemplo. Também entendeu por que na escola dos seus filhos falta papel higiênico, material de limpeza etc. etc.

Mas você ainda não entende o que isso tem a ver com ensino ruim, com perseguição e expulsão de alunos. Tudo a ver! As escolas são “nota zero” porque não há interesse algum em ensinar aos seus filhos. Diretores e professores corruptos matriculam seus filhos na escola particular e querem mais que os filhos “dos outros” permaneçam na ignorância! Tem mais: você que é do Conselho de Escola e é chamado para expulsar algum aluno, saiba que provavelmente se trata de alguma criança filha de pais que perceberam e se atreveram a denunciar o esquema. Se for algum adolescente, provavelmente é um aluno mais inteligente do que a média. Esses são muito perigosos para o esquema, por isso precisam ser “eliminados”.

Pai e mãe de alunos, cuidado para não se envolverem no esquema! A vítima será seu próprio filho!!

Para finalizar, uma adivinha: se 90% das escolas de Araraquara estavam envolvidas em um esquema que foi revelado por um escândalo, mas que periga acabar em pizza, qual a percentagem de diretores corruptos na sua cidade?...

27 novembro 2008

O esquema IV - Araraquara é apenas a ponta do iceberg


Animados com a repercussão do último post, resolvemos publicar mais uma mensagem da diretora processada em Araraquara. Ela mostra claramente como os pais e alunos costumam ser usados pelo esquema: os pais são convidados a assinarem cheques em branco para “pagarem” notas frias; os alunos são instigados ao quebra-quebra e à baderna nas escolas. Tem mais: escola onde existe bandalheira é onde os professores torturadores têm carta branca.

Pais das APMs: nunca assinem cheques em branco!!! Isso vai envolver vocês em um esquema corrupto. Se a direção da escola dos seus filhos exigir esse procedimento, denunciem para a supervisão ou diretoria de ensino. Se ninguém der ouvidos para vocês, escrevam para nós: educaforum@hotmail.com

Aluno da escola publica: não se deixe influenciar por maus “educadores”, que fazem intrigas para que você brigue com seus colegas ou faça baderna dentro da escola! O papel do professor é ensinar, aliás, ENSINAR BEM! Se ele só sabe fazer intriga, então que seja afastado da escola. Fale com seus pais e aponte os maus profissionais da educação! Ou então escreva para nós, mencione o nome do professor e a escola.

Segue o depoimento da diretora de Araraquara, cujo nome ainda estamos preservando, para que não seja mais uma vez massacrada por “autoridades” corruptas, omissas e covardes. Prestem bem atenção no trecho que fala do professor pedófilo. Será que a imagem que a sociedade faz do professor é de um "santo" intocável, ao ponto que até atos de pedofilia dentro da escola passam impunemente? Será que ninguém consegue conceber que possa existir pedofilia na escola??? E OS QUE SABEM DE FATOS COMO ESSES SE CALAM???

Eu sofri processo em janeiro de 2005 e como batia de frente com a dirigente, após a remoção para uma nova escola, ela mandava bandos de supervisores irem lá, para orquestrar com alunos o quebra-quebra e o desaparecimento de patrimônio.
Antes desse processo sofri um outro: os professores alegavam que tinha desaparecido um DVD que eu nunca havia visto, a dirigente mandou um processo e perdeu, porque eu fui absolvida.

Uma outra diretora de escola foi questionar a dirigente e acabou levando um processo também, mas o marido dela, ao saber que a Sandra ia jogar sujo, correu atrás das notas no escritório de contabilidade, levantou as firmas fantasmas, denunciou o esquema na radio, tv, e até hoje luta.

A Sandra Rossato processou essa outra diretora, alegando que faltava material pedagógico na escola, limpeza, sendo que a escola dela era linda, limpa, organizada. Ela fazia os professores trabalhar, mas existia uma bronca com ela porque um professor da escola foi exonerado por torturar alunos, ele apertava o cinto da calça, os que usavam brinco chamava de bicha, os que tinham dificuldades chamava de ameba, burro e as menininhas bonitinhas ele cantava. Foi um processo longo, esse professor ficou afastado da escola dela por cinco anos e os professores que ficaram se intimidaram, achando que o mesmo poderia acontecer com eles. A partir daí a vida dessa diretora se tornou um inferno e a Sandra se aproveitou da ira dos professores, armou um escândalo e acabou com a reputação dela, fez manifestação de dois dias e sabem quem articulou tudo, quem ajudou reunindo pais, mentindo, inventando? Foi outro professor, o FAMOSO PEDÓFILO, ele pegava meninos e meninas para fazer sexo oral, pegava nos peitinhos das meninas e roçava as pernas. Ele é repugnante e a bandida da Sandra se aproveitava das articulações dessa figura para atacar a diretora da escola, que hoje está afastada na diretoria de ensino de São Carlos, mas mora em Araraquara e está sofrendo horrores, porque não consegue ter acesso ao processo, que se encontra na 2ª unidade processante.

De todo o esquema de Araraquara, apenas dois diretores foram exonerados:

Ana Claudia Camargo Cardoso da Silva - exonerada por notas fiscais frias em 2003
Hermilo Machado - exonerado em 2005
Valmir Rodrigues é um diretor de escola processado também na 2ª unidade processante - mas a Sandra Rossato falou para ele: "Suma do mapa que te livro". Ele foi para SP na escola João Silva - Sul 2 e agora desapareceu de vez. Ninguém sabe dele.

Ainda tem 22 diretores que estão na ativa nas escolas e apesar do processo não sofreram nenhuma manifestação ou qualquer constrangimento, mas estão cheios de notas fiscais frias. O esquema de Araraquara, porém, é muito maior. E o pior de tudo é a falta de responsabilização dos supervisores de ensino, todos coniventes com a situação. Se a Sandra Rossato sair impune, tudo vai acabar em pizza. Se ela for exonerada, poderemos ao menos questionar a Secretaria da Educação com respeito à impunidade dos supervisores de ensino e dos demais envolvidos.

25 novembro 2008

O esquema III

Quem tiver o hábito de ler com atenção este blog (aquela meia dúzia de três ou quatro que aguentam toda a nossa chaaaatice) vai poder acabar de montar o quebra-cabeça que começamos a desvendar há 15 anos. Caso outra meia dúzia de três ou quatro queira tentar entender, recomendamos ler os textos anteriores, O esquema e O esquema II, além do nosso relato sobre o processo administrativo na EE Padre Josué, em São João da Boa Vista:

http://educaforum.blogspot.com/2008/09/o-esquema.html
http://educaforum.blogspot.com/2008/10/o-esquema-ii.html
http://educaforum.blogspot.com/2008/10/churrasquinho-de-me.html

O texto a seguir é a “cereja do bolo”. Trata-se de uma das inúmeras mensagens que recebemos sobre o esquema de corrupção nas escolas estaduais de Araraquara, SP. História veeeelha e muito, muito suja! A mensagem é assinada e o conteúdo é público, pois a denunciante sofreu processo, no entanto preservamos seu nome, como sempre fazemos quando percebemos que a corda vai arrebentar do lado mais fraco.

Vamos lá:

O esquema consistia no seguinte: a verba chegava às escolas e a dirigente de ensino, Sandra Rossato, na certeza da impunidade, mandava pegar notas fiscais frias, fazer a prestação de contas e repassar uma quantia em dinheiro para ela. E ninguém denunciava. Eu sou diretora de escola afastada porque me cansei desse esquema, fiquei completamente exausta, comecei a falar "não" e quem falava "não" para ela ia para o cativeiro, ou seja, ficava afastado até à exoneração. Antes de mim dois foram exonerados pelos mesmos motivos, mas os dois fecharam o bico, não denunciaram.Quando me removi para uma outra escola, a dirigente e os supervisores acabaram com a minha reputação, mandaram os alunos fazer quebra-quebra e manifestações contra mim, juntaram-se aos professores que participavam do esquema e tinham regalias na escola, ou seja, não davam aulas, havia no período noturno alunos-fantasmas, classes inexistentes e mesmo assim recebiam por essas aulas. No papel era uma coisa e na real uma outra bem diferente. A escola estava completamente esvaziada e a assistente de planejamento era obrigada a fazer o quadro com informações montadas, fictícias. Houve um escândalo, abafado pela secretaria da educação, e a dirigente se aposentou como supervisora de ensino, respondendo hoje ao processo nº 95/2006 na 3ª unidade processante, mas ela possui forte proteção política e ameaça todos que se atrevem a atravessar seu caminho. Teve o envolvimento de um escritório de contabilidade que fornecia os talões de notas frias, uma funcionária desse escritório foi atropelada em um suposto acidente, ela estava de moto e o motorista fugiu. A funcionária, de apenas 24 anos, sabia demais e pagou com a morte.Outra funcionária está ameaçada de morte e tem muito medo.Lutamos agora para que a dirigente, com toda a sua influencia política, não saia isenta, livre, impune, que ela seja responsabilizada por seus atos pensados,muito bem planejados, pois durou 10 anos.O esquema é enorme, até a FDE é suspeita, pois só apurou 22 escolas e só diretores foram processados, nenhum supervisor, sendo que todos eram coniventes e paus mandados da dirigente. A FDE fez uma média e encerrou a apuração alegando dificuldades de checar todos os diretores de escola.Os supervisores de ensino sabiam do esquema e obedeciam à dirigente quando ela ordenava que desse cabo de um diretor, difamando-o na cidade como ladrão e corrupto, ordenando o fim da carreira e orquestrando sua exoneração.Muito dinheiro da educação foi para o bolso de muita gente, tem que ser devolvido e os culpados punidos. Não é possível que só prejudiquem os pequenos, os mais fracos, como sempre foi.

Qual o seu palpite para o fim dessa história?...

A propósito: algum paralelo com a EE Amadeu Amaral, outra escola "esvaziada" onde foi promovido um quebra-quebra?...
Leia aqui: http://educaforum.blogspot.com/2008/11/estamos-de-luto.html

20 novembro 2008

Compactuar com a formação de quadrilhas?


Já cansamos de dizer e mais uma vez repetimos que

UM GRUPO DE PESSOAS QUE SE REÚNE PARA INFRINGIR A LEI É UMA QUADRILHA.

Temos plena consciência de que as leis são transitórias e que podem ser atualizadas conforme a evolução da sociedade, como, por exemplo, a legislação que envolve o casamento, mas entendemos que os procedimentos de alteração das leis precisam seguir a Constituição. Entretanto, neste país dito democrático, uma instituição teima em fugir ao domínio da lei, com a anuência e a aprovação dos formadores de opinião:

A ESCOLA PÚBLICA.

Na rede pública de ensino, seja qual for o município ou estado, A LEGISLAÇÃO QUE GARANTE AO ALUNO ENSINO E SEGURANÇA NA ESCOLA É LETRA MORTA.

A escola pública é domínio da corporação, desde as secretarias da educação, onde as dimensões da rede são o argumento para não se tomar providência alguma, até os diretores de escola, que se sentem no direito de torcer os dedos dos alunos (fato verídico e impune ocorrido numa escola da rede estadual de São Paulo). A fala das autoridades mais graduadas é sempre a mesma: “A rede é muito grande e trata-se de casos isolados”. Tudo para que o caos continue ad aeternum.

Até hoje essa postura de omissão foi velada, de forma que se poderia esperar alguma mudança. Entretanto, o exemplo dado esta semana pela Secretaria da Educação do estado mais poderoso da União não deixa mais nenhuma dúvida quanto à intenção das autoridades, de que a ilegalidade continue imperando soberana naquilo que se chama, paradoxalmente, EDUCAÇÃO.

A invasão da polícia e o espancamento de alunos não é novidade na rede pública de ensino do país inteiro, como você já assistiu em diversos vídeos reproduzidos aqui:
http://tvparanaense.rpc.com.br/index.phtml?Video_ID=23678&seq=&autostart=1
http://educaforum.blogspot.com/2007/11/no-que-d-policia-na-escola-absurdo.html

Esta semana foi divulgado um fato que relatamos no post anterior, Estamos de luto. O que diferencia essa ocorrência das demais é que a Secretaria da Educação ignorou solenemente os espancamentos de alunos da escola por PMs, limitando-se a instaurar um tribunal de exceção para expulsar aqueles que teriam provocado o vandalismo que justificou a presença da polícia na escola. Assim, alguns alunos, sejam culpados ou inocentes, serão julgados por seus “superiores”, dentro do ambiente onde ocorreu o crime, em uma cerimônia que lembra os tenebrosos tribunais da Inquisição.

Se, até hoje, a SEE procurou disfarçar sua atitude de promover a expulsão de alunos via Conselho de Escola, insinuando que se tratava da iniciativa isolada de algumas unidades, agora admitiu que não apenas apóia, como promove a ação. Leia trecho da nota da Secretaria, publicada em O Globo (a íntegra está no post anterior):

A direção da escola irá identificar os alunos que participaram da depredação e acionará o Conselho de Escola, que reúne pais e educadores, indicando a expulsão e transferência dos envolvidos. Cabe ao Conselho decidir a punição.

Desta forma, a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo está DANDO O EXEMPLO para todo o Brasil de que o julgamento e a expulsão de alunos, mesmo inconstitucional, é um ato que pode ser decidido por uma quadrilha reunida para tal fim. Isso é o mesmo que legitimar o terror dentro da escola. Só quem tem ou teve filho estudando na rede pública pode avaliar o alcance dessa declaração da SEE.

Nenhum influente formador de opinião se manifestou contra essa declaração e isso comprova que o Brasil é um país onde se aceita qualquer ilegalidade, desde que ela não prejudique os próprios formadores de opinião, cujos filhos estudam na rede particular de ensino. Assim é: quanto mais alunos forem expulsos da escola, maiores as oportunidades para os que lá permanecem. Não faltam pesquisas que comprovam os altos índices de exclusão escolar no país, mas não se ouve a voz de nenhum pesquisador, analista ou autoridade para condenar a sumária expulsão de alunos.

A Secretaria de Estado da Educação pediu nossa colaboração para ajudar a criar uma página dedicada aos pais de alunos em seu website. Considerando a péssima qualidade do site da SEE, apelidado de “buraco negro”, estivemos de início tentados a colaborar. Entretanto, após os últimos acontecimentos e a declaração pública da Secretaria, que finalmente se revela responsável direta pela criação de tribunais de exceção nos Conselhos de Escola, nossa resposta oficial é não:

NÃO COMPACTUAMOS COM A FORMAÇÃO DE QUADRILHAS.

16 novembro 2008

Estamos de luto



  • por vermos a PM espancando alunos dentro de uma escola. Preocupada apenas com o valor venal do edifício, a sociedade aceita que o prédio, supostamente espaço do saber, seja um antro de lassidão e descaso, onde tudo é possível;
  • por vermos esses mesmos alunos, nossos filhos, abandonados dentro de salas de aula sem professor, recebendo a famigerada AULA VAGA, modalidade de ensino em que o Brasil é campeão mundial;
  • por uma escola que virou depósito de crianças e adolescentes, não por parte dos pais, que gostariam de ver seus filhos aprendendo, mas de autoridades que largam esses alunos sem ocupação em salas de aula e pátios onde podem brigar, se machucar e ainda apanhar da PM;
  • por percebermos que as verbas da educação, em vez de servir para instruir e orientar os alunos no caminho da responsabilidade e da honestidade, são utilizadas para alimentar cabides de emprego que produzem escolas como a depredada, cuja nota do IDESP no Ensino Médio é 0,92;
  • por escolas de período integral onde tudo o que o aluno recebe é o dobro de AULAS VAGAS e descaso;
  • pelas atitudes e declarações da SEE, que mais uma vez limitou-se a ignorar a lei e a responsabilizar os alunos pelo fracasso da escola, determinando a instauração de mais um tribunal ilegal em que crianças e adolescentes serão, quando não expulsos da escola, pressionados a se tornarem caguetas de seus colegas e a mentirem sobre a violência da PM;
  • pela covardia de supostos "educadores" que presenciaram cenas absurdas de violência contra seus alunos e lavaram as mãos, furtando-se ao dever de denunciar as agressões ao Ministério Público e orientar os pais para fazerem exame de corpo de delito;
  • pela leviandade da Globo, que forjou flagrantes para demonizar os alunos e aceitou declarações como a da direção da escola, que “não viu” nenhum PM machucar crianças e adolescentes barbaramente agredidos;
  • por uma sociedade que encara o vandalismo da classe “docente” em suas manifestações públicas como mero protesto, enquanto coloca mordaça nos alunos e seus pais, que devem engolir a seco uma escola relapsa, incompetente e corrupta.

A rede pública estadual de São Paulo vive um imenso faroeste, onde a Lei e a própria Constituição servem apenas de papel de embrulho.

Leia a íntegra da nota da Secretaria da Educação, publicada em O Globo:

"Sobre a depredação da escola Amadeu Amaral, a Secretaria de Estado da Educação esclarece que pela manhã de hoje (12 de novembro) foi iniciado tumulto após discussão entre duas alunas. Colegas delas se envolveram na discussão e iniciaram a depredação da unidade.
Professores tentaram conter a confusão e decidiram acionar a policia, que chegou ao local e conteve os alunos. A direção da escola informou à Secretaria que os professores não foram acuados pelos alunos. A direção irá identificar os alunos que participaram da depredação e acionará o Conselho de Escola, que reúne pais e educadores, indicando a expulsão e transferência dos envolvidos. Cabe ao Conselho decidir a punição.
Uma equipe da Secretaria irá averiguar os danos causados pelos alunos. Um aluno se feriu levemente, com corte na mão. A direção da escola decidiu suspender as aulas para que os danos sejam avaliados.
A Secretaria lamenta qualquer agressão contra alunos e professores. A direção da escola tomou a atitude correta de acionar a polícia para conter os alunos envolvidos no caso"

Leia agora trechos da matéria publicada pelo CMI, Centro de Mídia Independente, com base em informações da Folha de São Paulo http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2008/11/433457.shtml

Rebelião da Escola Amadeu Amaral: A violencia policial que a mídia escondeu.

"A adolescente T., da 7 serie, de 13 anos, saiu correndo para socorrer a irmã caçula, da 5 serie, de 10 anos, que estava desmaiada. Sentiu o ardor de uma forte cacetada nas costas, desferida por uma policial militar. T. correu, assim mesmo, rumo à classe da irmã. Tomou mais duas borrachadas. No caminho, viu crianças vomitando de medo."

O confronto começou às 9h20 desta quarta-feira (12), quando, sem motivo claro, 30 alunos começaram a destruir a escola. ''Meninos embrulhavam os pulsos em camisetas para estourar os vidros com socos. Cadeiras foram arremessadas do 2º andar, depois de arrebentar as janelas'', contou uma aluna da 7ª série.

O quadro agravou-se porque, dez minutos depois de iniciada a depredação, duas adolescentes, uma de 15 anos e outra de 18 anos, começaram uma briga violenta de unhadas e puxões de cabelos. A rivalidade entre as duas existe desde o início do ano e piorou quando uma acusou a outra de ''prostituta''. Enquanto a destruição se propagava por todo o prédio, os professores, com medo, trancaram-se em uma sala de aula. Não foi a primeira vez que a Amadeu Amaral viu-se às voltas com cenas de violência. Anteontem mesmo, por causa de uma excursão a um museu, quando só uma parte dos alunos foi autorizada a participar do passeio, os excluídos abordaram a vice-diretora, Denise Mayumi Cavali, na hora da saída. Um aluno de 15 anos empurrou a professora contra o portão e xingou-a. Ela teve que pular um muro para fugir.

Fundada em 1909 no largo do Belém, bem em frente à igreja, a escola ocupa um prédio amplo, tombado pelo patrimônio histórico, mas que hoje é usado por apenas 277 alunos, atendidos por 63 professores. É uma das 500 escolas em que a Secretaria de Estado da Educação implantou o regime de turno integral. Alunos entram às 7h e saem às 16h.

''Isso aqui é um fracasso como escola'', diz Neide Catarina Nascimento, 46, cozinheira e mãe de um aluno de 16 anos da 7ª série que ''nunca passa de ano mesmo''. ''Todo mundo tenta transferir os filhos para outra escola, já que nesta ninguém aprende nada.'' Pouco depois, o aluno W., de 14 anos, conta como foi expulso da escola, há três semanas. ''Eu joguei uma cadeira na coordenadora e já bati em vários professores'', diz. Como a dicção do menino é precária, pede-se que ele escreva o seu nome em um papel. Ele não consegue. ''Só sei copiar'', diz. ''Mas sou uma máquina copiadora.''

A evasão na esola é grande. Uma das salas de aula começou o ano com 37 alunos - hoje só tem oito. Na classe de A., 14 anos, 8ª série, a lista de presença cita 24 alunos. Doze ainda vão. Na classe de J. e U., as brigonas da 7ª série, 24 se matricularam. Hoje, oito assistem às aulas. Segundo a Secretaria da Educação, a evasão total neste ano foi de apenas 19 alunos.

Responsável pela operação da Polícia Militar na escola Amadeu Amaral, o capitão Alessandro Marcos de Oliveira disse ontem que os estudantes foram contidos no ''berro''. ''Com a criançada você dá dois ou três berros e eles sossegam um pouco. Se um mais exaltado vem para cima, você berra um pouquinho mais forte e ele pára'', disse o capitão. Mas a versão do capitão não condiz com a versão dos estudantes e professores. A Folha conversou com ao menos 35 alunos e todos afirmaram que a PM utilizou cassetetes para conter o tumulto dentro da escola.

''A PM tratou os alunos como se fosse uma rebelião da Febem'', diz Leandra Firmino, 34, mãe de quatro filhos, três deles alunos do Amadeu. ''Aqui eles não voltam, mesmo que percam o ano.''

Na porta da escola, após a confusão, os jovens mostravam os machucados. L., 15, exibia sangue no peito: ''Fiquei trancado em uma sala, me deram soco e golpe de cassetete. A PM falava que era ela que mandava na escola.'' A estudante T., de 13 anos, que cursa a 7ª série, conta como apanhou dos policiais. Ela estava escondida na sua sala de aula, no segundo andar do prédio da escola, quando colegas vieram avisá-la de que sua irmãzinha, F., de dez anos, da 5ª série, estava jogada no chão de sua classe, inconsciente. ''Desmaiou de medo'', T. explica. A adolescente saiu correndo para socorrer a caçula. Sentiu o ardor de uma forte cacetada nas costas, desferida por uma policial militar. T. correu, assim mesmo, rumo à classe da irmã. Tomou mais duas borrachadas. No caminho, viu crianças vomitando de medo. Viu também a diretora da escola, Maria Regina de Negreiros, subindo as escadas e gritando: ''Não fui eu, não fui eu'', em resposta às perguntas dos alunos sobre se havia sido ela que acionara a PM. Em seguida, a própria Regina desmaiou. Durou dez minutos a ocupação da escola pela PM.

10 novembro 2008

Só a verdade tem o poder de fazer História!


Leia este poema de Rafael Feitosa, jovem maranhense de 17 anos, que aos 12 chegou a ser expulso da escola e se destaca agora como habitual campeão de concursos de poesia.

ÁGUAS DE AMOR

Uma flor...
Uma vida....

Que águas brotam em minha raiz?
Lágrimas?
Riso?
Sangue?
Sonho?

Meus olhos
despertam
as águas
mais puras...

Minha raiz
tem cores

Quantos
humores

Uma realeza
de flores
desbota
nas águas
de hoje

De onde
brotam
amores.

Lindo, não é? Mas, acredite se quiser: as duas linhas introdutórias são relatadas como “Reportagem online” pela Revista Nova Escola, que publicou mais três poemas do adolescente.

Dá para entender? Quatro expressivos poemas de um jovem expulso da escola, publicados na melhor revista brasileira de educação, mereceram APENAS duas linhas de comentário a respeito, DUAS LINHAS chamadas de “Reportagem online”... Para a revista Nova Escola, expulsão de alunos é assunto tabu.

ISTO É BRASIL, onde a voz da criança e do adolescente é abafada em todos os níveis, até mesmo na melhor (este adjetivo não é irônico!) revista de educação do país... Sabe por que? Porque até hoje a criança e o adolescente são considerados cidadãos menores, principalmente aqueles (a maioria!) que frequentam a rede pública de ensino. Quando, então, essas crianças ou adolescentes têm a infelicidade de serem expulsos da escola – o que acontece A RODO na rede pública – eles passam à condição de alunos-fantasmas.

De todas as matérias dessa edição da Nova Escola Online, a única que achamos realmente significativa foi a reprodução dos quatro poemas desse garoto. Leia os outros aqui http://revistaescola.abril.com.br/online/reportagem/poesias-rafael-feitosa-397784.shtml
Mais uma vez nos entristece a postura politicamente correta da Nova Escola, ao passar por cima de fatos tão graves como a expulsão de alunos da escola, sendo que o relato desse adolescente poderia ser tão revelador e positivo quanto seus próprios poemas.

Queremos então lançar um desafio para os pais e alunos que nos lêem: a revista Nova Escola está promovendo um concurso que consiste em desenvolver o tema “Como uma escola entra para a história?”. Já imaginamos o mundo cor de rosa que, mais uma vez, a Nova Escola vai mostrar para o Brasil: lindas escolas que “transformam” o país...

Pois é! Mais uma vez lamentamos a crença ingênua (ou não) de que bons exemplos operam “milagres”. Se isso fosse verdade, a qualidade do ensino no país já estaria excelente e o nível de evasão teria estagnado, já que tudo o que a “Nova” Escola faz, há décadas, é mostrar bons exemplos... O que ocorre é o efeito contrário: o país fica anestesiado, como cansamos de afirmar em todos estes anos.

Nosso desafio é lançar o concurso Como a história do Brasil ignora a escola.

O nosso concurso consiste em pedir a pais, alunos e professores de todo o país, relatos sobre a escola que maltrata, discrimina, exclui e expulsa o aluno. Ao contrário da Nova Escola, não exigimos nenhum tamanho de texto, apenas a veracidade, o nome da escola e de quem assina. E, também, todos os depoimentos serão publicados, em um dossiê que poderá chocar o Brasil inteiro. É claro que vamos checar cada informação, para que não sejamos – para variar – taxados de inventores de histórias. Esperamos assim formar um painel realista para “complementar” os exemplos cor de rosa que serão certamente mostrados pela Nova Escola.

Com isso, não pretendemos desmerecer os exemplos positivos que a melhor revista de educação do País costuma apresentar, muitos dos quais, aliás, já relatamos neste blog. Repetimos, porém, que os bons exemplos, no Brasil, costumam ser usados apenas para efeito de fachada, escondendo o que se passa, de fato, dentro dessa instituição tabu que se chama escola.

Coragem, pais, alunos e ex-alunos de todo o Brasil: enviem seu depoimento para educaforum@hotmail.com até o final de fevereiro de 2009. Quem sabe, a gente até consiga publicar um livro escrito a mil mãos, em que o nome de cada um de vocês será indicado como co-autor.

Acredite: só a verdade tem o poder de fazer História!