29 dezembro 2015

Alunos das escolas de luta: do MACRO ao MICRO




A História mostra que nenhuma vitória é duradoura se a luta não for exercida de baixo para cima.

Pela primeira vez em mais de duas décadas de degradação, a rede pública paulista parece estar em condições de recomeçar do zero, para finalmente garantir aos seus alunos uma vida escolar digna e propícia ao aprendizado.

O furacão que trouxe essa boa nova foi a indignação da camada "menor" da comunidade escolar: os alunos. Ou seja, esse movimento começou onde ninguém suspeitaria. Acostumada a manter os pais de alunos sob controle, mediante uma falácia chamada Escola da Família, além das tradicionais ameaças de expulsão dos filhos via Conselho de Escola, a Secretaria da Educação não podia acreditar que as ocupações das escolas por seus alunos dariam no que deram: a suspensão do projeto de "reorganização" da rede.

A própria sociedade brasileira ficou pasma - ainda sem entender bem o que está se passando - com a coragem, a determinação e a inteligência que os alunos demonstraram durante este mês e meio de intensa luta contra um sistema que até hoje os tratou como reles números...

Ora, os alunos da rede pública não "eram" burros, preguiçosos, ignorantes, mal-educados?... Ah, essa rebeldia só poderia ser influência "da oposição", "das esquerdas", "dos direitos humanos dos bandidos"...

Só que não! Estratégias inteligentes e bem articuladas formaram uma rede entre os mais de 200 colégios ocupados no Estado, que acabou influenciando escolas em outros estados e recebendo apoio até do exterior.
De nada adiantou - ou até atrapalhou - a truculência policial do Alckmin, derrotada por atitudes como a da menina da imagem acima. O aluno covardemente carregado de cabeça para baixo pelas ruas comoveu a sociedade, que começou a perceber a desigualdade das forças e a apoiar as escolas de luta.




A gota d'água foi o vazamento do áudio de uma reunião interna da SEE pelos Jornalistas Livres (entre os melhores aliados das escolas de luta durante esta batalha), em que o chefe de gabinete, Fernando Padula, declarava guerra aos alunos. Mesmo a contragosto, o governador teve que recuar.

Muito espertinho, tio Geraldo mudou de tática, suspendendo o projeto e prometendo que tudo será discutido "escola por escola" no ano que vem. Mas ele deixou um rabinho que revela qual vai ser a tática com a qual pretende ganhar esta guerra: pressionar os pais de alunos, hoje o elo mais fraco da disputa. Até agora, os pais ficaram na retaguarda, com medo das perseguições e represálias que seus filhos sofrerão durante o próximo ano letivo.


É nesse ponto que a batalha dos alunos, ganha através de um movimento corajoso, pacífico, inteligente, tenaz e com lances arrojados, como as mensagens grafitadas nas paredes das escolas, corre o risco de ser derrotada pelas boas intenções dos pais, preocupados com diplomas, certificados, avaliações e quetais... Essa é uma discussão urgente a se fazer na sociedade brasileira: afinal, o que é que vale na educação? Será o papel?...

A situação atual é muito crítica, pois os alunos não se limitaram a rejeitar o projeto de reforma do governo. Durante o período da ocupação, tiveram reuniões - até conjuntas entre membros das diversas escolas de luta - discutindo não apenas a política educacional MACRO do governo, mas também a "pedagogia" praticada dentro de cada escola, ou seja, a questão MICRO.

Muito contribuiram para esse debate, principalmente, as descobertas de salas "secretas" que ocultavam materiais pedagógicos negados aos alunos, e também as tentativas truculentas de invasão das ocupações pelos diretores de escola, acompanhados por pais e alunos enfurecidos, além de policiais militares que davam as coordenadas de como invadir os colégios sem deixar rastros, ou seja, tentando incriminar os alunos que ocupavam as escolas...




Esses debates dentro das escolas de luta foram tão aprofundados que resultaram em denúncias, como, por exemplo, na EE Carlos Gomes, em Campinas. Lá, os alunos acusaram a direção de "perseguição, humilhação, autoritarismo, assédio, desrespeito, preconceito e discriminação a estudantes, familiares, funcionários e professores".

Essas denúncias resultaram no afastamento da diretora da escola para uma "apuração preliminar". Isto mostra que o movimento das ocupações está exercendo um poder muito maior do que combater apenas o autoritarismo MACRO na rede de ensino. Além das medidas autoritárias do governador e da Secretaria da Educação, é preciso combater o autoritarismo MICRO dos diretores, supervisores e demais profissionais da escola.

Mas, atenção! Há também casos que já comprovamos diversas vezes, de complôs organizados por certos professores para derrubar diretores de escola que "incomodam" - os bons diretores, esses que cobram assiduidade, pontualidade e compromisso dos profissionais da escola...

Depois que os alunos das Escolas de Luta começaram a mexer no vespeiro que é a rede paulista de ensino, vai começar a emergir todo tipo de problema, inclusive atos de corrupção MACRO e MICRO, desde reformas de escola que não saem do papel, embora a verba seja "contabilizada", até a compra de materiais feitas pelas APMs através de notas frias de empresas fantasmas...

Tomara que esses alunos saibam segurar esse rojão, pois não vão faltar perseguições, represálias e calúnias! Eles precisam urgentemente do apoio dos próprios pais, das entidades de direitos humanos e da mídia alternativa, para que não desistam no meio do caminho ou, pior, que não sejam desmoralizados por uma manobra que costuma pegar bem. Prestem bem atenção:

A direção do colégio chama uma ampla reunião com toda a comunidade escolar, principalmente pais e alunos, e solta um discursinho mais ou menos assim: "Mães, pais, alunos, surgiram denúncias infundadas que estão jogando lama nesta escola. A situação é tão grave que ela periga ser fechada. Vocês querem isso? Querem que a escola seja fechada??". Pronto: a resposta será não e a direção da escola, por mais corrupta que seja, tentará se livrar das acusações através de falsos testemunhos e manobras inconfessáveis. Nós aqui já vimos muito esse filme!!

Tem mais: "apuração preliminar" é apenas a primeira fase de um processo que poderá não ter continuidade, pois muitas vezes as manobras dos maus diretores funcionam e eles são reintegrados à escola. Daí o jogo vira, e os alunos denunciantes passam a ser perseguidos até à expulsão.

No caso de a apuração vingar, ou seja, se for instaurado processo administrativo, o ambiente escolar vira um verdadeiro inferno: o diretor afastado mexe seus pauzinhos para se defender de todas as formas possíveis, legais ou ilegais. Esse processo pode durar anos e até lá muitos pais, alunos, professores e funcionários vão ser "arrolados" como testemunhas. Uns ficarão contra outros, numa espécie de guerra civil dentro da escola.

Por tudo isso, os alunos que ocuparam suas escolas durante este final de ano letivo precisam receber desde já todo o apoio jurídico e moral possível, além do acompanhamento da mídia, para que seja feito o registro de todos os eventuais desmandos que os prejudiquem. Hoje eles são heróis, amanhã poderão ser feitos de vítimas...

22 dezembro 2015

Os alunos ocupando suas escolas, de fato e de direito!


Foi um prazer e um privilégio compartilhar com os alunos das escolas de luta algumas horas deste final de ano, que marcou sua tomada de posse daquilo que já era deles por direito. Agora o é de fato!


Neste dia 21, mesmo debaixo de chuva, os alunos da rede estadual realizaram mais uma manifestação contra a “reorganização” das escolas. Eles estão certos, pois a suspensão do projeto, prometida pelo governador, é altamente suspeita. Ele deixou bem claro que vai passar o próximo ano discutindo e avaliando a realidade de cada escola com a comunidade, “especialmente com os pais de alunos”...

Para bom entendedor, meia palavra basta! Isto significa que o ano letivo já irá iniciar com uma terrível lavagem cerebral sobre os pais de alunos, tentando colocá-los contra os próprios filhos, que por sua vez acabarão se desentendendo com os próprios colegas, que então poderão se voltar contra os próprios pais... Tradicionalmente, esta é a técnica "de guerrilha" utilizada pela secretaria da educação para garantir o status quo dentro da rede.

Os alunos  têm portanto todas as razões para questionarem a suspensão do projeto, e esta última manifestação colocou em evidência uma das condições que os alunos impuseram ao governador para desocuparem as escolas, mas que ele ignorou solenemente: a punição dos policiais que usaram de truculência durante as manifestações de rua e as invasões das escolas ocupadas.



O ato iniciou no Masp com muita animação, mas a chuva impediu que muita gente seguisse os manifestantes, que caminharam pela Paulista e foram descendo a Consolação. Contudo, um número absurdo de policiais, desproporcional ao tamanho do ato, caminhava na retaguarda, enquanto a tropa de choque marchava enfileirada do lado esquerdo da avenida. O que desejava o pelotão?... Um pretexto qualquer para atacar esses jovens e seus apoiadores, como tem ocorrido em praticamente todas as manifestações contra o governador Geraldo Alckmin.




Os estudantes se sentiram acuados e começaram a gritar palavras de ordem: “Sem violência!”, “Não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar!”. Uma comissão de mães que apoiavam o ato foi caminhando estrategicamente na frente do pelotão, e isso pode ter ajudado a inibir a truculência policial, geralmente gratuita e devida à impunidade.




Chegando na Praça da Sé, os manifestantes encerraram o ato de forma pacífica, reiterando suas reivindicações: que a “reorganização” seja cancelada,  que os alunos das escolas de luta não sejam perseguidos, que haja punição dos policiais que cometeram abusos durante as manifestações de rua e as invasões das escolas ocupadas.

Mas o governo do estado age de forma sorrateira, os alunos que ocuparam as escolas já estão bem “marcados” e vejam o que ocorreu após o final do ato, na Estação Sé do metrô, ou seja, a poucos passos de onde terminou a passeata... porém longe dos olhos de quem estava filmando e fotografando tudo: um aluno da Fernão Dias, uma das escolas ocupadas que ficou em evidência na mídia, foi covardemente espancado, junto com outros estudantes, por alguém que devia estar em contato telefônico com o pelotão do Geraldo. Os PMs que estavam na superfície não devem ter se conformado com a falta de pretexto para atacar os alunos, assim delegaram a empreitada para os seguranças do metrô, que agiram no subsolo.

Essa brutalidade tinha tudo para ficar impune, mas um vídeo dos Jornalistas Livres mostra claramente a hora do espancamento e identifica um dos agressores do estudante, tão ou mais conhecido do que o aluno que foi sua vítima! Trata-se do “Segurança-gato do Metrô”, assim chamado e aclamado por aquele lixo jornalístico que é a revista Veja São Paulo, na edição de 29/03/14.  Assistam a esse vídeo e leiam toda a matéria dos Jornalistas Livres, que dá nome e sobrenome para esse funcionário “exemplar” do Metrô...




Tudo isto reforça a urgência do pedido dos alunos das escolas de luta: é preciso acabar com a militarização da polícia e dos demais órgãos “de segurança” do estado! E o episódio de hoje mostra também a urgência de se proteger os estudantes que ocuparam as escolas, das represálias que sofrerão durante o próximo ano letivo, quando a estratégia de “guerrilha” do Geraldo vai tentar colocar contra eles a comunidade escolar e até seus próprios pais!

Esses alunos precisam de proteção especial das entidades de direitos humanos, para não serem vítimas de perseguições e represálias, mas também para poderem expandir, em suas escolas e comunidades, a consciência de cidadania que conquistaram durante as ocupações. Em algumas escolas, por terem livre circulação nos prédios, os alunos descobriram indícios de irregularidades que precisam ser apuradas e que os diretores, supervisores e dirigentes de ensino tentarão provavelmente abafar de todas as formas, abrindo “apurações” que costumam incriminar as vítimas e envenenar o ambiente escolar... Quem conhece a rede pública por dentro sabe como este assunto é sério!

Por isso todo cuidado é pouco. Esses alunos precisam receber todo apoio possível e o próximo ano letivo tem que entrar com o pé direito, começando com um ato revolucionário que só esses alunos de luta poderão finalmente garantir: a eleição democrática do Conselho de Escola. Esse órgão tem servido apenas para dizer amém aos desmandos da direção e para expulsar alunos, pois seus membros não costumam ser eleitos, mas escolhidos a dedo pelos diretores. Isto precisa mudar com urgência! Os alunos, os pais, os professores e os funcionários das escolas merecem eleger seus próprios representantes, numa eleição democrática e sem interferências da direção. O diretor de escola, infelizmente, é por estatuto sempre o presidente do Conselho, mas ele não pode nem deve estar presente em nenhuma das salas onde os alunos, os pais, os professores e os funcionários elegem seus representantes!!!

Os estudantes sabem que têm sido excluídos desse processo, pois visitei algumas ocupações e nenhum dos alunos com quem falei havia participado da eleição do Conselho da própria escola. Então, estudantes da rede estadual de São Paulo, vocês que já demonstraram muita coragem, não se deixem intimidar pelo autoritarismo do sistema e participem do Conselho de Escola! Informem também a seus pais a importância de elegerem os próprios representantes, pois vocês, alunos e pais, representam a maioria da comunidade escolar, não é justo que sejam ignorados pela direção.

O Conselho de Escola deveria decidir como empregar as verbas, deveria fiscalizar o trabalho das APMs, organizar o ano letivo, decidindo por exemplo atividades pedagógicas, programas culturais etc. Vocês, alunos,  já foram chamados para opinar sobre essas questões?... Pais, alunos, professores e funcionários, junto com o diretor, deveriam formar o corpo gestor da escola, mas o que ocorre, na grande maioria dos colégios paulistas, é puro autoritarismo. Vocês, alunos, que deram mostra de tanta coragem, pensem nisso durante as férias. Entendam como deveria funcionar a gestão compartilhada da escola, estudem o assunto e exijam sua efetiva participação. Assim, vocês estarão ocupando suas escolas de fato e de direito, durante todo o ano letivo!

17 dezembro 2015

As históricas conquistas das Escolas de Luta


Neste país sem memória nem interesse em vencer o apartheid educacional que impera desde o "descobrimento", a ocupação de mais de 200 escolas por seus alunos não foi compreendida pela população em geral e muito menos pelos pais e alunos que se posicionaram contra.

A população em geral não valoriza a educação pública, prefere pagar duas escolas: uma particular, para seus próprios filhos, e a outra... bem, a outra é para os filhos "dos outros".

Os pais e alunos da rede estadual de São Paulo que se posicionaram contra as ocupações, não se deram conta de que o governo iria fechar "apenas" 94 unidades, mas que as Escolas de Luta somaram mais de 200. Por que alunos de escolas que não seriam fechadas teriam "invadido" e ocupado seus colégios?...

Esta reflexão não pode ser feita sem a discussão de algumas ideias e muito menos sem o conhecimento de certos fatos. No Brasil inteiro, os pais "que podem", pagam escola particular para os filhos - mesmo que essa escola seja uma aberração educacional: inadequada, retrógrada, preconceituosa, incompetente ou, até mesmo, funcionando de forma ilegal. Esses pais "que podem", costumam escolher as escolas por uma indicação qualquer, ou apenas porque a mensalidade "cabe no seu bolso". Quando esses pais caem em si, denunciam fatos como os que publicamos aquiaqui aqui.

Enfim, a população que paga escola particular para os filhos entende que a pública é "de graça" e que por isso não presta... Já a maioria dos pais e alunos da rede pública não tem noção clara de pertencimento. A Constituição Federal diz que "a educação visa ao pleno desenvolvimento da pessoa". Ora, quem será essa pessoa, se não o aluno?.. Pais e alunos, porém, estão tão acostumados a ouvirem o diretor estufar o peito e dizer "MINHA escola", que têm dificuldade em criar vínculos com ela. Também entendem que não tiveram opção "melhor", e tendem a desvalorizar o que de fato lhes pertence.

Esse círculo vicioso impede que a rede pública ofereça aos seus alunos o que a Constituição também determina: "igualdade de condições" para todos os alunos. Em lugar de uma educação de qualidade para todos, o governo oferece programas de assistência apenas material, que nunca irão compensar os prejuízos de frequentar uma escola que não alfabetiza e - pior - não estimula a pensar.

Até hoje, essa tremenda falha educacional tem prejudicado gerações e mais gerações de alunos, sem provocar comoção geral. Até que ocorreu algo totalmente inédito, que foi essa iniciativa de os estudantes paulistas ocuparem suas escolas, tomando posse do que já era deles. Tanto os alunos dos colégios que seriam fechados, quanto os que seriam "apenas" transferidos de escola, se sentiram ultrajados pela decretação de uma reforma atropelada e confusa.

Em poucos dias, mais de 200 colégios da capital e do interior paulista foram ocupados por um número pequeno de alunos, porém muito determinados e motivados pelo sentimento de pertencer à escola, ao bairro, a uma comunidade que não queriam abandonar.

Em seu delirante mas inconfesso autoritarismo, "tio" Geraldo não se conformou com essa atitude dos alunos, que julgou mera provocação ou manipulação de adolescentes por parte dos sindicatos ou entidades estudantis, ou seja, manobra da oposição. Ele tentou então recuperar os colégios cercando-os de pelotões de polícia. Não deu certo, então procurou as vias legais, mas a Justiça lhe esclareceu que as escolas estavam sendo ocupadas pelos respectivos donos... Tentou então embromar os alunos, prometendo a "suspensão" da reforma, o que não colou. Ele mobilizou então os diretores para aliciarem os pais e alunos contrários às ocupações, incitando-os a invadirem, vandalizarem as escolas e agredirem os ocupantes, a fim de amedrontá-los e obrigá-los a sair, tudo isso com a colaboração e orientação da polícia. Os estudantes resistiram bravamente durante as invasões, sem se entregarem.

Essa última manobra do Geraldo foi a mais sórdida e certamente mais eficaz, pois numa guerra declarada, como essa da Secretaria, nada funciona melhor do que colocar as vítimas umas contra as outras. Além de terem sofrido agressões físicas e verbais, os alunos foram até acusados de terem sido os próprios vândalos, de terem roubado objetos, documentos etc. durante as invasões, outra estratégia na qual o governo do estado de São Paulo é mestre. Tudo isso provocou reações diferentes nos estudantes das escolas de luta: uns resolveram desmanchar as ocupações, outros continuam nas escolas até conseguirem um posicionamento definitivo do governo sobre a revogação da reforma, mas todos declaram com firmeza que a luta continua.

Nas escolas já desocupadas, o desafio é agora restabelecer o relacionamento entre todos os membros da comunidade escolar, destruído pela sórdida manobra de atirar uns contra os outros, que criou conflitos e desconfianças. Em compensação, os colégios foram entregues mais limpos e arrumados do que antes da ocupação, houve reparo de danos, trocas de canos, fios e lâmpadas. Os alunos tomaram o cuidado de documentar tudo, fotografaram e filmaram as condições em que encontraram as escolas, as atividades que desenvolveram durante o período, o vandalismo e as agressões que sofreram por parte de "opositores" que nem sempre puderam identificar, mas que na maioria dos casos foram policiais, pais, alunos e diretores. Nos colégios ainda ocupados, provoca-se o governo com questionamentos que já extrapolam a mera reorganização da rede, mas abordam aspectos da cidadania, do currículo e da gestão escolar.

A grande riqueza desse extraordinário movimento estudantil tem sido o descobrimento da escola como espaço de aprendizado, convivência e integração, em lugar da desmotivação que muitas vezes levava os alunos a evadirem ou a continuarem os estudos por mera obrigação.

Certamente, essas escolas nunca mais serão as mesmas, e as discussões travadas a partir deste histórico novembro irão inundar a rede paulista durante todo o próximo ano letivo. As escolas de luta da rede paulista formaram lideranças, estimularam o protagonismo, a solidariedade, a independência e a coragem dos alunos. Elas se fecharam para a volta dos burocratas, das aulas chatas, das aulas vagas, do autoritarismo dos diretores e da secretaria da educação, mas se abriram para voluntários que ofereceram todo tipo de atividades educacionais e artísticas, debates, apoio jurídico, pedagógico e psicológico. A vida penetrou nesses prédios sombrios e mal cuidados, como nunca havia ocorrido antes, e isso reforçou a noção de pertencimento dos alunos à escola.

Se as escolas estaduais "perderam" alunos, isso se deve a uma política educacional que durante décadas tratou os estudantes com descaso, ofereceu aulas medíocres e aulas vagas, deixou diretores e professores à vontade para expulsar alunos a rodo. Então na verdade essas escolas foram esvaziadas, e onde existe superlotação de classes, isso é devido à perversidade do sistema, pois tudo se resolveria tranquilamente com transporte escolar, uma solução inclusive barata. Ficou muito famosa a expressão "escola de rodinhas", criada há 10 anos por uma Secretária Adjunta da Educação, que mereceu o Troféu Anta do Ano da Educação em 2006... A retrospectiva histórica é muito importante para entender que essa "reorganização" do Geraldo não passa de um remake da mesma reforma do governador Covas que já ilustramos aqui, aqui e aqui. Os resultados dessa reforma foram devastadores: logo em 1995 foram fechadas 150 escolas, mas o Covas foi mais "esperto" que o Geraldo, não informou que haveria fechamentos!... Isso deixou a secretaria à vontade para virar toda a rede de perna pro ar, mas depois a população ficou muito revoltada e obrigou a mudar tudo de novo.

As escolas que mais "perdem" alunos costumam ser aquelas localizadas em bairros de classe média, onde o lobby da rede particular atua junto às Diretorias de Ensino para enfraquecer as escolas públicas e assim garantir o maior número possível de clientes. Pois o objetivo inconfessado e inconfessável do "tio" Geraldo é o de municipalizar o ensino fundamental e privatizar o médio. Pronto: aí não vai ter mais escolas pra administrar, nem precisa de rodinhas... rs

Toda essa discussão é importante, pois a rede de ensino paulista é a maior do país, e o movimento Escolas de Luta já começou a repercutir e a receber apoio de vários outros estados e até de fora do país. Além disso, em Goiás, onde há um claro projeto de privatização e militarização das escolas, alguns colégios já foram ocupados por alunos, nos mesmos moldes paulistas. Em todo o Brasil são feitos artigos, vídeos e documentários sobre este movimento que está fazendo história. A luta continua!

14 dezembro 2015

Geraldo Alckmin e a roupa nova do imperador



O interesse da mídia pelas escolas de luta diminuiu. Claro. Ela só acordou depois que foi impossível negar a importância da resistência dos alunos à tal "reorganização" do governador Geraldo Alckmin. Foi quando um furo de reportagem da jornalista Laura Capriglione divulgou o áudio de uma reunião secreta do chefe de gabinete da Secretaria da Educação, Fernando Padula, em que ele declarou guerra aos alunos das escolas ocupadas.

Essa reunião na SEE ocorreu no dia 29 de novembro e a revelação dessa estratégia de guerra, bem como algumas corajosas manifestações de rua dos alunos, não puderam ser ignoradas pela grande mídia, mesmo com muitas manipulações. Depois disso, porém, a conversinha mole do “picolé de chuchu”, através dos diretores de escola, foi convencendo os pobres pais de alunos de que seus filhos estavam sendo prejudicados em final de ano letivo, que estavam perdendo as provas finais, a formatura e bla bla bla... Com isso, algumas escolas acabaram sendo desocupadas pelos alunos e o assunto na mídia foi ficando cada vez mais morno. Até o Leo Sakamoto nos abandonou... rs

O que a sociedade não sabe, é como se dá esse tipo de “desocupação”. É o que vou tentar mostrar hoje. Eu havia reservado o domingo para visitar duas escolas que estavam em risco de serem desocupadas: a EE Salvador Allende, na zona leste e a EE Plínio Negrão, na zona sul. Essas duas escolas se destacaram dentro das escolas de luta, pelo grande protagonismo de seus alunos.

Pois é, durante a madrugada do domingo fiquei sabendo que a Salvador Allende foi desocupada, então fui para a Plínio Negrão e tive uma conversa reveladora com os alunos da ocupação, que já conhecia e que haviam me impressionado com sua clareza de pensamento e objetivos.

Antes, porém, cabe fazer uma comparação interessante das duas escolas, aparentemente muito diferentes, mas com vários pontos em comum. A Salvador Allende está localizada na periferia da zona leste, numa região muito diferente da Plínio Negrão, que se encontra a dois passos da Granja Julieta, zona residencial da elite de Santo Amaro. 

No entanto, se a Salvador Allende atende os alunos da periferia da zona leste, os alunos da Plínio Negrão vêm da periferia da zona sul, ou seja, dos bairros além da ponte da João Dias, numa linha que vai até ao Capão Redondo...

A primeira pergunta que cabe aqui é: por que alunos de bairros periféricos “preferem” chacoalhar no transporte público para estudar numa escola central? Pode haver vários motivos: tiveram negação de vaga na escola próxima de casa, ou os pais trabalham numa região central e podem levá-los ou buscá-los, ou ainda pensam que uma escola central é melhor. Este é um assunto muito sério que merece um post a parte...

No caso específico da Plínio Negrão, os alunos que ocupam a escola também não moram nas proximidades, e durante esse período têm recebido constantes ameaças dos moradores das redondezas, que não querem “mais nenhum favelado” estudando no bairro. Não há ninguém protegendo os três portões do colégio, que ocupa praticamente um quarteirão, pois as famílias desses alunos moram muito longe e não têm condições de passar a noite ou até a madrugada na porta da escola. Fiz questão de ficar conversando com os alunos no portão, não entrei no prédio justamente para perceber o “movimento” da rua. Durante quase uma hora, sendo uma tarde ensolarada de domingo, não passou NENHUM pedestre em frente à escola, pouquíssimos carros, alguns micro-ônibus e, muito estranho, uma perua branca sem identificação passou 4 vezes por lá... Foi um dos alunos que reparou nisso, eles ficam muito atentos ao que ocorre ao redor da escola. Por que será?

Pelo mesmo motivo que provocou a desocupação da Salvador Allende. Ambas escolas sofreram invasões na calada da noite. Na Salvador Allende isso ocorreu diversas vezes e de forma muito grave: indivíduos não identificados não apenas vandalizaram o prédio, mas roubaram objetos dos próprios alunos e da escola. A última invasão ocorreu esta sexta-feira e  fez com que os alunos temessem não apenas pela própria integridade física, mas por virem a ser responsabilizados pelo vandalismo e pelo roubo de qualquer coisa que tenha sido levada da escola. Só quem conhece a rede pública por dentro sabe o inferno que viram os famosos processos administrativos, que acabam com a paz das escolas e chegam a durar cinco anos, ou seja, as convocações para as audiências podem ocorrer até anos depois que os alunos tiverem saído de lá!

Os alunos da Salvador Allende deixaram um documento na página da ocupação no Facebook, explicando por que desocuparam o colégio, e postaram muitas fotos e vídeos que mostram o tanto que cuidaram do prédio, as muitas atividades culturais que desenvolveram e as aulas que receberam de voluntários e simpatizantes das escolas de luta. Todo esse material vai servir para comprovar que não foram eles a vandalizar a escola, e a hora de sair chegou justamente no momento em que esses indivíduos “não identificados” já tinham tentado prejudicá-los de todas as formas. Agora só faltava provocar acidentes que colocassem em risco sua integridade ou até que destruíssem a escola. Nada complicado atirar uma bomba ou provocar um incêndio dentro da escola, para depois responsabilizar os alunos...


A segunda pergunta que cabe aqui é por que, então, os alunos da Plínio Negrão não desistiram, enquanto os da Salvador Allende já desocuparam a escola?

Em primeiro lugar, fica bem claro pelo depoimento dos alunos da Salvador Allende que eles não desistiram, nem deram o braço a torcer. Eles saíram da escola na melhor hora e deixaram depoimentos e documentos que demonstram como a ocupação foi positiva. 

Quanto aos da Plínio Negrão, eles estão resistindo, mas com medo e com razão: durante a invasão da madrugada passada, chefiada pela direção da escola, por policiais e por alunos contrários a ocupação, todas as correntes e cadeados foram quebrados. Os ocupantes lançaram um apelo para que seja feita uma nova doação desses materiais, a fim de dificultar uma nova invasão na calada da noite, pois não há ninguém para proteger a escola do lado de fora. Durante a invasão, vidros foram quebrados e objetos danificados, além de os alunos terem recebido diversas ameaças. Uma delas, aliás, foi repetida por um dos invasores, que no facebook se identifica como Matheus Marcos e diz: "O povo da ocupação me bloqueou, saibam de uma coisa, isso de ontem foi só uma prévia!".

Essas invasões e ataques, que têm ocorrido em todas as escolas de luta,  são o verdadeiro motivo que provocou a desocupação das escolas. Pois os alunos não são bobos e não caíram na conversa do "picolé de chuchu"... Aliás, a minha orientação é a seguinte: antes de desocuparem a escola, verifiquem se todos os alunos terão sua rematrícula confirmada e se as inscrições abertas foram para os mesmos ciclos. Ou seja, se este ano a escola recebeu alunos do Fundamental II e do Ensino Médio, tudo deve continuar como está.

Talvez, a única falha dos alunos de algumas escolas de luta tenha sido soltar o bordão "o Geraldo vai cair". Pois é, até eu adoraria que o Geraldo caísse, mas sei que não é simples, pois a maioria da população paulista reelegeu essa figura... e o que vamos fazer?...

Os jovens não são politicamente corretos - e é bom que não sejam, senão vão-se as esperanças e os sonhos. Quem sabe, algum deles consegue mostrar o Geraldo "nu", como na história da roupa nova do imperador?... rs

08 dezembro 2015

Gestão democrática - A exclusão dos pais e alunos


Ao anunciar uma nova "reestruturação" da rede pública de ensino, querendo repetir o fracasso do mesmo projeto executado há 20 anos, o Governo do Estado de São Paulo provocou a revolta dos estudantes, que ocuparam mais de 200 escolas durante o mês de novembro e fizeram manifestações de rua, rejeitando essa reforma que envolveria o fechamento de 95 escolas (em 1995 foram 150!) e a transferência de centenas de milhares de alunos. O Governo respondeu com violência, tentando arrombar as escolas ocupadas, atirando bombas de gás nos estudantes e os agredindo fisicamente durante as manifestações.

Quando a crise se tornou insustentável e a popularidade do governador Geraldo Alckmin despencou, o mesmo recuou, "suspendendo" a reestruturação. No entanto, muitos alunos receberam a informação de que já estavam sendo transferidos para outras escolas! Além disso houve vazamento do áudio de uma reunião interna na Secretaria da Educação, onde o Chefe de Gabinete, Fernando Padula, declarava "guerra" aos alunos. Tudo isso, somado à violência policial que tentou reprimir o movimento, deixou os estudantes totalmente inseguros quanto às reais intenções do governador, por isso diversas escolas continuam ocupadas. Os alunos estão cobertos de razão, ao cobrarem transparência e respeito por parte do governo!

Durante os últimos 20 anos, os alunos da rede pública paulista têm sido tratados como números por um sistema que lhes impede qualquer protagonismo dentro das escolas, apesar de a Constituição Federal garantir que a gestão educacional deve ser realizada, em partes iguais, pelos 4 segmentos da comunidade escolar: pais, alunos, professores e funcionários de cada escola. Essa gestão deveria acontecer através do Conselho de Escola, onde cada segmento elegeria seus pares. Na prática, porém - não apenas no Estado de São Paulo, mas basicamente em todo o país, a eleição dos pais e alunos nos Conselhos de Escola é fraudada pelos diretores, que escolhem a dedo os "representantes" que lhes convêm, ou seja, aqueles que dirão "amém" a tudo que eles decidirem. 

Essa manobra anula o caráter democrático da gestão das escolas, onde os pais e alunos são esmagadora maioria, mas costumam ser boicotados em sua representação! A manipulação feita pelos diretores de escola não é isolada, ela recebe o aval da Secretaria da Educação. Prova disso é que sempre encaminhamos essas denúncias à SEE e todo ano sugerimos que a eleição dos Conselhos de Escola seja realizada em um único dia em toda a rede. Somente dessa forma seria possível evitar fraudes, inclusive proibindo a presença dos diretores nas salas onde os pais e alunos elegem seus pares. Essa sugestão nunca foi levada em consideração, nem mesmo na saudosa época em que podíamos contar com a parceria do professor José Benedito de Oliveira, coordenador da extinta Cogsp. O José Benedito resolvia qualquer problema pontual, mas, mesmo concordando com a nossa sugestão, nunca conseguiu convencer a Secretaria a democratizar a eleição dos Conselhos de Escola.

Ao ocuparem as escolas, os alunos finalmente perceberam que são os verdadeiros donos: cuidaram das instalações, trocaram lâmpadas, consertaram canos, e durante as faxinas descobriram muitas coisas, como estoques "secretos" de material escolar e livros que deveriam ter sido distribuídos para os alunos, papel higiênico e sabonetes que nunca se viam nos banheiros da escola, etc. Isso demonstra que, de fato, não há Conselhos de Escola fiscalizando as compras das APMs e muito menos as verbas que chegam da SEE, da FDE, ou a verba federal para complementar a merenda, que deveria servir para comprar alimentos mais nutritivos, como frutas, iogurtes etc.

Por tudo isso, especialmente para repassar aos alunos conhecimentos que nunca receberam sobre a gestão democrática das escolas, segue novamente o artigo que publicamos no livro Educação 2007, da Editora Humana, www.humanaeditorial.com.br Infelizmente, o texto ainda não perdeu a atualidade e pode servir como uma primeira informação para os pais e alunos que ainda não sabem para o que serve e como deveria funcionar o Conselho de Escola.

GESTÃO PARTICIPATIVA NA ESCOLA: A exclusão da comunidade

Giulia Pierro e colaboradores*

A Constituição Federal, em seu Art. 205, prevê que a educação seja promovida e incentivada com a colaboração da sociedade. O artigo 206 é mais explícito e fala do “princípio da gestão democrática do ensino público”. O Plano Nacional de Educação, que entrou em vigor em 2001, coloca como uma de suas metas prioritárias a criação de Conselhos nas escolas de ensino básico. Os Conselhos de Escola são constituídos por representantes de pais, alunos, professores e funcionários, incluindo a direção.

Mas... existe gestão participativa nas escolas brasileiras?

A gestão escolar é o conjunto de medidas tomadas para que a escola cumpra sua função. E por que tornar a gestão participativa, incluindo pais e alunos? Porque os pais são os principais interessados na formação dos filhos e os alunos são os "sujeitos" da escola. Todos sabemos, porém, que o Brasil tem leis demais e justiça de menos. As leis são, muitas vezes, ignoradas e deturpadas. Novamente: por que? Porque a “lei” que mais prevalece é a dos privilégios.

Em lugar de a escola estar voltada para o aluno e aberta para a comunidade, quem se apropria dela é uma classe docente e uma direção geralmente autoritárias. Então, o foco se perde e o que prevalece são objetivos e práticas que não contribuem para a formação do aluno. Isto começa no topo da pirâmide, com secretários e assessores da educação que raramente têm alguma experiência em sala de aula: burocratas de plantão.

O problema seria menor se essas autoridades se dispusessem a sair de seus gabinetes e a visitar as salas de aula ou, ao menos, receber e ouvir a opinião dos pais. Mas a prática, no Brasil inteiro, é exatamente ao contrário: secretários, assessores e delegados de ensino costumam limitar-se a atender ordens superiores, já que seus cargos são de confiança dos governantes. Além disso, seus próprios filhos estudam na rede particular, portanto, para eles a escola pública é uma ilustre desconhecida.

Alguns Estados mantêm ouvidorias, chamadas pelos pais de “surdorias”, pois o ouvidor é sempre um funcionário da própria Secretaria da Educação, portanto, impossibilitado de exercer o cargo com a isenção devida, ferindo o conceito básico de ouvidoria, que é investigar carências e denúncias de abusos nos serviços públicos. Esses órgãos não se dão ao trabalho de checar as denúncias e permanecem na espera de relatórios de supervisores, que geralmente apresentam apenas o testemunho do corpo docente, sem registrar o depoimento do aluno e da família.

Mas por que iniciar um artigo sobre gestão escolar falando de autoritarismo e denúncia? Porque esse é o dia-a-dia da rede pública de ensino, onde há autoritarismo demais e denúncias de menos. O Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (Lei Federal 8069/90), que todos os educadores deveriam conhecer, não é lido dentro das escolas e muito menos implementado. Uma pesquisa feita recentemente revela que entre mais de 30 educadores da rede pública e particular em sete Estados, todos disseram saber da existência do ECA, mas apenas cinco responderam que o leram na íntegra. O estatuto determina, por exemplo, que o acesso do aluno à sala de aula não pode ser impedido em nenhuma hipótese, inclusive na falta de uniforme. No entanto, este é um dos motivos mais freqüentes que mantêm estudantes fora da escola.

Outro problema identificado é a “lei dos privilégios” na área educacional. Ela se manifesta em dois aspectos: o primeiro é o DIREITO À FALTA do professor, que causa o fenômeno mais típico da rede pública de ensino – a falta de aula, denominada AULA VAGA, responsável por reduzir de 20% a 40% a carga horária do ano letivo. A situação é tão grave que a Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, por exemplo, achou por bem proibir que se mencione a expressão “aula vaga”.

O DIREITO À ESTABILIDADE do funcionalismo é o segundo grande diferencial da escola pública, responsável pela manutenção na rede de profissionais incompetentes, relapsos, omissos e até perversos. A professora Glória Reis (co-signatária deste artigo) relata a fala de uma colega que havia sido convidada a trabalhar em um banco: “Não vou sair da escola, pois aqui eu posso até matar uma criança, que nada me acontece.” Outro grave problema é a manutenção na rede de profissionais “readaptados”, muitos em recuperação psiquiátrica, que deveriam estar aposentados por invalidez ou colocados em gabinetes, nunca em contato com crianças e adolescentes. Sempre que se toca neste assunto, levanta-se o brado da corporação, revelando que a manutenção dos privilégios é mais importante do que a integridade dos alunos.

Por todos esses motivos, uma escola voltada para o aluno exige a participação dos pais e a única forma eficaz é tornar realmente democrática a eleição dos Conselhos de Escola. Mas essa participação costuma ser vetada já na falta de convocação para a eleição. Existem várias formas de praticar o boicote: encaminhar a convocação aos pais com menos de uma semana de antecedência; enviá-la através de tirinhas de papel de 5 cm ou então, simplesmente, não entregá-la, mentindo depois a respeito. Todos esses casos foram testemunhados pelos pais e responsáveis que assinam este artigo.

Os diretores têm medo de perder as rédeas da gestão da escola e sua autoridade sobre alunos e professores. Assim, em muitas instituições se faz uma campanha “interna” e ilegal, ou seja, os representantes dos pais (geralmente os mais manipuláveis) são escolhidos a dedo pelos diretores conforme sua conveniência ou pelo valor de sua contribuição monetária para a Associação de Pais e Mestres. Sabemos, por experiência própria, que os pais que se dispõem a doar valores significativos para a escola são mais bem-vindos. Mais uma vez, impera a lei dos privilégios. Quando a direção não consegue eleger os responsáveis que “lhe convém”, são usados truques para impedir a participação às reuniões, como enviar a convocação sem descrever a pauta ou encaminhá-la somente a alguns.

No entanto, é comum a escola convocar todos os pais para prestar serviços gratuitos, como fazer faxina, costurar cortinas, arrumar a fiação, arrecadar fundos. Mas a sua colaboração deve e pode ir muito além. Aliás, hoje a maioria das escolas do País recebe fundos suficientes para sua conservação e essas verbas precisam ser fiscalizadas, bem como as reformas ganhas em licitações, que as empresas costumam subempreitar, dividindo o “bolo” e adquirindo materiais de péssima qualidade. Tendo o apoio dos pais, os bons diretores terão mais coragem de coibir eventuais abusos que já tiverem recebido o aval de seus superiores.

O aspecto da gestão escolar em que os pais costumam ser mais excluídos é a proposta educacional da escola, embora o Artigo 53, parágrafo único, do ECA lhes garanta o direito de participar. Geralmente, professores e diretores acreditam que os pais não estão à altura da discussão, quando não é necessário ser um profissional para perceber as enormes falhas do ensino, comprovadas pelos índices oficiais.

Na verdade, a esmagadora maioria das escolas públicas não tem proposta educacional devido à grande rotatividade de diretores e professores. Alguns educadores empreendedores implantam projetos próprios em suas salas de aula e tentam abri-los para os demais, mas muitos esbarram na indiferença, no ciúme dos colegas ou na falta de apoio da direção, que poderia favorecer um trabalho interdisciplinar e estruturar um projeto pedagógico para toda a instituição. Infelizmente, o corporativismo da classe costuma funcionar somente a favor de seus próprios interesses e, mesmo assim, os profissionais queixam-se constantemente de serem desvalorizados ou explorados. O que os pais esperam, na verdade, não é abnegação nem sacrifício, mas empenho, seriedade, profissionalismo e, principalmente, resultados.

Algumas escolas conseguem elaborar um projeto pedagógico próprio, que fica em vigor, geralmente, enquanto dura a mesma direção que o implantou. Alguma semelhança com a administração pública deste País, em nível municipal, estadual ou federal?...

Resumindo, existem dois aspectos principais da gestão escolar que necessitam da participação dos pais e alunos, a fim de permitir a continuidade dos bons projetos e a denúncia de abusos e desmandos:

1. O aspecto administrativo, que abrange a conferência e o uso adequado das verbas e materiais recebidos pela escola; o controle das atividades desenvolvidas fora da sala de aula, como a entrada e saída dos alunos, o recreio, a questão da merenda, a limpeza e manutenção de cozinha, banheiros; problemas graves devido à falta de reformas, etc.

2. O aspecto pedagógico, que abrange a elaboração de uma proposta educacional conforme os anseios da comunidade, a dificuldade de aprendizagem dos alunos, a aula vaga, a mudança de professor no meio do ano letivo ou a falta de um educador durante um longo período de tempo, o fechamento da biblioteca ou da sala de informática por falta de manutenção ou de funcionários, as excursões (anti)pedagógicas organizadas apenas para angariar fundos ou para “complementar” o ano letivo.

Considerando que a classe docente costuma rejeitar a participação da comunidade na gestão das escolas, o convite aos pais e responsáveis precisa partir das maiores autoridades educacionais, com a garantia de apoio incondicional, pois os responsáveis costumam desistir de enfrentar o autoritarismo da direção das escolas. A desistência se deve ao medo das represálias e perseguições que costumam atingir o lado mais fraco: o aluno.

Soluções para a efetiva implantação da gestão participativa nas escolas:

1. Para que a comunidade se sinta bem-vinda na gestão escolar, o Ministério da Educação precisa fazer um pronunciamento nacional no começo de cada ano letivo, falando sobre a importância da participação dos pais e responsáveis nos Conselhos de Escola. Por sua vez, os governos estaduais e municipais precisam fazer campanhas de divulgação das eleições dos Conselhos de Escola, estipulando uma única data para todas as escolas da mesma cidade ou rede e distribuindo folhetos explicativos. Cada governo poderia usar uma pequena parte de suas verbas publicitárias a fim de promover a gestão participativa na escola.

2. É absolutamente necessário criar ouvidorias estaduais e municipais, independentes e desvinculadas da rede de ensino, para que a comunidade possa denunciar abusos e irregularidades.

3. A escola precisa divulgar sua proposta educacional e incluir no calendário escolar as reuniões de Conselho de Escola, para que os alunos, pais ou responsáveis possam efetivamente participar.

A soma dessas ações poderá permitir um controle social efetivo da educação como serviço público, hoje tratado como um mero favor.

No mais, entendemos que a avaliação pedagógica é fundamental e neste aspecto são bem-vindos os diversos instrumentos em vigor: Prova Brasil, Pisa, Saeb, Saresp, etc. Mas, de que adianta o diagnóstico sem buscar soluções efetivas? O único que costuma ser sistematicamente responsabilizado pelo fracasso escolar é o aluno, quando seu desempenho deveria servir para avaliar a qualidade das escolas e o trabalho do professor.

A escola, como toda instituição pública, precisa estar sujeita a mecanismos de controle e correção pelas autoridades e ser fiscalizada pela própria sociedade. Essa, infelizmente, ainda não se conscientizou de quanto é prejudicada por um sistema de ensino autoritário, engessado e excludente. Aliás, o papel da escola vai muito além de alfabetizar e transmitir conhecimentos: é orientar seres humanos para um mundo mais justo e solidário. Para isso, precisa dar o exemplo, pautando-se na justiça e na solidariedade humana.

Giulia Pierro – Coordenadora do EducaFórum e autora do livro O estuprador. Para mais informações,  mande e-mail para educaforum@hotmail.com
* Colaboradores:
Caroline Miles – Coordenadora do site Pais Online. Para mais informações, mande e-mail para paisonline@hotmail.com
Cida Gomes - Coordenadora do Movimento Ideamos. Para mais informações, mande e-mail para mpideamos@hotmail.com
Cremilda Estella Teixeira - Coordenadora do blog Cremilda Dentro da Escola. Para mais informações, mande e-mail para cremildaestella@hotmail.com
Glória Reis – Professora e autora do livro Escola, instituição da tortura (Editora Scortecci). Para mais informações visite http://gloria.reis.blog.uol.com.br/
Mauro Alves da Silva - Coordenador do Movimento Comunidade de Olho na Escola Pública. Para mais informações, mande e-mail para gremiosd@ig.com.br
Vera Vaz - Autora do livro A escola do saber. Para mais informações, mande e-mail para veravaz@uol.com.br

06 dezembro 2015

"Reestruturação" de 1995: crianças no período noturno!

Este é o terceiro post que mostra os estragos da primeira "reestruturação" do ensino estadual de São Paulo, realizada a partir de 1995 pelo governador Mario Covas, ídolo do atual governador Geraldo Alckmin. Divulgo essas matérias da época para mostrar aos alunos das escolas de luta que o pretexto do Geraldo é exatamente o mesmo alegado pelo antigo governador, ou seja, agrupar os alunos por ciclos. Naquela época, dezenas de milhares de alunos acabaram evadindo por falta de opção, famílias desestruturaram suas rotinas e... a qualidade do ensino só foi piorando.

Tem mais: além do fechamento de muitas escolas - só no primeiro ano foram 150! - várias unidades "reestruturadas" acabaram tendo que voltar a receber alunos de outros ciclos, devido à justa pressão da comunidade e dos Conselhos Tutelares! Ou seja, essa reforma não deu certo!!! E tudo indica que poderá ocorrer a mesma confusão, se a reestruturação do Geraldo for adiante. É claro que ele vai jurar de pés juntos que não, que "hoje" a Secretaria é muito melhor organizada etc. e tal. Pois é, tão bem organizada que o Secretário acaba de cair...

A matéria acima digitalizada (clique na imagem para ampliá-la), foi publicada pelo extinto Diário Popular em 8 de janeiro de 1997 e conta uma história do tipo "acredite, se quiser": crianças de 10 a 13 anos sendo empurradas para o período noturno, pois as duas únicas escolas que existiam no bairro de Amador Bueno, em Itapevi, haviam sido "reestruturadas" para abrigar apenas alunos da 1ª à 4ª série, então o segundo ciclo do Ensino Fundamental passou a ser oferecido no período noturno, que deveria ser destinado para alunos trabalhadores, ou maiores de 14 anos. 

Isso provocou não apenas imensos transtornos para as famílias, mas também a evasão de inúmeros alunos. O Conselho Tutelar da região ficou arrancando os cabelos durante um bom tempo para garantir que as crianças do bairro pudessem voltar a estudar de manhã ou à tarde, mas muitas acabaram evadindo, como mostra a reportagem.

Então você, que está ocupando sua escola e é contra a atual reforma, precisa entender que esse projeto é antigo, já deu zebra há 20 anos, por que daria certo agora?... Já naquela época ele foi idealizado como se os alunos fossem números, e é assim que você tem sido tratado, não é? Apenas um número que representa um determinado "custo" para o estado, já que o Geraldo entende educação como gasto e não como investimento. E agora ele "precisa" cortar custos...

Se o Geraldo (aparentemente) voltou atrás, essa conquista é de todos vocês, alunos que ousaram enfrentar o sistema e a repressão policial! Mas ele ainda vai tentar enrolar seus pais com sua conversa mole (ouviu o pronunciamento dele?...), então fique de olho! E exija que seja realizada eleição DEMOCRÁTICA do Conselho da sua escola, do qual você pode participar e fiscalizar a gestão das verbas, inclusive dos materiais que você encontrou escondidos nas salas da secretaria ou da diretoria...

Se você não tiver lido os dois primeiros posts desta série, clique aqui e aqui.

05 dezembro 2015

A desestruturação de 1995 - Escolas desativadas!




Neste segundo post sobre a "reestruturação" das escolas estaduais iniciada em 1995 (o primeiro foi Bomba, BOMBA!! Não caia na conversa do Geraldo!) você vai ver o que ocorreu no ano seguinte com algumas das 150 escolas desativadas e como essa "reforma" prejudicou alunos e famílias. A reportagem, datada de 29 de maio de 1996, é do finado Diário Popular e foi assinada pelo então repórter Moacir Assunção, hoje jornalista e escritor de renome. E aí, Moacir, não vai comentar essa "nova" reestruturação do Geraldo? Não seria mais do mesmo?... 

Essa reportagem está mais conservada que a primeira matéria que publiquei. Mesmo digitalizada é bem legível, então não vou digitá-la. Basta você clicar na imagem pra ampliá-la e ter uma boa leitura. Se tiver dificuldades, dê uma chorada que eu digito... rs

Chama a atenção o triste fim da escola "Chiquinha" e de seus alunos, que além de terem sido remanejados para longe, perderam a noção de pertencimento a uma escola onde a comunidade estava muito presente.

Fique de olho: vou digitalizar e publicar ainda muitas reportagens da época da primeira "reestruturação" da rede estadual de ensino, para você entender os reais motivos do Geraldo e de seu desgoverno. Mais tarde segue uma matéria sobre crianças que foram obrigadas a estudar no período noturno, e amanhã você vai saber como eram aplicadas as verbas destinadas à manutenção e desenvolvimento do ensino. Hoje, a "caixa" está ainda mais preta...

Você, que tenta obter informações mais consistentes sobre a educação no estado e no país, já deve ter percebido que não existe jornalismo investigativo na grande mídia atual, de rabo preso com o governo A, B ou C. Tenha certeza de que hoje você não encontra matérias tão informativas como estas que publicavam os finados Diário Popular e Jornal da Tarde. Sinal dos tempos e da necessidade de derrubar toda a mídia corrupta!

04 dezembro 2015

Bomba, BOMBA!! Não caia na conversa do Geraldo!



A partir de hoje, vou divulgar matérias publicadas na década de 90, que demonstram como foi a primeira "reestruturação" do ensino, realizada pelo então governador Mario Covas. Ela provocou uma desestruturação tão devastadora da rede, que a partir do ano seguinte as matrículas precisaram ser feitas através de sorteio. E logo de cara foram fechadas 150 escolas!

Naquela época havia na Capital dois jornais que davam uma boa cobertura dos FATOS educacionais. Coloquei fatos em caixa alta, porque hoje a mídia não investiga nem o mínimo para termos uma visão clara do que se passa dentro das escolas, e muito menos nos bastidores dos órgãos educacionais. Mídia corrupta ou omissa?... 

Os dois jornais que cobriam a educação na época eram o Diário Popular e o Jornal da Tarde, hoje extintos, fato que também leva a uma boa reflexão...

Vou começar essa nova série de posts com uma verdadeira bomba! A matéria acima digitalizada, obviamente não disponível na internet, data de 18 de janeiro de 1998, alguns dias antes do início do terceiro ano letivo após a tal "reestruturação". Os objetivos declarados pela Secretaria da Educação na época foram exatamente os mesmos divulgados hoje: separar os alunos por nível de ensino e melhorar a qualidade educacional!! De lá para cá, a SEE nunca entregou o que prometeu, como vagas para todos, salas-ambiente, laboratórios e bibliotecas, muito menos qualidade do ensino... Até hoje, por exemplo, nem 20% das escolas da rede estadual tem biblioteca funcionando, para não falar dos laboratórios! E todas, praticamente todas, se parecem com verdadeiras prisões...

Quem escreveu essa matéria foi a excelente jornalista Marici Capitelli, que na época trabalhava no Diário Popular. O texto faz um balanço da primeira "reestruturação", iniciada em 1995. Diga-se de passagem - ou não... - que Marici é hoje a chefe de reportagem do Jornal da Cultura.   Diga-se também de passagem - ou não... - que o Jornal da Cultura tem desprezado a ocupação de mais de 200 escolas, por alunos da rede estadual: em lugar de enviar seus repórteres a campo para fazer matérias investigativas - como fazia a própria Marici diariamente no finado Diário Popular - o Jornal da Cultura limita-se a mostrar cenas de estudantes "atrapalhando o trânsito" e dando voz a comentaristas caquéticos como Luiz Felipe Pondé, que na quarta-feira declarou o seguinte: "Esses estudantes estão atrapalhando o trânsito e a economia do país. Os estudantes, coitados, são levados a acreditar que existe uma relevância muito grande do movimento estudantil nos processos políticos, mas na verdade só estão enchendo o saco...". Nada para criticar a repressão policial, totalmente gratuita, pois não houve provocação nem vandalismos! Esse é o nível do Jornal da Cultura, premiado internacionalmente pela sua "qualidade", ao cobrir os "fatos" da educação paulista. Marici, o que está acontecendo, nega? O Geraldo foi tomar cafezinho aí na redação e pediu pra pegar leve? Bom, a coisa deve funcionar de forma mais ágil, tipo por telefone...

Para facilitar sua leitura, digitei essa matéria na íntegra. No mínimo, você vai ler uma reportagem de qualidade muito superior a qualquer outra que tenha sido publicada pela grande mídia por estes dias. Ela vai te mostrar que a história se repete e te alertar sobre o futuro, pois nada mudou na (falta de) política educacional da SEE durante os últimos 20 anos. Vai ser muito ruim se você cair na conversa do Geraldo! Tudo o que ele quer é terminar a obra iniciada em 1995, para finalmente poder entregar o máximo de escolas de Ensino Fundamental para os municípios e privatizar o Ensino Médio. Cuidado! Ele vai vir com a conversa mole de que reviu o projeto e vai usar como bode expiatório o secretário Herman Voorwald, um simples marionete que ele acaba de demitir. Aliás, você já viu a cara desse secretário na mídia, antes do início da ocupação das escolas?...

Vamos lá:

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Diário Popular - 18/01/1998
DADOS APONTAM O CAOS DA EDUCAÇÃO
Marici Capitelli

     Um cenário de 152 escolas fechadas, além de 216 mil alunos do ensino fundamental que abandonaram as aulas, nos últimos três anos. Os dados de evasão são do Censo Escolar do Ministério da Educação e refletem o caos na Educação do Estado, onde 70% dos professores também não são efetivos. A Secretaria Estadual de Educação garante que o ensino tem melhorado e não faltam vagas. O problema, de acordo com o órgão, é dos pais e alunos, que preferem escolas mais conhecidas. O resultado é grande concentração nesses pontos e a necessidade de sorteios dramáticos como os que marcaram a semana.
     A opinião da secretaria contrasta, na prática, com a realidade dos estudantes. Escolas fechadas, prontas sem inaugurar ou em número insuficiente fazem com que os estudantes se desloquem até mais de 10 quilômetros para estudar e dependam de ônibus. Os custos da condução e a perda de tempo fazem com que os alunos já comecem o ano sem a certeza se conseguirão levar o curso adiante.
     INCOERÊNCIA
     Histórias de incoerência não faltam em várias regiões da Capital. O sorteio que aconteceu na EESG Professor José Marques da Cruz, na Vila Formosa, que foi marcado por tumultos e desmaios de pessoas que esperaram mais de 10 horas por uma vaga em uma das 16 escolas, foi desnecessário segundo a comunidade. Dois colégios na região estão fechados por conta da reestruturação e os prédios tomados por matos. São eles a Julein Fawell e José Alves Camargo. O adolescente Rafael, de 14 anos, mora entre essas duas unidades, mas foi sorteado para longe de casa. Terá de depender de ônibus. "O pior é que só consegui vaga no período noturno, das 19 às 23h." "Ele é uma criança para voltar sozinho para casa esse horário. É um desrespeito", disse desesperada a mãe, Janete Capuchinho, de 45 anos. Outro ponto, segundo ela, é que o menino não trabalha e, provavelmente, está tirando a vaga de algum estudante que tem emprego e precisa desse horário. 
     Os irmãos Leonardo Carvalho da Silva, de 12 anos, e Luciana, de 10, avistam da janela do apartamento uma escola na frente deles. É só atravessar a rua. Entretanto, eles vão estudar a pelo menos seis quilômetros da moradia, o que gera um custo de transporte para a família de R$ 90,00, valor pesado para o orçamento. Eles moram no conjunto habitacional da CDHU, Liga das Senhoras Católicas, no Butantã, Zona Oeste. A escola em questão não tem nome, mas está pronta há mais de um ano. A comunidade não tem nenhuma satisfação sobre a inauguração. "Cansei de ir atrás para ter informação dessa escola. O jeito foi matricular as crianças longe. De ônibus não dá para ir porque demora muito ou passa lotado e a pé o caminho é muito perigoso", afirmou a mãe, a escriturária Vera Regina de Oliveira Carvalho.
     Situação complicada é da educadora Maria Madalena Vilela, de 36 anos, que mora ao lado da escola. Ela paga R$ 60,00 de perua para a filha Raíssa, de 7, ir estudar em outro bairro. "Com esse dinheiro, dava para pagar dois condomínios. Vivemos apertado", ressaltou a mãe. Outra dificuldade, de acordo com ela, é para as mães que trabalham fora, como é o seu caso. "É uma preocupação a mais saber que os filhos estão longe", avaliou. As crianças e adolescentes da CDHU acabam indo estudar em bairros como o Jardim São Jorge. "Só que isso tem trazido um problema imenso, porque tem lotado as nossas unidades e tivemos de passar por sorteio também", afirmou o presidente da Sociedade Beneficente do Jardim São Jorge, Claudio Freitas. Segundo ele, em um dos bairros vizinhos, o Cambará, foi fechada a EEPG Elizabeth Rolim. "Chegou-se a cogitar que o prédio da escola fosse utilizado pela Febem, mas o projeto não foi para frente", contou.
     Na Cidade Tiradentes, zona leste, onde moram em torno de 250 mil pessoas, a Associação dos Moradores da Cohab Santa Etelvina (Acetel) fez um levantamento que já aponta mais de três mil crianças e adolescentes sem escolas. "Não tem vaga mesmo por aqui. E os que vão estudar em bairros distantes desistem por causa das condições financeiras", explicou o presidente da entidade, Silvio Amorim.

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Amanhã e nos próximos dias vou divulgar mais matérias dessa época, ou seja, sobre a primeira "reestruturação" realizada na rede estadual de São Paulo, na década de 90. Você vai saber de outras escolas que foram fechadas, conhecer mais alunos que foram prejudicados por essa tremenda desestruturação e entender um pouco sobre o rombo das verbas da educação no estado. Se naquela época houvesse alunos corajosos como esses que hoje estão "atrapalhando o trânsito" das principais ruas e avenidas da Capital e do interior, certamente teríamos uma escola melhor!

Parabéns, alunos da rede estadual de São Paulo, vocês estão virando essa página tenebrosa de descaso, incompetência e autoritarismo! Continuem ocupando suas escolas, até a vitória!!