30 janeiro 2013

Justiça tupiniquim pune pais de alunos!

Comentário do artista plástico Fernando Naviskas:
Abandono intelectual é o que governo faz com a educação em geral. Esse sim comete crime. Punindo os pais por não se submeterem ao péssimo nível escolar comete um segundo crime. Que país é esse?!




Três episódios envolvendo pais e alunos brasileiros mostram claramente que este é o país onde a injustiça é legalizada. (Se é que alguém ainda tinha alguma dúvida sobre isto...)

  • O segundo caso aconteceu em São Paulo em setembro, faltando apenas dois meses para o fim do ano letivo. O menino Paulo Henrique, aluno exemplar, educado e bem alfabetizado, fez uma brincadeira na internet e foi sumariamente expulso da escola. Você pode relembrar o caso clicando aqui. Apesar de termos conseguido demonstrar a irrelevância do fato, a diretora se recusou a aceitá-lo de volta. Investigando o caso, percebemos que a escola onde esse menino estudava era uma das piores da rede, com IDESP nota 1,51 para o Ensino Médio!!! Você pode ver inclusive, lendo o depoimento do Paulo Henrique no link acima, que ele escreve muito bem, certamente melhor do que certos professores daquela escola... Sugerimos então à família uma escola com IDESP bem melhor, no mesmo bairro. A Diretoria de Ensino aceitou a transferência para aquela escola, a família também concordou, porém sentiu-se lesada por todos os constrangimentos a que foi submetida durante a expulsão via Conselho de Escola e apelou para um advogado amigo da família, que pertencia a um dos melhores escritórios de advocacia de São Paulo. Pois bem: o juiz que cuidava do caso se negou a mexer com a escola! A escola, no Brasil, está acima de qualquer suspeita!!! Mesmo chamando a polícia para prender o aluno e sua família, mesmo criando um tribunal de exceção para expulsar aluno inocente, mesmo que a direção agrida, minta, calunie, a escola é intocável!!! Desse triste caso, ficou apenas a consolação de o aluno estar fora de uma escola que não merece ser chamada com esse nome, tanto pelo desempenho, quanto pela forma imoral como trata alunos e pais.
  • O terceiro caso simplesmente evaporou. rsrs Depositávamos nele a grande esperança de que, pela primeira vez, pais de alunos teriam ganho de causa sobre uma escola particular VIP que, como sempre de forma "elegante", expulsou sua filha dislexa por apenas alguns pontos que faltavam para a média exigida: nota 7,00!!! Essa é a nota mínima que garante a posição de uma escola de "alto padrão" no ranking... Pois bem: a escola dessa menina ficava em Belo Horizonte e o pai dela era um dos melhores advogados da cidade. Por isso tínhamos a esperança de que ele conseguiria dar ao Brasil esse primeiro exemplo de punição para uma escola que excluiu uma aluna já matriculada há anos, sendo a caçula de três filhos que só estudaram naquela mesma unidade! Pois bem, esse processo foi se arrastando, arrastando desde 2008 e nos últimos dois anos não conseguimos mais contato com aquele pai. Oxalá ele tenha conseguido algum sucesso, infelizmente duvidamos. Se isso tivesse acontecido, ele certamente acionaria a mídia, como fez na primeira instância do processo e prometeu nos enviar o podcast que nunca chegou...
Devemos portanto entender que se trata de mais uma derrota que a "justiça tupiniquim" infligiu aos pais de alunos desta pobre terra sem educação, independentemente se tiverem seus filhos na pior escola pública ou na escola particular do "mais alto padrão". Salve-se quem puder!

28 janeiro 2013

Todo mundo de olho no blog! rsrs



Alô, alô, Secretários e Secretárias da Educação dos municípios e estados brasileiros! Percebemos que estiveram aqui, pois às vésperas do início das aulas as visitas aqui no blog simplesmente bombam. rsrs É tanto medo assim das nossas críticas?...

Em seus sites, tudo sobre atribuição de aulas, concursos & outros assuntos interessantes para o profissional da rede. Sobre a Eleição dos Conselhos de Escola, absolutamente nada. Essa vai continuar sendo realizada, como sempre, na surdina, com papeizinhos de 2cm de largura para os alunos entregarem aos pais avisando sobre o dia da  "eleição", cujos candidatos sairão da cartola, coelhinhos dóceis e amáveis que vão dizer amém a todas as decisões do diretor da escola.

Bom, se estivermos sendo injustos, por favor, postem aqui seu posicionamento. Ganha uma postagem especial, com direito a foto, o Secretário ou Secretária da Educação que tiver orientado corretamente as direções das escolas sobre a Eleição Democrática do Conselho!


21 janeiro 2013

Minecraft como ferramenta de aprendizagem




A Folha de São Paulo de hoje noticia que o jogo virtual Minecraft está sendo usado como ferramenta de ensino em um pequeno, mas significativo numero de escolas ao redor do mundo. Isto nos lembra a recente história do Christian, um garoto brilhante que aprendeu sozinho a navegar pelo Minecraft e com ele construiu para si um mundo de conforto e aconchego, após ter sido "gentilmente" convidado a se retirar da escola Rudolf Steiner, uma renomada unidade da pedagogia Waldorf. Aos 12 anos, Christian ainda não estava alfabetizado e a escola julgava não poder fazer mais nada por ele. Pois é, escola particular não expulsa, convida a se retirar, mas o empurrão é firme e certeiro! Até então, Christian dormia na classe, incapaz de assimilar aulas certamente maçantes e repetitivas para sua inteligência brilhante. O aluno sonolento e sonhador revelou-se porém um estudante participativo e interessado quando mudou para a Lumiar, a escola fundada por Ricardo Semler, aquele que "virou a propria mesa" e com isso também ajudou crianças e adolescentes desprezados por escolas limitadas e pouco compromissadas com seus alunos. Certamente foi no Minecraft que Christian encontrou um refúgio para se proteger do abandono e manter sua autoestima minimamente elevada, além de alimentar sua mente sedenta de desafios. Para os que não o conhecem, o Minecraft é um jogo sofisticado e inteligente, com recursos ilimitados, mas só para quem se aventura nele com criatividade e espirito empreendedor. Isto demonstra quanto potencial humano as nossas escolas costumam desperdiçar, ao focarem apenas no adestramento de seus alunos, em lugar de despertar neles o prazer do conhecimento e a satisfação do aprendizado, acompanhando os tempos e adequando-se às descobertas da ciência e da tecnologia.

Parabéns, Christian, você foi pioneiro no uso do Minecraft como ferramenta de aprendizado e descobriu isso sozinho! Um jogo virtual, daqueles muitas vezes desprezados por supostos educadores, teve para você maior utilidade do que os anos em que foi obrigado a esquentar uma carteira escolar, forçado a aprender um be-a-ba que não lhe fazia o menor sentido.

08 janeiro 2013

Eleição democrática dos Conselhos de Escola: um circo!

Este é um assunto "clássico" aqui no EducaFórum, desde o nosso artigo Gestão participativa na escola: a exclusão da comunidade. Todo ano nos cansamos de falar que a única maneira de garantir a gestão democrática nas escolas é promover a eleição de Conselhos de Escola independentes e conscientes, com a participação real dos pais e alunos. E isso só será possível se a eleição dos Conselhos for realizada no mesmo dia em cada rede de ensino, ou, no mínimo, em cada município. Caso contrário, os maus diretores de escola continuarão transformando a "eleição" na simples indicação de pais de alunos manipuláveis e já aliciados por eles. Na prática atual, a "convocação" para a eleição costuma ser enviada aos pais em papeizinhos de 2 cm de largura através dos próprios alunos, NA ESPERANÇA DE QUE ELES OS PERCAM, como é comum em crianças e adolescentes, não é mesmo?... Assim os diretores podem afirmar que enviaram sim a convocação, mas os pais não se interessaram em participar. E assim o circo continua durante mais um ano! Isto acontece em todo o Brasil, não apenas no Estado de São Paulo.

Vamos ver se este ano haverá alguma diferença, pelo menos no município de Espírito Santo do Pinhal, onde o Prof. José Benedito, ex-coordenador da COGSP, foi eleito prefeito. Pedimos que você dê o exemplo para todo o Brasil, caro José Benedito!

Para entender bem o assunto, leia o excelente artigo do Mauro Alves da Silva, clicando no link: http://movimentocoep.wordpress.com/2013/01/07/quem-tem-medo-da-eleicao-democratica-do-conselho-de-escola/

06 janeiro 2013

Carimbar os royalties do pré-sal!


Você já se cansou do nosso blablablá sobre como as verbas destinadas ao ensino são desviadas, manipuladas etc e tal, não é? Nós também nos cansamos de repetir que só aumentar os gastos não vai resolver os problemas, se não houver um projeto nacional coerente e focado na qualidade do ensino, no respeito ao aluno, na meritocracia. No entanto, sabemos que, se a sociedade não tiver um mínimo de conhecimento e de controle sobre essas verbas, elas vão continuar sendo dilapidadas a bel prazer por políticos inescrupulosos que só pensam em seus interesses pessoais ou partidários. 

Você já ouviu falar dos royalties do pré-sal, não é? São os valores pagos em dinheiro ao governo pelas empresas produtoras de petróleo para ter direito à exploração. Não tenha dúvida de que, se esse dinheiro não for aplicado em algo que seja realmente útil para a sociedade, ele vai sumir nos bolsos de políticos oportunistas & apaniguados. A Presidente Dilma, que merece todo o respeito - apesar das nossas diferenças com o PT - editou uma Medida Provisória para que esse dinheiro seja destinado por todos os governos que o receberem, à educação. Se essas verbas forem assim "carimbadas", ou seja, destinadas para essa que é para nós a maior prioridade do Brasil, todo o país ganha! Assim, também, será mais fácil a fiscalização das verbas da educação, que é também a maior falha do país, mas temos que acreditar que, nas novas gerações, haverá economistas e especialistas em finanças que conseguirão debruçar-se sobre as bilionárias verbas públicas e saberão dar transparência ao gasto desse dinheiro.

Acontece que a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que muda as regras  da distribuição dos royalties do pré-sal, pulverizando os recursos pelo país inteiro, um projeto nebuloso que prejudica os estados produtores e liga nada a coisa nenhuma. A Presidente Dilma foi firme em atender as reivindicações populares e vetou o projeto, determinando que o dinheiro seja vinculado à educação. Nossa colaboradora Cida Gomes, do Movimento Ideamos, uma das fundadoras do EducaFórum, iniciou uma petição  da AVAAZ para garantir que o veto da Dilma seja respeitado por um congresso que, geralmente, está na contramão dos interesses da população. Você provavelmente também sabe o que é a AVAAZ, não é? Trata-se de uma organização mundial  séria e independente, que desenvolve campanhas para exercer pressão popular sobre todos os governos, de acordo com as legítimas reivindicações de seus cidadãos. SEM PRESSÃO POPULAR, governos corruptos ou totalitários continuarão exercendo seu poder indefinidamente. Isso a história da humanidade nos conta há milênios... 

Se você está de acordo com a petição, assine no link abaixo e seja um dos 100 primeiros apoiadores desta campanha a favor da vinculação do dinheiro dos royalties do pré-sal à educação!
http://www.avaaz.org/po/petition/A_presidente_da_Republica_Dilma_Rousseff_vetou_o_artigo_3o_do_projeto_de_lei_aprovado_na_Camara_dos_Deputados_que_mud/?fntxMab&pv=4


04 janeiro 2013

Mais verbas para a Educação??? nº 3



Segue abaixo o terceiro artigo que escrevi e publiquei em 1998 no "finado" Diário Popular sobre a questão das verbas destinadas ao ensino. Ele é bastante revelador, pois anuncia a futura CPI da Educação, que terminou... adivinha como? rsrsrs Ah, e a notícia mais importante é que, após a CPI, Papai Noel concedeu ao Estado e ao Município o presente de passar a investir na Educação não mais 30, mas 25% dos impostos e transferências...
Segue o artigo e ao pé da página vai um vídeo do dia 7 de abril de 1998, dia anterior à aprovação da CPI. Aprecie as falas e as caras dos vereadores, rs. Enfim, com isso quero apenas dizer que já foi feita muita "onda" a respeito da aplicação das verbas destinadas ao ensino, aqui em São Paulo. O EducaFórum (na época Fórum Municipal de Educação)  encaminhou representações ao MP contra o Município e o Estado, cujas cópias entregamos em audiência pública conjunta na Câmara Municipal para os então secretários Regis de Oliveira e Hubert Alquères. O primeiro, que havia acabado de assumir, agradeceu as informações e disse que iria apurar os fatos, mas abandonou a pasta duas semanas depois; o segundo, secretário adjunto, saiu pela porta dos fundos e não conseguimos falar com ele depois da audiência, rsrs... Depois disso, o governador Mario Covas me ligou pessoalmente um domingo de manhã dizendo que havia lido meus artigos no Diário Popular (ele pediu meu telefone para a redação) e nos convidou para uma reunião no palácio, a fim de esclarecer a questão da aplicação das verbas. Fomos em 6 membros do Fórum e o governador não apareceu. Em seu lugar, o Montoro Filho, cercado de um batalhão de economistas, quase todos de olhos puxados, rs. O Montoro disse que o governador havia resolvido deixar para ele a incumbência de nos receber, já que "ele era espanhol e eu italiana", assim os ânimos poderiam se exaltar, rs... Apresentamos nossos números e  os japinhas apresentaram os deles. O resumo da ópera foi que "o governo estava agindo rigorosamente de acordo com a lei, se estivéssemos em desacordo, que procurássemos a Assembléia Legislativa para pedirmos mudanças na legislação... ". Enfim, a caixa preta é inviolável!
Hoje essa "onda" está sendo levantada novamente, partindo também de um pressuposto errado: de que o importante é o volume de verbas provisionadas, sem questionar sua aplicação, ou até achando que a solução milagrosa é pagar melhores salários para professores despreparados e acostumados a não ser fiscalizados... O respeito para o aluno, a proposta educacional, a meritocracia, que deveriam ser os principais focos da discussão, estão sendo deixados de lado. 15 anos depois, o sistema ainda obedece aos maus políticos, aos sindicatos e ao lobby da escola particular, onde se encontram as chaves da caixa preta. 

CAIXA PRETA nº 3, artigo publicado no dia 19 de março de 1998, quando o prefeito de São Paulo era Celso Pitta e o governador do estado Mario Covas

O Município e o Estado de São Paulo têm ficado à vontade para aplicar, na Educação, menos que o mínimo exigido pela Lei Orgânica e pela Constituição Estadual: 30% dos impostos e transferências. Na prática, porém, o desvio de recursos é ainda maior, pois existe um outro elemento: a manipulação dos gastos. O exemplo mais recente é um escândalo: antes do fim do ano, a Prefeitura de São Paulo conseguiu convencer os vereadores de que precisaria rolar até 2002 os recursos que deixasse de aplicar em 97. Pois bem: em dezembro, o Sistema de Execução Orçamentária (SEO) da Prefeitura, que informa os gastos diários de todas as secretarias e áreas do município, acusava um forte desfalque das verbas destinadas ao ensino, algo em torno de 500 milhões. Ao mesmo tempo, mostrava um grande desvio de verbas - cerca de 700 milhões, para "despesas gerais", aparentemente pagamento de dívidas da administração passada. Infelizmente não deu tempo de pesquisar: o SEO saiu do ar antes do fim do ano e ficou inacessível até fevereiro. A grande surpresa veio agora, quando a Prefeitura anunciou que, em 97, teria aplicado no ensino mais de 30%. Ora, para que então pedir nova rolagem de dívidas?... Esta história está muito mal contada e, somada com as anteriores, mostra um mar de lama que exige uma CPI da Educação. Só assim para esclarecer como a Prefeitura consegue o "milagre" de aplicar 30% no ensino, quando os pais precisam fornecer até papel higiênico para as escolas. Aliás, não é nenhuma novidade: é uma história que começou em 93 e só é solucionadas através das APMs (novamente os pais de alunos!), que lhes fornecem papel higiênico e outros artigos "de luxo".
    Quanto às verbas da Educação estadual, na sexta-feira 13 (!) de março entramos com representação questionando por que a Procuradoria Geral de Justiça do Estado denunciou a Prefeitura por não aplicar 30%, mas ignorou que o estado faz o mesmo, o que já lhe havíamos representado no mesmo dia de 97. Felizmente está sendo proposta uma CPI da Educação em nível estadual, que apoiamos e acompanharemos, para que não acabe em pizza.
    Os tribunais de contas são um capítulo a parte: o TCM - é o cúmulo! - ganhou um certificado de Qualidade Total, depois de ele próprio calcular os gastos da Educação Municipal de 95, tirando esse fardo dos ombros da Prefeitura. Essa "marmelada" até que não foi de todo ruim, pois não conseguiu disfarçar as dívidas da Prefeitura com a Educação. Mas o que cabia ao TCM era - simplesmente - receber e avaliar as contas, não fazer os cálculos para a Prefeitura!
   Quanto ao TCE, começou a reconhecer seus erros passados, mas vai ter coragem de aprovar as contas do Estado de 97? Também receberá prêmio? Pior do que isso, só o prêmio que a secretária Rose Neubauer ganhou da UNICEF e a promoção que essa senhora receberá após sair da Secretaria Estadual da Educação, por ter deixado tantos brasileiros sem estudo...
    A CAIXA PRETA que esconde os segredos do sucatamento do ensino público brasileiro se esconde provavelmente no exterior. Este ano, o Banco Mundial está também comemorando o fim do ensino técnico integrado de Segundo Grau, que combatemos desde o início e que já mostra seus prejuízos em exemplos como este: a ETE Getúlio Vargas, até hoje uma das mais requisitadas escolas técnicas públicas da capital, está com mais de 20 salas ociosas à tarde. Champagne!


 

(continua)

03 janeiro 2013

Mais verbas para a Educação??? nº 2



Dando continuidade ao assunto (clique aqui para ler o nº 1), segue meu segundo artigo publicado em 1998 no finado Diário Popular, sempre tentando mostrar que em 15 anos pouco mudou e que o interesse por verbas continua sendo apenas questão de barganha, já que a preocupação com a qualidade dos investimentos e a fiscalização dos gastos não é prioridade. Os últimos anos da década de 90 foram um verdadeiro caos na rede pública paulista e paulistana: falta de vagas, classes superlotadas, aulas vagas em proporções absurdas, proposta educacional sem consistência etc. etc. E hoje? Aposta-se no aumento de verbas para resolver os problemas! Continuamos andando em círculos... Amanhã posto o terceiro e último artigo da série "Caixa Preta 1998".

CAIXA PRETA Nº 2, texto publicado no dia 22 de janeiro de 1998, quando o prefeito de São Paulo era Celso Pitta e o governador do estado Mario Covas

   Muitos políticos alegam que a "exagerada" preocupação da opinião pública com as verbas da Educação se resume a manobras políticas para afastar prefeitos ou governadores. Seus compromissos são com os governantes e não com a Educação.
    Felizmente, a "onda" de interesse da opinião pública com respeito à manipulação e ao desvio das verbas destinadas ao ensino continua de vento em popa. Num país onde uma mãe é presa por roubar um remédio, está na hora de colocar um "colarinho xadrez" nos responsáveis pelo desvio das verbas da Educação, que prejudica milhões de crianças e adolescentes e retarda o desenvolvimento do Brasil. 
   Teoricamente, neste exercício, as verbas deverão ser aplicadas religiosamente, de acordo com a nova LDB, que não deixa dúvidas sobre o que se entende por gastos com o ensino e obriga a um acerto trimestral de contas. Estamos de olho!
   Este é também o ano em que entra emvigor o "Fundão", que distribui as verbas para o ensino fundamental aos Estados e Municípios, de acordo com o efetivo número de alunos. Esse dispositivo promete se tornar um "poço sem fundo", se não houver a fiscalização da sociedade civil. Pois bem: a Prefeitura de São Paulo elaborou o projeto de um conselho de supervisão do Fundão em nível municipal, onde a "fiscalização" ficaria por conta de elementos nomeados pelo Executivo. Junto com outras entidades, protestamos e, em conjunto com a comissão de Educação da Câmara, participamos da elaboração de um substitutivo que permite a real fiscalização do Fundão. O substitutivo foi aprovado por unanimidade pela Câmara, mas a participação popular foi vetada pelo prefeito, no fim do ano. Por que será?... Esperamos que os senhores vereadores tenham agora a coerência de derrubar o veto, de acordo com o compromisso que assumiram com seus eleitores. 
   A situação do Estado é um pouco pior, pois nem mesmo foi elaborado um projeto de fiscalização do Fundão em nível estadual. Além disso, as verbas sonegadas da Educação nos últimos anos poderiam ter resolvido os maiores problemas da rede pública e o Estado nem mesmo reconhece suas dívidas para com o Ensino. O objetivo do governo, desde o início, foi de economizar e não de investir na Educação. Essa é aliás a fala "confidencial" dos supervisores de ensino com os quais temos tido contato... A separação das escolas tinha o intuito de esvaziar as unidades de Primeiro Grau e entregá-las à Prefeitura para municipalização. As escolas de Segundo Grau, ao contrário, ficaram superlotadas, com 55 alunos matriculados em cada classe. Com tal composição das turmas, fica fácil a Secretaria alegar que houve mais vagas do que candidatos. Até abril, a Secretaria torce para que as classes já estejam menos lotadas, o que fatalmente acontecerá: muitos alunos terão desistido, afastados pela distância, pelo descaso, pelo cansaço.
   É essa, evidentemente, a orientação da política educacional brasileira, teleguiada por economistas preocupados em evitar o acesso dos alunos da rede pública às universidades.
   É fácil identificar os bons políticos: consideram a Educação um investimento e não um gasto: lutam pelas verbas do ensino; votam a favor de seus eleitores, mesmo contra governantes de seus próprios partidos; se necessário, saem de um partido que esteja traindo seus próprios princípios. Eles sabem que só a educação de qualidade promove o progresso do país e dão prioridade ao assunto. Só esses bons políticos podem arrombar e destruir a CAIXA PRETA que esconde os segredos do sucatamento do ensino público. Não é um absurdo que o maior defensor da Educação, em São Paulo, seja o Ministério Público?... 

(continua)

02 janeiro 2013

Mais verbas para a educação??? nº 1



Neste início de ano, vale uma reflexão mais profunda sobre o assunto que sempre ocupa o primeiro lugar na mídia quando se fala de educação: VERBAS. Costuma tratar-se de um ping-pong superlight, do tipo tênis de praia, que não leva a lugar algum. No fundo, ninguém quer aprofundar o assunto, só se pensa em "números", como se a educação fosse uma grande loteria - e no fundo tem sido: quanto mais alto o "prêmio", maior o esbanjamento e a  alegria geral...

Então, já que faço parte daquela meia dúzia de 3 ou 4 que têm procurado acompanhar e entender a fundo o assunto nas últimas décadas, resolvi postar aqui uma série de 3 artigos meus publicados no finado Diário Popular no início de 1998, quando eu participava ativamente das reuniões do Fórum Municipal de Educação, na Câmara Municipal de São Paulo. Vou postar um por dia, na esperança de conseguir mostrar que apenas o gasto de mais verba não resolve e até pode agravar os problemas, se não houver gestão e fiscalização adequadas. Imagine você anunciando que ganhou na loteria: quantos penicos não aparecerão na sua porta? Na política é um pouco pior, a visita dos penicos já é agendada, rsrs... Este é um país sem "memória ram", por isso escarafunchei esses 3 artigos sobre a questão das verbas da educação em São Paulo há 15 anos, quando a aplicação deveria ser de 30% sobre impostos e transferências. Essa percentagem já foi reduzida para 25% e agora fala-se em aumento das verbas federais, sem questionamentos sobre a aplicação... Realmente, a discussão está no nível do tênis de praia, ainda bem que estamos em pleno verão, rs!

CAIXA PRETA nº 1, texto publicado no dia 15 de janeiro de 1998, quando o prefeito de São Paulo era Celso Pitta e o governador do estado Mario Covas.

    Esta cena se passou no gabinete da presidência da Câmara Municipal, quando representantes da sociedade civil tentaram convencer os vereadores governistas a votar contra a rolagem das dívidas da Prefeitura com o ensino até o ano 2002. Uma entidade empresarial propôs: se a Prefeitura está com dificuldades financeiras, a ponto de não poder honrar seus compromissos com a Educação, que apresente suas contas: quem sabe, os empresários não possam ajudar... 
  Alguns vereadores recusaram grosseiramente, afirmando que parte dos problemas municipais era devida à sonegação das empresas. A entidade revidou que aceitaria a rolagem das dívidas da Educação, se os vereadores se comprometessem a matricular seus filhos ou netos em escolas municipais. A resposta foi uma sonora gargalhada dos vereadores presentes, uma risada carregada de deboche que preencheu todo o salão e que merecia ser transmitida por todos os canais de rádio e TV da capital, na hora do jantar de seus eleitores.
  Quando esses políticos prometeram, em suas campanhas, lutar pela educação, foi com tamanha falsidade, que a cena deveria ser ao contrário. Imaginem os eleitores seus "eleitos" subirem ao palanque e declarar: "Prometo que me empenharei ao máximo para reduzir as verbas da Educação, ano após ano!" Pois é o que esses vereadores têm feito, com grande sucesso. Os senhores deputados da Assembleia Legislativa não ficaram atrás: compactuando com um governo que tem fechado escolas, turnos e classes, permitiram a sonegação de bilhões das verbas destinadas ao ensino, sem que a Comissão de Educação fizesse algo para impedir.
  Para coroar o quadro do ensino básico no estado, a rede Paula Souza aderiu ao projeto de desmonte do Ensino Técnico de 2º Grau, deixando suas escolas às traças e favorecendo a rede particular, que abocanhou os alunos possíveis.
   A não-aplicação das verbas destinadas ao ensino não se refere a simples percentagens ou números: ela diz respeito ao descaso com o aluno, que precisa penar para se manter na escola e sofre com a falta de professor, de segurança, de estímulo. O pior é a falta de proposta educacional, tanto no estado quanto no município. Assim, mesmo que sejam apresentadas contas que "comprovem" até a aplicação de 50% das verbas, será impossível acreditar.
  Algumas vozes tem se levantado contra o desvio e a manipulação das verbas do ensino: que elas continuem a denunciar os abusos e se aprofundem no problema, muito complexo. Vejamos por exemplo uma reforma de escola: a empresa que ganha a licitação subempreita o serviço para uma segunda, que subempreita para uma terceira, a terceira para uma quarta. a duração da obra é interminável, a qualidade dos materiais e da mão de obra, péssima.
   Estamos ainda engatinhando na compreensão dos mecanismos que desviam as verbas do ensino das salas de aula. O orçamento da Educação continua uma CAIXA PRETA a ser aberta, talvez, somente por economistas de bancos estrangeiros...

(continua)