30 julho 2007

Sobre vassouras e bruxas


Quando a professora Glória mencionou o artigo do Padre Geraldo Magela Teixeira, Reitor do Centro Universitário UNA, Violência na escola, publicado em 13/7 no jornal O Estado de Minas, acabei passando por cima, devido à correria do dia-a-dia. Vi porém que o nosso amigo Mauro resolveu inscrever o Padre ao Prêmio IgNóbil da Educação, conferido anualmente àqueles que prestarem maiores desserviços a essa área já tão bem contemplada de descaso e incompetência. Resolvi checar o assunto e passei umas duas horas rindo à toa... Divirtam-se com os delírios do professor-doutor-reitor mineiro, que acrescentou às causas da violência na escola o elemento "edipiano":

Nos últimos dias, tivemos aumento considerável de casos noticiados de violência nas escolas públicas. Ocorreram casos de verdadeiras tentativas de homicídio que chegaram ao limite do tolerável. Mutilação de dedos, queima de cabelos, uma funcionária pisoteada e até mesmo um incêndio em uma residência de professora.

Em seguida, ele disserta sobre a violência como culpa dos pais e dos alunos: falta de autoridade, de limites, de punição e cita um relatório do grupo Pólos da UFMG sobre a vida numa escola, em que professoras entravam em sala armadas de cabos de vassoura para se defender.

Por que então nossos jovens temeriam a punição se aprendem que tudo é permitido? Na escola, reproduzirão comportamentos aprendidos em outros espaços sociais. Entretanto, ao peso da falta de limites na família e a impunidade que assola o país acrescente-se um elemento edipiano. A professora, de certa forma, personifica a autoridade dos pais, do Presidente. Uma criança ou um jovem maltratado pelo mundo, desprotegido e sem perspectiva, não podendo agir violentamente contra essas autoridades, agride a personificação dessas figuras, aquela que está mais próxima dela e aparentemente mais frágil: a professora. É o chamado "exercício edipiano da catarse".
Ora, ora... se a professora usa um cabo de vassoura para se defender de uma agressão que de fato caberia ao Presidente, então é fácil: basta subir na vassoura e voar para Brasília...
Prêmio IgNóbil da Educação para o Padre Geraldo Magela!

28 julho 2007

Vamos à passeata?


Caros amigos, amanhã, domingo, às 9:00, haverá uma passeata em homenagem às vítimas do acidente da Tam. A saída será no parque do Ibirapuera, em frente ao Monumento às Bandeiras e o ponto final será o lugar do acidente. Vestiremos uma peça de roupa preta, levaremos flores e também o cartaz

BLOGS UNIDOS PELO "SUICÍDIO" DOS POLÍTICOS
Leia o release:
Não queremos derramamento de sangue. Aliás, chega de derramamento de sangue!
O descaso, a corrupção e a incompetência dos políticos que querem manter o povo na ignorância têm causado a morte de milhões de brasileiros ao longo de anos e anos em que os hospitais andam recusando pacientes, as escolas expulsam alunos e o desemprego engorda a marginalidade.
A "novidade" agora é o caos aéreo, crise que anda se agravando desde o acidente da Gol no ano passado, mas que foi colocada em panos quentes durante anos. Quantas mortes ainda serão necessárias para que se possa sentir novamente a segurança de viajar por via aérea e ver um avião cruzando o céu sem medo de ter a própria casa destruída?
Não pedimos o suicídio real dos políticos, aliás, NÃO HÁ PERIGO!
Os políticos brasileiros corruptos não se suicidam, pois não têm honra.
Pedimos é que tenham a coragem de renunciar, mas POR JUSTA CAUSA, renunciar à reeleição, às mordomias e benesses que acordos vergonhosos e aposentadorias precoces proporcionam.
No dia em que o primeiro político brasileiro fizer isso, poderemos acreditar que a ética na política terá finalmente chance neste país.

27 julho 2007

Nos bastidores...


Recebemos mensagem da mãe de um aluno de pré-escola particular, que resolveu transferi-lo para outra. Como sempre dizemos aqui, os pais de alunos da rede particular têm total liberdade de mudar seus filhos de escola à hora que bem entenderem, muito diferente dos pais que costumam matricular seus filhos na rede pública.

A situação narrada me lembra o caso que relatamos no iníco do ano, da criança chamada de "burra" pela professora. Infelizmente, a mãe era analfabeta e preferiu ficar com a filha em casa em vez de lutar contra uma professora autoritária, principalmente em vista da impossibilidade de mudá-la de escola...

A professora do meu filho tinha um traço de personalidade muito grave: nao assumia erros. Quem não assume seus próprios erros, como ensinará isto para crianças? Numa fase onde a identificação com o adulto é fundante da personalidade... Afora isto, estava sendo muito relapsa com cuidados básicos. Além de eu ter descoberto que ela deixava - até autorizava - as crianças a revidarem agressões. Como meu filho é muito tranqüilo, resolve tudo no argumento, começou a pedir para nao ir para a escola. No princípio, pensei que era manha, mas depois me dei conta que tinham coisas erradas acontecendo em sala de aula. O clima estava belicoso demais. Isso para resumir o tema.
O pior são os argumentos de alguns pais para nao se mobilizarem:

1) professor ruim tem em todas as escolas

2) eu nao vou reclamar porque a professora vai pegar no pé do meu filho

3) eu acho que tem que ensinar a bater, porque o mundo aí fora é violento.

Cruel!!!

25 julho 2007

Nova Secretária da Educação em São Paulo


Da Folha Online

A socióloga Maria Helena Guimarães de Castro assumiu a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo em substituição à professora Maria Lúcia Vasconcelos.

Especialista em Educação, Maria Helena foi secretária-executiva do MEC (Ministério da Educação) em 2002 e presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais do MEC entre 1995 e 2002, ambos os cargos durante a gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002).
"O governador José Serra [PSDB] pediu a continuidade do esforço para melhorar a alfabetização, ênfase no uso das avaliações para melhorar a qualidade da aprendizagem, aperfeiçoamentos na gestão do sistema e atenção especial na formação e valorização dos professores", disse Maria Helena por meio da assessoria.
A nova secretária pretende colocar como prioridade as gestões do sistema estadual de educação, da escola e da sala de aula. Para isso, Maria Helena pretende estabelecer canais de comunicação permanentes com as diretorias de ensino, além dos professores, funcionários e pais de alunos.

Maria Helena Guimarães de Castro é nossa velha conhecida. Quando pedimos ao INEP para fazer uma pesquisa sobre AULA VAGA, a grande praga do ensino público no Brasil, ela era a presidente da instituição. Essa pesquisa não foi feita até hoje e todos os governos brasileiros - federal, estaduais e municipais - fingem que não sabem que trata-se do maior problema do ensino público no país. A fim de colocar panos quentes sobre a questão, a Secretaria Estadual de São Paulo proíbe o uso da expressão AULA VAGA na rede...

Semana que vem vamos entrar em contato com a nova Secretária. Se for verdade que ela pretende "estabelecer canais de comunicação com os pais de alunos", vamos questionar o autoritarismo da rede, que costuma expulsar alunos a bel prazer via Conselho de Escola e manter o site da SEE fechado aos pais e comunidade.
By the way, gostaria muito de saber do jornalista que escreveu essa matéria o que se entende por "especialista em Educação"...
"Especialistas em Educação" somos nós, pais de alunos da rede pública, que tivemos que contornar todas as falhas da escola dos nossos filhos!
"Especialistas em Educação" somos nós, que recebemos denúncias de outros pais e alunos do Brasil inteiro e procuramos orientá-los para enfrentar os abusos de que são vítimas, já que nenhum órgão público abre suas portas para ouvi-los, muito menos as famosas "Surdorias" da Educação.

23 julho 2007

Que elite é essa?


Segue o artigo A elite brasileira, de Patrícia Botari, enviado pela professora Glória Reis.

Não há país no planeta que vença o Brasil em desigualdade social, a não ser a pequena Serra Leoa, um país africano que vive em constante guerra civil. (Luis Victorelli)

No sentido estrito da palavra, elite, segundo o dicionário Aurélio, significa “Aquilo que há de melhor numa sociedade. Minoria prestigiada e dominante no grupo e constituída de individualidades merecedoras por si mesmas”.

Eis aqui o momento de se fazer uma pausa para reflexão: será que a nossa elite corresponde a essa denominação? A pirâmide social no Brasil obedece, cada vez mais, a sua estrutura: base larga e ponta estreita, onde a base representa o número cada vez mais crescente de pobres e miseráveis e a ponta indica a alta concentração de renda nas mãos de cada vez menos pessoas. Num país capitalista, há que se dizer da esperança da mobilidade social. Entretanto, temos que levar em consideração que existe uma ínfima perspectiva do ocupante da base da pirâmide em ascender ao nível intermediário e quase nula de chegar ao topo, devido ao nosso IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), que não acompanha o crescimento do PIB (produto interno bruto). Isso nos leva a crer que o país enriquece, mas o povo não consegue se desenvolver à altura, não lhe são dadas condições, nem estímulo. Não podemos continuar a conservar essa cultura de “salve-se quem puder”, não podemos denominar a elite como se esta não fizesse parte de um povo que compõe uma nação. Já é passada a hora da conscientização, de direcionarmos nossas atitudes a melhorar as condições do país e não as nossas próprias, senão resumiremos o Brasil a uma nação corrupta por natureza, um berço esplêndido que abriga sob o mesmo teto uma minoria que goza de uma qualidade de vida digna de um país desenvolvido de alto escalão e uma esmagadora maioria que sofre como se penasse com uma guerra civil de um país africano, sem riquezas, sem esperança... (essa, definitivamente não seria uma mãe gentil). É aí que demonstraremos o amor cívico pela nação, é aí que bateremos no peito com orgulho, é aí que saberemos identificar onde está nossa elite, onde está nosso melhor.

Chega de hipocrisia, coloquemos a ‘mão na massa’ e comecemos a fazer a nossa parte. Este país é a herança que recebemos de nossos antepassados, não cometamos os mesmos erros com nossos descendentes. Nós somos a elite, a elite honesta, pensante, que luta, que não se corrompe, isto se identifica com o melhor. Chega de denominarmos corruptos, abastados e autoridades de elite. Identifiquemo-na como os melhores, mas os melhores seres humanos.

Patrícia Botari

20 julho 2007

Ainda o Pro Jovem

Hoje o EducaFórum voltou a entrar em contato com o Ministério Público para solicitar
informações sobre a situação já relatada diversas vezes. Leia o histórico nos links abaixo.

Apenas resumindo, em janeiro encaminhamos à Coordenadoria do Pro Jovem em Brasília sérias reclamações sobre o curso implantado na EMEF Prefeito Adhemar de Barros, em São Paulo. Cópia foi enviada para o ministro da Educação Fernando Haddad, que porém “nada tem a ver com o assunto”, pois se trata de um programa da própria Presidência da República.

O resultado imediato da denúncia foi uma tremenda perseguição aos alunos do curso por parte de alguns professores, que fizeram uma cruzada para descobrir “quem havia espalhado mentiras” a respeito de um curso “tão bem implantado”. Esses professores jogaram os alunos uns contra os outros, alegando que as aulas seriam suspensas se não se encontrassem “os culpados”. As perseguições terminaram somente após o acionamento do Ministério Público e a desistência de muitos alunos, apavorados com o terror instaurado.
Veio então uma fase de calmaria e alguns problemas foram contornados, como, por exemplo, a falta dos professores de matemática e de educação para o trabalho, que finalmente apareceram, sete meses após o começo do curso, mas ignoraram as duas primeiras partes do programa e iniciaram pela terceira. A média de aulas vagas também diminuiu após a interferência da promotoria, pois no início do curso os alunos tinham apenas uma ou duas aulas por dia, o que causou grande evasão. Mesmo assim, nos últimos meses as aulas iniciavam às 19h30 e os alunos eram dispensados já às 22h20, tendo ainda um intervalo de 40 minutos, ou seja, eram ministradas no máximo duas ou três aulas por dia.

A promotoria instaurou um inquérito para apurar as responsabilidades, mas ainda não recebeu resposta do Secretário Municipal de Assistência Social de São Paulo, responsável pela aplicação dos recursos provenientes do Governo Federal. Esperamos que os fatos sejam apurados com rigor, pois vários problemas continuam sem solução:

O laboratório de informática ainda não foi montado, ou seja, os computadores continuaram encaixotados numa sala da escola até a data do término das aulas regulares, dia 28 de junho. Durante o ano de curso, os alunos deveriam ter tido 300 horas de computação (inclusão digital), mas receberam apenas 4 aulas, que foram dadas na sala de informática dos alunos da rede municipal, cedida excepcionalmente aos alunos do Pro Jovem, já que os computadores do projeto permaneciam encaixotados.

Além disso, as aulas da disciplina de qualificação para o trabalho, chamada “Formação Técnica Específica” iniciaram – pasmem! – após o término do curso regular, ou seja, agora em julho, pois essas aulas dependiam da criação de laboratórios de fotografia, filmagem, gastronomia etc., que não foram instalados. Está previsto que os alunos continuem tendo essas aulas duas vezes por semana, até o final de agosto, mas serão apenas aulas “teóricas”, pois não há equipamentos nem materiais para o desenvolvimento dos trabalhos. E finalizamos: faltam inclusive alunos!!! Sim, o curso, que iniciou em maio de 2006 com 4 salas de 30 alunos na EMEF Prefeito Adhemar de Barros, está prestes a terminar com uma única sala de no máximo 20 alunos. Alguns desses poucos remanescentes não irão reivindicar a instalação dos laboratórios nem a reposição das aulas de informática, pois deixaram de receber a bolsa-auxílio de R$ 100,00 mensais já em maio. A condição para a permanência no Pro Jovem é que os alunos não trabalhem com registro. A partir do momento em que deixaram de receber a bolsa, muitos precisaram procurar trabalho...

Esse foi o estrago do programa Pro Jovem, da forma como foi implantado nessa EMEF de São Paulo. No entanto, a escola cedeu apenas o espaço físico para o projeto, e toda a responsabilidade pelo gerenciamento de recursos cabe à Secretaria Municipal de Assistência Social. Entenda bem: o programa é federal, mas os recursos são repassados a cada município.

Esperamos que a ação do Ministério Público possa garantir, aos poucos alunos que restam, a reposição de aulas dignas e proveitosas, concedendo-lhes a bolsa-auxílio durante todo o tempo que durar essa reposição. Esperamos, mais ainda, que as próximas turmas do Pro Jovem, nessa e em outras escolas de São Paulo, sejam tratadas com o respeito e a dignidade que merecem. De que adianta receber um diploma de faz-de-conta?

Leia abaixo os textos publicados neste blog sobre o Pro Jovem.

http://educaforum.blogspot.com/2007/01/frias-ns.html
http://educaforum.blogspot.com/2007/01/situao-se-agravou.html
http://educaforum.blogspot.com/2007/01/em-boas-mos.html

O EducaFórum adverte: este blog é chato.
Entretanto, se você é daqueles que falam da importância da educação, mas lê apenas teoria, o EducaFórum adverte: você é hipócrita.

17 julho 2007

Diogo Silva, o OURO que a escola não destruiu


Leia aqui mais um excelente texto da amiga Cremilda, link ao lado.

Medalha de Ouro no Pan e orgulho dos brasileiros, Diogo Silva foi um dos milhares que a escola enviava para psicólogo quando não entendia e não queria se dar o trabalho de investir na sua hiperatividade. As psicólogas quase sempre desmentiam a escola, mas a marca de "louquinho" e o desconforto ficavam. Dificilmente um aluno assim marcado melhorava, era quase sempre um desistente da escola sob "livre e espontânea pressão".

Hoje a escola não faz mais isso. Ela se livra dos alunos agitados com talento, dos líderes e rebeldes, de modo mais rápido. Expulsa simplesmente. Métodos para expulsar aluno de escola pública é o que não falta, principalmente em São Paulo. São eficientes e rápidos. Um deles é apelar para a Lei do Desacato, provocar o aluno e, quando ele revida, chamar a Policia Militar alegando que o aluno desacatou o professor. Pronto! O aluno está desgraçado.

Outros métodos também são usados. Aproveita-se a onda de violência e usa-se o medo dos pais. Envia-se o aluno rebelde para ser julgado no Conselho de Escola. Os pais são convencidos de que esse é uma má influencia para seus próprios filhos. A escola conta então com o aval de muitos pais que entendem estar defendendo seu filho da convivência com más companhias.

Graças a Deus, o Diogo Silva é um OURO que a escola não destruiu. Infelizmente fico imaginando quantos OUROS, quantos tesouros são destruídos graças à IMPUNIDADE, à CORRUPÇÃO e à INCOMPETÊNCIA da nossa lamentável Escola Pública.

Cremilda Estella Teixeira

14 julho 2007

Professor fotografa alunos





Roubei essas fotos do blog do amigo Leandro http://maiscontradicoes.blogspot.com, um dos poucos professores que não se queixam de seus alunos. Aliás, o fotógrafo é o próprio Leandro, que as tirou antes das férias.
Suas palavras são quase inacreditáveis (né, "anônimo"?), por isso faço questão de reproduzi-las aqui:

Foram (sempre são!) tardes muito gostosas. Sentirei falta da agitação deles todos.

13 julho 2007

ECA: ruim com ele, pior sem ele...


Hoje, dia em que o ECA faz 17 anos, o Estadão publicou a carta a seguir, escrita pelo nosso amigo Mauro Alves da Silva.

ECA, 17 anos

Neste 13 de julho, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) faz 17 anos.

No final dos anos 80, nossas crianças estavam sendo abandonadas, marginalizadas e exterminadas. Milhares de pessoas se mobilizaram na luta em defesa das crianças durante a Constituinte, que resultou no artigo 227 da Constituição Federal de 1988:

"É dever da família, da sociedade e do Estado garantir o direito da criança e do adolescente como prioridade absoluta."

Apesar do marco legal, ainda encontramos milhões de crianças sem saúde, sendo expulsas das escolas públicas e indo parar nos braços dos traficantes, nas Febens ou nas valas comuns dos cemitérios.

Enquanto não punirmos os governantes que não priorizam o atendimento e a defesa das crianças, o ECA será pouco mais do que uma bela carta de intenções.

Mauro Alves da Silva

11 julho 2007

Violência nas escolas


Alguns acontecimentos noticiados pela mídia ultimamente reacenderam a velha questão da violência nas escolas. Transcrevo aqui uma mini-entrevista da psicóloga Rosely Sayão com o professor Julio Groppa Aquino, de quem já trouxemos diversos textos para este blog. As respostas mostram um ponto de vista diferente do que se costuma ler por aí, ou seja, a eterna e inútil lamúria: de quem é a culpa?

Rosely Sayão:
Julio: recentemente soubemos pelos veículos de comunicação que um grupo de jovens agrediu uma mulher no Rio de Janeiro e, em seguida, uma série de outras notícias sobre fatos violentos têm sido publicadas, principalmente algumas que ocorrem no espaço escolar e em que as vítimas são professores. Desde então, todos os dias somos bombardeados com reportagens desse tipo. A violência escolar de alunos contra professores explodiu de repente?

Julio Groppa Aquino:
É claro que não estamos presenciando um surto esporádico de violência escolar. Digamos que se trata de um fenômeno crônico e bem menos alarmante do que a mídia faz crer. No entanto, ele é apresentado bombasticamente e de modo sazonal à população. Sempre em meados e finais de semestres letivos, isso reaparece na mídia. Seja por falta de notícias "elevadas", seja porque esse tipo de notícia "vende bem", o fato é que somos expostos a uma abordagem quase sempre sensacionalista desse tipo de fenômeno, abordagem que se vale, no final das contas, de uma espécie de disseminação do caos. Contra a juventude, é claro. Ou seja, os jovens atuais seriam responsáveis pela derrocada do mundo. Com isso, nos ausentamos todos de nossa parcela de responsabilidade com a construção deste mundo que aí está.

RS: Muitos professores se sentem vítimas dos alunos - inclusive dos mais novos - e da ausência da educação familiar. Qual sua análise a esse respeito?

JG: Trata-se de uma visão cômoda e, em certo sentido, míope dos dilemas sobre educar hoje, a qual é amplificada na abordagem sensacionalista da mídia. É cômoda porque é uma resposta demonizadora ao desencaixe histórico que a instituição escola vem sofrendo - em igual medida às outras instituições sociais (incluídas as famílias). É míope porque, em vez de colocar a sociedade contemporânea e seus revezes no foco das discussões, elege o alunado como responsável exclusivo por esse desencaixe. Os alunos, por si próprios, não são artífices de nada. Suas condutas são resultado do tipo de relação que estabelecemos com eles nas salas de aula. A bem da verdade, eles são o espelho do tipo de educação que estamos levando a cabo nas escolas. Quanto à educação familiar, creio que se trata de uma temática sobre a qual os profissionais da educação deveriam se silenciar por completo, já que é algo fora de sua alçada. Um silêncio solene seria mais que bem-vindo.

RS: Isso significa que a escola tem sua parcela de responsabilidade nessas situações? E é possível, numa sociedade violenta, que a escola consiga escapar totalmente desse clima?

JG: Não sei se a escola tem um papel redentor mediante uma sociedade violenta. Talvez não. O que sei é que seu papel não precisaria ser fomentador de uma sociedade violenta. Isso se pensarmos que há uma violência que é produzida no cotidiano escolar - a violência da exclusão branda, aquela que vaticina a impossibilidade mesma de educar, segundo a qual determinados alunos (quando não a maioria deles) não é capaz nem digna de aprender aquilo que já sabemos. Assim, se abandonarmos o sonho de que a educação pode "desbrutalizar" os homens, talvez seja melhor fechar todas as escolas ou destruir seus muros e transformá-las em parques abertos. Parques temáticos, talvez. Eis aqui uma idéia tão absurda quanto instigante. Quem sabe, no futuro, isso faça mais sentido do que hoje.

Julio Groppa Aquino tem pós-doutorado em educação, é docente da Faculdade de Educação da USP e autor de vários livros dirigidos, principalmente, aos profissionais que trabalham no espaço escolar.

07 julho 2007

O EducaFórum no Aprendiz


Na semana passada recebi um telefonema da jornalista Cassia Gisele Ribeiro, do Aprendiz, que fez algumas perguntas para uma matéria sobre "Avaliação". Segue o texto, publicado ontem no site www.aprendiz.com.br
Chama a atenção o posicionamento sempre muito "light" do INEP, colocando panos quentes na situação gravíssima em que a educação do país se encontra. Aliás, mais uma vez quero registrar aqui nossa enésima cobrança ao INEP, para que faça uma pesquisa sobre a AULA VAGA em nível nacional, a fim de levantar esse que é certamente o maior problema da educação pública no Brasil. COMO FALAR EM QUALIDADE , SE O ALUNO NEM AO MENOS TEM AULA???

AVALIAÇÃO SÓ FAZ SENTIDO SE FOR ACOMPANHADA DE SOLUÇÕES
Cassia Gisele Ribeiro

"A avaliação é essencial e fará toda a diferença para as escolas públicas, desde que seja acompanhada de medidas efetivas para corrigir as atuais falhas da educação". A afirmação foi feita por Giulia Pierro, mãe de três ex-alunos de escolas públicas e criadora do Educafórum, um fórum mantido por pais de alunos da rede pública de ensino.
A crítica surge a partir dos resultados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) - avaliação federal mais importante para a educação -, apresentada no início do mês pelo Ministério da Educação. A pesquisa identificou que apenas 0,2% das escolas públicas brasileiras atingiu um índice considerado médio entre países desenvolvidos.
A média obtida na avaliação ficou bem abaixo da mínima estabelecida pelo governo, que era de seis pontos. Embora o resultado tenha deixado a desejar, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão que executa a pesquisa, afirma que o resultado já era esperado, considerando-se que a meta estabelecida está muito acima do resultado das avaliações aplicadas anteriormente.
"É importante não se prender a esse resultado, pois estabelecemos uma boa meta e o próximo passo será todas as escolas atingirem esse nível nos próximos 14 anos", afirma Fabiana de Felício, coordenadora geral de articulação institucional do Inep.
Os sistemas de avaliação começaram a surgir no país de forma tímida. Os exames anteriores ao Ideb - o Sistema de Avaliação da Educação Básica (SAEB) e a Prova Brasil - têm como foco avaliar o conteúdo escolar, funcionando como uma espécie de "provão".
"No entanto, apenas esses dados não são suficientes para avaliarmos a qualidade do ensino e as deficiências de uma instituição", diz Felício.
O Ideb, por exemplo, combina informações de desempenho do Saeb e da Prova Brasil com dados sobre o fluxo escolar. Ou seja, analisa não só o conteúdo, mas a freqüência e a permanência do aluno na escola. "Um sistema educacional que reprova sistematicamente seus estudantes, fazendo com que grande parte deles abandone a escola antes de completar a educação básica não é eficiente", diz. "Por outro lado, um sistema em que todos os alunos concluem o ensino médio no período correto não é interessante se eles aprendem muito pouco na escola", completa Felício.
Segundo ela, um sistema de ensino ideal é aquele em que todas as crianças e adolescentes tenham acesso à escola, não percam tempo com repetências, não abandonem a escola precocemente e, ao final de tudo, consigam aprender efetivamente.
Para Pierro, a realização da avaliação é positiva porque permite que cada escola tenha noção de suas falhas e, principalmente, porque tira dos alunos o fardo de ser o único responsável por seu fracasso escolar. "Estava mesmo na hora de avaliar a escola e não só aluno", critica.
Ela afirma que é importante que a avaliação consiga chegar a um consenso que permita a criação de uma política educacional clara e de longo prazo. "Ao mesmo tempo, a avaliação precisa mostrar para cada escola suas falhas estruturais, coisa que até pouco tempo parecia impossível de se conseguir", diz.
No entanto, Pierro acredita que ainda faltam algumas questões para serem resolvidas. "É necessário incorporar às avaliações uma análise do corpo docente de cada escola, começando com a questão da aula vaga, assunto tabu que consome de 25 a 30% do ano letivo na maioria das escolas públicas do país", diz, lembrando as horas em que os alunos ficam sem aula por falta de professor.
"Além disso, as causas dos baixos índices de aproveitamento precisam ser estudadas mais profundamente em cada escola e para isso seria preciso contar com supervisores escolares das delegacias de ensino realmente capacitados e empenhados nessa tarefa", diz Pierro. "Acredito que além da avaliação das escolas, seja necessária também uma avaliação dos supervisores e da diretoria de ensino".

02 julho 2007

Dislexia - Ainda a grande desconhecida


Recebemos o lindo depoimento de uma mãe de dois filhos disléxicos, contando sua vitória sofrida, em um País onde a dislexia foi “descoberta” há poucos anos e nada ainda foi feito para que a escola saiba identificar e auxiliar os alunos que se encontram nessa condição.

O EducaFórum começou a falar de dislexia logo em 2001. Leia o primeiro depoimento em nosso antigo site, http://www.webamigos.net/educaforum/dislexia2001fev.shtml.

Desde então, tivemos a boa surpresa de perceber o amadurecimento da ABD – Associação Brasileira de Dislexia, cujo site (link ao lado) é bastante informativo e que parece dar uma assistência efetiva aos pais de alunos disléxicos. Espera-se que o governo resolva finalmente fazer uma parceria com a ABD e acabar com essa vergonha nacional que é o tratamento dado ao aluno disléxico nas escolas brasileiras. O depoimento de Sônia, como outros que já publicamos, deixa bem clara a enorme ignorância e irresponsabilidade de que ainda é vítima o aluno disléxico na maioria das escolas do País.

Acompanhe também o assunto “tabu” que transparece da mensagem de Sônia: a questão das perseguições e represálias de que os pais têm tanto medo, ao denunciar a discriminação que seus filhos sofrem dentro da escola.

Imagine também a situação de pais não tão instruídos e articulados como Sônia...

Gostaria de contar um fato verídico na vida de nossa família, um fato que nos emocionou muito e nos fez crescer como pessoas. Tudo começou com o meu filho Christian, quando começou a freqüentar a primeira série doEnsino Fundamental. Desde então sempre foi discriminado pela professora, coordenadora e amigos, como o ¨monstro¨ da classe, o pior aluno, o desatento, entre outras denominações, mas mesmo assim conseguiu passar de série. No ano seguinte, caiu com a mesma professora e os problemas somente aumentaram. Levei-o a uma psicopedagoga para ver se o problema era com ele ou com a professora e foi constatado que ele sofria discriminação por parte dela, mas mesmo assim passou de ano. Indo para a terceira série, não tive problemas com a nova professora depois de conversar com ela, pois a professora anterior e a coordenadora lhe haviam passado a imagem que elas tinham do meu filho, e não o que realmente ele era. Eu disse a ela para julgá-lo por si mesma e não pelos outros, e graças a Deus assim ela fez. Ele passou mais um ano. Na quarta série ele caiu com a mesma professora da terceira, mas só foram dois meses de aula com ela. Em março entrou uma substituta e na reunião de pais ela me disse que ele era um forte candidato à reprova, sempredesmotivado para estudar, ir à escola e fazer o dever de casa, e sempre com dor de cabeça forte (isso desde a primeira série). Passaram-se as férias, a professora já não era mais a mesma, no final de agosto fui chamada à escola e meu marido foi junto. Essa nova professora disse que meu filho era muito inteligente, tinha um grande potencial, mas ele não aproveitava. Contamos tudo que havia se passado nos anos anteriores, mas mesmo assim ela reteve meu filho na mesma série. Quando fui na reunião de pais ela disse-me que o Christian não tinha jeito, era imaturo para uma quinta série, desorganizado, desatento e que não iria dar conta de tudo. Meu mundo desabou! Comecei a chorar na frente de todos os pais e por azar foi justo no dia do 11º aniversário dele, em 16/12. Christian ganhou um bolo da avó, mas não comemoramos, pois ele havia repetido e não pôde ganhar presentes de ninguém, nem de Natal, pois estava de castigo. Tive cinco dias para recorrer da decisão, mas não recorri, porque a minha filha também estudava na mesma escola e fiquei com medo de acontecer o mesmo com ela. Não entendia o que se passava com o meu filho, um menino educado, inteligente, atencioso, que entendia de tudo um pouco, mas na escola não tinha jeito. No ano de 2005 começou o meu maior pesadelo, ou melhor, o nosso! Tudo começou quando o meu filho levou uma revista à escola escondido, a professora tomou dele e fez questão de dizer na reunião de pais, na frente de todos, que a revista era pornográfica, mas a revista era somente de carro, o que ele mais gosta e adora desenhar.Encontrei com uma conhecida, mãe de um aluno que havia estudado com ele na primeira série e contei de todos esses anos. Ela me perguntou se eu já havia ouvido falar em dislexia. Disse que não, assim sendo ela me contou um caso e resolvi levar o meu filho a um neuropediatra, primeiro pelas dores de cabeça e segundo para ver se ele era disléxico. Ele fez o TAVIS, eletroencefalograma que deu normal, mas o médico disse que o maior problema do meu filho era eu, e que eu deveria procurar tratamento e não o meu filho. Ele receitou calmante para mim e para ele, saí transtornada do consultório e resolvi marcar com outra neuro. Graças a Deus essa sim é um anjo, examinou ele, pediu para fazer o teste de PROCESSAMENTO AUDITIVO CENTRAL, que deu alterado, mandou ir no oftalmo, na psicopedagoga e fez um monte de testes com ele. Mas nesse meio tempo, na escola, meu filho foi fazer uma apresentação de pesquisa em dupla com uma menina. Ela pesquisou e ele iria apresentar, mas a professora mandou ele sentar e disse que fizesse a pesquisa sozinho, pois não ia deixar ele tirar nota a custas dos outros. Ela disse ainda à classe que havia alunos melhores para se ter como amigo do que ele, que já era repetente. Passaram-se dias e ligaram da escola dizendo que meu filho havia caído em cima do punho direito. Fui buscá-lo na escola, onde ele já havia começado uma prova mas não terminou por causa da dor, levei ao médico e ele teve que imobilizar o braço. Msmo assim mandei-o à escola no dia seguinte com atestado médico, escrevi na agenda dele para a professora com relação à prova e ela respondeu-me na mesma com caneta vermelha que ele faria a prova no dia seguinte. Ele teve que fazer a prova com a mão imobilizada e a professora disse que tanto fazia se ele estava com gesso ou sem gesso, pois a letra dele era feia do mesmo jeito. Durante esse tempo todo, ela lhe deu tarefa de caligrafia para fazer: ela escrevia na primeira folha para ele copiar nas três demais os seguintesdizeres: Eu, Christian, devo ser organizado, melhorar a letra, fazer meusdeveres. E sempre o chamou de repetente na frente dos colegas e eles idem na frente dela. Resolvi conversar com a coordenadora, como sempre, mas ela ficou do lado da professora e me distratou. Nesse mesmo dia fui ao CONSELHO TUTELAR fazer uma denuncia contra a professora por maus tratos e discriminação contra meu filho, levando todas as provas. Foram chamadas a professora e a coordenadora, mas ficou tudo por isso mesmo. Nesse meio tempo fui a uma reunião de pais e comentei com a professora da minha outra filha, que na época estava com 8 anos de idade, tudo o que passei com o Christian. Ela me recomendou que levasse a minha filha também ao neuro, pois na classe dela já havia uma aluna disléxica e a minha filha apresentava as mesmas características. Levei-a também, fez os mesmos exames que meu filho, passou por todos os profissionais, mas dela não tiveram dúvidas que tinha dislexia. Ela foi encaminhada para ABD, passamos o dia lá (ela, eu e meu marido), e foi constatado que é DISLÉXICA SEVERA e que tem o PROCESSAMENTO AUDITIVO CENTRAL ALTERADO SEVERO. Isso aconteceu em junho de 2005. Entreguei os laudos para a professora da minha filha, que é uma profissional excelente, pois teve a percepção e o cuidado de me comunicar o que estava acontecendo com ela e, mesmo passando por momentos difíceis de sua vida (a perda do marido), não deixou com que seu amor à profissão fosse abalado. A essa pessoa devo minha eterna gratidão. Quanto ao meu filho, levei-o na ABD em setembro de 05, contra a vontade da psicopedagoga. Passamos o dia lá e foi constatado que ele tinhaDISLEXIA MODERADA e DISGRAFIA. Passei no Conselho Tutelar, deixei o laudo e fui orientada para que desse uma cópia à professora e outra à coordenadora, para ambas lerem e assinarem na minha frente. A professora não questionou nem recusou, mas a coordenadora não quis me receber e muito menos ler. Ela disse que não tinha nada que assinar e começou a gritar comigo e me chamar de criança. Eu, com 33 anos de idade, nunca havia passado por tão grande humilhação, mas mesmo assim não deixei olaudo com ela e me contive, apenas agradeci a EDUCAÇÃO dela. Voltei ao Conselho Tutelar e contei tudo, eles disseram que iriam entregar o laudo com protocolo e para que eu entrasse em contato com meu empregador para poder resolver junto à escola, pois o que acontecia era que a coordenadora não passava o assunto para a supervisora e tudo morria por lá. A minha empregadora, que para azar delas era minha mãe e avó de meus dois filhos disléxicos, entrou em contato com a supervisão e no mesmo dia a professora foi ¨transferida¨ para outro lugar. Foi então marcada uma reunião na escola, comigo, a coordenadora, a supervisora e a diretora e foi esclarecido que era para acatar os laudos de meus dois filhos e não pedir transferência deles para outro município, pois tudo iria ter solução. A professora substituta era uma senhora de idade, mas o que as demais professoras não conseguiram fazer em quatro anos ela conseguiu em três meses, devolvendo a auto-estima do meu filho, a vontade de estudar e de ir para a escola. Ela foi a luz no fim do túnel para o meu filho. Começou mais um ano e Christian foi para a quinta série, já com 12 anos completos, e minha filha para a terceira, com nove anos completos, mas a escola graças a Deus não é mais a mesma, a coordenadora aposentou-se, a supervisora não sei e os meus filhos são tratados como GENTE. Hoje meu filho já recebeu alta da fono, minha filha ainda faz, aliás, é A MELHOR FONO DO MUNDO, profissional competente e pessoa maravilhosa. E querem saber de quem os meus dois filhos herdaram isso? Segundo aABD, isso tudo veio de mim, que aos 33 anos achei, ou melhor, fiquei sabendo a razão de todos os meus problemas escolares. Mesmo assim me formei Técnica de Prótese Dentária, para fugir de tudo que levasse matemática. Agradeço a todos que me ajudaram e me orgulho de ser mãe de dois disléxicos.