30 maio 2010

A escola que deseduca III - O bullying "docente"


Dando continuidade a esta nova série, segue um assunto que você não vai ver no Fantástico nem em outro lugar de destaque na mídia: uma professora de uma escola municipal de São José do Rio Preto atirou o apagador na cabeça de um aluno, que precisou levar pontos para fechar o ferimento.



A classe docente brasileira costuma argumentar que "a educação vem de casa". Esse é o refrão mais ouvido nas escolas e nas matérias que tratam de educação na mídia. Trata-se de uma campanha maciça dos sindicatos da "educação" no sentido de responsabilizar o aluno e a família pelo fracasso e pela violência da escola. Essa campanha tem sido tão eficaz, que nem mesmo casos como o acima ou aqueles que divulgamos recentemente, de crianças levando "livradas" ou "reguadas" de professores, conseguem convencer a sociedade de que a escola também educa - ou então deseduca.

A postura do professor, do coordenador pedagógico, do diretor de escola e demais profissionais do ensino não costuma ser questionada nem mesmo em casos graves como esses, que mostram um verdadeiro "bullying docente". Entenda-se, aliás, que a palavra bullying não se refere ao comportamento infantil ou adolescente, como se pensa. O termo "bully", em inglês, significa valentão, portanto cabe a todos que covardemente agridem os que mal podem se defender. Gostaríamos de ver essa professora atirar o apagador na cabeça do diretor da escola ou do supervisor do ensino! Não, elas atiram o apagador, o livro, a regua na cabeça do aluno! E se não houver machucado que permita fazer BO, é a palavra da criança contra a do professor, que sempre nega a acusação. Para não falar da violência psicológica, contra a qual não existem provas...

Para justificar o lema "a educação vem de casa", os sindicatos e a mídia divulgam imediatamente, em larga escala, qualquer tipo de agressão, moral ou física, de aluno contra profissional da educação, e o assunto costuma ficar pelo menos duas semanas em pauta. Os pais de alunos da rede pública não têm sindicato e muito menos advogado. Percebeu a diferença?

Leia os posts anteriores:

A escola que deseduca I

A escola que deseduca II - Livradas e reguadas em alunos

29 maio 2010

A linguagem da dor


Minha amiga Cremilda fala a linguagem da dor. Essa linguagem não é agradável, polida nem politicamente correta. Ela é autêntica. E hoje a Cremilda deu um depoimento pesado e sentido no programa Assembléia Popular. Falou de um assunto que só ela poderia tratar com tanta clareza e perspicácia.

Nem sempre a Cremilda fala a linguagem da dor. Às vezes ela se sai com tiradas irônicas que acabam se tornando referência no pequeno mundo que se atreve a criticar essa instituição sagrada chamada escola. São dela, por exemplo, as expressões

- "Surdoria da educação" (em contraponto a "ouvidoria da educação"),

-"Na educação pública redescobriu-se a lei da gravidade: em vez de cair, o fruto podre sobe" (mostrando a impunidade que impede a responsabilização dos maus profissionais, muitas vezes até promovidos, como o professor que promoveu o bullying contra um aluno, chamando-o de "bicha"e passando a coordenador "pedagógico" em outra escola),

- ou a sensacional expressão "Bonitinho, mas ordinário", para descrever o ex-secretário da educação paulista Gabriel Chalita, que conseguiu enganar toda a sociedade com sua hipócrita "pedagogia do amor", enquanto as escolas expulsavam alunos a torto e a direito, uma moda que desde então se alastra pelo Brasil inteiro.

Mas hoje a Cremilda falou a linguagem da dor: a dor de quem sente na pele a discriminação e o descaso com que são tratados nossos filhos, alunos da rede pública de ensino.

Quem tem clareza de pensamento e consciência social sabe que existem no Brasil dois mundos, como diz sinceramente uma adolescente rica no filme "Pro dia nascer feliz". Hoje li inclusive, no blog da Rosely Sayão - uma das poucas vozes corajosas na discussão da educação - o comentário de uma professora dizendo que faz questão de dar aula ao mesmo tempo numa escola de elite e na rede pública, pelo prazer de trabalhar em dois mundos tão diferentes. Então são dois mundos diferentes. Ponto pacífico.

Mas a sociedade brasileira enfia a cabeça na areia e vive no faz de conta de que tudo está bem, que o país é uma das "potências econômicas do mundo", além de uma "democracia consolidada" na América Latina, campeão no futebol etc. etc. Só que a distância entre esses dois mundos cria uma elite burra e um povo ignorante...

A indignação da Cremilda no programa de hoje se refere ao trabalho de Ongs de elite, como o Itaú Social e o instituto Fernand Braudel, que caíram direitinho na conversa dos sindicatos da educação, empenhados em responsabilizar a família pelo fracasso da escola. Trata-se de uma campanha amplamente apoiada pela mídia nacional, que os sindicatos da classe travam desde que sentiram a ameaça da responsabilização dos profissionais da educação por sua incompetência ou desmandos. Essa ameaça é bastante remota, pois os governos têm se dobrado às reivindicações injustas dos sindicatos, para que os professores não sejam avaliados, para que não haja aumentos de salário por mérito, para que o "direito às faltas" continue indefinidamente etc. etc. Mesmo assim, os sindicatos se valem de suas poderosas assessorias de imprensa para tentar convencer a população de que o fracasso da escola é culpa do aluno e da família, que é "omissa" ou "irresponsável". O aluno da rede pública, principalmente o adolescente, tem hoje na mídia uma imagem tão negativa que aceita-se tranquilamente a invasão de escolas por PMs em todo o Brasil, principalmente no estado do Paraná. Veja também aqui.

A última do Itaú Social & Inst. Fernand Braudel foi a instituição de uma figura sombria na rede pública de ensino: o pai de aluno que visita a família de outro aluno que falta à escola, para convencê-la da "importância" de o filho voltar às aulas. Foi essa a argumentação da Cremilda no programa de hoje: ela comparou essa figura ao Capitão do Mato, aquele que era incumbido de capturar os escravos antes da libertação. Uma comparação forte, mas que faz sentido, pois geralmente o aluno evade da escola por discriminação, perseguição, dificuldade de acompanhar as aulas ou falta de recursos. E sabemos que, neste país onde só os pobres vão para a cadeia, os pais podem ser punidos por manterem seus filhos em casa.

Então, em vez de a escola se preocupar com as reais causas que afastam o aluno - aulas vagas, aulas maçantes, professores que não explicam ou se recusam a repetir a explicação, dislexia tratada como burrice ou preguiça, preconceito contra alunos repetentes, falta de material escolar ou de vestuário, falta de transporte quando é negada vaga próxima à residência do aluno e mil outros motivos - envia-se o pai "presente" de um "bom aluno" para "convencer" a família "ausente" de um "mau aluno" a mandá-lo de volta para a escola.

Uma medida como essa só cria conflitos dentro da comunidade escolar, coloca pais de alunos contra outros pais de alunos, além de não ir às causas da evasão escolar e não resolver o problema do aluno.

Só a linguagem da dor pode traduzir o absurdo de uma medida como essa, criada por pessoas cujos filhos estudam na rede particular e que desconhecem a realidade da pública.

Eu mesma, há alguns anos, estive numa reunião do Instituto Fernand Braudel, repleta de profissionais da educação, e tive minha palavra caçada após perguntar ao plenário - lotado - quantas pessoas tinham seus filhos estudando na rede pública. Apenas uma mãe levantou a mão... Para bom entendedor, meia palavra basta.

Parabéns à Cremilda por sua lucidez e coragem, ao levantar esse assunto tabu com sua linguagem da dor. Uma linguagem que poderia sensibilizar a sociedade, se... houvesse sensibilidade para tal.

27 maio 2010

Mais uma pesquisa inú(p)til do Inep(t)




Já cansamos de pedir para o Inep(t) que faça a pesquisa mais importante para entender o marasmo em que se encontra o ensino público no Brasil: o levantamento das aulas vagas nas escolas do país. Na falta dessa pesquisa, que nunca foi (nem será) feita, leia aqui.

A novidade é uma nova pesquisa inú(p)til do Inep(t): aquela que fundamentou a determinação do governo federal de que todas as escolas de ensino fundamental tenham bibliotecas. Leia aqui. A decisão é válida, mas meio óbvia, não?... Só um corpo docente analfabeto poderia aceitar que sua escola não tivesse biblioteca...

De acordo com a pesquisa do Inep(t), apenas 34% das escolas do país, entre públicas e particulares, possuem biblioteca. Mas essa pesquisa, mais uma vez, mostra a inu(p)tilidade desse órgão, que não pesquisou o principal: dos 34% de escolas que possuem biblioteca, grande parte não as têm funcionando, ou seja, trata-se de salas abarrotadas de livros mofando! Para não falar das montanhas de livros encontrados em lixões próximos a escolas...

Pelas informações que temos recebido de pais e alunos do país inteiro, nossa estimativa é que menos de 10% (dez por cento) das escolas públicas tenham uma biblioteca FUNCIONANDO, ou seja, aberta aos alunos para consultas e/ou empréstimos de livros.

E aí, Inep(t), vai encarar mais esse desafio? rsrs

23 maio 2010

Digitação sem dor - pequenas grandes dicas




Passar horas teclando no computador pode deixar seus braços doloridos e até causar lesões musculares. Alguns exercícios previnem o problema. O terapeuta Meir Schneider recomenda:
  1. Apoie o braço sobre a mesa com a palma da mão para cima. Com a ponta dos dedos da outra mão, bata de leve no braço apoiado. Isso ajuda a relaxar os músculos. Repita com o outro braço.

  2. Usando o polegar de uma das mãos, massageie a palma da outra mão. Faça vários movimentos (circulares ou para cima e para baixo) em todas as direções, por cinco segundos.

  3. Relaxe os braços e as mãos. Gire cada dedo da mão. Comece devagar, aumente a velocidade dos movimentos e volte à velocidade inicial.

A postura reta também faz toda a diferença! Além disso, a cada meia hora dê uma levantada da mesa, estique os braços, faça uma rotação da coluna, alongue-se para trás e terá uma sensação de conforto.

Esses pequenos exercícios são justamente para prevenir a dor na digitação. Quem ainda não teve esse sintoma é que deve fazê-los. A digitação é uma atividade ainda muito recente na história da humanidade. Prevenir para não ter que remediar!

22 maio 2010

A escola que deseduca II - Livradas e reguadas em alunos


O vídeo contido na reportagem publicada pela Record em novembro do ano passado (leia e veja clicando neste link) é um claro exemplo da escola que deseduca e da mídia que não dá a mínima. A reportagem só teve um tom mais sério porque as câmeras de segurança da escola gravaram as imagens da professora dando "livradas" e jogando uma aluna no chão. Outra mãe já havia registrado BO contra a mesma professora, mas sabemos que o caso só veio a público porque havia um registro visual, que porém não foi mostrado na reportagem! O assunto não teve a mínima repercussão na mídia, morreu e nem pensar de alguém retomá-lo para saber se a professora foi punida.

nessa outra reportagem, que se refere à agressão brutal de um aluno por uma professora nos EUA, gravada por um colega no celular, o apresentador brasileiro não perde a oportunidade para falar que vida de professor não é fácil, que ganha pouco, que precisaria ganhar mais... Está muito certo o amigo Mauro, do COEP, ao reclamar que esse jornalista não chama a professora de bandida nem "di maior”, como costuma fazer em caso de crianças ou adolescentes que praticam agressão dentro da escola.

O vídeo abaixo, sobre a agressão sofrida por uma criança de seis anos numa escola em Vera Cruz, interior de São Paulo, mostra a covardia não apenas da professora, mas da direção da escola, da secretaria da educação e até da reportagem do G1, pois nem mesmo o nome da escola foi mencionado. Assunto tabu, já que não havia registro visual do fato: foi a palavra do aluno contra a da professora, que irá receber uma "advertência", CASO a agressão for comprovada... Que não se espere da Globo qualquer investigação a respeito de agressões de alunos por profissionais da "educação"!

Repetimos que esta nova série A escola que deseduca foi criada em contraponto ao preconceito arraigado na classe média brasileira, de que aluno da rede pública é um trombadinha em potencial que vem deseducado de casa e vive agredindo a "pobre" classe docente indefesa. Não estamos aqui declarando que todo professor agride aluno, mas não podemos tolerar que a imagem da nossa infância e juventude continue sendo manchada por esse preconceito, largamente difundido pelos sindicatos da "educação", que recebem todo o apoio da mídia quendo um aluno torce um cabelo a um professor. Vimos aqui que o apoio é nulo quando ocorre o contrário. Diga-se de passagem que a proibição do uso de celular dentro das escolas brasileiras foi legalizada atendendo a um pedido dos sindicatos da classe, amplamente aplaudido por toda a mídia. Vendo o vídeo sobre o espancamento do aluno americano pela professora, filmado por um colega, entende-se direitinho os motivos que "justificam" a proibição do uso do celular nas escolas brasileiras...

16 maio 2010

Dislexia no Brasil - Alguma solução?


Mais uma vez queremos aqui debater o assunto dislexia, pois costumamos receber muitos apelos de pais preocupados com o progresso escolar de seus filhos disléxicos. Não vamos mais recomendar visitas a sites ou organizações voltadas para a questão, pois o retorno não tem sido positivo. Aparentemente, a dislexia e outras disfunções como o DDA e o TDAH continuam bastante desconhecidas no Brasil e as pesquisas andam a passos de lesma. Se alguém puder recomendar algo que tenha realmente RESOLVIDO a vida escolar de seus filhos, por favor informe para o e-mail educaforum@hotmail.com.

Seguem alguns depoimentos a respeito:

Olá, meu nome é Debora. Sou mãe de um garoto dislexo, hj ele tem 8 anos, vou contar-lhes um pouco da nossa historia... que hj ainda é uma luta e uma busca. Meu filho sempre foi lento na escola e tinha dificuldades, eu sempre atribui isso a minha separação que foi brusca com muita dor... pois ele amava seu pai. O tempo passou e ele foi p terapia... 3 anos de terapia. Ele tinha 3 anos qdo td aconteceu, hj 8 anos. A escola ele odiava... e eu sempre comprando o melhor p ele mesmo em dificuldades p ver se o interesse voltava, mas que nada, as escolas, os professores,nem mesmo o pai o ajudavam... e eu ali, te amo filho, quero te ajudar, vc precisa ir p escola, palavras de mãe com mta dor no coração. Até que um dia ano passado a coordenadora da escola me chama e na frente dele me diz absurdos e mais absurdos.. até o ponto das palavras doerem em mim, e eu procurar ajuda... sabe seu filho passará da primeira p segunda, da terceira p quarta, lá ele podera estar retido dois anos e depois passará até a 8serie e lá se retem mais duas vezes, e aí se nao tiver condiçoes de acompanhamento recebe um certificado de conclusão, e aí será um pedreiro, um pintor. Não tenho nada contra essa profissão, mas quem é ela p dizer o que meu filho será. Procurei ajuda, com o laudo na mão pesquisei, leio sobre o assunto, mas ninguém sabe nada, tenho uma professora que o ajuda muito a tarde, aula particular, mas sobre td o amor... eu o amo incondicionalmente, sei que um dia td vai passar eu acredito, assim como vc mãe que de repente perdeu as esperanças... Fiquem com DEUS... bjs no coração.
Mãe de um aluno

A dislexia é um distúrbio de aprendizagem que causa imensos sofrimentos às crianças e também aos adultos, pois os sintomas persistem por toda a vida. Todo este sofrimento e dificuldades que os disléxicos passam poderiam ser evitados se não vivêssemos na cultura da sacralização da leitura, do livro, do intelecto. E sabemos o quanto isso se dá, principalmente nas escolas, justamente onde o estudante deveria ser visto como um todo, com suas múltiplas potencialidades, independente da sua dificuldade com a escrita e a leitura. Certa vez li sobre um dos maiores cirurgiões dos EUA, que só conseguiu estudar Medicina porque nos países mais adiantados não há repetência nem vestibular. Então, ele conseguiu terminar o ensino básico e ser aceito numa faculdade, embora com notas baixíssimas. E este médico, hoje, salva milhares de crianças sendo especialista em cirurgias de tumores no cérebro. Se fosse no Brasil seria, certamente, mais um refugo da escola.
Professora Glória Reis

Disléxicos famosos:

Hans Christian Andersen, entre outros livros infantis, é autor de O Patinho Feio, história que bem reflete estados psicológicos de um disléxico severo, sua baixa auto-estima, a consciência de seu potencial. Esse livro foi traduzido em muitos idiomas através de quase todo o mundo. Por causa de sua severa disgrafia, as histórias de Andersen foram ditadas a um escriba. Ele teve sérias dificuldades na escola e durante toda a sua vida, não conseguiu aprender a soletrar e a escrever em sua língua nativa.

Cher, cantora e atriz: "Meus dias na escola foram muito difíceis. Eu só conseguia aprender através de meu canal auditivo. Por isto, em meu boletim sempre constava a seguinte observação: Não se valeu de todo seu potencial para aprender".

Winston Churchill, estadista: "Fui totalmente desestimulado em tudo, em meus dias de escola. E nada é mais desencorajador do que ser marginalizado em sala de aula, o que leva a nos sentirmos inferiores em nossa origem humana".

Tom Cruise, ator: "Eu tinha que treinar a mim mesmo para concentrar minha atenção. Assim, me tornei muito visual e aprendi como criar imagens mentais para poder compreender o que lia".

Thomas Alva Edison, o maior inventor de todos os tempos: "A mais satisfatória forma de arrebatamento é pensar, pensar e pensar".

Albert Eisntein, um dos maiores cientistas de todos os tempos: "Quando eu lia, somente ouvia o que estava lendo, e era incapaz de lembrar a aparência visual da palavra que lia".

Danny Glover, ator: "As crianças faziam piada de mim por causa da minha pele negra, de meu nariz grande, e porque eu era disléxico. Já como ator, demorou um longo tempo para que eu pudesse entender por que as palavras pareciam misturadas em minha mente e eu as pronunciava de maneira diferente".

Whoopy Goldberg, atriz: "Minhas lembranças da escola não são minhas favoritas...Nós não somos estúpidos - nós temos uma deficiência e essa deficiência pode ser superada".

Greg Louganis, duas vezes ganhador de Medalha de Ouro Olímpica: "Dislexia! Este era eu, este foi meu problema. Você não pode imaginar que alívio é para alguém com dezoito anos saber que não é mentalmente retardado".

Nelson Rockefeller, governador da cidade de New York: "Eu mesmo fui uma daquelas crianças enigmáticas - um disléxico, ou leitor reverso - E para mim, ainda hoje, é difícil ler".

14 maio 2010

O velho problema da perua escolar


Nestes vinte anos de trabalho pela melhoria da educação pública, soubemos de N problemas com as peruas escolares, além de acidentes graves e até fatais devido à superlotação e ao funcionamento ilegal de muitos veículos. A questão é séria e não apenas do ponto de vista funcional, mas também pedagógico.

Perua escolar, problema pedagógico???
Sim, sim, sim, tudo que envolve criança e escola é questão pedagógica!

Como explicar a uma criança, por exemplo, que seus pais são obrigados a pagar uma perua para o transporte escolar, porque não lhe foi concedida vaga em escola próxima à sua residência, como determina o Art. 53 - V do ECA? E o pior é que essa vaga pode ter sido concedida a outro aluno, conforme a "conveniência" da escola, que muitas vezes escolhe seus alunos. A história mais escabrosa que chegou ao nosso conhecimento foi de uma escola do Grajaú, São Paulo Capital, onde a perua escolar pertencia ao marido da diretora, que negava vaga aos alunos que moravam nas proximidades e matriculava outros, cujos pais tinham poder aquisitivo para pagar o transporte...

Segue a mensagem que acabamos de receber de um pai, preocupado com o transporte escolar do filho. Respondemos ao pé da página.

Olá amigos, entrei em seu blog e achei maravilhoso e esperançoso saber que o futuro de nossa educação não está no fim! Em relação ao assunto em referência, gostaria de saber qual o orgão em que posso solicitar uma fiscalização sobre o mau profissionalismo de um transportador, que age em desigualdade, desrespeito às crianças e as leis de transito. Primeiro a desigualdade, pois ele carrega meu filho, estudante de escola publica, do qual eu pago o transporte, sentado na escada da perua (segundo informações colhidas de outros alunos, devido à superlotação), e os alunos de escola paga sentados. Desrespeito às crianças e às leis do transito, pois o mesmo não anda em velocidade permitida, fala em celular no transito e superlota a perua (como a maioria dos transportadores da região). Meu filho tem oito anos e assim como ele corre risco, outros tb correm.

Hamilton, procure imediatamente o Conselho Tutelar e diga que seu filho está sendo "constrangido ilegalmente", contrariando o Art. 232 do Estatuto da Criança e do Adolescente (veja na página principal deste blog os principais artigos do ECA referentes à educação). Peça também para checarem se a perua está funcionando ilegalmente, pois tudo indica essa possibilidade. Exija também do Conselho Tutelar vaga em escola próxima à sua residência, para que seu filho não precise de condução. Parabéns pela sua consciência cidadã!

13 maio 2010

Verdadeiros educadores - A Série I


Este blog é um espaço criado por pais de alunos da rede pública de ensino e dedicado a outros pais de alunos. Dizem as más línguas que aqui "detonamos" professores e educadores. Ao contrário, temos o privilégio de contarmos, entre nossos seguidores, educadores que demonstram seriedade e fogem ao lugar comum. Vamos hoje iniciar uma nova série dedicada a esses profissionais que nos prestigiam e falam a nossa língua.

Iniciamos com a Hegli, educadora ambiental e professora de arte. Seu lindo blog Educação Ambiental Contemporânea segue o lema Ninguém comete erro maior do que não fazer nada porque só pode fazer um pouco. Edmund Burke (1729 - 1797)

Basta o pequeno trecho de um texto para perceber o empenho e a honestidade da nossa amiga:

"Mesmo sabendo ser uma situação provisória eu me dedico a ensinar arte como eu gostaria que o professor do meu filho, que estuda em uma boa escola particular, ensinasse a ele. Me desdobro, me esforço, me irrito, me recomponho, me envolvo, me desespero, me refaço e volto para causa exaurida. Mas quando começo a ver os frutos disso após esses meses, com a maioria das crianças entendendo arte, pensando, pesquisando, criando e trabalhando coletivamente penso: foi a melhor coisa que poderia me acontecer!!!"

09 maio 2010

A escola que deseduca - I


Vamos iniciar esta nova série de posts inspirados no artigo Perdão às mães, publicado em 29/04 pela Rosely Sayão, que ousou sugerir às escolas fazer uma reflexão crítica do seu trabalho. Em resposta, ela recebeu uma avalanche de mensagens desaforadas de profissionais "da educação".

Uma reflexão sobre o próprio trabalho cabe a todas as instituições e a todos os profissionais, não é mesmo?... Sim, menos à instituição escola, onde tudo é permitido, até mesmo expulsar uma aluna de 14 anos por "ser lésbica". Impossível? Não, essa foi a última denúncia que recebemos aqui no EducaFórum, questão delicadíssima que não vamos comentar, mas que mostra o despreparo e a irresponsabilidade do nosso sistema educacional. Diga-se de passagem que a escola em questão é particular e bastante cara...

Eu costumo dizer que o pior problema educacional, no Brasil, não é a qualidade do ensino. Enloqueci? O que pode ser pior do que estar nos últimos lugares do ranking internacional?...

A vivência de 20 anos a contato com essa "caixa preta" que é a educação no país me levou a perceber que a má qualidade do ensino é apenas a ponta do iceberg, ou seja, a parte visível de um fenômeno - eu diria - inconsciente na sociedade brasileira: o desprezo "dedicado" pela instituição escola ao aluno, motivo de sua própria existência.

A expressão mais usada na escola, desde que frequento esse meio, é esta: "A educação vem de casa". Trata-se de um lugar comum tão arraigado, que parece impossível imaginar que a escola possa... deseducar. Mas é o que mais ocorre nas escolas brasileiras, principalmente as públicas, onde os pais pagantes (sim, pagantes!) não têm muita noção de seus direitos e aceitam com resignação os maiores absurdos.

É disso que vamos falar nesta nova série. A escola deseduca quando

  • Coloca o aluno contra a família, através de expressões do tipo: "Tua mãe não te deu educação?", "Já falei pra sua mãe levar você no psicólogo", "Reclame com seu pai, que te colocou nesta escola, meus filhos estudam na escola particular".
  • Permite que maus profissionais gritem e tratem os alunos sem respeito, rasgando seu caderno, atirando sua mochila ao chão, batendo com a régua em sua cabeça, colocando-os "no elástico", chamando-os de ¨burro"¨, bicha" ou expulsando-os por motivo fútil, entre mil outras manifestações de perversidade.
  • Estimula a "caguetagem" entre alunos, ao buscar bodes expiatórios para sua incompetência pedagógica.
  • Discrimina alunos, levando os colegas a desprezá-lo e a praticar o bullying.
  • Discrimina os pais que reclamam ou denunciam os abusos da escola, fazendo intrigas contra esses pais ou levando alunos a assinar abaixo-assinados a favor da escola.
  • Abafa denúncias graves que envolvem a escola, com o pretexto de "não denegrir o nome da instituição".
  • Impede o acesso á sala de aula de alunos sem uniforme, obrigando seus pais a aderir a um comércio ilegal e abusivo, na maioria das vezes feito dentro da própria escola, que se tornou um mercado persa e não um lugar do conhecimento.
  • Sequestra mini-games, brinquedos, celulares e outros objetos sem devolvê-los à família do aluno.
  • Larga os alunos na rua por falta de professor em sala de aula, sendo que a escola é responsável pelo aluno durante toda a duração da jornada letiva.
  • Deixa de socorrer um aluno machucado, esperando os pais para que o levem ao pronto socorro, mesmo que esteja desmaiado.
  • Chama a polícia na escola para resolver problemas de ordem pedagógica.

02 maio 2010

Mensagem de uma professora



Sou uma leitora do seu blog. Estou escrevendo para contar que começo a trabalhar essa semana numa escola da prefeitura de São Paulo. Sou formada em Letras e vou dar aulas de Português.

Desde que me formei sempre lecionei inglês em escolas de idiomas, mas cansei de ficar só participando de discussões sobre educação na vida real e virtual e resolvi botar a mão na massa.

As pessoas sempre tentam me assustar dizendo que os alunos são isso e aquilo... mas eu tenho medo mesmo é dos colegas que eu vou encontrar lá, esses que vão ficar culpando os alunos e suas famílias por não conseguirem lidar com eles na escola...

Fui aluna de escola pública a vida inteira, e é incrivel como eu mesma uma época comprei a idéia de que a educação só seria possível nas "incríveis" escolas particulares "top". Sonhei em trabalhar em uma delas e se tivesse filhos, que estudassem lá...


Marília F. Pimenta


Muito boa sorte, Marília! Temos certeza de que você vai se tornar uma excelente professora, pois tem senso crítico e muito boa vontade. É para profissionais como você que não temos medo de confiar nossos filhos. Acredite, eles não mordem, rsrs. A escola pública de qualidade é possível e tudo depende do esforço de cada um. Um abraço!

01 maio 2010

Expulsão de alunos: mais um recorde internacional!



No que se refere às crianças e adolescentes, o Brasil tem a legislação mais avançada do mundo, o Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA. Em compensação, trata-se do país mais hipócrita do mundo, pois viola essa legislação da forma mais leviana e impune que se possa imaginar.

Uma coisa tem a ver com a outra: o ECA foi criado há 20 anos justamente em resposta à forma brutal e desumana como eram tratadas as crianças e adolescentes (principalmente as pobres) no país. A resposta da sociedade, de lá para cá, tem sido dura: crianças e adolescentes brasileiros continuam sendo violados em seus direitos básicos, com o agravante de que essas violações são feitas "às barbas" do próprio ECA.

Pior que a existência de crianças e adolescentes sem teto, pior que o abandono de crianças em latas de lixo ou sendo atiradas pela janela, muito pior que tudo isso, é ver a maior riqueza do país, a infância, evadir ou ser expulsa do lugar onde deveria receber o bem maior: o conhecimento.

A Constituição Federal de 1988 - Art. 206 - I - garante aos cidadãos "Igualdade de condições para o acesso e permanência na escola". Nesse aspecto, a Carta Magna não passa de papel de embrulho.

Na rede pública estadual de São Paulo (de onde essa "moda" se alastrou para todo o país) a expulsão de alunos foi implementada há pelo menos uma década, sob o nome de "transferência compulsória". Essa manobra foi possível graças a um dos piores "educadores" que flagelaram a já extremamente sucateada rede pública estadual: o ex-secretário Gabriel Chalita. Enganando toda a sociedade com sua hipócrita "pedagogia do amor", Chalita permitiu que os Conselhos de Escola começassem a expulsar alunos a bel prazer, o que passou despercebido da mídia, ocupada em divulgar os melosos escritos e as convenções em que o então secretário "consagrou" a suposta pedagogia...

De lá para cá, a expulsão de alunos via Conselho de Escola em São Paulo virou a coisa mais natural do mundo. Estivemos recentemente na assessoria jurídica da Secretaria da Educação e o Prof. José Luiz, chefe do setor, bateu o pé de que o Conselho de Escola é "soberano" na transferência compulsória de alunos. Veja, portanto, professora Maria Elvira (que nos consultou sobre a expulsão na rede pública paulista): não só a expulsão é comum em São Paulo, como também é considerada legal!!! Quem sabe, uma discussão do tema em nível nacional possa fazer o Governo de São Paulo perceber o absurdo dessa situação.

Profª Maria Elvira, veja nos links a seguir alguns casos bem interessantes de expulsão no Estado de São Paulo:
  • EE Jardim Iguatemi - São Paulo Capital, bairro de São Mateus. 2 alunos que usavam cabelo "espetado" e colares foram expulsos em reunião de Conselho de Escola. Os pais recorreram do veredicto e foi feita nova reunião, em que a expulsão foi confirmada. Após encaminharmos os pais à Secretaria da Educação e ao Ministério Público, conseguimos que os alunos fossem reintegrados.
  • Secretário da "Educação" de Barueri - SP xinga 41 alunos expulsos de uma única escola e manda que vão estudar "nos quintos dos infernos".
  • EE Carlindo Reis - Ferraz de Vasconcelos, Grande São Paulo. 5 alunas foram expulsas por se envolverem numa brincadeira no Orkut. Sem desenvolver qualquer trabalho pedagógico a esse respeito, a diretora da escola achou mais fácil induzir o Conselho a expulsar as alunas. Detalhe: o papel de transferência das 5 meninas, assinado pela diretoria de ensino de Suzano e entregue aos pais, estava com a data de TRÊS DIAS ANTES DA REUNIÃO EM QUE AS ALUNAS FORAM EXPULSAS...
  • EE Armando Gabam, São Paulo Capital. Essa é uma das escolas que mais expulsam alunos em São Paulo. Foi uma grande satisfação, para nós, ver um aluno conseguir ser reintegrado apenas usando seus próprios argumentos! Esse é o sentido do nosso trabalho: orientar os pais e alunos a exercerem sua cidadania. É por esse motivo que costumamos publicar no blog textos e citações legais que podem servir de base ou até serem copiados e entregues às autoridades.
  • EE Padre Josué Silveira de Matos, São João da Boa Vista, Estado de SP. Este é um caso dos quais temos mais orgulho - certamente o que nos deu mais trabalho! Uma garota dessa escola foi acusada injustamente de ter colocado fogo na lixeira da classe. A diretora precisava de um bode expiatório e aproveitou para acusar a menina, uma das melhores alunas da escola, mas que era bastante questionadora. Assim a diretora se livraria de dois problemas... Essa diretora fez o jogo mais sórdido que se possa imaginar: após suspender a aluna, fez lavagem cerebral em toda a classe (2 sessões de tortura psicológica de 2 horas cada!) para que os colegas caguetassem a menina - e conseguiu. Com base nesses "testemunhos", a aluna foi expulsa pelo Conselho. Questionamos o absurdo da situação e conseguimos que a Secretaria da Educação a reintegrasse à escola. Inconformada com a volta da aluna, a diretora arrastou a menina e 4 colegas da mesma classe para um tribunal, na esperança de que o juiz desmoralizasse a aluna de uma vez por todas. Foi gol contra! Em cinco minutos o juiz percebeu a armação da diretora, pois os colegas da menina entraram em contradição: um disse que ela havia usado fósforo para incendiar a lata do lixo, outro disse que havia usado isqueiro, outro ainda inverteu a ordem dos fatos, e assim por diante. Esse é o caso mais típico que podemos citar para mostrar a incompetência pedagógica, o autoritarismo e a PERVERSIDADE de certos "educadores", que não esitam em destruir a vida de um jovem para disfarçar seu próprio mau caratismo. Essa garota (olá, Francieli, tudo bem com você?) entrou em depressão profunda após a expulsão e foi a firmeza da mãe, que gastou rios de dinheiro em interurbanos para se comunicar conosco, a possibilitar a solução desse caso. No ano passado Francieli conseguiu se formar e já está livre das garras desses urubus que quase destruíram seu futuro.
Maria Elvira, vamos parar por aqui, pois já deu, né? rsrs
Ah, só para esclarecer, já que me perguntaram como posso afirmar que o Brasil é o campeão em expulsão escolar: não há um comparativo internacional, mas é fato que metade dos alunos brasileiros do Ensino Médio não concluem o curso. Nem todos são expulsos oficialmente, muitos são "convidados" a saírem da escola e a maioria evade por desinteresse, já que o curso é jurássico. Aproveito para recomendar a leitura da excelente reportagem Os segredos dos bons professores, na revista Época desta semana. A discutir em um próximo post!

Perdão às mães


A psicóloga Rosely Sayão publicou em seu blog um post bastante polêmico, Perdão às mães, que lhe valeu mais de 150 comentários de todo tipo. Nem sempre concordamos com os textos da psicóloga, mas desta vez aprovamos e elogiamos. Esperamos que as mães que nos procuram, principalmente as que têm seus filhos injustiçados e perseguidos na escola, sintam-se aliviadas de suas dores.



Obrigada, Rosely!