29 junho 2006

Carta para o editor de O Globo


A notícia publicada hoje no Globo Online sobre a greve no Colégio Pedro II nos levou a enviar esta carta ao jornal:

Prezado Editor,

Somos pais de alunos que há mais de quinze anos batalham pela melhoria do ensino público no Brasil. Começamos em São Paulo, mas através do nosso site
www.webamigos.net/educaforum e principalmente do blog http://educaforum.blogspot.com mantemos contato com pais de alunos de todo o Brasil, que nos pedem informações e ajuda para resolver os inúmeros problemas do ensino público.

Estamos bastante decepcionados com a cobertura dada por seu jornal à greve que desde o ano passado está flagelando o Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Em 2005, a greve durou 94 dias e a reposição de aulas foi ridícula, de acordo com os próprios pais. Este ano foi deflagrada nova greve, por motivos claramente políticos, que o leitor de seu jornal dificilmente poderá detectar, pois as informações dadas são tão pobres que nos fazem duvidar da competência desse tão prestigiado meio de comunicação. Será que O Globo está sendo tão sucateado quanto o Colégio Pedro II, que já foi um marco de excelência na educação brasileira e hoje obriga seus alunos a contratarem professores particulares para conseguir passar de ano?

Sr. Editor, seu jornal ignorou totalmente o blog dos pais de alunos do Colégio Pedro II, nem se deu ao trabalho de acompanhar suas iniciativas, como o mandado de segurança mencionado na matéria publicada hoje. O mesmo repórter que escreveu a matéria não poderia, junto com os pais, cobrar uma posição das autoridades competentes com respeito ao mandado, já encaminhado há 30 dias? Não é assim que fazem os bons jornalistas: investigam e buscam informações? Esse mesmo repórter não poderia checar onde se encontra o projeto de lei A Educação é Essencial e Não Pode Parar, encaminhado pelos pais do Colégio Pedro II ao Congresso Nacional já em dezembro do ano passado, ou seja, durante a primeira greve? Ou já não se fazem mais jornalistas “como antigamente”, aqueles que buscam as notícias, checam as fontes e cobram informações? A matéria publicada hoje pelo seu jornal não ilustra em nada a situação caótica que está deixando milhares de alunos sem aula. A voz dos pais e alunos quase não se ouve em sua matéria, que destaca apenas as reivindicações dos funcionários da escola e a queda de braço com o governo. Enquanto isso, centenas de professores estão de braços cruzados e recebendo seus salários tranqüilamente. Outros resolveram trabalhar! Não é uma situação no mínimo interessante? Não é interessante ver cidadãos fazendo o papel do sindicato (que deveria cobrar na Justiça o acordo descumprido, mas não o faz) e do Congresso brasileiro, que deveria defender o cidadão através das leis e da fiscalização?...

Sr. Editor, ainda há tempo de dar uma cobertura decente a essa vergonha que está acontecendo no Rio de Janeiro, ainda há tempo de dar voz aos pais e alunos do Colégio Pedro II, inclusive aos professores que estão em seus postos de trabalho.

Ou será que é mesmo verdade: a educação pública não é de interesse de ninguém neste País, a ponto de um dos maiores jornais do Brasil tratar o assunto como uma picuinha qualquer?

Atenciosamente,
Giulia Pierro e Vera Vaz
pelo
EducaFórum

26 junho 2006

A bandalheira do Fundef


A mãe de aluno Marília Dias escreve de Salvador perguntando sobre o Fundef. Parabéns, Marília! Em geral os pais pensam que o Fundef é “bicho de 7 cabeças” e não se interessam em saber. Vou tentar ser JT: o Fundef é uma verba repassada pelo Governo Federal a todos os Estados e Municípios, para manter o Ensino Fundamental, ou seja, as escolas da Primeira à Oitava Série. Essa verba é repassada anualmente de acordo com o número de alunos de cada município. Onde é que a porca torce o rabo? É na fiscalização dessas verbas, que deveriam ser aplicadas na reforma das escolas, merenda escolar, formação de professores etc. Mas grande parte dessa dinheirama vai parar nas mãos de políticos corruptos. Veja alguns casos, relatados pela Revista IstoÉ de 07/06/06, em municípios fiscalizados pelo Governo Federal, na base de sorteio.

Estes exemplos são para você, Marília: no município baiano de Muquém de S. Francisco, os fiscais descobriram que R$ 37.700 do Fundef foram para a conta de um posto de gasolina do primo do secretário de Transportes. A prestação de contas também relacionava cursos de capacitação para professores que nunca foram dados. Haviam no dossiê notas fiscais falsificadas para justificar saques em dinheiro da conta corrente em que a prefeitura recebia as verbas. Ainda na Bahia, no município de Piripá, com apenas 16 mil habitantes, foram descobertas 22 escolas fantasmas! A prefeitura de S. Francisco do Conde, região metropolitana de Salvador, pagou com verbas do Fundef R$ 629.000 por um lote de material didático que incluía 4,3 milhões de elásticos de amarrar dinheiro...
Mas o caso mais escabroso aconteceu em 2003 no município de Satuba, em Alagoas, onde o professor Paulo Henrique Bandeira denunciou desvio de verba do Fundef e acabou assassinado.

Deu para sentir o drama, Marília? O Governo Federal se recusa a assumir a responsabilidade pela fiscalização do uso das verbas do Fundef e se limita a “sortear” alguns municípios Brasil afora, como esses da Bahia, que renderam um prato cheio de corrupção. De acordo com a Lei 9.424 de 24 de dezembro de 1996, que regulamenta o Fundef, a fiscalização do uso das verbas cabe aos Conselhos de Controle Social, instituídos em cada Estado e Município. É aqui que todos os filhotes da porca torcem os rabos juntos! Em Sampa, por exemplo, os Conselhos de fiscalização do Fundef funcionam de forma absolutamente misteriosa: desde 2002 não soubemos de nenhum pai de aluno participando deles... Mas para tudo há solução, neste País onde o best-seller mais vendido é Harry Potter!

Eis a solução:
Antes de se poder aprofundar qualquer investigação sobre o Fundef, ele vai ser extinto: vem aí o Fundeb, Fundo para o Desenvolvimento do Ensino Básico, ou seja, desde a creche ao ensino médio. Mas esta é uma outra história, que fica para uma outra vez...


Leia toda a matéria da IstoÉ abrindo o link http://www.terra.com.br/istoe/1911/brasil/1911_os_novos_esquema_da_fundef.htm

24 junho 2006

Para as ruas, senhores pais!


Pois é, os pais de alunos do Colégio Pedro II, cujos filhos estão amargando dois anos seguidos de greve, falam, falam, mas não se entendem. Eles falam bonito, com propriedade, cada um sabe colocar suas idéias, mas infelizmente não conseguem encontrar o DENOMINADOR COMUM, ou seja, o ponto de união para onde poderiam convergir suas idéias. Não é preciso que todos eles concordem sobre tudo, aliás, isso é impossível! A diversidade é um dos componentes da natureza humana, mas precisa existir um mínimo de consenso sobre o que fazer em determinada hora e lugar, para que um grupo se torne uma comunidade. Precisa existir uma VONTADE comum a todos. Essa vontade, supostamente, é que seus filhos voltem a ter aulas. Mas percebe-se pelos comentários do blog que existe uma timidez, um "respeito à autoridade", uma atitude de, na dúvida, deixar como está. O mais triste de toda essa situação é ver alunos adolescentes sendo manipulados por sindicalistas! E, ainda, muitos pais declarando que os professores não têm culpa no cartório, pois estariam sendo "manipulados". Ora, quem é que elege o sindicato?! Se pensarmos dessa forma, então também o eleitor não tem responsabilidade nenhuma sobre a eleição de um ou outro político que o "manipulam"...

É uma pena deixar tudo como está e só uma forte VONTADE poderá levar esses pais para o único lugar onde seus problemas e seus pontos de vista poderão ser realmente vistos e entendidos: para a rua!

23 junho 2006

Colégio Pedro II - A greve continua


Desde o ano passado temos informado a respeito da greve dos professores do Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. Primeiro, a greve dos 94 dias. Agora, nova greve desde o "início" deste ano letivo, que demorou a começar devido à "reposição" das aulas do ano passado. Todas as aspas cabem perfeitamente a uma situação que seria ridícula, se não fosse séria demais, pois milhares de alunos estão sendo prejudicados em sua formação.

Os pais do Colégio Pedro II, bem mobilizados, chegaram à conclusão de que a greve é política. Sem dúvida alguma! Mas existe um fator agravante que eles, "marinheiros de primeira viagem", ainda não descobriram. Eles estão sendo penalizados por sua luta e persistência. Os outros colégios federais do Rio de Janeiro estão tendo aulas normalmente. Por que então justo somente os professores do Colégio Pedro II se renderam à manipulação do sindicato?...

É porque esses pais INCOMODAM e MUITO, em todas as esferas!

É uma pena que eles não percebam a sua força e não consigam maior visibilidade junto às autoridades e à imprensa. Nós aqui de Sampa, que já passamos por muitas e boas durante nossos quinze anos de luta pelo ensino público, fazemos muitos votos de que eles ainda consigam se articular e impedir que o Colégio Pedro II seja nivelado por baixo, tornando-se mais uma instituição de ensino carente e mediocre. O Brasil precisa de exemplos ao contrário: escolas públicas de qualidade que possam elevar o nível geral. Mas sabemos que isso não interessa ao "sistema", ou seja, aos membros das elites nem à classe docente, cujos filhos estudam...na rede particular.

MUITA FORÇA, PAIS DO COLÉGIO PEDRO II: VOCÊS ESTÃO COM TUDO E NÃO SABEM!

17 junho 2006

R$ 5.127.013 para cada aluno!


Deu no blog da Cremilda, http://cremilda.blig.ig.com.br que o aluno chamado de bicha na EE Octacílio de Carvalho Lopes, em Sampa, vai entrar na Justiça e pedir uma indenização de R$ 5.127.013. Esse era o número dos alunos da rede pública estadual de São Paulo em 2004, assim o aluno receberia um Real por cada aluno da rede. Um Real por cada aluno humilhado, desrespeitado, agredido física ou moralmente dentro da escola. Qual o aluno da rede pública que ainda não foi chamado por algum dos seus professores, coordenadores ou diretores, de burro, vagal, retardado, vagabundo, laranja podre, pivete ou qualquer outra expressão “carinhosa”, caracterizada como “brincadeira” no relatório da Diretoria de Ensino Leste 4, responsável pela EE Octacílio de Carvalho Lopes.

QUERO ASSISTIR DE CAMAROTE todos os professores, coordenadores, supervisores e o diretor dessa escola declarar para o juiz, sob juramento, que chamar aluno de bicha é uma expressão carinhosa!

Caso o juiz tenha uma mulher, irmã ou tia professora (que é a coisa mais comum do mundo), vai ser difícil fazer justiça. Além disso, ele não terá nenhum filho, sobrinho ou enteado estudando na rede pública, o que irá dificultar ainda mais sua imparcialidade.

Caso, no final, o veredicto “sacramente” a expressão bicha como uma brincadeira, então caberá ao plenário inteiro gritar essa expressão carinhosa para o juiz e para todas as autoridades presentes.
TAMBÉM QUERO ASSISTIR DE CAMAROTE!

16 junho 2006

Do tamanho de um ovo


Nossa amiga Glória, http://gloria.reis.blog.uol.com.br, faz mais uma denúncia de violência contra um aluno de escola pública. Isto em Leopoldina, MG, cidade do tamanho de um ovo, comparada com as maiores Capitais do País. Glória não se limita a receber as denúncias: ela as encaminha e acompanha, tendo sido inclusive perseguida e ameaçada por todo tipo de "autoridade". Este é o principal motivo pelo qual tão poucas pessoas, no Brasil, se dispõem a receber e encaminhar esse tipo de denúncia. Nem toda "Leopoldina" tem uma "Glória" para defender suas crianças e adolescentes. Fica porém fácil imaginar que, em comunidades menores, esses abusos adquirem uma visibilidade bem maior do que em cidades como São Paulo, Rio ou Belo Horizonte, onde o "sistema" de exclusão é muito mais perverso e estruturado, pois conta com delegacias de ensino e "surdorias" da educação bem descoladas. Algum matemático se dispõe a calcular a proporção de casos de abusos contra alunos da rede pública, abafados por milhares e milhares de quilômetros de panos quentes por todo o território nacional?...

Vamos à denúncia recém-postada por Glória:

Professora da E. E. Enéas França arremessa vidro de cola em aluno

Recebi mais uma denúncia de uma professora da Escola Estadual Enéas França que arremessou um vidro de cola no aluno de uma 4ª série. A mãe foi à escola reclamar e a professora disse que não tampou no filho dela e sim em outro aluno. Não é o cúmulo do cinismo? A diretora estava junto e apoiou a agressora.
Entrei em contato com a diretora Ana Rita Costa Souza que nem se deu ao trabalho de dizer que iria averiguar, foi logo dizendo que isso não acontece em sua escola, que suas professoras são "maravilhosas", que as crianças e pais inventam...
Esta é a deslavada desculpa que vem amparando as agressões contra nossas crianças nas escolas: as professoras agridem e sabem que, se as crianças contarem os fatos, é só dizer que não é verdade, que elas "inventam".
A mãe, sem outra alternativa, ao perceber que a professora não seria mesmo corrigida, pediu transferência do filho para a escola Ribeiro Junqueira, longe da residência do aluno. São esses transtornos que fazem com que, muitas vezes, nossas crianças abandonem os estudos.
Quando diretoras e secretárias negam os casos de agressão acontecidos em suas escolas demonstram o quanto esses cargos são apenas burocráticos, exercidos por pessoas sem nenhum compromisso com a realidade de nossas crianças pobres. O compromisso delas é sempre de defender a corporação, nunca em defesa dos alunos. Cabe acrescentar que, de dentro das suas salas, sem contato com as crianças, não têm mesmo como saber do que se passa.

A maior parada do mundo


Amanhã deverão sair às ruas mais de dois milhões de pessoas para acompanhar a 10ª parada do Orgulho Gay. Essa tem sido a maior manifestação de rua do mundo, no gênero. Mais uma vez, o Brasil estará na frente!

Nada contra, os direitos dos gays são direitos humanos. Fica porém uma pergunta: por que é tão difícil, neste país, mobilizar mais de mil pessoas para defender os direitos dos alunos da rede pública? Não precisa responder, tá, Seu Creysson!...

13 junho 2006

Prendas ou aula?


Maria Clara, mãe de aluno de Ensino Médio, nos escreve perguntando se está correto uma diretora de escola dispensar as classes para pedir prendas para festa junina.

A resposta é: NÃO e NÃO! Os alunos podem sim ir pedir prendas, mas FORA DO HORÁRIO DE AULA, quando estão sob a responsabilidade dos pais e responsáveis. Em horário de aula eles precisam estar DENTRO DA ESCOLA, que é responsável por eles. Lembram do caso da garotinha cuja mãe processou a escola (e ganhou!) porque foi dispensada mais cedo da aula e estuprada pelo caminho? Será que é preciso ter muitos casos desses para que a educação seja levada mais a sério neste País?

Nas escolas públicas, tudo é motivo para não ter aula! Aliás, atividades "extra-pedagógicas" como pedir prendas para festas são sempre benvindas na maioria das escolas, para tapar os buracos das aulas vagas...

Os únicos casos em que os alunos podem ficar fora da escola em horário de aula são excursões pedagógicas ou culturais, PREVIAMENTE AGENDADAS E COM A AUTORIZAÇÃO DOS PAIS ASSINADA para cada aluno.

Pais e mães de alunos: não permitam que seus filhos sejam largados na rua ou deixados sozinhos dentro de uma quadra jogando bola por falta de professor em sala de aula, pois podem se machucar ou brigar. Em muitos casos, as "ocorrências" de violência acontecem nestas situações, pelas quais a escola NUNCA se responsabiliza. É preciso cobrar mais seriedade das autoridades da educação!

09 junho 2006

Pratafórmica do Seu Creysson 5


Eça foi sujestaum da Véria Vaiz, élia é porretcha!

Proméçia 6

Tudo alúnio vai reçeber um Estatucho da Criânçia e do Adolescêntio em ediçaum de lúxio, capa bem dúria, pra levar pra escólia. Em cada áulia, um alúnio de cada craçe vai ler um artíguio e todos vaum repetir em voiz áltia. O professôrio vai decorar o artíguio e na áulia seguíntia vai ter que repetir para a craçe. Se o professôrio isqueçe o artíguio, leva o Estatucho na cabêçia inté decorar diretcho.

Isso é o pograma de çidadania do Seu Creysson, ókeyo?

DISPOIS DO PRESIDÊNTIO OPERÁRICO, XEGOU A VEIZ DO MINÍSTRIO ANAUFABÉTICO!

08 junho 2006

O ESTATUTO - este desconhecido

Na revista Educação edição 99 - 07/2005 achei um artigo interessante sobre o desconhecimento dos professores com relação ao ECA.
Seguem alguns trechos:
"A má interpretação, a falta de conhecimento e o senso comum são os fatores que fazem com que o ECA seja apontado como a lei que dá direitos e não deveres", afirma José Fernando da Silva, presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda). "Os professores, assim como a maioria da população, não conhecem o Estatuto." O desconhecimento leva à idéia de que a lei serve como uma arma para os adolescentes, quando na verdade se trata de um escudo.
A principal reclamação de educadores é de que a lei veio para tirar a autoridade docente. "Os alunos se sentem no direito de fazer o que bem entenderem, sem o mínimo de respeito pelo professor", afirma Gláucia Piovezan, professora de matemática que dá aulas em colégios particulares de Campinas, Indaiatuba e Jaguariúna, no interior de São Paulo. Ela acredita que os adolescentes são "muito protegidos" pelo ECA.
"Às vezes a lei exime a pessoa de seus atos somente por ela ser menor de 18 anos", concorda o professor carioca Francisco Tomas.Segundo Neyse Kozac, coordenadora pedagógica de 5ª à 8ª série do Centro de Ensino Candanguinho, em Brasília (DF), muitos professores reclamam que os adolescentes "jogam na cara" o ECA. Mônica D'Ávila, coordenadora pedagógica da Escola Estadual Godofredo Furtado, em São Paulo (SP), pensa que os educadores não sabem mais como lidar com os adolescentes. "Nós não impomos mais limites, porque não sabemos até onde podemos chegar."

Conceição Carvalho, coordenadora pedagógica do Colégio Brasília, em Aracaju (SE), diz que os professores sentem-se "inseguros e tímidos na hora de exercer suas atividades".
O procurador de justiça Paulo Afonso Garrido de Paula, co-autor do ECA, explica que a visão desses professores é fruto da mudança de paradigmas na abordagem legal da criança e do adolescente. "Eles passaram com o ECA a ser sujeitos de direitos, não objetos dele." Em nenhum momento, argumenta ele, a lei determina que professores não tenham mais autoridade sobre os alunos. "Eles não podem é desrespeitar os alunos, da mesma forma que não podem ser desrespeitados."
Mesmo quando lido, o ECA é interpretado de modo confuso. Cristina Albuquerque, gerente da Subsecretaria de Promoção dos Direitos da Criança e do Adolescente, vinculada à Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, afirma que isso ocorre principalmente no caso da inimputabilidade do adolescente. "As pessoas lêem a palavra 'inimputável' e acham que o adolescente sairá impune de qualquer situação." Ela explica que a criança e o adolescente não podem ser culpados por eventuais delitos que cometam em relação ao Código Penal. "O ECA estabelece medidas socioeducativas, que podem até privar o adolescente de liberdade."Essas medidas podem ser aplicadas, segundo o artigo 98 do Estatuto, quando houver ação ou omissão da sociedade ou do Estado, falta, omissão ou abuso dos pais ou responsáveis, ou em razão do comportamento do adolescente - e aqui está incluído o comportamento nas escolas. Depredação de patrimônio, agressões físicas, desrespeito aos professores e colegas, e porte de armas e drogas, para citar alguns exemplos, são passíveis de repreensão. Atos infracionais menos graves podem motivar advertência, obrigação de reparar o dano e prestação de serviços à comunidade. Nos casos mais graves, os adolescentes podem cumprir Liberdade Assistida (LA), semiliberdade ou internação, a critério do juiz da vara da infância e juventude.As duas primeiras relacionam-se diretamente ao dia-a-dia da escola. A LA determina que o adolescente permaneça em liberdade quando comete algum ato infracional, desde que seja supervisionado, freqüente a escola e se apresente periodicamente aos órgãos responsáveis. No caso da semiliberdade, o adolescente passa os dias em liberdade e as noites em unidades de semiliberdade, ou vice-versa. Ambas têm como pressuposto que o adolescente esteja matriculado e freqüentando uma escola.
Muitos adolescentes que saem das unidades de internação cumprem as duas medidas.
A aplicação delas, porém, encontra dificuldades, em boa parte por conta do preconceito que o adolescente sofre quando chega à escola e também pelo despreparo dos educadores em lidar com o assunto. "Já vi muitos casos de adolescentes que abandonaram a escola por terem sido discriminados", diz Conceição Paganele, presidente da Associação de Mães e Amigos dos Adolescentes em Risco (Amar), que cuida de adolescentes que cumprem medidas socioeducativas. "As pessoas vêem que o menino está cumprindo medida e tudo que acontece vira culpa dele. É claro que ele vai se afastar.""É muito difícil lidar com estes adolescentes", explica Neyse. "Até porque o garoto é pego com uma arma na escola, encaminhado ao Conselho Tutelar, sai de lá sem acontecer nada e volta para a escola."
O ECA prevê que crianças e adolescentes sejam "prioridade absoluta". Para isso é necessário que exista rede de atendimento, composta por assistência médica, alimentação, escola, lazer e, caso necessário, acompanhamento especializado. Todos esses direitos devem ser garantido pelo poder público. "O problema é que essa rede muitas vezes não existe e, quando existe, é incompleta", afirma Osmar Dettmer, coordenador geral do Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente de Santa Catarina.Educadores queixam-se de que a falta dessa rede de atendimento sobrecarrega as escolas e os professores, que têm de cumprir as funções de pais e assistentes sociais. "Não temos condições de resolver todos os problemas das crianças", reclama a professora Maria Luisa Blanco, que dá aulas em duas escolas em São Paulo (SP). "Tenho mais de 600 alunos, como posso saber dos problemas de todos eles?"
Há dificuldades na aplicação das medidas mesmo quando a escola se dispõe a ajudar. "Faz dois anos que tento arrumar um fonoaudiólogo para um aluno, sem resultados", conta Mônica. "Quando conseguimos detectar o problema do aluno, não temos como resolvê-lo."

"Conheço, mas não li"
Entre mais de 30 educadores da rede pública e particular, consultados por Educação em sete estados (São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Sergipe, Maranhão, Ceará e Santa Catarina), todos disseram conhecer o ECA. Quando perguntados se o tinham lido na íntegra, porém, apenas cinco responderam afirmativamente.
Em todas as escolas consultadas, há um exemplar do Estatuto na biblioteca.Se está nas escolas, por que não é lido?
"Acredito que seja um problema de desconhecimento geral da lei, não só do ECA", afirma Wilson Tafner, promotor da Vara da Infância e Juventude. Fernando Silva, do Conanda, aposta na capacitação de professores e no debate entre escola, família, governo e movimentos sociais. "O único modo de combater a desinformação é promover cursos e palestras para os professores", afirma."O problema é que mal temos tempo para cuidar das aulas, provas e trabalhos", afirma a professora Yara Lúcia Calles, que já foi candidata a conselheira tutelar. "A culpa não é do professor, a rede pública é que não abre espaço para a discussão sobre o Estatuto." Segundo o professor Djacir de Souza, que dá aulas há 20 anos na rede pública e particular de Fortaleza (CE), a formação dos professores deve incluir debates com gestores da educação, juízes e conselheiros tutelares..."
Reportagem: Jéssika Torrezan (Agência Repórter Social)
Para ler na íntegra:
http://revistaeducacao.uol.com.br/textos.asp?codigo=10878


Como pode um profissional que lida com crianças e adolescentes se furtar a conhecer a lei que rege o comportamento que se deve ter com relação a eles?...
Chego a conclusão que realmente Educação não é levada a sério por muitos que exercem essa profissão!...
Quanto a falta da assistência necessária às crianças (dever do Estado sem duvida!) pode-se apelar para a ajudo de voluntários e ONGs que se predispõem a intervir. Raramente a escola aceita de bom grado esta interferência! Porque será?
Aconselho a muitos professores que reclamam de sua falta de condiçoes de lidar com problemas de seus alunos a procurar ajuda no site www.voluntarios.com.br Muitos que o fizeram ficaram muito satisfeitos com os resultados e foram prontamente atendidos por psicólogos, fonoaudiólogos, educadores...
Voluntários existem aos montes nas mais diversas áreas por todos os cantos do país! Certamente podem ajudar a suprir a deficiência do Estado em manter essa rede que faria funcionar a Educação...

Puxa, acho que toquei em dois assuntos que dão pano pra manga...
ECA e voluntários na Educação...

Esperando conversa boa sobre isso....
Vera Vaz

07 junho 2006

Mais Júlio Groppa


Ainda sobre a entrevista de Júlio Groppa Aquino na Carta Capital, quero comentar mais uma colocação do professor: de que, no Brasil, a saúde funciona bem melhor do que a educação. Right! Se médicos e enfermeiros faltassem tanto quanto os professores, os hospitais seriam incendiados. Então,

a criança que vai à escola e não se alfabetiza deveria ser vista como o doente que morre na fila do hospital.

Mas ninguém se escandaliza com essa aberração. E a educação brasileira continua “matando seus pacientes”, as crianças e adolescentes que saem da escola sem saber ler e escrever direito. Isto é de uma gravidade tamanha, que merece um minuto de silêncio!

06 junho 2006

Escola pública X particular


Muito legal o comentário da professora Marta Bellini de Maringá, http://martabellini.blog.uol.com.br sobre a entrevista de Júlio Groppa na Carta Capital, que está dando o que falar nos quatro cantos do País. A entrevista é muito longa e cada leitor se identifica com algum trecho. Concordo com as colocações e com a seleção da Marta, que estou reproduzindo aqui, para esquentar um "velho assunto" que é dos meus preferidos, escola pública x particular.

Júlio Groppa Aquino, professor da USP, São Paulo, dá entrevista polêmica na Carta Capital. Chama Chalita e Gilberto Dimenstein de repetidores midiáticos (opinião que partilho). Diz que os professores faltam muito e que 70% deles não gostam do que faz (também partilho desta opinião). Leia a entrevista na íntegra:

http://www.cartacapital.com.br/index.php?funcao=exibirMateria&id_materia=3198

Alguns trechos:

CC: Segundo levantamento citado no livro A Escola Vista por Dentro, de Simon Schwartzman e João Batista Oliveira, 77% dos professores do ensino fundamental público culpam o desinteresse dos alunos pela alta repetência. Essa é uma das teorias que o senhor mencionou?

JG: Claro. É como dizer que o problema da saúde são as doenças, e o da Justiça, os delitos. “Se fôssemos um povo menos criminoso, a Justiça seria melhor. Se fôssemos mais interessados em educação ou, em outras palavras, menos ignorantes, a educação seria melhor.” É a lógica dos mitos. E esse talvez seja o maior deles: o de responsabilizar o alunado. Não faz o mínimo sentido, mas está generalizado não só entre os profissionais da educação, como também na opinião pública, que ratifica esses clichês, esses abusos cometidos contra os jovens.

CC: E em relação às particulares, também não falta cobrança?

JG: As escolas privadas são a cara da elite brasileira. Fazem parte do seu “pacote existencial”: academia, shopping, condomínio fechado, escola privada. Elas vendem aquilo que a elite quer: uma farsa com fachada de excelência. O processo de desinstitucionalização escolar, que na escola pública assume a forma de deserção, na escola privada confirma-se como fraude pedagógica. Não há o mínimo de supervisão, de controle. O ensino particular é um Velho Oeste. Tem jurisdição própria e transparência zero. E não há debate algum sobre isso. A escola privada, no Brasil, está acima de qualquer suspeita, como se seus resultados fossem sempre ótimos. E a imprensa em geral só faz alimentar a mistificação, como o ranking das melhores escolas privadas feito pela Veja em 2001. Em meados deste ano, a Folha de S.Paulo publicou um caderno especial intitulado Colégios, em que mostra o cotidiano das escolas campeãs do vestibular. E o que lá se vê? Hiperconcorrência entre os alunos, “baias” individuais, avaliação frenética, vigilância digital, exclusão sistemática dos “mais fracos”. Um dos destaques é o Colégio Objetivo, que pertence ao “barão” do modelo escolar vigente, o senhor (João Carlos) Di Genio. Não dá para acreditar que essas “corporações” espalhem impunemente seus horrores pedagógicos e que a imprensa seja servil a isso tudo. É preciso ter coragem para desmascarar esse estado lamentável das coisas na educação, seja particular, seja pública.

04 junho 2006

Estado de graça


Não dá pra falar só de coisa ruim, neste País abençoado por Deus! Este País que escolhi para viver é de uma riqueza espiritual tamanha que ofusca toda a miséria, a corrupção, as maracutaias e tudo de ruim que permeia (e permeia!) nossas vidas. Ontem fui no Sesc Pinheiros assistir um show de Renato Borghetti e Yamandu Costa, acordeón e violão, recriando a música gaúcha, um verdadeiro espetáculo em "TCHE MAIOR". É por essas e outras que não dá pra desistir do Brasil! Viva o Brasil! Viva este País de tantas cores, de tantas diversidades, de tanta criatividade, de tanta vontade de viver! Viva todos os brasileiros que não deixam o País afundar!!!

02 junho 2006

Serjão comenta a greve


Sensacional comentário sobre a greve no Colégio Pedro II, postado do "além" em http://serjaocomentadoceu.blogspot.com

No ano passado eu publiquei uma carta de um grande amigo cujo filho estuda no Colégio Pedro II, então em greve. Na última terça encontrei este mesmo amigo por acaso com sua esposa num Shopping e ele estava revoltado. Sentamos para um café e ele me disse que o Colégio estava novamente em greve. Para mim que acompanho política, nenhuma novidade. Conheço esta raça. Eu continuei ouvindo. Segundo ele, os professores reclamavam um tal acordo que demorou a ser assinado mas finalmente o foi e mesmo assim o “indicativo” era manter a greve. Tive que ter paciência para explicar que a não assinatura do tal acordo foi apenas um pretexto. Se não fosse isso seria o papel higiênico do banheiro que não é perfumado ou os bancos do refeitório que não são acolchoados. Estamos num ano eleitoral. A maioria dos sindicatos, inclusive provavelmente o SINDSCOPE dos (des)servidores do Pedro II, são braços do PSTU e do PSOL, nanicos partidários novos mas que cheiram a mofo. O objetivo é antes de tudo desestabilizar o Governo do PT para ganhar votos nas próximas eleições. E como eles precisam ultrapassar a cláusula de barreira, vale tudo. É só reparar a quantidade de categorias que estão em greve. Diante desta hipótese meu amigo ficou surpreendido com a falta de caráter dos (des)servidores em prejudicar os alunos pela política. Mais paciência. Desta vez tive que ser franco. Expliquei que ninguém liga a mínima para os alunos. Tanto que a reposição das aulas da greve passada, e isso ele já havia me informado, foi feita nas coxas. O colégio Pedro II, pelo que ele estava me relatando, em nada se diferenciava de outros órgãos públicos onde o sindicalismo era, antes de tudo, um fim. E eles têm que manter este discurso socialista-comunistóide, que não existe mais em nenhum lugar no mundo, por que precisam sobreviver. Se admitirem que o discurso é errado, morrem de fome. Por isso se mantêm na utopia, não por acreditar e sim para continuar comendo e pagando as contas. Ser sindicalista é a maneira mais fácil de fazer isso. Caso contrário teriam que trabalhar. E isso eles não gostam muito. Mas teve uma coisa que ele me disse e me surpreendeu. Parece que estavam ocorrendo reuniões entre as Associações de Pais e Amigos, alguns pais e o tal sindicato. Primeiro não entendi mas depois raciocinei e ficou claro como água. A militância sindical faz muito barulho mas não tem votos suficientes para eleger ninguém. Por isso tenta convencer os pais que o inimigo é somente Lula (que nós já conhecemos, mas é menos culpado que os Sindicatos que aporrinharam 20 anos para o eleger). No final ele me perguntou qual a saída. Depende. Para o colégio, nenhuma. Para haver solução terá que haver algum tipo de conflito, o que os pais parecem não ter mobilização para fazer. A velha inércia da classe média que eu cansei de decantar. Para meu amigo, especificamente, é, se puder, tirar o menino do Colégio. Aliás é o que acontecerá com todos que tiverem condições financeiras. Com isso, fatalmente, os melhores alunos sairão, tornando um colégio que já foi de excelência numa escola pública como outra qualquer. Com isso, claro, o sindicato perpetua o seu poder, o que é mais fácil num contexto de pais e alunos carentes. Para isso, inclusive, o sistema de cotas que o colégio vêm adotando vem bem a calhar. Em resumo, nada disso é por acaso. O café terminou com um conselho: esqueça este ladrão que é o Estado brasileiro. Ele nos rouba impostos sem oferecer chongas em troca, principalmente educação de qualidade. É revoltante mas resigne-se quanto a isso. Viverá mais feliz. A esposa de meu amigo, meio exaltada, disse que escreveria algo sobre nosso papo no site de pais do colégio. E, como a política anda morna, resolvi abordar isso aqui também.