25 fevereiro 2007

Alguém comenta?

A mídia finalmente informa sobre o Ensino Médio no Estado de São Paulo:

Jornal da Tarde
Repetência passa de 3,6% em 1996 para 17,8% em 2006.

Diário de S. Paulo
Saresp 2005 revela notas médias (de 1 a 10)
1º ano - Português 3,73
3º ano - Matemática 2,82

O custo do atraso


Samuel Pessoa, professor da Escola de Pós-Graduação em Economia e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia, ambos da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, é incisivo. Ele aponta que o tipo de contrato de trabalho que se estabelece entre o setor público e os profissionais da Educação gerou um corporativismo na categoria impensável entre outros tipos de trabalhadores. "Se o professor falta, não é punido no bolso e poucos têm coragem de discutir a culpa dele quando o aluno fracassa. Tudo é responsabilidade do sistema e ficamos por isso mesmo", ataca.

Revista Nova Escola – fev 07

23 fevereiro 2007

Ensino reprovado


Elisângela nos escreve:

Estive pesquisando e gostaria de tirar uma dúvida. Um amigo de meu filho ficou de recuperação final, fez as provas e de acordo com o resultado que a escola disponibilizou ele ficou reprovado. Ele pediu para ver as provas, porque não concorda com o resultado. A escola está enrolando. A minha pergunta é: ele tem direito de ver o resultado? Se tem, onde encontro a lei que comprova? A quem ele deve recorrer primeiro? Obrigada!!

Elisângela, é muito simples: crianças e adolescentes não costumam ser respeitados na escola, portanto o ideal é o pai, a mãe ou um responsável ir com ele na diretoria da escola, levando impresso o seguinte artigo do ECA:

53º A criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho, assegurando-se-lhes:
III - direito de contestar critérios avaliativos, podendo recorrer às instâncias escolares superiores.

Se mesmo assim o diretor recusar, informe que vai enviar uma queixa às seguintes autoridades:

Diretoria de Ensino; Secretaria da Educação (municipal ou estadual, dependendo da rede à qual a escola pertence); Ouvidoria da Educação; Comissão de Educação da Câmara Municipal (se a escola for municipal); Comissão de Educação da Assembléia Legislativa (se a escola for estadual).

O diretor deverá preferir atender, do que correr o risco de levar um processo administrativo. Mas, se ainda assim negar o pedido, envie a queixa! É muito fácil procurar o e-mail de cada uma dessas autoridades, pois praticamente todas têm site, a não ser em pequenos municípios. Envie a mensagem para a Diretoria de Ensino, com cópia para todas as outras, mas cuidado para que a cópia não seja “oculta”. Que todas fiquem sabendo do fato. Ligue depois para a Diretoria de Ensino e marque uma visita, com a cópia do e-mail em mãos.

Mesmo que a escola seja particular, o caminho é o mesmo. A lei é igual para todos (mesmo que no Brasil nem todos sejam iguais perante a lei...)

Boa sorte! E se precisar de mais ajuda, volte a entrar em contato.

21 fevereiro 2007

Chame o ladrão!


Entre as pérolas que “abrilhantaram” este Carnaval está a agressão a um grupo de 6 estudantes entre 13 e 17 anos, acompanhados por um adulto, por parte de 5 policiais militares. Lá em Recife, a cidade mais violenta do Brasil, de acordo com a Santa,
http://blogdasanta.blogspot.com, que nos repassou a informação.

O fato aconteceu no sábado, no bairro pacato de Casa Forte, durante o desfile de um bloco carnavalesco. Os policiais supuseram que um dos garotos, de 14 anos, estivesse cheirando uma substância contida em um frasco caído no meio da avenida. Eles começaram a bater com cassetete no adolescente e nos colegas, que tentaram defendê-lo. No final, um dos policiais despejou na cabeça do garoto o ácido contido no frasco, provocando seu desmaio e queimaduras no rosto e pescoço. O adulto acompanhante relata que, após derramar o líquido no menino, os policiais entraram numa viatura e foram embora tranqüilamente.

A sorte desse garoto é que, por ironia do destino, seu próprio pai é policial militar - há 22 anos. Revoltadíssimo, ele denunciou o caso à Corregedoria e certamente (?...) os culpados serão punidos. Só assim!!

Este episódio chama a atenção sobre a truculência de supostos defensores da ordem, que nem ao menos se preocuparam por agredirem adolescentes, protegidos pelo ECA. Sinal da certeza de impunidade. Ou se trata de policiais corruptos, habitualmente acobertados por superiores igualmente envolvidos em todo tipo de ilegalidade, ou o treino de policiais em nossos centros urbanos é tão precário que justifica o ditado “Chame o ladrão!”. Uma terceira hipótese: os 5 policiais estavam drogados. Qual das situações se aplicará a este fato?...

Certamente, o caso não teria a repercussão que está tendo e muito menos qualquer solução, se os adolescentes estivessem desacompanhados, se o pai do garoto agredido não fosse policial militar e, principalmente, se ele estivesse realmente envolvido com drogas. Mesmo que estivesse, o que não é o caso, nada justificaria a atitude dos policiais. Eles se valeram de uma tendência da sociedade brasileira no sentido de apoiar a punição de jovens considerados “problemáticos”: cassetete neles! Febem neles! Expulsão da escola!
E, principalmente, operação abafa...

Não foi à toa que precisou criar o Estatuto da Criança e do Adolescente no Brasil. Os brasileiros menores de idade correm perigo em casa, na escola, na rua. Que país é este que maltrata justamente seus cidadãos mais necessitados de atenção, cuidados e respeito? Que seres humanos são esses que se deixam levar por impulsos bestiais num espaço público, como se estivessem numa caçada?

O ECA é bastante claro: quem assiste a uma cena de constrangimento, violência ou tortura contra uma criança ou um adolescente, sem denunciar, é conivente. Doa a quem doer. Imitando nosso amigo Serjão: a verdade dói e aqui machuca mais...

Leia sobre o assunto: http://www.fundaj.gov.br/notitia/servlet/newstorm.ns.presentation.NavigationServlet?publicationCode=16&pageCode=852&textCode=7952&date=currentDate

20 fevereiro 2007

A Folha "acordou"!


O editorial de ontem da Folha de São Paulo, Prêmio à ineficiência, mostra que a mídia finalmente despertou para a grave inversão de valores que domina a rede pública de ensino em São Paulo. O artigo se refere unicamente à rede municipal, que distribuiu bônus aos professores sem levar em conta nem mesmo a assiduidade. Isto significa que, além da ineficiência, está sendo premiado o flagelo da AULA VAGA, fenômeno que consome até 30% do ano letivo, principalmente nas periferias. A rede estadual também adotou o mesmo critério e esperamos que outros meios de comunicação despertem para a necessidade de divulgar esse descalabro, a fim de que os governantes parem de premiar o absenteísmo e a incompetência.

17 fevereiro 2007

A "dança" das siglas


Aqui neste blog, "nóis si diverte". Ou melhor, é tanta a indignação com as denúncias recebidas, que precisamos de uma válvula de escape para relaxar. O "causo" da EE Brasílio Machado no primeiro dia de aula: chamar a polícia na escola, ameaçar os alunos com spray de pimenta e retirar os não uniformizados à força de dentro da escola é de uma gravidade tamanha que só poderia acontecer nesta Paulicéia Desvairada. E engolir uma dessas, só rindo. Ainda bem que chegou o Carnaval, olé, olé, olé, olá!

Bueno, além das autoridades "competentes", encaminhamos a denúncia também para o Governador José Serra, nos dois e-mails que encontramos após nossa pesquisa: saopaulo@sp.gov.br e governador@sp.gov.br.

Deu-se ontem um fato muito interessante: o saopaulo@sp.gov.br enviou um e-mail ao infoeducacao@educacao.sp.gov.br reencaminhando nossa mensagem e pedindo um posicionamento, com cópia para nós. Palmas para o saopaulo@sp.gov.br! Se Deus quiser, finalmente, após anos de mensagens indo para lá e para cá, ficaremos sabendo "quem é" infoeducacao@educacao.sp.gov.br, um dos maiores mistérios do já tão misterioso sistema educacional de São Paulo.

Mas ainda temos a esperança de receber uma resposta de governador@sp.gov.br, esse tem mais "cara de gente"...

Desculpe a brincadeira, Governador. É o último recurso de quem não vê muita luz no fim do túnel!

Leia a denúncia sobre a EE Brasílio Machado em nosso post "Que 1º dia de aula!", de 13/02.

15 fevereiro 2007

Aula vaga em alta temporada!


Vergonhoso número de aulas vagas!

E não é que temos um aliado de peso contra a aula vaga logo no início do ano letivo! OBA!
Os professores no orkut já estão fazendo a caveira dele! rs
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=46367&tid=2515463769363034190&na=3&nst=11&nid=46367-2515463769363034190-2515702831537347771
Os números são assustadores e eles insistem em por a culpa no Dimenstein... É no mínimo rídiculo!...Que não somos capazes de nos meter na pedagogia e didática poderiam alguns tolos até engolir... Mas que não possamos reclamar que faltem ao trabalho é demais ...
E pensar que muitas das faltas ainda são encobertas pela direção e abonadas...
Acho que eles não têm mesmo vergonha de nada...
Será que eles se acham mesmo no direito de ser uma classe trabalhadora acima da fiscalização... acima do comparecimento...
Nenhumzinho comentou ou questionou se realmente não tem gente exagerando...
Aí vai o artigo do
GILBERTO DIMENSTEIN
A lição das faltas premiadas
--------------------------------------------------------------------------------
A rede de ensino da
cidade de São Paulo está quase em último lugar em qualidade de ensino em relação às demais
--------------------------------------------------------------------------------
DEPOIS DO mestrado em gestão pública na Fundação Getúlio Vargas, o administrador de empresas Alexandre Schneider planejava coroar sua vida acadêmica com um doutorado. Ao rabiscar ontem à tarde, numa folha solta, um amontoado de números, ele dizia, em tom meio de brincadeira e meio sério, que estava prestes a abandonar seu projeto. "Não sei se vou aprender mais numa sala de aula do que estou aprendendo na realidade sobre os labirintos da administração pública." No papel, estava escrito "629 mil faltas". "É inacreditável", disse. Com o diploma da graduação, ele conseguiu atingir o sonho da maioria de seus colegas: um emprego numa grande empresa. Trabalhava num banco de investimentos em parceria com empresas alemãs, onde quase tudo funcionava com extremo rigor e pontualidade. Até que, por causa de seu interesse em gestão pública, envolveu-se com projetos de melhoria de eficiência de governos e tornou-se, no ano passado, secretário de Educação do município de São Paulo. "Começou aí minha grande aula, superior a qualquer doutorado em administração pública." Entre as lições estão as contas que ele fazia ontem sobre o número de faltas dos professores; em 2005 e 2006, foram, respectivamente, 629 mil e cerca de 500 mil (os números ainda estão em fase de contagem final). Para cada ausência, some-se no mínimo três aulas. Isso causa transtornos imensos numa rede com 1.200 escolas, 1 milhão de alunos e 50 mil professores. No seu aprendizado, ele viu que o professor tem direito a deixar de ir à escola dez vezes por ano sem dar nenhuma explicação, além das faltas "justificáveis" e das licenças médicas. Anualmente, 3.000 professores e diretores mudam de escola.
A maioria das escolas tem três turnos diurnos e não se tem claro o que ensinar
em cada ano. A rede de ensino da cidade de São Paulo está quase em último lugar em qualidade de ensino em relação às demais; está abaixo, por exemplo, da maioria das capitais nordestinas.Um detalhe é que, apesar dessa pontuação, os professores têm direito a uma "gratificação de desempenho", cujo único critério é o da assiduidade. Nesse doutorado na prática, Schneider ficou sabendo que, no final do ano passado, todos os professores foram premiados com a gratificação por desempenho - mesmo aqueles que ajudaram a compor as 500 mil faltas, o que significa a ausência em 1,5 milhão de aulas. "Duvido que qualquer curso teórico me explicasse como chegamos a tal situação." PS- Ele está redigindo decreto para que só os professores assíduos ganhem a gratificação por assiduidade. A previsível reação a essa medida será mais uma aula - ainda mais se sua intenção não conseguir sair do papel. gdimen@uol.com

13 fevereiro 2007

Que 1º dia de aula!


Ontem, primeiro dia de aula na rede estadual de São Paulo, ocorreu um fato assustador. Assustador, para quem não conhece a EE Brasílio Machado, aquela escola onde em março do ano passado a polícia militar foi chamada para retirar da sala de aula duas alunas não uniformizadas. Otimistas que somos, pensamos que a escola tivesse sido orientada e que não tomaria novas medidas ilegais. Abaixo transcrevemos a mensagem impressionante que recebemos hoje do pai de uma aluna. Acabamos de encaminhá-la à Ouvidoria da Educação e à própria Secretária Maria Lúcia Vasconcelos pedindo, desta vez, intervenção na escola, que aparentemente apresenta muitas outras irregularidades. Parabéns para esse pai que, além de relatar os fatos de forma tão precisa, foi registrar o assunto no Livro de Ocorrências da escola. É para isso que ele serve!


A VEEELLLHHHAAA questão dos uniformes adquiriu, no Brasílio Machado,colégio da Vila Mariana, características realmente alarmantes: no primeiro dia de aula, não apenas os alunos sem uniforme foram barrados, mas por FORÇA POLICIAL com ameaças e spray de pimenta. Alguns alunos sem uniforme foram VIOLENTAMENTE retirados da escola pelos próprios prepostos (coordenadores e serventes), seguros em seus braços e retirados aos berros e humilhações. Até quando vamos conviver com isso? Não se trata nem mais de lei (que a lei, como vocês mesmo colocam no site, é clara: não pode haver a obrigatoriedade, por mais que um conselho de mães carentes e desinformadas considere que isso vai nos assegurar contra a violência). Acontece que a questão extrapola a lei, pois o uniforme visa justamente CONTER a discriminação e tirar o aluno de possíveis CONSTRANGIMENTOS (pela guerra das "grifes", por exemplo.) No entanto, o que estáacontecendo é uma brutal INVERSÃO DE VALORES que fere todo o bom senso, levando junto a LDB o Estatuto do Menor, leis estaduais e mesmo a resolução dos Promotores Para a Educação, conforme seu documento divulgado, condenando taxativamente a obrigatoriedade do uniforme (aliás, veja-se resoluções por todo o país, em processos movidos por pais ou responsáveis, que todos dão parecer contrário à obrigatoriedade). Isso é PURO CONSTRANGIMENTO, violência ao menor (lembremos que não podemos agarrar menores e constrangê-los a ir ou vir contra a vontade). Hoje irei à escola junto com a minha filha, com cópias da LDB, resolução dos Promotores e lei 3.919, bem como vou preencher o livro de ocorrências e protocolar denúncia contra os procedimentos com cópia para a Corregedoria da Educação. No entanto, como proteger minha filha disso? Como posso admitir que ela passará a maior parte de sua vida ativa deste ano submetida a tais pessoas? Eu não poderei estar presente sempre: e quando vier um spray de pimente ou uma cacetada que lhe deformará o corpo pelo resto da vida? Que indenização valeria a integridade da minha filha? Como prevenir esse tipo de situação? Esperar que o primeiro adolescente seja espancado? Senhores, estou realmente CHOCADO pela arbitrariedade, truculência, falta de visão e planejamento, discriminação. Para não abordar o ALARMANTE índice de falta de professores, a falta de um plano educacional, a jogadinha dos professores para fazer uma APM controlada por eles (através de “pais de aluguel”: um professor matricula um filho e pode burlar a lei, tornando-se tesoureiro ou presidente, o que lhe seria indevido), com aulas e aulas vagas sendo não mais a exceção, mas a regra de um corporativismos profissional que joga no lixo o conceito do que é ensinar. Ensina-se falando, é verdade, mas o que eu realmente APRENDI e que me fez o homem que sou veio do exemplo de velhos mestres: Pachequinho, Dona Celmira, Dona Clélia. Tais senhores e senhoras, mesmo sem leis, diretrizes ou qualquer outra coisa dignificavam o ensino, me fizeram sentir-me forte, cidadão, capaz... Me alertaram para o meus direitos e, através de suas sofridas vidas de professores, seus guarda-pós muitas vezes rotos e empoeirados de giz, deram exemplos que dignificam a educação. Que exemplo o poder público, a polícia, a direção da escola, seus serventes e prepostos estão nos dando? Agradeço a atenção dos senhores, e peço que façam eco (aliás, parece que sou eu a fazer o eco, pois o site de vocês foi realmente de grande ajuda). Apenas para terminar: isso foi NO PRIMEIRO DIA DE AULA, onde, supõe-se (mesmo os grupos e ginásios da época da ditadura) que os alunos estejam se ajustando, e inclusive providenciando uniformes... Mas nem prazo foi dado: a escola, senhores, foi FECHADA, com polícia ameaçando e coordenadores gritando e agarrando. Me ajudem!!!

11 fevereiro 2007

Se vira!


O aluno Fernando (leia o post abaixo) acabou de receber uma mensagem automática do ProUni: uma série de orientações burocráticas que não levam em conta a situação minuciosamente relatada por ele em seu e-mail.
O mesmo que responder: se vira, Fernando! Sabendo que ele iria receber uma mensagem como essa, resolvemos nós mesmos exigir uma resposta "inteligente" das autoridades. E vamos cobrar!

Queremos também deixar claro que o aluno não se queixou da qualidade das aulas, mas do sucatamento do curso, que sofreu N manipulações da grade, culminando no absurdo da extinção do 5º e 6º semestres durante o ano em curso. Entendemos que deveríamos dar este esclarecimento.

10 fevereiro 2007

O futuro do Brasil


Este modesto blog é um pequeno espaço privilegiado para onde aportam mensagens que nos fazem acreditar no futuro do Brasil. Não todas elas, é claro. Algumas mensagens são tão desesperançadas que nem sabemos por onde começar a ajudar. A mensagem mais surpreendente que já recebemos é do Fernando, um garoto de 20 anos com a maturidade que muito adulto sonharia ter. Ele nos contatou com um problema muito sério, mais um problema do ProUni, justamente logo depois que acabamos de ajudar a resolver outro. O relato do Fernando mostra claramente a falta de respeito com que são tratados nossos jovens em certas faculdades particulares, onde o ensino não passa de mercadoria. E também mostra a falta de fiscalização de um governo que cria um projeto de inclusão e permite que os jovens sejam novamente excluídos, de forma ainda mais perversa. Mas Fernando reagiu a toda essa situação com uma atitude corajosa, inteligente e positiva: enviou uma mensagem ao ProUni e ao MEC relatando os dois anos de decepção que passou em um curso constantemente sucatado, e sua vontade de continuar os estudos numa Universidade séria, que o respeite como aluno interessado e aplicado. Recebemos do Fernando uma cópia do e-mail que enviou às autoridades e temos o prazer de publicá-lo aqui, para que vocês se deleitem com a inteligência e a lucidez de um jovem da periferia, um desses tesouros que o Brasil guarda e não revela, pois a quem interessa a vida de garotos que fazem das tripas coração para cursar uma universidade que não podem pagar? Entrar e permanecer numa boa universidade, neste País, depende do cifrão e não da vontade ou do interesse. Esses garotos que saem do Colégio Bandeirantes, do Pentágono, do Santo Américo e muitas vezes entram na USP somente por pressão de papai e mamãe, que sabem eles do Brasil, no que vão contribuir com o País?...
Apesar de Fernando ter enviado sua mensagem diretamente ao ProUni e ao MEC, aproveitamos a oportunidade em que fomos agradecer a solução do problema anterior (veja nosso post “Segunda vitória do ano”, de 30/01), para reencaminhar seu e-mail ao presidente do ProUni, Wilson Picler, e ao Ministro Fernando Haddad, pois entendemos que esse jovem merece a oportunidade de estudar em uma faculdade que esteja à altura de sua inteligência e senso crítico. São jovens como o Fernando que realmente podem transformar o Brasil numa Nação, pois conhecem sua realidade e têm a coragem de reagir aos abusos.
Numa época em que se divulgam somente desgraças ou bundas, seja porque abundam, seja porque “vendem jornal”, é enorme o prazer de descobrir a existência de garotos como o Fernando, mesmo em uma mídia alternativa como esta, mas que atrai leitores inteligentes e cansados de obviedades.
Segue o texto da mensagem do Fernando às autoridades, que esperamos tenham a competência de entendê-la em todos os pormenores. Mas esperamos principalmente que essas autoridades tomem a si a responsabilidade de resolver o problema desse brasileiro que só deseja o que a Constituição lhe garante: igualdade de condições entre seus pares.

Meu nome é Fernando Matias de Siqueira e recebi uma bolsa do ProUni em 2005 para cursar Ciências Sociais no centro Universitário Sant'Anna, zona norte da capital de São Paulo. A conclusão do curso estava prevista em 8 semestres (diploma de Licenciatura Plena em Sociologia no final do 6º semestre e Bacharelado em Ciências Sociais no fim do 8º). Iniciamos a turma com 20 alunos no 1º semestre de 2005, quando ocorreu uma "crise" na Universidade: os professores não estavam sendo pagos e iniciaram uma greve que resultou na demissão de alguns deles, dentre estes o Coordenador do Curso de Ciências Sociais. A Universidade solucionou o problema adotando uma nova "filosofia" para reger as relações acadêmicas: cursos que eram de Licenciatura e Bacharelado passaram a ser somente de Licenciatura, com conclusão em 6 semestres; deixou de ter um coordenador por curso e passou a ter coordenadores de área: um para os cursos de Bacharelado, outro para os cursos de Licenciatura. Nosso curso ficou sob a supervisão do Coordenador dos cursos de Licenciatura. Ao mesmo tempo, houve alterações na grade curricular: algumas disciplinas foram eliminadas, outras tiveram diminuição da carga horária. Os alunos que tinham condições transferiram-se para outras Universidades, outros saíram por motivos pessoais. O que importa é que iniciamos o 3º semestre (2006) com apenas 10 alunos, sendo que nesse mesmo semestre 3 alunos desistiram. Os 7 alunos restantes permaneceram durante o 3º e 4º semestres, mas houve novas e inesperadas modificações na grade. O fato é que o curso que iniciamos em 2005 não era o mesmo que cursamos em 2006: além das mudanças na grade curricular, já estávamos cientes de que o curso terminaria em 2007. Faltavam só o 5º e o 6º semestre para que concluíssemos o curso de Licenciatura em Sociologia, depois estaríamos disponíveis para novos projetos. Fizemos a rematrícula no final do ano, mas no dia 31 de janeiro recebemos a notícia de que não haverá, no ano de 2007, o 5º semestre de Ciências Sociais no Centro Universitário Sant'Anna, sob a alegação de que não existe a obrigação de manterem cursos com poucos alunos, que não proporcionam lucro. Para "solucionarem" esse impasse oferecerem-nos as seguintes propostas:


1. aguardar até o ano que vem (2008) e cursar o 5º e 6º semestres com a turma que este ano está matriculada no 3º e 4º, com número "expressivo" de alunos;

2. ou, para não ficarmos sem estudar, cursar o 7º e 8º semestres este ano (2007) junto com os alunos de Geografia, que seria corresponde ao curso de Bacharelado, e voltar em 2008 para concluir a Licenciatura.

Alguns dos alunos aceitaram a proposta, sobretudo por temerem ficar um ano sem estudos. Contudo, me recuso a tanto. Não basta terem deturpado totalmente o curso inicial, não basta ter-nos feito aceitar somente o curso de Licenciatura, agora nos tiram a Licenciatura e querem que façamos Bacharelado?? Esta proposta é um tanto incompreensível. Também acho loucura ingressar no 7º e 8º semestres com uma turma de outro curso, para no ano seguinte retornar ao 5º e 6º! Nem sei mais em que curso estou inscrito, pois na verdade no momento não há curso a não ser que nos submetamos a tal disparate! No site do ProUni, na seção informações ao bolsista, subseção transferência, consta:

Excepcionalmente, poderá haver transferência nos casos decorrentes de extinção de curso ou habilitação.

Peço ao ProUni que possibilite-me a transferência para outra Instituição, pois, sendo bolsista do Programa, estou sob a tutela do Governo Federal, inclusive para a manutenção da bolsa, que depende do meu desempenho acadêmico. Neste sentido, acredito ter superado as expectativas, em vista da grande defasagem que trouxe para o curso superior, pois sempre fui aluno da rede pública.
No 2º semestre do curso de Sociologia estudamos um dos textos de um pensador fundamental para o desenvolvimento desta disciplina, que diz a seguinte frase: “O governo moderno não é senão um comitê para gerir os negócios comuns de toda a classe burguesa”. Recuso-me a acreditar totalmente nisto, pois vejo grandes qualidades no Programa Universidade para Todos – senão não estaria escrevendo esta carta. Muitas pessoas foram beneficiadas, inclusive eu, pois nunca teríamos tido acesso ao ensino superior. Por isso somos agradecidos. Contudo, não podemos nos submeter aos constrangimentos e humilhações que nos estão sendo impostas. Por este motivo, solicito a oportunidade de transferir-me para outra instituição que respeite meu desenvolvimento acadêmico e meu esforço para acompanhar as exigências intelectuais do curso. Gostaria de ter a oportunidade de ser matriculado no 5º e 6º semestres, em curso compatível, em outra Instituição de Ensino.
Também gostaria que esta minha mensagem servisse de informação e alerta para uma situação que pode não ser muito rara. Eu tive a persistência de procurar um caminho e uma solução, mas talvez outros alunos não tenham a mesma iniciativa. Como cientista social que pretendo tornar-me, entendo que o MEC deveria investigar a forma como este projeto está sendo desenvolvido, a fim de prevenir problemas futuros e torná-lo cada vez mais eficiente.

Agradeço a atenção e aguardo resposta.
Atenciosamente,
Fernando Matias de Siqueira.

04 fevereiro 2007

Finalmente, a avaliação


De alguns anos para cá, parece que o Brasil descobriu a importância da avaliação escolar.

DEMOROU!!!

Este meu post é dedicado àqueles que são contra a progressão continuada e, por pura ignorância, a chamam de “empurração automática”.

Quem me conhece sabe que eu nunca defendo uma teoria antes de conhecer a prática. E eu vou falar da progressão continuada como foi praticada na escola dos meus filhos. Ela foi implantada por Paulo Freire/Mário Sérgio Cortella na rede municipal de Sampa, no início da década de 90. Ela é fundamentada na avaliação contínua do aluno e se chama progressão CONTINUADA porque a avaliação também é contínua. E um terceiro fator é a recuperação contínua. Sem a avaliação e a recuperação, a progressão continuada NÃO FUNCIONA. É um tripé:

PROGRESSÃO CONTINUADA =
AVALIAÇÃO CONTINUADA + RECUPERAÇÃO CONTINUADA

Na escola dos meus filhos havia um projeto, muito bem implantado, de interdisciplinaridade. Digo muito bem implantado, porque sempre acompanhei de perto o estudo deles e via como funcionava. Além disso, a gestão era participativa e eu, mãe, participava do Conselho de Escola, com outros pais eleitos pelos seus pares e não escolhidos pela direção da escola, como virou “moda” depois. E a proposta educacional da escola era discutida no Conselho, com os pais dando opinião, sim senhor! É por isso que estou podendo explicar para vocês como funcionava.

Bem, a interdisciplinaridade exigia que os alunos fizessem muita pesquisa – isso nas primeiras séries do Ensino Fundamental! E não era na biblioteca, não. Eles tinham que pesquisar produtos na feira ou em supermercado, ler rótulos e levar embalagens para a escola. Tinham que entrevistar vizinhos ou parentes de diversas profissões. Tinham que procurar e visitar pessoas importantes no bairro, inclusive descobriram que o neto do desembargador que deu nome à escola morava por lá. Tinham que pesquisar quem eram as pessoas que davam nome às ruas vizinhas. Perto da escola tem o monumento “Borba Gato” e eles foram visitar o escultor Júlio Guerra, que ainda era vivo e morava no bairro. Os professores de ciência criaram uma horta e os alunos foram cultivando e aprendendo sobre plantas, bichos e meio ambiente. Foi também organizada a coleta seletiva do lixo, toda a escola participava e as classes de Oitava Série eram responsáveis pela venda de sucatas junto aos catadores do bairro. Isso é apenas o que me lembro de momento.

Bom, e onde entra a avaliação nisso tudo? A avaliação era QUINZENAL, feita através de provas. As crianças adoravam fazer as provas, porque os assuntos eram variados e do seu cotidiano. Então, por exemplo, a prova de português era uma redação sobre o Borba Gato, a de matemática era sobre as compras feitas na feira, a de história era sobre as personagens das ruas do bairro, a de geografia era sobre as regiões de onde vinha a madeira da qual era feito o papel que ia para a reciclagem, e assim por diante.

E as formas de avaliação também eram variadas: uma hora os próprios alunos faziam a auto-avaliação, dando o professor apenas a palavra final, outra hora o professor corrigia as provas, mas o ele NUNCA CORRIGIA A CANETA. Ele só podia usar lápis. Por que? Os coordenadores pedagógicos explicavam que riscar as provas ou os cadernos do aluno com caneta azul ou vermelha era psicologicamente negativo, ressaltava o erro e não o aprendizado. Os cadernos dos alunos eram bem organizados e eles tinham prazer em mostrá-los, depois de corrigirem os erros.

Mas a verdadeira apoteose da avaliação era a “feira” anual da escola, cujo tema era escolhido no início do ano pelo Conselho e que era trabalhada a partir de setembro. A “feira” era aberta ao público durante a última semana de aulas e consistia numa exposição que ocupava nada mais nada menos que a escola inteira. Cada classe trabalhava arduamente no tema de acordo com todos os recursos possíveis: cartazes, mapas, maquetes, fantoches, esculturas, engenhocas, encenação, show etc. Como a proposta da escola era a interdisciplinaridade, os trabalhos eram bastante variados e os convidados passavam horas indo de sala em sala admirando o trabalho dos alunos. O trabalho da feira fechava a avaliação dos alunos, já feita exaustivamente durante as provas quinzenais de todas as matérias. E os alunos davam o melhor de si, nem que fosse para mostrar seu trabalho à família e aos amigos.

Os professores? Muitos eram excelentes, outros nem tanto, mas todos recebiam orientação da coordenação pedagógica e até os mais inexperientes acabavam se saindo bem. Havia, na escola, uma homogeneidade que eu nunca mais vi depois daquela gestão.

Estou falando do que eu vivenciei e não de teoria. Quanto às avaliações governamentais que estão sendo desenvolvidas no País inteiro de alguns anos para cá, já dissemos aqui que são muito bem-vindas: Prova Brasil, Saresp, Saeb, Enem etc são ferramentas muito úteis de avaliação, mas não bastam. As provas governamentais servem para a avaliação DAS ESCOLAS e não dos alunos A avaliação do aluno precisa ser CONTÍNUA e o sistema de ensino ideal é a PROGRESSÃO CONTINUADA, pois permite que o aluno aprenda a matéria dentro do ano letivo, sendo avaliado constantemente e recebendo a recuperação imediata, quando necessário.

Dá trabalho? Sim, dá trabalho! E por que não deveria dar???


O garoto da imagem (Revista Nova Escola), fotografado durante a recuperação, é aluno do "Superciep" de que falamos no post de 30/10/06.
Mais uma prova de que a progressão continuada é possível e é a solução para todo o Brasil.

01 fevereiro 2007

Educação sem Escola?


Lendo no Blog da Glória parte do livro do Lauro Oliveira Lima me deu vontade de compartilhar esse pensador com vocês. É Ivan Illich e ando namorando as idéias dele pois para mim Repensar a Educação é URGENTE!
Para entender o novo paradigma que a escola tem que incorporar e não cair no discurso vazio e superficial de professores que só querem defender sua prática (sacrificada, triste, desvalorizada e mal remunerada...etc... etc... etc....) podemos examinar as idéias de Ivan Illich sobre a Não ESCOLA na Educação.

Em Educação sem Escola?, Ivan Illich faz uma análise crítica das instituições educativas atuais e das suas características e propõe a criação de um sistema alternativo que rebata a figura da escola na de uma aprendizagem não enquadrada institucionalmente.
Segundo Illich, o atual sistema educativo converteu-se num sistema burocrático, hierarquizado e manipulador, tendo como função primordial a reprodução e o controlo das relações económicas. “Por toda a parte, o aluno é levado a acreditar que só um aumento de produção é capaz de conduzir a uma vida melhor. Deste modo se instala o hábito do consumo dos bens e dos serviços, que nega a expressão individual, que aliena, que leva a reconhecer as classes e as hierarquias impostas pelas instituições”(Illich, 1974, pp.9). Os alunos estão sujeitos a currículos extensos e repetitivos, dados de forma demasiado rápida e superficial. Os professores, já habituados a esta rotina, não dão a possibilidade de aprofundar um ou outro tema que mais interesse os alunos, nem são capazes de atender às necessidades específicas de cada aluno. A escola passa assim a ser um local de desigualdades e de conflitos, uma vez que alguns se adaptarão melhor do que outros.
Segundo Illich, o facto de a escolaridade ser obrigatória só agrava a situação. Aqueles que não se conseguem adaptar aos temas curriculares obrigatórios e aos métodos de ensino vigentes, arrastam-se durante anos na escola, nada aprendem de válido, perdem a sua auto-estima. Quando finalmente deixam a escola, os alunos não estão preparados para ingressar no mundo do trabalho. Assim, deparamo-nos com jovens desanimados e desapontados, sem grandes perspectivas de futuro. Caso os alunos decidam abandonar a escola antes de terminarem a escolaridade obrigatória, deparam-se com problemas ainda mais graves, porque se, com a escolaridade mínima ainda têm a possibilidade de arranjar emprego mesmo sem formação específica, sem certificação escolar, ainda que mínima, o emprego torna-se quase impossível, ou então, sujeitam-se a empregos menos bons e mal remunerados.
Illich defende que, apesar de muitas pessoas terem já consciência da ineficácia e da injustiça patentes no sistema educativo moderno, não são ainda capazes de imaginar alternativas nem de conceber uma sociedade descolarizada. Daí que se torne necessário"criar entre o homem e aquilo que o rodeia novas relações que sejam fontes de educação, modificando simultaneamente as nossas reacções, a ideia que fazemos do desenvolvimento, os utensílios necessários para a educação e o estilo da vida quotidiana" (Illich, 1974, pp.6).
Para saber mais Ivan Illich