29 janeiro 2008

Revista na escola é abuso!

Nossa amiga professora Glória traz em seu blog um vídeo em que a pedagoga Simone Carlberg fala sobre o abuso das revistas realizadas pela polícia nas escolas e desnuda de uma vez por todas o autoritarismo da rede pública no Brasil, onde a força armada é sempre benvinda para amedrontar os alunos, geralmente tratados como "trombadinhas" em potencial pelas escolas que costumam chamar a polícia a fim de "completar" sua ação pedagógica. Outras ações "educativas", como por exemplo a exibição do filme Tropa de Elite para turmas de 6ª Série, vêm reforçar essa imagem esquálida e retrógrada da realidade educacional no país.

A entrada da polícia nas escolas é uma invasão autoritária, extremamente perigosa para o sistema democrático que a gente sonha em ter dentro das escolas.
Simone Carlberg

Assista o vídeo aqui http://gloria.reis.blog.uol.com.br/

Assista também os vídeos que mostramos em novembro sobre revistas policiais nas escolas públicas:
http://educaforum.blogspot.com/2007/11/no-que-d-policia-na-escola-absurdo.html
http://educaforum.blogspot.com/2007/11/polcia-revista-crianas-em-escolas-de.html
http://tvparanaense.rpc.com.br/index.phtml?Video_ID=16056&seq=&autostart=1

26 janeiro 2008

Baixar o nível


Hoje vou baixar o nível! Ah, se vou!!! Já que não tem adiantado nada toda a “boa educação” que procuramos manter neste blog e nos documentos que encaminhamos às autoridades, então que se dane!

Realmente, no Brasil a lei não vale absolutamente nada e a democracia é uma piada. Aqui no Estado de São Paulo, o mais poderoso do País, a educação é uma enorme decepção. Não bastando os índices oficiais, que mostram uma qualidade de ensino pior do que em outros estados muito mais pobres, o espírito democrático está rolando ladeira abaixo de forma cada vez mais vertiginosa.

Os Conselhos de Escola têm se tornado tribunais de exceção para a expulsão de alunos, com o aval da Secretaria da Educação, que nunca se manifestou contra essa prática ilegal e absurda. Isso só ocorre porque a eleição dos Conselhos é realizada de forma também ilegal e os pais “escolhidos” não representam seus pares, mas diretores autoritários e retrógrados. Então, dá-lhe expulsão e perseguição de alunos, cobrança ilegal de taxas, obrigatoriedade do uso de uniforme etc. etc.

Há poucas semanas tivemos a confirmação de que o próprio Governador não tem a mínima preocupação com a JUSTIÇA, pois determinou que somente os alunos da rede pública estadual estão proibidos de usar o celular na escola...

A gota d´água que fez transbordar o meu copo de paciência foi a confirmação de que os 12 mil novos coordenadores pedagógicos a serem admitidos na rede estadual serão escolhidos pelas Diretorias de Ensino, contrariando a Resolução SE nº 66 de 03/10/2006. Essa Resolução determina que, após a seleção, a escolha final dos coordenadores pedagógicos deve ser feita pelos Conselhos de Escola.

Se os Conselhos de Escola, no Estado de São Paulo, são manipulados a bel prazer, isso não significa que devam ser simplesmente ignorados! Eles devem, sim, ser democratizados e fortalecidos. A determinação de escolher os novos coordenadores pedagógicos de forma AUTORITÁRIA tira qualquer esperança sobre a possível democratização da rede pública estadual. Mais uma vez os pais de alunos serão relegados a meros observadores!

E agora quero contar algumas “historinhas” sobre coordenadores pedagógicos: uma das minhas filhas, na 2ª Série, teve seu caderno rasgado por uma CP completamente LOUCA (dá para chamar de outro jeito?). Numa outra escola, enquanto eu aguardava para conversar com a diretora, vi uma CP pegar a mochila de um aluno e atirá-la com violência ao chão. Comentei o assunto com a diretora e ela respondeu que esse não era o comportamento habitual dessa profissional, que deveria estar “estressada”. Mas o exemplo mais clássico de um péssimo coordenador pedagógico é certamente aquele da EE Octacílio de Carvalho Lopes, onde um professor permitiu que um aluno fosse espancado por colegas e ainda por cima o chamou de “bicha” na frente de toda a classe. Mesmo após esse fato, o tal “professor” foi promovido a “educador” na EE Adelaide Ferraz de Oliveira, onde exerce a função de coordenador pedagógico até hoje. Aliás, a Diretoria de Ensino Leste-4, no Relatório de Averiguação Preliminar 721/04, afirma ser normal um professor chamar os alunos de "bicha", tratando-se de expressão carinhosa para “cativar” seus pupilos...

Ao revogar a resolução que determina a escolha dos coordenadores pedagógicos pelo Conselho de Escola, a Secretaria Estadual da Educação confirma sua veia cada vez mais autoritária e é por isso que merece toda a minha indignação.
Senhora Secretária: @#%&*%@&#*@%

24 janeiro 2008

O papel dos pais na Escola


Pelos comentários que recebemos na postagem anterior me parece que está havendo um pequeno engano quanto ao papel dos pais na escola.

Quando se fala que os pais devem participar do processo pedagógico da escola isso não significa absolutamente que o pai vai dizer ao professor como ele deve dar sua aula! Isso seria um absurdo qualquer que fosse o nível cultural dos pais que interferissem a esse ponto.

Na verdade, o professor que fez o comentário erra totalmente ao achar que faz alguma diferença o nível cultural dos pais pois o que eles devem fazer na escola de seus filhos não implica em ter conhecimento formal da "matéria dada".

Seria como pensar que o Conselheiro de Saúde pode interferir no diagnóstico de um médico ou dizer o que ele deve prescrever para um paciente. Claro que ele NÃO PODE fazer isso! Mas pode sim saber se o paciente foi bem atendido, se o médico lhe deu um tratamento a seguir que surtiu resultado, se foi encaminhado para um especialista, se a receita é legível, se o médico chegou atrasado ou faltou, se ele ficou horas esperando, se existe ambulâncias para servi-lo, se o posto de Saúde tem higiene, etc... etc... etc...

Então qual é o papel dos pais no processo pedagógico de seus filhos e porque eles devem ter conhecimento da proposta da escola?

1 - Para fiscalizar se o que é proposto está sendo cumprido

2 - Para compreender como seu filho deve agir enquanto aluno e estar ciente dos direitos e dos deveres que foram pactuados com a escola (regras devem ser sempre pactuadas e não impostas!)

3 - A participação dos pais deve se dar para poder entender os eventuais fracassos que sejam atribuidos a seus filhos de modo que possam cobrar dos responsáveis que os recuperem

4 - Os pais devem estar atentos ao uso do espaço escolar, a como ele vem sendo tratado, se os materiais e equipamentos estão sendo usados e preservados pelo corpo docente (e não obviamente por ele, pai!)

5 - Os pais devem zelar para que alunos não sofram injustiças por perseguições de professores a determinados alunos (fato muuuuuuuuuuuito comum) - e que o clima da escola seja de um ambiente educacional voltado para a aprendizagem, em TODAS as ações do corpo docente com relação aos alunos.

6 - Os pais devem estar atentos ao número de aulas vagas e o que é feito quando isso acontece

7 - Os pais tem o direito de saber como será a avaliação dos alunos para poder acompanha-la.

8 - Enfim os pais devem exigir qualidade na Educação formal de seus filhos, mesmo que eles sejam analfabetos ou tenham poucos conhecimentos formais através da compreensão do projeto da escola poderão perfeitamente saber se este está sendo cumprido ou não, se ele é um bom projeto ou não. Todo mundo sabe distinguir um bom de um mau professor, um bom ou mau diretor, um bom ou mau bedel independente de sua escolaridade!!!!!!! (os alunos também sabem, basta ouvi-los)

Pai não foi feito pra pintar escola!!!!!!!!!!

(ele pode pintar se quiser e não tiver nada de mais útil pra fazer.... Talvez assim aproveite e dê uma fiscalizada geral no que está ocorrendo na escola... - quem sabe se não é uma boa estratégia pra ficar de olho nas aulas vagas? Mas se transformar no faz-de-tudo da escola Nãoooooooooooo!!!!!!!!!!!!! E nem vale discriminar os pais que não podem nem querem fazer isso!!!!!!!!)

Pai não foi feito pra levar bronca do professor quanto ao comportamento de seu filho!

(com aquela insuportável palavrinha "limite" sempre metida no meio desses papos) Ele pode ser chamado para discutir uma estratégia conjunta em favor do aluno, não contra este!

Pai não pode interferir na aula do professor desde que está esteja de acordo com a proposta pedagógica da escola e esteja voltada para o mundo do Saber. (E pode coibir abusos gritantes sim!!!!!!! - tipo passar Tropa de Elite para crianças...)

E pai não pode ser chamado pra ouvir que seu filho não presta atenção na aula!!!!!!! (ele simplesmente não tem como interferir nisso e isso é atribuição do professor tanto quanto a matéra que vai lecionar e como irá fazê-lo!)

Pai não pode ser chamado para fazer o papel de inquisidor no Conselho de Escola, seu papel no Conselho é o de zelar pelo bom funcionamento da escola e garantir justiça e tratamento igualitário e pedagógico para todos os alunos.

É isso por hora...

Certamente esqueci alguma coisa mas vou postar assim mesmo pois senão acaba que não posto nada... rs

22 janeiro 2008

Governadôôôôôr?
















O governador José Serra está "convidando" os pais a pintar as escolas, varrer, cortar grama etc.

O que isso significa, Governador? Que mais uma vez os pais devem se recolher à sua "insignificância"?...

Nós é que "convidamos" a esclarecer como vai ser conduzido o processo de eleição dos Conselhos de Escola este ano. Mais uma vez papeizinhos informando os pais três dias antes da data estipulada? Ah! Nem precisa convidar, pois os pais já estarão mesmo na escola, limpando os banheiros ou colocando cortininhas, até na sala da diretoria. Não é?...

Aguardamos a publicação do processo de eleição dos Conselhos de Escola no site da SEE!!!
Ou o assunto é insignificante, comparado com o "mutirão"?

A posição dos pais


Ainda a respeito do artigo Educação sem povo, mencionado no último post, resolvi inserir outro comentário no site da Veja, pois os depoimentos dos professores passam por cima de um ponto essencial do texto, que é a posição dos pais.

Mais uma vez vou ser “arrogante” e afirmar que muitos professores não leram direito ou não entenderam o texto do artigo. Nós pais não queremos ditar ou indicar qualquer método de ensino. O que nos angustia é ver que a alfabetização das crianças não ocorre na idade certa e que muitas falhas permanecem durante toda a vida, como a dificuldade para verbalizar assuntos, entender textos ou fazer pesquisas. O final do artigo é revelador: Tenho certeza de que, se esses pais fossem ouvidos, gostariam que seus filhos tivessem acesso a todos os métodos possíveis, ministrados por professores comprometidos ou, no mínimo, neutros. Infelizmente, esses pais e professores não são ouvidos, e enquanto a nossa educação não for verdadeiramente democrática - do povo e para o povo - vai continuar falhando. A educação de um país é tarefa importante demais para ficar a cargo apenas de educadores.
No início do terceiro milênio o Brasil ainda está discutindo “qual método” deve ser utilizado para alfabetizar as crianças. Nós pais só entramos na discussão quando percebemos insegurança e incompetência! Aliás, mesmo na nossa ignorância, ousamos afirmar que muitos métodos podem funcionar, desde que aplicados com competência, boa vontade e humildade. Sim, humildade, pois se um professor percebe que não está sendo bem sucedido, precisa pedir ajuda ou pesquisar, não simplesmente responsabilizar o método ou o aluno pelo fracasso. Se a educação brasileira fosse democrática, não haveria toda essa gritaria de professores revoltados porque finalmente alguém “descobriu” que ela não pode “ficar a cargo apenas de educadores”. Trata-se de um enorme tabu que finalmente começou a ser revelado: apesar de a Constituição garantir a participação dos pais na gestão das escolas, a corporação não admite e luta com unhas e dentes para manter o autoritarismo. Os pais que se atrevem a questionar ou a denunciar as práticas autoritárias são “premiados” com a perseguição de seus filhos na escola...

20 janeiro 2008

A receita da exclusão

O novo artigo de Gustavo Ioschpe no site da Veja, Educação sem povo, http://veja.abril.com.br/gustavo_ioschpe/index_170108.shtml mostra a necessidade de discutir a educação envolvendo toda a sociedade, inclusive os pais de alunos. Inseri o seguinte comentário:

A Constituição permite que os pais de alunos participem do Conselho de Escola. É nessa instância que eles deveriam ser ouvidos, mas o sistema cria mecanismos de exclusão na quase totalidade das escolas públicas do país.
A receita é simples: a convocação para a eleição dos membros do Conselho de Escola costuma ser enviada aos pais dois ou três dias antes da data estipulada, em "papelzinho" de 5 cm de largura, entregue ao aluno na esperança de que ele o perca, o que acontece em muitos casos. Em outros, os pais vão até à escola, questionam o motivo de receberem a convocação tão em cima da hora e ouvem que não é necessário que eles participem, pois a direção da escola dá conta de tudo. Para completar o quadro, muitas escolas marcam a eleição dos pais no horário comercial, de forma que eles não possam participar mesmo!!! Contam-se nos dedos das mãos as escolas de todo o Brasil que fazem campanha para eleição dos Conselhos de Escola e convidam a comunidade a participar. Na esmagadora maioria, a direção cria uma "panela" de pais escolhidos a dedo para dizer amém a tudo o que ela determina e ainda por cima vem com o discurso hipócrita de que "a comunidade não é participativa".
Esta receita é apoiada por praticamente todas as Secretarias da Educação do país, pois contam-se nos dedos os sites oficiais que mencionam a importância da participação dos pais nos Conselhos de Escola e nunca se viu alguma Secretaria gastar um centavo de sua verba de publicidade para fazer campanha pela eleição dos Conselhos de Escola!

18 janeiro 2008

Boa dica!

A nossa amiga psicóloga Mirian Giannella enviou o link do site SOS Papai e Mamãe, um espaço muito interessante para orientação de pais separados, no sentido de diminuir os conflitos que tornam os filhos ansiosos e infelizes. http://www.sos-papai.org/br_index.html
O site é bem consistente, oferece artigos e muita informação, inclusive jurídica.

17 janeiro 2008

Apenas 48% dos jovens brasileiros estudam

Reforçando o fato de que apenas 30% dos jovens matriculados no Ensino Médio conseguem terminar o curso, segue matéria do site www.aprendiz.com.br informando que apenas 48% dos jovens brasileiros estudam e 20% não estudam nem trabalham. Quem ainda acha que a educação brasileira “vai bem” não precisa ler esta matéria. Mais uma vez repito aqui que nosso objetivo não é demonizar o profissional do ensino (não sei porque muitos vestem a carapuça, rsrs), mas conscientizar sobre a gravidade de um assunto que há décadas é empurrado com a barriga pelo governo e pela sociedade.

Quase sete milhões de jovens não têm emprego e estão fora da escola

Contrariando imagens estereotipadas referentes à juventude brasileira, mais de 80% dos jovens desenvolvem alguma atividade considerada legítima e apropriada para a idade: estudam, trabalham ou fazem as duas coisas ao mesmo tempo. Entretanto, quase 20% dos jovens não estudam nem trabalham, o que representa um contingente de quase sete milhões de pessoas entre 15 e 24 anos em situação de elevada vulnerabilidade, de acordo com o Índice de Desenvolvimento Juvenil (IDJ) 2007, estudo que focaliza a situação social e econômica dos jovens do Brasil, divulgado nesta quarta-feira (19), em Brasília.

Aproximadamente 30% dos jovens só estuda, 18% estuda e trabalha, 32% só trabalha, e 20% nem estuda nem trabalha. Os jovens que conciliam trabalho e estudo têm o maior nível de renda e a maior média de tempo de estudo, e isso acontece também com os jovens que somente estudam. A proporção de jovens que concilia trabalho e estudo aumenta com o nível de renda, principalmente para as mulheres.

A construção do IDJ baseou-se em critérios semelhantes aos utilizados pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), feito pela Organização das Nações Unidas (ONU), mas adaptando-os de modo a contemplar questões específicas dos jovens na faixa etária de 15 a 24 anos.
O estudo sobre o desenvolvimento juvenil no Brasil foi elaborado pelo sociólogo Júlio Jacobo Waiselfisz, com apoio da Rede de Informação Tecnológica Latino Americana (RITLA), do Instituto Sangari e do Ministério da Ciência e Tecnologia. Trata-se do terceiro relatório sobre o assunto. Os anteriores foram divulgados em 2003 e em 2005.

No campo econômico, foi possível verificar que renda familiar per capita da juventude brasileira caiu entre 2001 e 2003 de 1,46 para 1,31 salário mínimo per capita, o que representa um decréscimo de 10,2%. Já no período seguinte, de 2003 a 2006, a queda foi bem menor: de 1,31 salário mínimo para 1,23, com queda de 6¨%. Com isso a queda da renda acumulada no período analisado foi bem significativa: 15,7%.
Segundo o estudo: a renda média dos homens foi de R$ 442,10, e a feminina foi de R$ 370,10, isto é, os homens recebem 19,5% mais que as mulheres. A distorção não se resume a isso, pois as mulheres com ingressos próprios têm 9,4 anos de estudo e os homens só 8,5. Mas, apesar da maior escolaridade, o ingresso dos homens resulta 18% superior ao das jovens.

O estudo destaca a universalização da TV nos domicílios e a rápida expansão do celular nos lares dos jovens: em 2006 quase 70% contava com um aparelho no domicílio, quando essa proporção, em 2003, foi de só 12,3%. O crescimento nos últimos três anos foi de 462%.
Em relação a presença de computador ou internet nos domicílios, apenas 24,3% dos jovens contavam com o primeiro, e 18,6% com o segundo. O acesso à Internet, de acordo com o estudo, é um fenômeno essencialmente jovem. O pico de utilização é encontrado nos 17 anos de idade, pois 35% dos jovens usaram internet nos meses anteriores à pesquisa. O faixa jovem – 15 a 24 anos – teve um índice de 32,3%. De 25 a 64 anos de idade o índice cai para 18,6%.

Do site Aprendiz - Coluna Imprescindível

15 janeiro 2008

A Escola Pesadelo


Escola é lugar de sonhos!

Sonhos do futuro, sonhos de realizações, sonhos de relacionamentos, sonho de formação, sonho de descobertas, sonho de crescer!...

Infelizmente, para algumas crianças ela se torna um pesadelo e o pior é que este pesadelo se estende e vira um pesadelo coletivo de toda uma família!

Quem viveu isso sabe do que estou falando!...

O problema escolar permeia toda a relação pais-filhos, filhos-familiares-pais, pais-sociedade, filhos-sociedade, pais-escola.... e por aí vai... Um pesadelo sem fim!

Sei que isso pode parecer radical demais mas o conselho que dou pra quem caiu nessa teia é: esqueçam a escola!!!!!!!!!

É uma luta insana onde todos vão sofrer muito, o tempo vai passar e nada vai se resolver pois as pessoas que se dizem "profissionais de ensino" - e a própria sociedade em geral - não estão preparadas pra lidar com isso!

E o que é esquecer a escola?

Esquecer a escola é coloca-la com sua devida importância dentro da vida da criança e das relações familiares e sociais. Não se pode deixar que o pensamento e as ações de pessoas despreparadas transformem a vida num pesadelo! Então para algumas crianças (com dislexia ou outros problemas de aprendizagem) a dica é: não deixem que esse problema se aproprie de suas vidas! Escola é só um lugar onde se aprende o saber formal de maneira pasteurizada, focada nas capacidades médias de comportamento e habilidades. Inclusão seria saber lidar com o que escapa disso (desde o grau mais leve até os mais profundos) e como se pode perceber não estando a escola preparada pra lidar com isso acaba por transformar diferença em fracasso quando isso não é necessariamente verdade (mas pode se tornar se insistirmos na idéia!)

Por outro lado esquecer a escola não significa não lutar pela mudança, somente não envolver a criança nessa luta! (o que é muito complicado, quem já passou por isso sabe!)

Desejamos a esse pai que decidiu processar a escola boa sorte, força e cabeça fria! O bicho vai pegar! (e pega por todos os lados, além da escola dos mais diversos lugares partirão olhares de preconceito, indiferença ou desconfiança...)

O pesadelo vai ser turbulento mas nós estaremos aqui pra dar a força e o apoio que precisar!

Escola é lugar de sonhos! Ninguém tem o direito de transformar a vida de crianças em pesadelos!

14 janeiro 2008

O pai vai processar a escola!


O pai da aluna disléxica de que trata o post http://educaforum.blogspot.com/2008/01/viva-inteligncia-dos-pais.html resolveu mesmo processar a escola. Leia a matéria publicada no caderno AQUI do jornal O Estado de Minas:

Cadê a inclusão?
Pai busca na justiça correção do que considera um conceito viciado

A palavra da moda na educação brasileira é inclusão. E faz sentido; afinal, se estamos tentando colocar o país nos trilhos, se queremos incutir o sentimento de solidariedade e garantir a cidadania, a escola é a base de todo o trabalho. Por isso e, principalmente, porque é pai, Antônio Albino de Abreu Mendes vai à Justiça contra uma escola particular da cidade que reprovou sua filha, desconsiderando suas necessidades básicas. O administrador Antônio Albino tem mais dois filhos no Colégio Magnum e reconhece que a instituição é séria, mas não se conforma com o fato de sua filha de 9 anos ter sido reprovada por demonstrar dificuldades no aprendizado. Foi orientado pela escola a encaminhar a garota a uma fonoaudióloga que não constatou problema algum. Levou então a filha a outros profissionais, como psicólogo, pediatra e neurologista e encontrou uma explicação: a filha possui dislexia, síndrome de origem neurológica e que pode ser genética (desenvolvida) ou adquirida por acidente vascular cerebral. O disléxico é potencialmente mau leitor (leitura lenta e sofrível). A supervisora pedagógica do colégio, Márcia Maria Campos, disse que o Magnum reconhece as dificuldades para a família conviver com a reprovação, mediante o comprometimento com a aprendizagem, mas que o colégio tem seus procedimentos padrões que precisam ser seguidos. O pai vai bater às portas da Justiça, munido com a lei que criou o Plano Nacional de Educação e uma convicção: “A reprovação, em lugar de corrigir os erros, repete tudo novamente: a mesma escola, o mesmo aluno, o mesmo professor, os mesmos métodos, o mesmo conteúdo... É por isso que a realidade da escola não é de repetentes, mas de multirrepetentes”.

Lei imbecil, governador idem


Eu não tenho mais "saúde" para discutir a imbecilidade de certas leis e dos "nossos" governantes. Faço minhas as palavras da Cremilda, uma das poucas vozes lúcidas neste país de marias-vão-com-as-outras, sobre a decisão de proibir o uso do celular apenas na rede estadual de São Paulo. Não me espanta nem um pouco essa atitude discriminatória do governador. Afinal, a rede estadual de São Paulo é aquela que apóia e promove abertamente a expulsão de alunos via Conselho de Escola!

Refresque sua memória sobre o assunto, lendo os posts anteriores http://educaforum.blogspot.com/2007/10/barraco-na-tv.html


Mais uma covardia contra alunos da escola pública
Cremilda Estella Teixeira

O jornal Folha de São Paulo está divulgando que somente os alunos da escola púlica estadual é que serão proibidos de usar telefone celular. (Serra proíbe celular apenas em salas de aula estaduais, Folha Online, 11/01/2008). Será que o governador José Serra acha que esta lei abusiva só se aplica contra os alunos da escola pública? Será que o governador José Serra só tem medo de ser processado pelos alunos das escolas particulares? Lei imbecil só pode gerar decreto mais imbecil. O governador José Serra errou ao não vetar o projeto que era e é de uma completa imbecilidade. O prefeito da cidade do Rio de Janeiro não compactuou com a imbecilidade dos parlamentares cariocas. Cesar Maia vetou um projeto semelhante, "por causa dos vícios de inconstitucionalidade e ilegalidade que o prejudicam". (leia aqui)

10 janeiro 2008

Viva a inteligência dos pais!


Recebemos hoje a carta de mais um pai de aluna disléxica, em Belo Horizonte, descrevendo de forma inteligente a situação difícil e o esforço que envolveu toda a família, na tentativa de ajudar a criança a passar da 3ª à 4ª Série, numa escola particular. Fica bem nítido o elitismo dessa escola, que tende a expulsar os alunos que não lhe servem para manter-se nos primeiros lugares do ranking no mercado. Realmente, no Brasil a educação ou é comércio (na rede particular) ou corrupção (na rede pública). Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come...

O pai da aluna nos pediu uma orientação: bem, Antonio, essa escola merece ser processada por Oferta irregular de ensino - Art VII - Parágrafo 2º do Estatuto da Criança e do Adolescente, pois ela não ofereceu à aluna as "estratégias de recuperação paralela" a que tinha direito conforme o Art 12º - IV da LDB, mencionado em sua própria mensagem, nem se sensibilizou com a excelente recuperação oferecida pela própria família, que fez a criança melhorar a ponto de quase fechar a média. A escola também passou por cima de todos os laudos que comprovam a dislexia da aluna, diagnosticada aliás na própria escola. Fica assim caracterizada a reprovação como medida punitiva e não recurso pedagógico!

Se um número maior de pais de alunos processar as escolas que praticam o capitalismo selvagem, algo vai ter que mudar para melhor na educação deste país!

Senhores pais, leiam com muita atenção a carta recebida, pois seus argumentos podem ajudar todos aqueles que tenham problemas com filhos disléxicos ou que sejam discriminados dentro da escola, seja pública ou particular.

Quanto à dislexia, nossos arquivos antigos estão repletos de posts a respeito do assunto, mas a atitude mais prática e rápida é entrar em contato imediato com a ABD - Associação Brasileira de Dislexia http://www.dislexia.org.br/


Tenho 3 filhos e todos estudam(ram) no Colégio Magnum - Unidade Cidade Nova (Belo Horizonte – Minas Gerais ), escola renomada e de alto custo. A minha filha (18), após o término do ensino médio, ingressou em medicina na UNIRIO e o meu filho (17) nunca teve nenhum problema com notas, inclusive tem seu boletim com médias muito acima do necessário. Digo isto para demonstrar a educação e desprendimento igualitário para com todos eles.

Minha filha caçula, com 9 anos, passou a apresentar problemas com troca de letrinhas, (g com j - ss com ç - l com u e outras) desde a primeira série do ensino fundamental. Tínhamos conhecimento do fato, mas acreditávamos que tal situação era algum déficit de ensino ou, em instância maior, de aprendizado.

Fomos informados que ela necessitava de ajuda com uma professora particular no primeiro semestre de 2007 (já no terceiro ano do ensino fundamental), a qual providenciamos de imediato. Como não tivemos, com os outros filhos, nenhum problema com estudos, acreditávamos que ela também iria superar as dificuldades impostas, sejam elas por excesso de atividades escolares ou por outro qualquer motivo;

Em agosto ou setembro participamos de uma reunião com a orientadora pedagógica da escola, onde fomos informados da possível dislexia e fomos direcionados a uma fonoaudióloga, indicada pela própria escola, para fazer um laudo, laudo esse que fizemos e que sinalizou uma possível ou provável dislexia com percepção de déficit de atenção. Particularmente, quando da apresentação do resultado, saí completamente desesperado porque a postura da profissional em questão (indicada pela escola) não me agradou;

Daí para frente passamos a pesquisar o problema de forma brutal, inclusive levando nossa filha a outros profissionais, neuropediatra e outros para um diagnostico preciso (Depois deste calvário passo a acreditar que tal diagnóstico é extremamente difícil de ser dado).

No último bimestre ela apresentava problemas com algumas matérias escolares. A mãe passou a estudar junto, aproximadamente, 4 a 5 horas por dia. Ela conseguiu notas espetaculares nas últimas avaliações (comprovadas via boletim da escola), mas não obteve pontos suficientes em português, obrigando-a a fazer uma prova final. Fizemos então um esforço concentrado em português, até porque ela conseguiu atingir as notas necessárias para aprovação nas outras matérias.

Quando recebemos a notícia da reprovação entramos em contato com a escola e procuramos explicações que nos levassem a crer que realmente, uma repetência fosse um recurso pedagógico largamente utilizado em casos como esse e não uma medida puramente punitiva.

Analisando a legislação pertinente, observei que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - (Lei No.9394/96), em seus artigos 12 e 13, é clara:

Art. 12º. Os estabelecimentos de ensino, respeitadas as normas comuns e as do seu sistema de ensino, terão a incumbência de:
[...]
V -prover meios para a recuperação dos alunos de menor rendimento;
[...]
VII -informar os pais e responsáveis sobre a freqüência e o rendimento dos alunos, bem como sobre a execução de sua proposta pedagógica.

Art. 13º. Os docentes incumbir-se-ão de:
[...]
III -zelar pela aprendizagem dos alunos;
IV -estabelecer estratégias de recuperação para os alunos de menor rendimento;
VI -colaborar com as atividades de articulação da escola com as famílias e a comunidade.

Ao dizer que é responsabilidade da escola e do professor zelar pela aprendizagem dos alunos, assim como estabelecer estratégias de recuperação para alunos de menor rendimento, acrescenta a necessidade disso ser feito ao longo do ano, paralelamente e com qualidade sendo mais importante do que quantidade, ou seja, pontos obtidos ao final do ano:

Art. 24º. A educação básica, nos níveis fundamental e médio, será organizada de acordo com as seguintes regras comuns:
[...]
V -a verificação do rendimento escolar observará os seguintes critérios:
a) avaliação contínua e cumulativa do desempenho do aluno, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos e dos resultados ao longo do período sobre os de eventuais provas finais;

e) obrigatoriedade de estudos de recuperação, de preferência paralelos ao período letivo, para os casos de baixo rendimento escolar, a serem disciplinados pelas instituições de ensino em seus regimentos;

As escolas privadas, com preços absurdos, não se interessam em alunos que não coloquem o nome das entidades no mais alto patamar (vide a quantidade de faixas que são expostas nas escolas, no mês de janeiro, após a aprovação dos seus alunos nas diversas faculdades do país).

Traduzindo, estou fazendo o possível para auxiliar a minha filha ESPECIALMENTE em relação à sua auto-estima, que pode causar um estrago maior do que o da dificuldade propriamente dita.

Finalizando, não se trata portanto de querer 'passar' ela de ano, mas de oferecer-lhe a chance de progredir e superar as suas dificuldades, não necessariamente pessoais, mas resultantes de infinitas variáveis.

Antonio Albino de Abreu Mendes

09 janeiro 2008

Maus professores

Finalmente a sociedade acordou para o fato de que existem maus professores, da mesma forma como existem maus médicos, maus engenheiros, maus funcionários públicos etc. etc. O mito do professor “santo” e “mártir” está acabando e o nosso amigo Mauro, do Movimento Comunidade de Olho na Escola Pública, foi um dos primeiros a levantar essa “lebre”, há muitos anos. Leia a carta que o Mauro enviou à Folha de São Paulo e que serviu para alimentar ainda mais a polêmica:

Educação - 06/01/2007(Painel do leitor)
"Todo mundo fala que devemos investir na formação do professor, na capacitação continuada, nas boas condições de trabalho, na boa remuneração, mas não vemos ninguém apresentar soluções para acabar com os ‘maus professores’! A valorização dos bons professores só terá efeito prático se punirmos ou demitirmos os maus professores."
MAURO ALVES DA SILVA (São Paulo, SP)

A carta do Mauro recebeu a seguinte resposta do professor sindicalista Renato Ferreira de Brito:

Educação - 07/01/2008(Painel do leitor)
”Sugiro ao senhor Mauro Alves da Silva (6/1), que cobrou punição aos ‘maus professores’, que procure estudar - isso mesmo, estudar - o conjunto de políticas educacionais implantadas pelas administrações Mário Covas, Geraldo Alckmin, Cláudio Lembo e, agora, José Serra, para verificar como foi se constituindo o atual quadro de crise: o fim do "Centro de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério", que formava excelentes professores; o empréstimo de servidores da educação para outros setores, aliado a uma política de não-contratação de novos, prejudicando seriamente o atendimento oferecido aos alunos; e a contratação de professores sem concurso público, dando margem às piores práticas de clientelismo, fora a criação do sistema de "promoção automática", pelo qual o aluno deve ser aprovado mesmo que não tenha condições para sê-lo."
RENATO FERREIRA DE BRITO (Lins, SP)

Leia agora a réplica do Mauro:

Resposta ao leitor-professor-sindicalista da Folha de São Paulo:
"Sugiro ao professor Renato Ribeiro de Brito que deixe de enrolação e responda à pergunta: o que fazer com os maus professores? O professor-sindicalista da Apeoesp (sindicato de professores de SP) acusa os quatro últimos governadores pela atual crise na educação. Esta posição política é respeitável, mas não serve para "desculpar" nenhum "mau-professor" que esteja atuando na escola pública. O fim do Cefam (Centro de Formação e Aperfeiçoamento do Magistério) não explica os 'maus-professores'. Estes já existiam na época do Cefam. A nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei Federal 9394/1996) exige formação em curso superior. O Cefam oferecia formação em nível médio.O desvio de servidores para outros setores é uma questão grave. Temos o caso de 'sindicalista' que compareceu apenas 7 dias na escola durante o ano de 2007. Esse professor-sindicalista é um bom ou um mau professor? O professor-sindicalista deveria denunciar as piores práticas de clientelismo na contratação de professores sem concurso. Enquanto não der "nome aos bois", todos os professores ficam sob suspeita de serem maus professores. A Progressão Continuada foi transformada em ‘promoção automática’ por maus professores que não têm compromisso com o ensino/aprendizagem dos alunos. O professor-sindicalista deveria assistir ao documentário ‘Pro Dia Nascer Feliz’. Nele, uma professora declara que prefere aprovar um aluno ao invés de preencher relatórios para justificar os motivos que levaram à reprovação do aluno... A professora deve provar que houve recuperação paralela e continuada ao longo do ano letivo... Para não confessar a oferta irregular do ensino, o mau professor e a má direção escolar preferem promover o aluno automaticamente!

Finalizando, uma última pergunta de R$ 235 milhões/ano: o professor-sindicalista é contra a punição dos maus professores? (este valor é o custo da substituição dos professores que diariamente faltam às aulas na rede estadual de São Paulo)

04 janeiro 2008

Professor não é coitado!


Ainda sobre o artigo de Gustavo Ioschpe publicado na Veja em 07/12/07 e comentado no post http://educaforum.blogspot.com/2007/12/o-coitadismo-do-professor.html, leia as mensagens dos professores Sandra Lúcia Delfim e Anderson Paulino de Souza, publicadas hoje no site da Veja. Professores como esses e muitos outros que temos a honra de receber neste blog dignificam a profissão e mostram uma luz no final do túnel.
A leitora Renata mostra também um viés interessante dessa questão polêmica que finalmente está vindo a público: "O fator mais preocupante que não foi mencionado pelo autor do texto é o seguinte: os profissionais que opinaram são os que ainda buscam um mínimo de leitura e se posicionam.Há ainda os que sequer têm acesso ás informações ou não lhes interessa participar de qualquer debate esclarecedor, por não ter paixão pelas idéias. Sim. Esses "professores " existem. São aqueles que vêem na profissão apenas uma forma de sustento material."

Comentário da professora Sandra Lúcia Delfim:
Caro Gustavo,
Tenho lido e acompanhado seus artigos sobre o assunto. Confesso havia tempo esperava que alguém trouxesse o assunto à baila. Seu artigo foi de uma perfeição sem precedentes. Não havia lido nada tão contundente e verdadeiro. Por ser professora há tantos anos, tenho tentado convencer os meus colegas de que o problema está na formação, postura e condução das atividades que "juramos" seguir. Enquanto não houver uma revolução na preparação dos Professores, não vai adiantar nada avaliar e constatar que estamos sempre nos últimos lugares. O problema sempre foi e vai continuar a ser o Professor que faz de conta que trabalha, que é um pobre coitado mas que, no fundo, não tem nenhum compromisso com a sala de aula e, consequentemente, com os alunos. É óbvio que fatores como salário, segurança e estrutura interferem, mas nada é mais danoso para a Educação do que a má vontade e a falta de interesse pela escola de um profissional sem compromisso com sua responsabilidade. Parabéns!

Comentário do professor Anderson Paulino de Souza:
Considero o texto muito feliz e bastante adequado. No geral, nós professores continuamos insistindo na contradição de criticar os outros e odiar ser criticado por quem quer que seja. Sem falar que nossas críticas estão geralmente baseadas em puro sentimento e raramente fundamentadas e razoavelmente bem argumentadas. Muito obrigado Prof. Ioschpe, espero que continue a "implicar" conosco, a instigar reflexões... a vida numa democracia implica conviver com as idéias diferentes.

03 janeiro 2008

A escola esquizofrênica

A Editora Humana convidou novamente o EducaFórum a colaborar para o seu anuário. Desta vez, o interesse da editora se voltou para a Cartilha sobre os Direitos dos Alunos. A Cartilha é uma “criação coletiva” realizada em 2002 e contou com a colaboração de todos os amigos relacionados abaixo. Para comentar a Cartilha escrevi o artigo A escola esquizofrênica, que acabou de ser publicado no livro Educação 2008.

Atenção, novo! A pedido de alguns internautas que tiveram dificuldade em localizar os fatos relatados no artigo, introduzi os links correspondentes.

A idéia de escrever a Cartilha sobre os Direitos dos Alunos partiu de frases e expressões negativas ouvidas por pais e alunos da boca de professores ou profissionais do ensino. Algumas, os próprios membros do EducaFórum “colecionaram” durante suas antigas reuniões mensais na Câmara Municipal de São Paulo. Outras foram retiradas de e-mails recebidos do Brasil inteiro. Hoje, o EducaFórum é um espaço virtual que recebe mensagens de todos os Estados do País através de seu blog http://educaforum.blogspot.com/

Ao ser criada, a Cartilha visava atingir dois objetivos: sensibilizar a classe docente e trocar em miúdos o Estatuto da Criança e do Adolescente, ainda hoje o “grande desconhecido” dentro das escolas – em toda instituição existe pelo menos um exemplar do ECA para consulta, mas a maioria dos profissionais da educação nunca o leu na íntegra.

Infelizmente, nada temos a comemorar! Nossa Cartilha não perdeu a atualidade: ainda hoje chovem denúncias que mostram a insensibilidade e a ignorância de muitos profissionais da educação e do próprio poder público com respeito ao aluno.

E o problema não se resume apenas a situações discriminatórias ou constrangedoras. Trata-se, inclusive, de práticas extremamente graves que costumam culminar na evasão ou na expulsão de alunos, através da instauração de tribunais de exceção dentro dos próprios Conselhos de Escola.

No Estado de São Paulo, que possui a maior rede pública do País, a situação é grave e a Secretaria Estadual da Educação nunca condenou oficialmente a prática da expulsão de alunos, camuflada pela expressão “transferência compulsória para outra unidade escolar”. Neste aspecto a Cartilha fracassou redondamente, pois, imediatamente após sua criação, foi encaminhada à Ouvidoria e à Secretaria da Educação, que até hoje não admitem a ilegalidade da expulsão/transferência compulsória de alunos via Conselho de Escola.

Eis a pergunta que não quer calar: o que as autoridades da educação pretendem ao transferirem compulsoriamente um aluno para outra escola? Elas acreditam mesmo que ele vai “se regenerar”? Não percebem que ele vai ser ainda mais discriminado e estigmatizado em outra instituição? Que vai ficar ressentido e ainda mais rebelde? Finalmente, as autoridades não percebem que estão apenas transferindo um problema para outros profissionais a algumas quadras de distância, dentro do mesmo bairro? E quem garante que esses outros profissionais vão saber lidar melhor com o aluno expulso?

Para ilustrar a utilidade da Cartilha, escolhemos algumas denúncias recentes relatadas no blog do EducaFórum, ocorridas em cidades e redes de ensino diferentes, inclusive a particular. Todas elas mostram a violação de direitos básicos de alunos dentro da escola.

A falta de respeito se estende também aos pais, quando “teimam” em ser recebidos por diretores de escola ou coordenadores ausentes e relapsos. Ainda hoje é comum que as mães sejam questionadas se não têm coisa melhor para fazer, como lavar roupas ou panelas...

Um exemplo muito interessante é o depoimento que recebemos em junho de 2007 da mãe de dois alunos disléxicos. Entre inúmeras desventuras que essa mãe vivenciou na escola dos filhos, ela chegou a ser chamada de “criança” aos gritos por uma coordenadora pedagógica. Independentemente do mérito da questão, pode-se imaginar o conceito de criança que vai na mente dessa coordenadora...

Por outro lado, o depoimento dessa mesma mãe mostra que a solução para o problema dos filhos foi encontrada dentro da própria escola onde, ao lado de profissionais incompetentes e ignorantes, alguns professores sensíveis e bem intencionados se dispuseram a buscar informações e a desenvolver práticas eficientes.

Antes disso, porém, foi necessário dobrar a teimosia e a arrogância da direção da escola, que só aceitou os laudos comprobatórios da dislexia dos alunos, emitidos pela ABD – Associação Brasileira de Dislexia, depois que a mãe foi procurar o Conselho Tutelar. Mesmo assim, foi necessário que o próprio Conselho Tutelar os entregasse à direção! Leia nosso post publicado na época do ocorrido http://educaforum.blogspot.com/2007/07/dislexia-ainda-grande-desconhecida.html

Este é um raro exemplo de sucesso, em que a lucidez e a determinação de uma mãe acabaram com a discriminação dos filhos dentro da escola. Infelizmente, a maioria dos pais da rede pública não tem a capacidade de articulação e a coragem dessa mãe, que enfrentou muitos obstáculos e humilhações para atingir seu objetivo. A maioria das escolas públicas brasileiras apresenta esse quadro “esquizóide”: uma mistura aleatória de maus e bons profissionais, aliada a uma direção incompetente ou ausente.

Em maio de 2007, numa escola particular de São Paulo, ocorreu um episódio que não teria qualquer repercussão se uma mãe não nos procurasse para pedir orientação. O problema relatado envolvia apenas indiretamente seu filho de 5 anos, aluno de 1ª Série. Uma professora da 2ª Série chamou o menino para outra classe e lhe fez diversas perguntas que uma aluna dela não sabia responder. Depois lhe deu um beijo e o dispensou. Quando ia saindo da sala, o garotinho escutou o choro da aluna e os gritos da professora: “Quantas vezes eu vou ter que te ensinar isso?” A mãe do aluno poderia ter deixado o assunto morrer, mas ficou preocupada com a reação do filho, que lhe contou o episódio como se fosse a coisa mais natural do mundo e até comentou que as perguntas eram “fáceis demais”.

Os internautas que leram a história no blog deram depoimentos muito interessantes que ajudaram essa mãe a abordar o assunto com a diretora da escola, deixando claro que não achava justo que seu filho tivesse sido usado para uma sessão de “humilhação pública”. Essa foi a expressão que ela usou e que se aplica perfeitamente ao caso. O problema, porém, extrapola o mero constrangimento de uma aluna. Trata-se de utilizar a humilhação como “recurso pedagógico”! Um minuto de silêncio para reflexão... Leia toda a história e os comentários dos leitores aqui http://educaforum.blogspot.com/2007/06/lio-de-casa.html

Outro caso interessante ocorreu, também em maio, em uma escola da rede estadual em Belo Horizonte. Um aluno adolescente foi acusado injustamente de ter agredido uma professora, saiu algemado da escola e ficou doze dias numa unidade da Febem local até que a sentença do juiz, baseada em relatórios técnicos elaborados por peritos, considerou o aluno inocente e verificou que ele estava sofrendo perseguição sistemática por parte da professora. O aluno passou a fazer tratamento para se recuperar do trauma, mas a professora não perdeu a pose e deixou claro que ela sairia da escola se o aluno voltasse. Esse é um caso típico da arrogância de certos profissionais que se sentem à vontade para discriminar e perseguir alunos, na certeza da impunidade. Leia sobre o assunto aqui http://educaforum.blogspot.com/2007/06/impunidade.html

O primeiro dia de aula em uma das escolas mais tradicionais da rede estadual de São Paulo, a EE Brasílio Machado, foi suspenso no ano de 2007. A direção da escola chamou a polícia para impedir a entrada de estudantes sem uniforme. Eles foram ameaçados com spray de pimenta e retirados violentamente de dentro da escola por “educadores” que os puseram para fora e trancaram o portão, suspendendo as aulas. Nem mesmo durante o governo militar as escolas exigiam que os alunos estivessem uniformizados no primeiro dia de aula, sempre havia a tolerância de alguns dias. E isto acontece em 2007, em plena “democracia”, numa rede pública cuja legislação PROÍBE “instituir o uso obrigatório de uniforme” (Lei nº 3.913, de 14/11/83). Mais um paradoxo que mostra o caráter “esquizóide” de uma instituição que não se envergonha de defender a ilegalidade, impedindo aos alunos o livre acesso e a permanência na escola! O caso "EE Brasílio Machado" está lincado aqui http://educaforum.blogspot.com/2007/02/que-1-dia-de-aula.html

O último exemplo mostra uma supervisora de ensino da Grande São Paulo apoiando a negação da rematrícula de um aluno! Em dezembro de 2006, a mãe do estudante cansou de suplicar pela rematrícula do filho, negada pela direção da escola. O EducaFórum a orientou para procurar a Diretoria de Ensino, mas, para variar, nem a supervisora da escola nem o dirigente estavam no local. A supervisora que a atendeu não estava a par do assunto e ligou para a escola, a fim de se inteirar. A diretora afirmou que não permitiria a rematrícula, pois não admitia aquele aluno dentro da instituição. Então a supervisora sugeriu à diretora, na frente da mãe do aluno, que convocasse o Conselho de Escola para deliberar a transferência, ou seja, a expulsão do aluno...

A mãe disse que havia nos procurado e que estávamos em contato com a Ouvidoria da Educação. A supervisora deu um sorrisinho e afirmou que “não iria dar em nada”.

Realmente, por parte da Ouvidoria não deu em nada! Ficou bem claro que o ouvidor não se indispõe com a direção de nenhuma escola. Entretanto, essa história teve um final feliz graças ao próprio Dirigente de Ensino que, ao saber do assunto, chamou pessoalmente a mãe para uma reunião, pediu desculpas e providenciou imediatamente a rematrícula do aluno. Leia a história no link

Todos os exemplos dados mostram que a maioria das escolas brasileiras não existe em função do aluno, como “reza” a nossa Cartilha. As poucas boas escolas, finalmente reveladas pela Prova Brasil e pelo Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), mostram os elementos positivos em comum: compromisso com o estudante, direção segura e presente, projeto pedagógico coerente e professores competentes.

Na maioria das escolas públicas que apresentam índices negativos, a direção é incompetente, relapsa ou ausente, falta projeto pedagógico ou então ele é ignorado por certos professores que se acham no direito de ensinar e tratar os alunos “do seu jeito”. Nessas escolas, os melhores profissionais têm dificuldade em desenvolver seu trabalho, pois acabam sendo boicotados por colegas e diretores menos compromissados.

A educação brasileira precisa de urgente tratamento contra essa “esquizofrenia” que permite a presença de profissionais de níveis tão disparatados numa mesma escola. Para atingir um mínimo de qualidade, a instituição precisa de um corpo docente coeso e de uma proposta pedagógica bem estruturada, fatores que dependem principalmente de uma direção segura e competente.

A clareza dessa visão, confirmada pelo Ideb das melhores escolas do País, renova a esperança de que venham a ser tomadas medidas em todos os níveis governamentais, a fim de garantir que os bons exemplos possam ser aproveitados e frutificar em todo Brasil.

O momento em que nossa Cartilha sobre os Direitos dos Alunos se tornar óbvia ou obsoleta poderá ser o marco para medir o progresso do sistema educacional como um todo.


CARTILHA SOBRE OS DIREITOS DOS ALUNOS
(Texto resumido)

O ALUNO É O CENTRO DA ESCOLA

Ela existe em função do aluno

O aluno precisa da escola
para aprender
para se desenvolver
para fazer amigos
para conhecer o mundo
para entender a vida
para projetar o seu futuro
para contribuir com o seu país.

Por isso, ele tem o direito de
permanecer na escola
ser respeitado para aprender a respeitar
ter um ensino de qualidade
esclarecer suas dúvidas
receber orientação de seus mestres
dizer o que pensa sem medo de não ser aceito
dizer o que gosta sem medo de ser discriminado.

O aluno é um ser humano em formação.
Ele precisa aprender a ter responsabilidade.

Todos os alunos são diferentes.
Mas eles têm direitos iguais.

Nem todos têm família estruturada.
Mas todos merecem respeito.

PENSE NO ALUNO
COMO SE FOSSE SEU FILHO


Coordenação da Cartilha

Giulia Pierro – Escritora e coordenadora do EducaFórum. Mais informações, visite http://educaforum.blogspot.com/ e http://caracol.imaginario.com/autografos/giuliapierro.

Colaboradores da Cartilha

Caroline Miles – Coordenadora do site Pais Online. Para mais informações visite http://paisonline.homestead.com/ ou mande um e-mail para paisonline@hotmail.com

Cida Gomes - Coordenadora do Grupo de Trabalho pelo Fechamento da Febem-SP. Para mais informações visite http://fecharfebem.cjb.net/ ou mande um e-mail para mpideamos@hotmail.com

Cremilda Estella Teixeira - Coordenadora do blog Cremilda Dentro da Escola. Para mais informações visite http://cremilda.blig.ig.com.br/ ou mande um e-mail para cremildaestella@hotmail.com

Mauro Alves da Silva - Coordenador do Movimento Comunidade de Olho na Escola Pública. Para mais informações visite www.geocities.com/coepdeolho ou mande um e-mail para gremiod@yahoo.com

Vera Vaz - Autora do livro A escola do saber. Para mais informações visite http://www.escoladosaber.xpg.com.br/ ou mande um e-mail para veravaz@uol.com.br