26 fevereiro 2012

A escola mata a criatividade?


Texto traduzido por Giulia do jornal virtual espanhol La Vanguardia.com
(A tradução pode ter ficado algo macarrônica, pois não estudei português nem espanhol, mas acho que dá pro gasto. Esse texto fantástico foi divulgado por Gustavo Ioschpe no Twitter e esperei que alguém mais credenciado se habilitasse a traduzi-lo, mas parece que poucos se interessam por mudanças DE FATO na educação brasileira. Achei essa leitura superimportante para os pais avaliarem a escola em que seus filhos estudam, já que, para eles, ela é TABU. O texto é longo, mas vale muito a pena lê-lo. CORAGEM!!! Relembramos também o post Escola do papagaio, que mostra experiências riquíssimas em escolas públicas de todo o Brasil e comprova portanto que existem raros, mas excelentes exemplos de qualidade pedagógica no país.)

Dizem que a criatividade é o gene do gênio e do talento, aquele que determina que haja Einsteins, Edisons, Leonardos, Quevedos e Steves Jobs, e que todas as crianças nascem com ele. Então, por que surgem tão poucas pessoas inovadoras?

Para Sir Ken Robinson, um dos maiores especialistas internacionais em desenvolvimento da criatividade, está claro o motivo pelo qual deixamos de ser criativos ao crescer: “As crianças arriscam, improvisam, não têm medo de errar. Não que errar seja sinal de criatividade, mas está claro que não se pode inovar se não se está disposto a errar, e nós adultos penalizamos o erro, o estigmatizamos na escola e na educação; e é dessa forma que as crianças se afastam de sua capacidade criadora.

Ele não é o único que acredita nisso. A cada dia aumentam as vozes que alertam que o sistema educacional, na escola, mata a criatividade. Entre elas, Petra Maria Pérez, professora de Teoria da Educação e membro do Instituto de Criatividade e Inovações Educacionais da Universidade de Valença, Espanha. “Existem numerosos estudos que assinalam que a criatividade das crianças decresce com os anos de permanência no sistema educacional, de forma que, com o tempo, a curiosidade e a busca criativa cedem lugar a comportamentos mais rígidos e inflexíveis”, ela aponta. E assim justifica: “Na escola se ensina à criança adaptar-se aos padrões estabelecidos, a adotar um pensamento convergente em lugar de divergente; ao professor interessa que as crianças absorvam determinados conteúdos e que os estudantes não saiam dos rumos estabelecidos”.

Fernando Alberca, professor e autor, entre outros, de Todos los niños puedem ser Einstein (Toro mítico): “Se um professor pede a uma criança que desenhe uma paisagem e ela pinta tudo de preto, o professor a corrige; o professor não está preparado para ser surpreendido e, habitualmente, não gosta de ser surpreendido; ele quer que as respostas nos exercícios e nos exames se ajustem ao que está no livro ou ao que ele explicou. Isso limita o potencial das crianças e embota sua inteligência, pois utilizam menos a imaginação e lhes é impedido o uso da criatividade. Assim os alunos saem do ensino fundamental, e ainda mais do médio, menos criativos do que quando chegaram à escola”, relata.

Petra Maria Pérez lembra que o êxito escolar significa obter boas notas, e aqueles que as tiram são os alunos que mais se adaptam ao sistema educacional, os que assimilam e repetem o que o professor fala, os que seguem os padrões estabelecidos, arriscando e inovando o mínimo para não cometer erros nem cair no ridículo. “No âmbito profissional buscam-se pessoas criativas, inovadoras, empreendedoras, que pensem, que tenham ideias originais, que busquem soluções próprias, e os alunos com boas notas não sabem fazê-lo, pois na escola, onde eram considerados bons, recebiam soluções prontas e o que contava era fazer as coisas exatamente como lhes ensinavam, sem pensar de forma diferente”, alerta. 

Sir Ken Robinson e o escritor britânico Mark Stevenson – autor, entre outros, de Um viaje optimista por el futuro (Galaxia Gutenberg) – asseguram que não se trata de um problema específico da escola ou dos professores espanhóis. Robinson, em suas conferências, explica que todos os sistemas educacionais do mundo datam de uma realidade do século XIX, quando se ia à escola visando ao trabalho, e se baseiam em uma hierarquia de temas onde a matemática, a ciência, os idiomas e as humanas têm mais peso do que as artes, pois o objetivo é chegar à universidade e preparar professores universitários. Em uma sociedade industrial, formar-se significava acumular informação e conhecimento para logo aplicá-los no local de trabalho. Hoje, numa sociedade em que a informação se obtém num clique, mais do que acumular conhecimentos teóricos, é necessário desenvolver habilidades e competências para o desempenho profissional. “As mudanças sociais e tecnológicas modificaram o mundo e agora, ao sair da faculdade, o estudante obtém um diploma mas não um trabalho: no mercado pede-se uma inteligência diferente, enquanto o sistema educacional isola algumas competências: não ensina a dançar da mesma forma como ensina a matemática, não aposta na música porque não a vê como algo de utilidade para o trabalho, não educa a totalidade do ser”, resume Sir Ken Robinson.

Petra Maria Pérez afirma que “o ser humano precisa de criatividade para chegar à solução dos problemas; que o empreendedorismo é o futuro, porém no sistema educacional atual o anulamos, pois, quando uma criança afirma algo diferente do esperado, os professores a corrigem, e assim vão cerceando sua capacidade de ser criativa e inovadora”. Ela salienta que não se trata de criticar a atitude nem o trabalho dos professores, e sim de questionar os métodos de ensino. “Da forma como funciona hoje a maioria das escolas, se o aluno resolve um problema de matemática ou de física segundo os passos que lhe tiverem sido ensinados, mesmo que o resultado esteja errado, o professor valida o exercício; ao contrário, se ele chega ao resultado correto, porém através de outro método, sem seguir o procedimento ensinado, o exercício é anulado.” Isso - enfatiza - faz com que se fomente a repetição em lugar da criação, que se promova a acomodação em lugar da experimentação, e que as crianças e jovens acabem por não se arriscar a pensar de forma diferente, por medo de errar.

Fernando Alberca toma por exemplo o que ocorre em suas aulas de ética. Quando pergunta aos alunos que tipo de exame preferem: um que exige estudar e repetir o que está escrito no livro, ou outro para refletir sobre os temas tratados na classe, “mesmo os mais brilhantes sentem-se inseguros sobre a nota que obterão em um exame aberto e preferem uma prova em que possam garantir um 9 sem correrem riscos; sem riscos, porém, não há possibilidade de melhoras”, lamenta. Dizem os especialistas que não se deve estranhar essa reação de adolescentes de 15 ou 16 anos, já que desde os três anos percebem que na escola é melhor não dar opiniões próprias ou diferenciadas, se não se quer correr o risco de ouvir que são descabidas ou ridículas, já que as provas visam corrigir os erros que eles tenham cometido, em lugar de constatar se eles criaram ou desenvolveram algo diferente. Eles passam sua vida escolar elaborando trabalhos onde o professor não apenas dita os temas, mas indica a orientação a seguir, a extensão desejada, a forma de apresentação e, às vezes, as fontes de onde obter a informação, como explica o diretor do Instituto Avançado de Criatividade Aplicada e do mestrado em Criatividade da Universidade Fernando Pessoa, David de Prado.

Fernando Alberca enfatiza que há um fundamento anatômico (talvez neurológico) em todo esse debate. “A criatividade tem a ver com o hemisfério direito do cérebro, aquele que rege as emoções, a imaginação, os sentimentos... E a escola está centrada no hemisfério esquerdo, na análise, na razão, na sequência linear. Por isso se organiza em cursos, trimestres, aulas... e assim valoriza a ordem, a organização, os trabalhos em PowerPoint e as provas com respostas fechadas”, explica. A realidade é que todas as pessoas (professores e alunos incluídos) dispõem dos dois hemisférios cerebrais, porém a maioria utiliza mais um do que outro. Por isso, quando um professor dá umas explicações de matemática ou física baseadas no hemisfério esquerdo, elas resultam de difícil compreensão para aquelas pessoas que usam predominantemente o hemisfério direito. O que isso significa? Que quando o professor pergunta a uma criança “5 mais 7” e ela responde “57”, talvez não seja ignorância ou brincadeira, mas sim a aplicação de uma lógica diferente, a união de números em lugar de soma. Alberca explica um caso vivido pessoalmente, quando, diante de uma questão matemática que perguntava “se há 8 caracóis em uma cesta e 2 saem, quantos ficam?”, sua filha respondeu: oito. Em lugar de dizer que o resultado estava errado, ele perguntou porque ela achava isso e a menina respondeu que 2 haviam saído da concha, mas que a cesta continuava contendo 8 caracóis.

Sir Ken Robinson apresenta outro exemplo: a professora pergunta a uma menina de 6 anos na aula de desenho: “O que você está desenhando?”. Ela responde: “Deus”. A professora adverte: “Mas ninguém sabe como ele é!” e a menina responde: “Vão saber em um minuto”. A questão, alerta Alberca, não é que todo aluno responda na classe o que quiser, mas que o professor leve em conta o fator humano, ou seja, que há crianças utilizando uma lógica diferente, a da imaginação. Assim, ele deveria perguntar o porquê quando recebe uma resposta diferente, além de adaptar suas explicações e sua linguagem para facilitar a compreensão por parte daqueles que usam predominantemente o hemisfério direito. “Muitos desses alunos acabam engrossando as estatísticas do fracasso escolar, não são porém menos brilhantes ou inteligentes, apenas possuem uma lógica distinta”, afirma.

Robinson deixa claro que não se trata de casos isolados. De acordo com sua experiência, aproximadamente 40% dos estudantes têm predominância do hemisfério direito. Por outro lado, essas pessoas costumam ser mais intuitivas, ter mais empatia e uma visão mais global, qualidades essas muito apreciadas no mundo profissional atual. “Às vezes basta modificar o enunciado dos problemas matemáticos, torná-los mais emocionais, tipo apresentar uma divisão como a repartição de pastéis entre quatro crianças famintas, para que esses alunos não fracassem nessa área”, exemplifica. E insiste na necessidade de fomentar a criatividade, através de provas com perguntas novas sobre o tema explicado, visando que as respostas sejam criativas e lógicas e que se possam valorizar não somente as repetitivas, mas todas aquelas que sejam críveis, válidas e lógicas, pontuando ademais a originalidade.

É claro que também há professores que trabalham mais com o hemisfério direito, “porém tendem a serem expulsos do sistema, porque em lugar de serem considerados mais criativos são tidos por extravagantes e culpados de não ensinarem conteúdos importantes”, conclui Alberca. Sua receita para remediar a tudo isso é introduzir matérias sobre criatividade no aprendizado, ou sobre a imaginação como ferramenta para a solução de problemas, em todas as universidades de formação de professores.

A fim de resolver problemas importantes, seja no âmbito escolar, profissional ou pessoal, é necessário combinar os dois hemisférios, a intuição com a análise. “Se você encontra alguém na rua, o hemisfério direito te avisa que você já conhecia essa pessoa, já o esquerdo informa o nome”, exemplifica Alberca. Ele está convencido de que se a escola mudasse, os estudantes – e seus resultados – seriam mais brilhantes “porque hoje, no âmbito escolar, triunfam os alunos menos imaginativos e depois vemos que muitos dos grandes profissionais que admiramos por sua inteligência e criatividade não recebiam boas notas na escola”. Petra Maria Pérez afirma que a criatividade é uma habilidade adquirível, que pode ser aprendida e ensinada, exigindo porém mais tempo e dedicação para que as crianças encontrem as soluções corretas. É necessário também apostar na flexibilidade, na originalidade, na imaginação, no desejo de experimentar, bem como ter receptividade para ideias novas e fomentar a confiança... É claro que há professores e instituições que já trabalham com essas propostas.

Como saber qual hemisfério predomina
Fernando Alberca aponta que um método fácil para que cada pessoa saiba o hemisfério predominante em seu cérebro é conhecido como teste da bailarina, do qual existem muitos links na internet (por exemplo, Psicoenredos.blogspot.com/2008/02/hacia-qu-lado-gira-la-bailarina.html). Trata-se da imagem de uma boneca em movimento que alguns vêem girar da esquerda para a direita, outros da direita para esquerda e alguns percebem mudar de direção. Há porém outras formas de detectar esse fenômeno. “Se pedir a uma criança que desenhe uma árvore, os de hemisfério direito desenharão primeiro o solo, o sol e outros detalhes fruto de sua imaginação e aqueles regidos pelo esquerdo desenharão somente a árvore” explica.  Outro indicador pode ser quando alguém resume um filme: os de hemisfério esquerdo o fazem na sequência dos fatos, os do direito focam o que é relevante para eles, sem levar em conta a ordem cronológica.

21 fevereiro 2012

Escola do papagaio


Retomando o tema A escola brasileira desprepara (leia o post clicando aqui), veja a tradução do texto La escuela mata la criatividad? clicando aqui.
Apesar de sempre colocarmos que o maior problema da educação brasileira não é a qualidade do ensino, mas a falta de respeito ao aluno - em todos os níveis - não podemos deixar de questionar os equívocos das propostas governamentais para solução dos inquestionáveis baixos índices de qualidade.

O maior equívoco é certamente a crença de que "falta dinheiro" no sistema educacional, o que desperta a ganância dos riquí$$$imos sindicatos do ensino básico. A verdade é que as verbas para manutenção e desenvolvimento do ensino, no país, são mais do que suficientes, porém desperdiçadas, manipuladas ou desviadas. A maioria delas NÃO É APLICADA na manutenção e desenvolvimento do ensino!

O segundo grande equívoco é a respeito da questão pedagógica. Ou a proposta é simplista e nebulosa, visando algo que não significa absolutamente nada, como "boa formação" dos educadores, ou então estapafúrdia, como fornecer às escolas, professores e alunos, equipamentos de ponta que, sem projetos consistentes, representam apenas mais desperdício = desvio de verbas.

Não se costuma questionar o mais importante: o estrago que a nossa escola, em 99% dos casos baseada no sistema cópia/decoreba, faz na inteligência e na curiosidade das crianças.

Uma entrevista que vale a pena conhecer é com o educador norte-americano Thomas O'Brian, que trocou a decoreba pelo construtivismo no ensino da matemática. Leia clicando aqui. Detalhe muito importante: O'Brian, já professor havia muitos anos, só se tocou de que apenas "empurrava fórmulas e conceitos goela abaixo dos alunos" quando começou a perceber com seus próprios filhos o mecanismo do aprendizado. Por isso, o construtivismo, como ele o entende, não é aquela "linda" teoria que os diretores de escolas pseudo-construtivistas (minha filha foi vítima de uma delas) tentam impingir aos pais desavisados, mas um conceito prático e sólido.

Não é necessário porém buscar métodos e teorias em outros países. A entrevista com Thomas O'Brian é muito interessante, mas temos excelentes exemplos de educadores brasileiros que se preocupam em não embotar a inteligência das crianças e conseguem manter viva sua curiosidade. É o caso do professor Edson Thó Rodrigues, da EMEF José Américo de Almeida, em João Pessoa, PB, que desenvolve o ensino da geometria através de espelhos e do caleidoscópio. Mais um Educador Nota 10 da Fundação Victor Civita.



Também a educadora Maria Inês Miqueleto, de quem falamos no post Parabéns, Sra. Coordenadora Pedagógica!, preocupa-se em seu trabalho com o desenvolvimento do raciocínio dos alunos, o que é demonstrado na conversa com as professoras de português sobre a interpretação de texto por parte dos alunos.

Outra Educadora Nota 10 é Fernanda Pedrosa de Paula, professora da EM José de Calazans em Belo Horizonte, que transformou a aula de educação física em oficina de circo, levando os alunos a desenvolver efetivamente habilidades motoras, equilíbrio e trabalho em equipe, como raramente têm oportunidade no "ensino" convencional. Além disso, ela consegue algo que é um bicho de 7 cabeças na nossa escola: integrar os alunos especiais. Falando francamente - e todos sabemos disto - nas escolas públicas de todo o país, as aulas de educação física não passam de um bate-bola inconsequente, muitas vezes com os alunos largados sozinhos na quadra... Fernanda revela em seu projeto a inigualável e inimitável criatividade brasileira!



Esses maravilhosos exemplos mostram como é possível substituir a "escola do papagaio" por uma escola viva e contemporânea. Não é possível que, 13 anos após a morte do saudoso Plínio Marcos, nossa escola ainda seja   a "grande castradora das vocações".

20 fevereiro 2012

Parabéns, Sra. Coordenadora Pedagógica!

O Coordenador Pedagógico, aqui em São Paulo chamado de Professor Coordenador, tem sido uma figura inútil, quando não perniciosa. Leia clicando aqui.

Isto ocorre por causa da incompetência dos gestores da educação no país, desde os Secretários da Educação,  os Dirigentes de Ensino e, obviamente, os diretores de escola.

Entretanto, essa função é fundamental no sistema educacional e bons exemplos não faltam. Falta, sim, é divulgação em larga escala e a cobrança de que sejam seguidos.

O vídeo abaixo mostra a educadora Maria Inês Miqueleto, Coordenadora Pedagógica na EE Maria Aparecida dos Santos Oliveira, em Ibitinga, SP. Maria Inês ganhou o Prêmio Educador Nota 10, da Fundação Victor Civita, em 2011.



O exemplo dessa educadora foge ao costumeiro blá-blá-blá do coordenador "padrão", que gosta de falar e teorizar, além de culpar o aluno e a família pelas falhas da escola. Maria Inês faz um trabalho primoroso e sistemático de controle do rendimento de cada aluno, conseguindo acompanhar sua evolução e focando em seu progresso. Muito interessantes suas reuniões de formação, em que ela consegue suprir as falhas dos professores que, como sabemos, saem das faculdades sem experiência pedagógica. A esse respeito, vamos relembrar o recente seminário do Instituto Singularidades, clicando aqui.

Hoje, com a tecnologia a todo vapor, o que impede à Secretaria da Educação de elaborar uma série de vídeos mostrando a prática dessa coordenadora e de outras que certamente também merecem Nota 10, cobrando que as escolas sigam esses exemplos? (Sem cobrar não adianta nada, cara pálida!...)

Seria bom demais, mas sabemos que a resistência da corporação em aceitar modelos é enorme. Por outro lado, a academia, que poderia se valer de recursos mais modernos e eficazes para garantir o aprendizado dos universitários, anda a passos de lesma. Eta Brasil, chafurdando na incompetência pedagógica e fazendo de conta que a solução só virá "com mais dinheiro"!

Só nos resta oferecer à educadora Maria Inês uma flor virtual, como reconhecimento de seu excelente trabalho. Parabéns, Maria Inês! Que o seu exemplo possa repercutir nos quatro cantos do país.

Ah! Aproveito para deixar claro que não sou profissional da educação nem fiz qualquer curso nessa área, sou apenas uma mãe de ex-alunos reconhecendo o valor de quem merece. Com isso quero dizer que os pais de alunos SABEM, sim, quem é bom professor, coordenador ou diretor de escola. Está na hora de acabar com o preconceito de que os pais de alunos não devem interferir na gestão das escolas. É esse preconceito que impede a realização da eleição de Conselhos de Escola democráticos e permite a continuidade de tantas irregularidades no sistema educacional.

15 fevereiro 2012

Início de ano escolar: salve-se quem puder!!!

Todo início de ano o sistema educacional entra em parafuso, o que é um absurdo, pois as férias escolares servem para quê? Para recreação de dirigentes, supervisores, assessores de gabinete e diretores de escola, que tiram suas férias em outra época?... Pois é! No Brasil o ano escolar inicia de fato após o Carnaval, essa é a tradição.

Este ano, aqui em São Paulo, a situação é ainda pior, pois a Secretaria da Educação extinguiu a COGSP, o único órgão que apoiava os pais e alunos. Hoje os pais não sabem a quem recorrer, pois as diretorias de ensino, para variar, não lhes dão atenção, além de exibirem em suas portas cartazes ameaçadores do tipo "cuidado com quem fala, você pode ser processado!"

Já trouxemos dois casos de escolas que negaram a rematrícula a alunos repetentes, leia clicando aqui. Estamos encaminhando esses casos ao Prof. José Benedito, que, mesmo não sendo mais coordenador da extinta COGSP, continua nossa pessoa de confiança na SEE. Esperamos que TODAS as escolas sejam claramente informadas de que a rematrícula é automática e não pode ser negada, pois temos certeza de que não se trata de casos isolados. Essa moda de expulsar aluno repetente para não comprometer o IDEB ou o IDESP da escola é uma moda que está pegando!

Estamos também com dificuldade para ajudar duas mães a matricular seus filhos. Uma delas mudou de outro Estado para São Paulo; a outra mudou de Taboão da Serra para o bairro da Luz. Ambas estão passando uma verdadeira via crucis e acabamos de informar também esses dois casos para o Prof. José Benedito, pedindo providências urgentes, pois as mães estão desesperadas, tendo sido atiradas de um lugar para outro feito baratas tontas. Todas as respostas que elas recebem é que O SISTEMA não resolveu o problema das vagas escolares de seus filhos. Sempre o sistema, sendo que atrás dele se escondem seres humanos sem boa vontade ou competência...

A mãe que mudou de Taboão para o bairro da Luz trouxe uma informação que nos deixou PASMOS! A escola mais próxima de sua residência, a única para onde suas filhas poderiam ir a pé, nem foi cogitada pela Secretaria, pois seria fechada no ano que vem! Vizinhos da família e amigos das crianças confirmaram a informação, dizendo que este seria "o último ano da escola" e que em 2013 os alunos iriam para outras unidades. Essa não seria a primeira escola a ser fechada pela SEE, nos últimos dez anos contamos mais de 300! No entanto, quando essa mãe revelou o nome da escola, caímos de costas: é a EE Prudente de Moraes, que já estava prevista para ser fechada em 2007. Naquela época, fizemos uma grande manifestação para que a escola PERMANECESSE ABERTA: uma escola linda, centenária, tradicional, lembrada com carinho por gerações de paulistanos! Veja acima uma foto da escola e leia clicando aqui o documento que encaminhamos em 24/08/07 para a então Secretária Maria Helena de Castro, que teve a decência de reverter essa decisão absurda, conforme publicamos aqui no blog em 14/10/07:

"Acabamos de receber uma resposta da Coordenadoria de Ensino da Grande São Paulo - COGSP, informando que o prédio da EE Prudente de Moraes será cedido à Pinacoteca "apenas se houver a possibilidade de construção de outra escola no mesmo quadrante, uma nova escola, mais moderna e com estrutura para receber mais alunos, inclusive com o mesmo acesso utilizado hoje pelos alunos".
A Coordenadoria frisa que"após estudos sobre o atendimento da demanda na região, foi caracterizada a impossibilidade de fechamento da unidade e remanejamento dos alunos da EE Prudente de Moraes para as escolas do entorno, inclusive em vista do aumento de habitantes com filhos em idade escolar".

E agora, José... Benedito? A história se repete? Ainda bem que nós temos memória! Não deixe mais acontecer esse crime do fechamento de escolas, turnos e classes na rede de ensino. Chega de pais e alunos ficarem mendigando vagas como se fosse um favor do "sistema". Confiamos em você: não nos decepcione!!!


12 fevereiro 2012

Repetiu? Tá expulso! Socorro, essa moda pegou???

A perversidade do sistema educacional brasileiro não tem tamanho! Como sempre dizemos aqui, a má qualidade do ensino não é o maior problema. A grande questão, que precisa ser enfrentada por toda a sociedade, é a expulsão ou exclusão de alunos. Para o sistema, escola boa é escola vazia! Ou então que fiquem apenas os  "bons alunos", esses que "não dão trabalho".
Entrou na moda agora um novo tipo de expulsão: a dos alunos repetentes. A escola não quer mais esses alunos, não apenas porque "dão trabalho", mas porque contribuem para baixar as notas do IDEB, do IDESP e de qualquer outro mecanismo de controle de qualidade. Expulsar o aluno repetente é a nova moda de varrer a incompetência da escola para baixo do tapete!

Vamos relembrar aqui o caso da EE Genésio Machado, em Sorocaba, que expulsou um aluno retido por faltas  e se negou a voltar atrás. A mãe, que estava inconformada com o fato e lutou durante dois meses para tentar reverter a expulsão, chegou à conclusão de que a melhor solução seria mesmo mudar o filho de escola, para que deixasse de ser perseguido. Leia a saga desse aluno clicando aqui.

Agora surgiu mais uma escola, coincidentemente (!) também da SEE de São Paulo, a EE República do Panamá, na Capital. Leia o relato da Cremilda clicando aqui. Uma aluna repetiu de ano e a escola não quis renovar a matrícula. A Cremilda conversou pessoalmente com a diretora da escola e ficou com a clara impressão de que aquela profissional realmente achava correta a expulsão da aluna. Aparentemente, a Constituição e todas as leis não valem mais nada, no faroeste que se tornou a educação brasileira!

É muita coincidência, dois casos da mesma Secretaria terem vindo a público na mesma época, pois sabemos que os pais de alunos da rede pública - infelizmente - não costumam contestar a expulsão dos filhos, eles preferem aceitar a transferência compulsória, na esperança de que em outra escola eles não sejam perseguidos. Por isso mesmo estamos muito preocupados com essa "moda" de expulsão dos alunos repetentes. Se já é muito difícil os alunos repetentes se recuperarem do trauma, a expulsão pode ser o motivo para abandonarem o estudo de vez.

Esperamos que o Secretário Estadual da Educação, Prof. Herman Voorwald, providencie punição exemplar para os responsáveis por esse absurdo nas duas escolas acima citadas. Não porque sejamos "vingativos", mas para que essa nova moda de expulsar os alunos repetentes não "pegue" nas demais escolas da rede. E que este assunto seja discutido num dos frequentes "seminários" promovidos pela SEE, dos quais participam diretores de escola, supervisores e dirigentes de ensino. Seriam esses eventos apenas para "espairecer", já que são realizados em estâncias de férias??? Aparentemente, questões sérias como a retenção e a expulsão de alunos, bem como a eleição dos Conselhos de Escola, nunca são abordadas... Basta visitar o Twitter dos representantes da Secretaria para ver que os únicos assuntos se referem à classe docente, nunca se fala de alunos.

PS Um anônimo engraçadinho pergunta se não temos "programas" para as noites e o final de semana, já que ele "percebeu" que costumamos postar à noite e nos finais de semana. Pois é, anônimo, este é o nosso "programa". Enquanto você deve curtir o BBB ou baladas funk, nós ocupamos nosso tempo livre para ajudar a melhorar a educação no país. Que bom que você nos acompanha!


A voz dos pais nº 1 - Desmascarando a escola particular

Agora, que já demos voz aos alunos, vamos também começar a publicar depoimentos dos pais. Isto, aliás, já fazemos há anos, mas queremos organizar as mensagens de forma sistemática, para dar um panorama da angústia e do sofrimento desses pais. Queremos também acabar com a hipocrisia de dizer que os pais não se aproximam da escola, quando na verdade são rejeitados por ela. E não pensem que este é apenas um problema da escola pública! Por isso mesmo, a primeira mensagem desta série é de uma mãe que sempre manteve a filha em escola particular, A propósito, que tal retomar a antiga discussão sobre Escola Pública x Particular?


Gostaria de registrar que nunca tive coragem de colocar meus filhos em escolas públicas, por ouvir falar coisas horríveis.  Porém neste ano de 2011 tive uma experiência muito ruim numa escola particular chamada João XXIII na Vila Prudente - que é só fachada! Uma mensalidade para o ensino médio de quase R$ 900, que para a zona leste é muito alta. Oferecem mundos e fundos e ensinar que é bom NADA! Torturaram minha filha, não davam aulas de reforço, faziam chacota dela e sempre que eu procurava a tal coordenadora de nome Vera "estava tudo bem", porém as mensalidades estavam rigorosamente em dia. Isto sim interessava. Não fazem reunião, não dão satisfação, não respondem e-mail, não atendem telefone etc.

Muitas vezes fui na escola tentar questionar, mas sempre estava tudo “maravilhoso”. Hoje minha filha é uma adolescente medrosa, apavorada, tem verdadeiro horror daquelas pessoas, até de "escurinha" foi chamada e ninguém fez nada. O Diretor é um irresponsável que não toma providência nenhuma. Ao passo que conversei com outras mães de escolas públicas e fiquei com vergonha! pois tem reunião, dão atenção, são tratadas como gente.

Confesso que tirei a imagem ruim totalmente e peço mil desculpas de um dia ter pensado desta forma. Acho que o Governo teria que investir muito nas escolas públicas e acabar com estes estabelecimentos que viraram fábricas de dinheiro a base de cartéis.

Me perdoem, já mandei e-mail até para a presidência da República, Ministério da Educação, inclusive à Comissão de Direitos Humanos. 
Laura Maria

Laura é das poucas mães de alunos de escola particular que têm a coragem de lutar pelos direitos da filha. Muitos pensam que a solução é simples: mudar os filhos de escola. E assim acabam trocando... seis por meia dúzia. A questão é muito séria e nada discutida no país. Vamos relembrar um depoimento muito esclarecedor do professor Júlio Groppa Aquino, trecho de uma antiga entrevista:

JG: As escolas privadas são a cara da elite brasileira. Fazem parte do seu “pacote existencial”: academia, shopping, condomínio fechado, escola privada. Elas vendem aquilo que a elite quer: uma farsa com fachada de excelência. O processo de desinstitucionalização escolar, que na escola pública assume a forma de deserção, na escola privada confirma-se como fraude pedagógica. Não há o mínimo de supervisão, de controle. O ensino particular é um Velho Oeste. Tem jurisdição própria e transparência zero. E não há debate algum sobre isso. A escola privada, no Brasil, está acima de qualquer suspeita, como se seus resultados fossem sempre ótimos. E a imprensa em geral só faz alimentar a mistificação, como o ranking das melhores escolas privadas feito pela Veja. Em meados deste ano, a Folha de S.Paulo publicou um caderno especial intitulado Colégios, em que mostra o cotidiano das escolas campeãs do vestibular. E o que lá se vê? Hiperconcorrência entre os alunos, “baias” individuais, avaliação frenética, vigilância digital, exclusão sistemática dos “mais fracos”. Um dos destaques é o Colégio Objetivo, que pertence ao “barão” do modelo escolar vigente, o senhor (João Carlos) Di Genio. Não dá para acreditar que essas “corporações” espalhem impunemente seus horrores pedagógicos e que a imprensa seja servil a isso tudo. É preciso ter coragem para desmascarar esse estado lamentável das coisas na educação, seja particular, seja pública.

11 fevereiro 2012

A voz do aluno nº 2

Damos continuidade à série A voz do aluno, este desconhecido. Desta vez, o depoimento não vai prejudicar o garoto que nos escreveu, por isso publicamos seu nome. Esta mensagem, aliás, é mais antiga e muito querida, pois reconhece a importância do nosso trabalho.


Meu nome é Diego, sou de Barra Mansa, RJ. Eu estou escrevendo porque um dia desses eu encontrei o Blog de vocês. E quero dar-lhes os parabéns e agradecer por essa ajuda que vocês dão à sociedade! Gosto muito de ler o Blog e tento divulgá-lo, pois é o mínimo que posso fazer por vocês!

Depois de ver escândalos, roubos de verbas e outras barbaridades políticas, achava que o Brasil não tinha mais jeito, pensava que não existiam pessoas honestas, e vocês mudaram completamente a minha concepção! Estou admirado pelo trabalho que fazem. Espero que continuem, e que algum dia alguém os ajude a ampliar essa solidariedade.

Eu quis fazer um curso mais a minha cara, que é direito. Porém esse curso é muito buscado e acabei me inscrevendo em vários vestibulares de universidades federais, mas não passei em nenhum! Como ultima solução, busquei o PROUNI, para um curso não muito concorrido que é Serviço Social. No caso, ele era a segunda opção! Sinceramente, eu juro ter até confundido com ciências sociais, só depois que eu entrei e tive as aulas que entendi o que estava relamente acontecendo. Estou cursando, mas espero um dia poder fazer o curso que sempre quis! Depois de formado, pretendo trabalhar e pagar o meu curso!

Pelo menos eu sou o segundo aluno mais novo da sala, vou completar 18 no proximo mês, e isso me dá vantagens. Mas estudei a minha vida toda em escola pública e queria me formar em uma universidade pública. Sem falar que aquela burocracia do PROUNI chegou a me dar medo! Nunca achei que para demonstrar que sou pobre era necessário um monte de papel. Eles deveriam ver o que eu como, onde eu moro, e entenderiam que essa bolsa é necessária! Agora que consegui, pretendo um dia ajudar aqueles que não podem, pois esse vai ser meu papel mesmo, né, "Garantir Direito"!

Se não existisse o PROUNI, acho que estaria trabalhando como motoboy ou cobrador de ônibus (não tenho nada contra a profissão), em vez de ter a oportunidade de mudar de vida!
E a respeito dos vestibulares eu tenho uma experiência imensa, pois fiz a UERJ, UFRJ, UFF, UniRIO e UFRRJ, além do PROUNI(ENEM) e do CEDERJ. Obs.: A UENF não tem Direito, por isso não fiz ela, foi a unica instituição federal do Rio em que não fiz inscrição!

A cada prova que eu fazia e não passava eu ficava mais nervoso comigo e com o meu ensino! Poxa, estudei 12 anos da minha vida em escola pública, para chegar nas provas e ter media 4? Todas as provas são cansativas, fazem perguntas querendo detalhes, só passa quem realmente estuda muito! Em todas as provas que eu fiz algumas pediam a escola e davam uma lista perguntando de qual eu era. Enquanto eu olhava a lista com mais de 80% de instituições privadas, eu me perguntava: cadê o ensino publico? (A lista era feita com base nos alunos que fizeram o vestibular anos antes...)

E quando eu ia para a sala de aula, entendia o porquê. De 40 alunos na sala, eu era o único que queria ensino superior de graça! Eu achava que era como aquela frase "Pior do que um pássaro ficar preso, é que ele se acostuma!" (mais ou menos isso). Ninguém quer lutar pelo que é nosso!

Um fato, as provas da UniRIO e da UFRJ foram as mais burguesas. Quando eu ia fazer a prova percebi o acumulo de Playboys e Patricinhas! Acho que uma minoria mesmo, mais ou menos 20%, não tinham condições de pagar a faculdade. Eu não sabia se ia fazer o vestibular ou se estava em um desfile de carros: Honda civic, C4, Peugeot 306, Meriva, e outro que eu nem sabia o nome, mas que sabia que eram caros!

Que país é este? que quem estuda em escola pública a vida inteira tem que se formar na particular, e quem faz ensino privado a vida inteira, vai para a universidade pública??? Eles estavam tirando uma vaga que era para mim e outros alunos! E o pior, ninguém liga!
É por isso que gosto do seu trabalho! Meus mais sinceros agradecimentos.



Leia agora o primeiro post A voz do aluno, clicando aqui. Foi um caos: quando o publicamos pela primeira vez, tivemos que tirá-lo do ar, porque o garoto foi duramente perseguido na escola! Só após o término do ano letivo (ele se formou no Ensino Médio ano passado) voltamos a publicá-lo. Já começou a entender porque falamos tanto da "escola tabu"?

08 fevereiro 2012

Creche "esquece" crianças

Lembrei de uma piada infame do Paulo Maluf e vou adaptá-la à situação: "A creche esqueceu as crianças, mas pelo menos não torturou..." O fato se deu em Juíz de Fora e foi comentado pela professora Glória Reis. Clique aqui para ler a notícia e ver o vídeo.

Essa notícia é bastante comum: de vez em quando a mídia mostra pais desesperados procurando seus filhos que foram "esquecidos" dentro da creche ou da escola infantil. Nada que chegue a comover a sociedade.

Já as torturas de que são vítimas bebês e crianças dentro de creches ou escolinhas... tampouco comovem a sociedade, rs...

Nós não esquecemos esses casos, pois somos - como é mesmo? - fanáticos, exaltados, exagerados, descomedidos, frenéticos, veementes, além de outros adjetivos impublicáveis...

Vamos relembrar então dois graves casos de torturas e maus tratos em creches e escolinhas, sabe para quê? Não para fazer terrorismo, mas para que os pais fiquem alertas e se preocupem em checar se as instituições às quais confiam seus filhos funcionam de forma legal. Tais horrores ocorrem neste país por falta de fiscalização e cobrança, simples assim! E é claro que o Inep(t) não faria uma pesquisa sobre o absurdo número de creches e escolas ilegais no país, rs.





06 fevereiro 2012

A escola brasileira DESPREPARA (e mata a criatividade)

Fiquei muito animada quando vi que a TV Cultura apresentaria mais um Café Filosófico sobre educação, com a psicóloga, filósofa e poeta Viviane Mosé. O programa foi apresentado esta semana, mas foi um "café requentado", réplica de outro já comentado no blog (clique aqui para ver o post e o vídeo).

Mesmo requentado, o programa, gravado em setembro de 2009, não perdeu a atualidade, ou melhor, continua "inédito", pois a sociedade parece não ter despertado para a importância do assunto.

Nossa escola é obsoleta, segue um modelo "militar" e "industrial", que se traduz inclusive nos próprios termos que a definem:
  • Nosso currículo é uma GRADE
  • Ele se desenvolve em SÉRIES
  • É fragmentado em DISCIPLINAS
Salvo raríssimas exceções,a escola pública brasileira parece uma prisão - seja no aspecto pedagógico, seja no físico - grades, correntes e cadeados são reais, começam na secretaria e tornam o ambiente inóspito e desagradável.

A escola foi programada para PRODUZIR indivíduos passivos, fisica e mentalmente, sem senso crítico, incapazes de compreender e questionar o mundo em que vivem, começando pela própria escola. 

O conhecimento é fragmentado e teórico, fornecido numa espécie de LINHA DE MONTAGEM, como algo a ser decorado e repetido, produzindo assim analfabetos funcionais em todas as matérias.

O professor, que também foi condicionado pelo mesmo sistema, "dá" suas aulas no piloto automático, se aborrece e muitas vezes se indigna com os possíveis questionamentos dos alunos.

Moral da história: a escola brasileira não prepara para absolutamente nada: nem para a vida, nem para o mercado de trabalho, nem para a cidadania e muito menos para o desenvolvimento da inteligência e do espírito democrático.

Salve-se quem puder: A ESCOLA BRASILEIRA DESPREPARA.

Isolado da vida e trancado entre quatro paredes, obrigado a ficar horas olhando para uma lousa ou um caderno, o aluno da escola pública brasileira tem dois caminhos: a submissão ou a evasão. A crise do Ensino Médio está aí para todos verem.  

A grande esperança vem da informática e da Internet, que têm justamente provocado questionamentos a respeito do sistema escolar e desencadeado conflitos dentro dele, por estar democratizando o conhecimento e contrariando o que a própria escola faz.

Mas não será adquirindo montanhas de tablets ou outras geringonças, que os problemas educacionais serão resolvidos. Alô, alô: Sr. Ministro: veja o vídeo do Movimento Coep clicando aqui!

O grande desafio da escola é voltar-se para a VIDA, estimular o ato de pensar, ver e ouvir. O professor precisa tornar-se alguém INTERESSADO e ABERTO para o conhecimento, do qual não é detentor. Esta é talvez a questão mais difícil! Quantas gerações serão necessárias para a escola brasileira sair da alienação?...

EM TEMPO: Leia o interessante artigo A escola mata a criatividade?, no jornal virtual espanhol La Vanguardia, clicando aqui. No final de semana, vamos traduzi-lo e publicá-lo para que todos possam compreender o texto.

05 fevereiro 2012

Material escolar: cobre da escola!

Todo começo de ano os pais de alunos perguntam se vão receber ou devem pagar pelo material escolar.  Muitas escolas cobram taxas por isso, mas trata-se de ILEGALIDADE.

Veja o que diz a lei:

LDB, Lei de Diretrizes e Bases, determina em seu Artigo 4º, item VIII, que: 

O dever do Estado com educação escolar pública será efetivado mediante a garantia de: atendimento ao educando, no ensino fundamental público, por meio de programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde.

Cobre da sua escola que ela cumpra a lei! E se houver muito lero-lero, nos comunique por e-mail: educaforum@hotmail.com

Leia mais sobre o assunto no site Educar para Crescer clicando aqui.


EM TEMPO: veja clicando aqui a cara de pau de "nosso" prefeito ao declarar que "não é correto" (sic) a Prefeitura entregar o material escolar no início das aulas. Eu também acho que na escola poderia haver atividades muito mais interessantes do que as que dependem de papel, lápis, borracha, cola ou tesoura. Mas é claro que não foi nada disso que a Secretaria da Educação planejou para o início das aulas, rsrs...

04 fevereiro 2012

A voz do aluno nº 1


ESCLARECIMENTO: ESTE POST, BEM COMO O SEGUINTE (CLIQUE AQUI PARA LER), FOI ESCRITO EM OUTUBRO E TIRADO DO AR PARA ACABAR COM AS REPRESÁLIAS SOFRIDAS PELO ALUNO QUE TEVE A CORAGEM DE CRITICAR A ESCOLA. VOLTAMOS A PUBLICÁ-LO, POIS O ALUNO ESTÁ FINALMENTE FORMADO E ASSIM "SALVO". ESPERAMOS QUE, APESAR DISSO TUDO, OUTROS ALUNOS TENHAM A CORAGEM DE SOLTAR A PRÓPRIA VOZ, POIS, POR INCRÍVEL QUE POSSA PARECER, ESTAMOS NUMA DEMOCRACIA E NÃO PODEMOS PERDER AS ESPERANÇAS!

Sempre falamos aqui que o Brasil é um país pedófobo, pois despreza suas crianças e jovens. Eles não têm voz, ou melhor, não se lhes permite a expressão. Pior ainda quando se trata de alunos da rede pública, considerados, com a ajuda da grande mídia, pivetes e trombadinhas em potencial. No que se refere à inteligência e ao conhecimento, são completamente subestimados e até culpados pela incompetência da escola. Já fazem parte da cultura brasileira, pobre como a de nenhum outro país, as "pérolas do ENEM", cultivadas por "intelequituais" como Jô Soares.

Mais uma vez o EducaFórum faz história, dando voz a jovens brilhantes, não por estudarem em Harvard ou na Sorbonne, mas em escolas brasileiras, muitas delas públicas e, ainda assim, não nas elitistas, que escolhem a dedo seus alunos e copiam descaradamente péssimas escolas particulares. Não, são alunos de escolas "comuns", onde as aulas vagas estão a mil, onde os profissionais gritam e xingam à vontade, onde os alunos são expulsos a rodo.

Com essa nova série, A voz do aluno, vamos ouvir as verdades da escola ditas por quem é vítima de um sistema educacional perverso e excludente.

O primeiro número desta série traz um texto de W A, aluno destinado à expulsão, mas que soube dar a volta por cima e conseguiu permanecer na escola. W estuda no período noturno, está se formando no Ensino Médio e escreve melhor do que a maioria dos professores que comentam aqui no blog. Confira!

Ao ler o post Diminuir o número de aulas ruins? Ótima ideia! pude fazer uma breve avaliação sobre o ensino médio, frequentado por mim e por muitos outros jovens.

O ensino em escolas públicas está ficando cada vez mais pobre e assim poucos se interessam em aprender, em mudar.

Seguem algumas observações a partir da minha experiência como aluno da EE J L R:

- Aulas vagas
- Professores sem estrutura pedagógica
- Reuniões-fantasmas

Esses são três assuntos que eu gostaria de comentar, pois considero bem graves.

Aulas vagas
Do que se trata? Em termos leigos, como nós mesmos (alunos) entitulamos, o conceito de aula vaga seria 'falta de professor'. Logo, sendo a falta de um professor, teríamos um outro, chamado de 'substituto', para que não ficássemos sem aula. Em resumo, quando um professor falta, existiria um segundo para cobrir suas faltas. Comentarei como funciona a situação no meu colégio:

Temos aula de segunda à sexta feira. Cada dia da semana, teríamos cinco aulas de determinadas disciplinas, que somariam vinte e cinco aulas. Por mês, teríamos então cem aulas, já que o mês tem aproximadamente quatro semanas. No entanto, dessas cem aulas mensais, posso afirmar que temos cerca de cinquenta, ou seja, por volta de 50%. Os outros 50%, bem, são aulas vagas. Isso não é brincadeira! O interessante é que, mesmo a escola contando com professores substitutos, muitas vezes somos dispensados ou ficamos sozinhos em sala de aula.

Em resumo, aula vaga já é algo 'padrão' onde eu estudo, algumas vezes são substituídas, outras ficamos ali mesmo esperando que algo aconteça, perdendo conteúdo, perdendo dias letivos, perdendo conhecimento em geral.

Professores sem estrutura pedagógica
É algo que ainda me assusta. Professores que chamam os alunos de porcos, 'molequinhos de merda', ‘bandidinhos’, são frequentes nas escolas, o que é triste, já que o profissional necessita ter um certo respeito, no mínimo um certo PROFISSIONALISMO para tratar com crianças e adolescentes.

No colégio onde estudo é comum escutar coisas como:

- Quer fazer faz, não quer, não faz.
- Fulano faltou? Melhor ainda, tomara que não volte.
- Tal sala só tem animais, bando de porcos.

Esse tipo de expressão é comum de se ouvir da boca de professores. Triste, não?

Reuniões-fantasmas
Eu costumo chamar de pretexto para que não haja aula. Um exemplo clássico: semana de fechamento de notas. Todo final de bimestre é realizado o chamado fechamento de notas. Como o nome já diz, fecha-se as notas de todos os alunos em todas as disciplinas. Nessa semana, temos uma ou duas aulas e no mais somos dispensados por reuniões de professores etc. e tal. Nunca sabemos de verdade o que se passa nessas reuniões... afinal, uma semana para fechamento de notas, sendo que dias antes alguns professores já estão com todas fechadas. Suspeito, não?

Esse é apenas UM episódio, pois há semanas em que um dia fica para reunião de professores, reunião disso, daquilo. Enfim, reuniões. E nesses dias, ou não temos aula, ou somos dispensados muito mais cedo...

Após esse excelente depoimento do aluno W, aproveitamos para festejar novamente a 1ª Ouvidoria do aluno, criada em Jacareí pelo Vereador Dario Burro. Viva Dario! E vamos aguardar mais textos de alunos da rede pública relatando o que se passa em suas escolas.

A escola tabu nº 35 - A escola contra o aluno


ATENÇÃO: ESTE POST FOI ESCRITO EM OUTUBRO DO ANO PASSADO E HAVIA SIDO TIRADO DO AR A PEDIDO DO ALUNO AO QUAL SE REFERE, AUTOR DE UM TEXTO QUE LHE RENDEU SÉRIA PERSEGUIÇÃO NA ESCOLA, ORQUESTRADA DE FORMA MAQUIAVÉLICA: PROFESSORES INSTIGARAM COLEGAS DO ALUNO CONTRA ELE, CONTANDO O ANTIGO CONTO DA CAROCHINHA DE QUE CRÍTICAS E DENÚNCIAS CONTRA A ESCOLA PODEM PROVOCAR SEU FECHAMENTO. O ALUNO CHEGOU ATÉ A SER AMEAÇADO DE MORTE POR COLEGAS, POR ISSO DELETAMOS OS DOIS POSTS, O DELE E ESTE. NO FINAL DO ANO O ALUNO COMPLETOU 18 ANOS,  SE FORMOU E ESTÁ FINALMENTE FORA DA ESCOLA, POR ISSO VOLTAMOS A PUBLICAR OS DOIS TEXTOS.

Como sempre dizemos, na rede pública de ensino o aluno não tem voz, ou melhor, ele prefere relevar os abusos de que é vítima, por medo da FATAL perseguição. A perseguição é a maior PROVA do autoritarismo da escola brasileira, e nisso podemos incluir também a rede particular.

A Cremilda costuma dizer que "ai" do pai ou aluno que se atreve a fazer uma denúncia sobre a escola e cujo nome é descoberto. Como fica então o aluno que faz sua denúncia abertamente e de cabeça erguida? Alguém tem dúvidas sobre o que vá acontecer com ele?...

Pois é! Hoje tivemos que deletar o primeiro post da série "A voz do aluno", pois recebemos tantos comentários cheios de desaforos e palavras chulas que deu vontade de chorar. O aluno que teve a coragem de apontar as falhas da sua escola está sendo absurdamente criticado tanto pelos professores, quanto pelos colegas. O que mais dói, claro, é a posição dos colegas, que deveriam ser solidários, pois eles sabem - ou deveriam saber - o quanto estão sendo prejudicados por uma escola ruim. SIM, ESCOLA RUIM! A nota do IDESP 2009 para o 3º ano do Ensino Médio dessa escola, que o aluno teve a coragem de criticar, foi 1,58 sobre 10!

Leiam agora um dos comentários ANÔNIMOS que recebemos, cuja publicação na íntegra não permitimos, por ser impublicável, mas, tirando os palavrões, já dá para perceber o nível da escola e a lavagem cerebral que a classe "docente" está fazendo nos alunos para calar a boca daquele que se atreveu a tecer críticas:

"eu quero dizer a esse troxa ai que comentou que ele é um otario do ....... ele naum tem coragem de se assumir frente a frente com pessoas civilizadas para falar o que te encomoda na escola pois ele msm sabe que naum passa de uma frescura no ...... que le tem pura mentira desse mongo naum ta satisfeito tem muitas outras escola ai que deve ser melhor seu otario pois essa é a melhor escola que ja estudei e naum é só eu que acho, seu vacilão do ....... acho melhor vc toma cuidado com o que fala sem ter certeza seu ........ do ........ vai toma no .... seu otario"

Esclarecemos que não mudamos "uma vírgula" (aliás, não havia mesmo vírgulas...) no comentário, só omitimos os palavrões. Os professores dessa escola deveriam ter vergonha de fazer a cabeça dos alunos contra aquele que teve a coragem de se colocar. Tem mais: esses professores precisam ser urgentemente reciclados, ou então demitidos. Precisamos explicar por quê?

É interessante que a primeira denúncia do aluno não foi sobre a qualidade da escola, foi sobre o abuso moral que ele sofreu por parte da vice-diretora, que o tratou usando palavrões do mesmo nível daqueles que deletamos do comentário acima. Essa, portanto, não é apenas uma escola ruim: é uma escola perversa, que trata seus alunos como MERDA, uma das palavras usadas pela vice-diretora no trato com o aluno.

Este caso mostra que o autoritarismo, na rede pública de ensino, chegou a um ponto insuportável. Por isso, estamos novamente de luto e vamos pedir à COGSP intervenção nessa escola.