30 março 2008

Troféu "Anta" ou "Jegue"?


O troféu "Anta da Educação" está guardado há mais de um ano, desde quando uma ilustre figura da SEE declarou que as escolas deveriam ter rodinhas...

Hoje temos a honra de conferi-lo, com toda pompa e circunstância, para duas autoridades que dividem o mérito:
A Rede Globo de Televisão e o INEP(T). O motivo é o mesmo: cansamos de denunciar que 90% das escolas públicas brasileiras têm suas bibliotecas fechadas. O INEP(T) nunca se dignou a fazer uma pesquisa que possa comprovar essa informação, mas nós temos o hábito de perguntar a todos os pais que nos procuram se a biblioteca da escola dos filhos está funcionando.
E a proporção é de 1 x 10.

Em vez de mostrar esse maior descalabro da educação pública brasileira - AS BIBLIOTECAS ESCOLARES FECHADAS, que perde apenas para o fenômeno da AULA VAGA - a Rede Globo de Televisão acabou ridicularizando a questão, apresentando projetos como o "jegue-livro", que em si pode ser uma proposta interessante e não é o xis da questão. Mais uma vez, a Globo prefere colocar uma cortina de fumaça diante de questões de extrema gravidade, que exigiriam uma investigação jornalística que não lhe convém. O que esperar de uma emissora que trata o telejornal como show, a ponto de maquiar com sombra colorida os lindos olhos azuis de seu apresentador/editor?...

É por essas e outras que a Globo acaba de merecer o troféu "Anta da Educação", empatada com o INEP(T), instituto de pesquisas sustentado com os nossos impostos, que nunca se dignou a fazer um levantamento das escolas que mantêm sua biblioteca fechada e menos ainda uma pesquisa confiável sobre a percentagem de aulas vagas na rede pública brasileira.

Apenas para dar um exemplo do descaso, da inércia e da incompetência com que é levada a questão das bibliotecas nas escolas, lembramos a EMEF Imperatriz Dona Amélia, em São Paulo, cuja sala de leitura está fechada há quase três anos, sendo que as mães do Conselho de Escola se propuseram a reorganizá-la e foram impedidas pela direção. Leiam com MUITA, MAS MUITA ATENÇÃO aqui http://educaforum.blogspot.com/2007/11/mais-uma-da-emef-imperatriz-dona-amlia.html a troca de e-mails com funcionárias da Secretaria Municipal da Educação desde abril do ano passado, com o nome e o cargo dessas profissionais, sem que a SME tenha se dignado a dar qualquer apoio às mães que se dispuseram a recuperar a biblioteca da escola, fechada até hoje. Essas mães, que estão pedindo uma reunião com o Secretário Alexandre Schneider desde essa época, estão sendo levadas em banho-maria por funcionárias da SME que afirmam a escola estar "funcionando em perfeitas condições"...

A propósito, aproveite para rever aqui http://educaforum.blogspot.com/2007/11/raio-x.html as fotos dessa escola "perfeita" e leia o rosário de denúncias tão ou mais graves do que o fechamento da biblioteca.

26 março 2008

Suspensão coletiva


Infelizmente, os símbolos da juventude são malvistos nas escolas. A família só é chamada para ouvir sobre o boné do filho. Além disso, quando se fala em violência e Educação, é difícil escapar da constatação de que o ensino no Brasil conserva hábitos autoritários.
O que falta na escola é diálogo. Não existe interação, e as instituições não são nem um pouco democráticas. Por mais que a escola fale em cidadania, voluntariado, etc., ela é um espaço muito autoritário. A escola será um agente de transformação quando ela for mais democrática.

Miriam Abramovay

A suspensão é de longe o instrumento “pedagógico” mais utilizado nas escolas públicas brasileiras. Mesmo assim, o assunto é tabu. O último post a esse respeito, http://educaforum.blogspot.com/2008/03/quem-serve-suspenso-de-alunos.html, passou em brancas nuvens. Nem um comentariozinho... Isto significa que o assunto incomoda, e muito!...

Para não perder o antigo vício de colocar o dedo na ferida, vou desta vez abordar a questão da suspensão coletiva. Trata-se de um “corretivo” aplicado a um grupo de alunos ou a uma classe inteira, com o objetivo confesso de restabelecer a ordem abalada por um motivo qualquer. A última “moda”, a fim de descaracterizar a suspensão como coletiva, é suspender metade da classe e, numa outra etapa, a segunda metade. Mesmo condenada por diversos instrumentos legais, a suspensão (que dirá a coletiva?...) continua sendo praticada diariamente na quase totalidade das escolas brasileiras e é um dos maiores símbolos do autoritarismo do sistema.

É exemplar o caso recente da EE Padre Josué S. de Mattos, em São João da Boa Vista, SP, onde “alguém” colocou fogo na lixeira de uma sala de aula e a primeira medida tomada pela direção da escola foi suspender a classe inteira por dois dias. Durante a suspensão coletiva dos alunos, denúncias anônimas apontaram uma suposta culpada, que nove meses após foi finalmente inocentada – não pelo Conselho de Escola, que a condenara, mas por um juiz de carne e osso!... (Deus proteja essa escola e todos os seus alunos, entregues a uma direção incompetente e perversa!!!)

A suspensão coletiva resolveu... o quê?...

Numa outra escola estadual, um grupo de alunos revoltados pela crônica falta de professores e pelas constantes aulas vagas criou um tumulto que acabou atrapalhando os demais alunos em aula. A direção da escola classificou o ato como motim e instituiu um tribunal interno que se encarregou de atribuir suspensão coletiva “individualizada”, de acordo com a participação de cada “rebelde”. Réus e testemunhas menores de idade foram interrogados exaustivamente, contrariando o ECA... éééééca!
Suspensão coletiva "individualizada": que tal lançar essa nova moda?...

Numa escola de ensino médio, uma classe de primeiro ano levou vários dias de suspensão, devido a repetidas brincadeiras dos alunos com relação a uma professora. Ao questionar, junto à diretora, que a suspensão coletiva, além de ilegal, havia sido aplicada sem advertência prévia, ela respondeu que isso era o de menos, pois os alunos vinham de escolas onde estavam acostumados a fazer “o que queriam” e precisavam de uma lição para assimilar o código disciplinar. Mas, atenção! O tal código disciplinar determinava três advertências escritas antes de uma suspensão...
Me diga se a “educação”, neste país, não parece um samba do crioulo doido?! Por um lado, sobrepõe-se um simples regimento escolar a uma lei federal, mas, se for “de interesse”, nem mesmo o tal regimento é respeitado...

Palavras de Luiz Gonzaga de Oliveira Pinto, presidente da Udemo, associação dos diretores de Escola: "Não me interessa o que a lei diz, na MINHA escola... (mando eu...)".

Está mais do que na hora de se refletir sobre a validade desse “corretivo” nos Conselhos de Escola, nas Diretorias de Ensino dos Estados e Municípios e nas próprias Secretarias da Educação. Mesmo porque – apesar da hipocrisia que nega o fato – repetidas suspensões levam à expulsão do aluno. Expulsão, sim! Camuflada de “transferência para outra unidade escolar”, a expulsão é uma prática constante na maioria das escolas, preocupadas em desovar os assim chamados alunos-problema, as “laranjas podres” que contaminam as outras...

22 março 2008

Natureza humana e hipocrisia

Em seu novo artigo na Veja, Gustavo Ioschpe vem com mais um assunto polêmico, muito bem amarrado ao problema educacional brasileiro. É a questão da ecologia, unanimidade absoluta no país. Responda rápido: o que é mais “bonitinho”, o mico-leão dourado ou aquela criança descalça e esfarrapada que você viu hoje passando no farol?...

A resposta tem a ver com seus valores. Bonito, feio, bom, ruim, interessante, indiferente, agradável, desagradável, são conceitos que indicam seus valores. E, já que estamos em clima de Páscoa, permita-me este plágio: Onde está teu tesouro, lá também está teu coração. Sim, os valores são coisas do coração...

O Brasil tem enormes problemas sociais e de desenvolvimento. Mas as soluções vão a passos de tartaruga, aliás, as metas não são claras e os métodos menos ainda. Pergunte a queima-roupa para alguém: como acabar com as favelas? como acabar com as secas no Nordeste? como resolver o problema do tráfico de drogas?... A resposta será provavelmente: Não sei. Mas talvez, no íntimo do coração, quem respondeu poderia complementar: Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe...
Essas perguntas não são ingênuas! Eu mesma presenciei a chegada de uma comissão vinda de Israel há uns trinta anos, trazendo a tecnologia que permitiu transformar o deserto em terra fértil, mas essas informações preciosas, que custaram muito $$$ aos cofres públicos, se perderam e o Nordeste continua como estava... Quanto ao tráfico de drogas, todos assistimos a solução em um filme de ficção pirateado no Brasil inteiro: bastaria que as classes média e alta parassem de sustentar esse negócio bilionário...

Pergunte agora para a mesma pessoa: como resolver o problema do efeito estufa? como impedir a destruição da camada de ozônio? como diminuir o desmatamento na Amazônia? É bem provável que venha uma enxurrada de respostas, pois o Jornal Nacional, o Globo Repórter e N outros programas se desdobram em veicular informações sobre o que se convenciona chamar de “natureza”. A mídia não é boba de divulgar o que não está no coração da população. Ela é sustentada pela propaganda empresarial e pela publicidade governamental. O que não toca o coração não vende. E o que move a mídia brasileira é o $ifrão$, que é talvez o maior VALOR da nossa sociedade...

Vamos acabar com a hipocrisia?

A solução dos problemas sociais não urge em nosso coração. Nós, classe média brasileira, damos graças a Deus de não termos problemas de “abastecimento”, de termos nossos filhos bem alimentados, agasalhados e instruídos. Daqui para frente, o sonho é mudar para uma casa com uma suíte para cada filho e depois construir uma casa de campo com piscina, ou então viajar pelo mundo.

A sociedade brasileira tem pouco apreço pela natureza... humana, que costuma dissociar do seu contexto. Por isso, se interessa mais pelas aves silvestres do que pelo pobre coitado que as caça para sustentar sua família... Nosso maior preconceito não é contra o negro, o homossexual ou o deficiente: é contra o pobre e o fraco, incluindo aí a criança. (Preconceito também é coisa do coração!...) Quem mandou “esses” favelados terem um monte de filhos e espalhá-los pelos faróis da cidade?... Quem mandou entupir as escolas públicas de crianças mal vestidas, mal alimentadas, provenientes de famílias não-estruturadas?... É bem por isso que, no Brasil, a questão "ambiental" é unanimidade e a questão social, que se preocupa com o ambiente humano, não goza do mesmo prestígio.

A solução para os problemas sociais brasileiros, aquela que vai impulsionar o desenvolvimento do país, não vai vir “de cima” - nem do governo, nem de Deus. Ela depende do pequeno esforço de cada um em ampliar seu campo de visão e sua escala de valores. Se conseguíssemos enxergar nessas crianças famintas e mal vestidas pessoas DE VALOR, não aceitaríamos que elas fossem deixadas no limbo do analfabetismo por professores que fazem da escola apenas seu meio de sustento, pois eles também, como nós, não prestigiam essas crianças e não acreditam que elas possam ter importância para o futuro da nação.
Não é do meu feitio, mas já que a Páscoa está chegando vou fazer outro plágio: Deixai vir a mim os pequeninos...

Um outro viés dessa questão: se entendêssemos a importância do dinheiro como meio de produzir desenvolvimento e progresso para o país, daríamos mais valor aos investimentos públicos, principalmente na educação. Por que não nos importamos que verbas polpudas, saídas do bolso de todos nós, sejam manipuladas e desviadas a bel prazer? Será que entendemos os órgãos públicos como loterias que distribuem riqueza para alguns privilegiados? Será que, no fundo, até invejamos aqueles que têm a coragem de colocá-las em seus próprios bolsos? Será que, se tivéssemos suficiente cara de pau, boa lábia e esperteza suficiente, não estaríamos também lá “em cima”?...

O futuro do Brasil depende de uma discussão mais profunda de suas prioridades. Se a nossa cegueira não nos permite enxergar além do prazer mais imediato e do interesse pessoal, pensemos ao menos em nossos filhos, que poderão herdar uma casa com piscina, mas estarão sujeitos a sofrer assaltos, seqüestros ou até a perder a vida nas mãos de quem não tem nada a perder.

Leia o novo artigo de Gustavo Ioschpe aqui http://veja.abril.com.br/gustavo_ioschpe/index_200308.shtml e discuta, discuta mesmo!

21 março 2008

O canto da baleia


Do blog da Cremilda, http://cremilda.blig.ig.com.br

O jornal Agora parece que acorda do sono milenar da imprensa brasileira, não um acordar pleno, mas um bom começo. Está fazendo o que sempre pedimos para as autoridades e principalmente para a imprensa. O jornal Agora resolveu OUVIR OS ALUNOS.

Está todo mundo hipnotizado num canto mórbido e numa crença de que o aluno é um monstro e qualquer professora é santa e abnegada. O aluno que ousa reagir sofre a pena máxima, trabalhos forçados ou privação de liberdade. A professora vista como santa, tocá-la, mesmo que seja para se defender, é considerado pela imprensa e pelas autoridades uma heresia, um crime hediondo sem direito a defesa. O canto da sereia, que está mais para baleia assassina, parece que hipnotiza quase todo mundo. Está matando o Brasil e o arrasta para um mar de lama. Os fatos que são narrados na imprensa mostram o óbvio. No caso mais recente, o de Ribeirão Preto, o aluno foi agredido e se defendeu. Vem a Apeoesp, pede pena máxima e é ouvida sem contestação. Na cidade de São Paulo a qualidade do ensino é pior que no interior, só que no interior a violência contra o aluno é muuuuito pior, o professor não é contestado mesmo, nunca. Daí a necessidade de se construir tantas CASAS, antigas FEBEMs, ambas casas de tortura, prisão nua e crua.

Esperamos que o saudável exemplo do Jornal Agora seja seguido. Se um jornal se livrou do canto da Baleia, quem sabe os outros não acordam também... A qualidade do ensino no Brasil só vai melhorar quando acabar a corrupção e a impunidade nas escolas. A corrupção e a impunidade só acabam quando os pais e alunos puderem ser ouvidos. Enquanto as escolas derem maus exemplos, é impossivel formar cidadãos de bem. Cidadãos deformados por uma escola corrupta saem de lá prontos para ouvir qualquer canto enganador. Temos pressa, não dá para esperar um milagre! Precisa coragem para afugentar essa Baleia ou Sereia para que vá cantar em outra freguesia, pode ser nas profundezas do mar, de onde nunca deveria ter saído.

Cremilda Estella Teixeira

20 março 2008

47 meses de injustiça


Lembra da EE Octacílio Lopes? Aquele "causo" em que um professor aproveitou o agito da classe durante o espancamento de um aluno (bullying), para chamá-lo de "bicha"?
O fato deu-se há quase quatro anos, mas prefiro comemorar antes da data correta, rsrs, pois ele é exemplar para entender como funciona a rede pública de ensino:

  1. O professor foi promovido a coordenador pedagógico em outra escola, a EE Adelaide Ferraz. É o que a amiga Cremilda chama de "lei da gravidade ao contrário": o fruto podre sobe...
  2. A Apuração Preliminar 721/04, instaurada pela Secretaria Estadual da Educação (processo interno) concluiu que tratou-se de brincadeira, alegando que "o termo 'bicha' tornou-se bastante comum entre os jovens, perdendo a característica de chulo pelo desgaste natural lingüístico e reconhece que muitos professores, PARA CATIVAREM SEUS ALUNOS, mantendo um relacionamento mais próximo e amistoso, FAZEM BRINCADEIRAS DESSE NAIPE COM SEUS PUPILOS".
  3. Somente depois de a denúncia ter sido divulgada na mídia, a Secretaria agilizou o processo administrativo e, passados 16 meses da denúncia inicial, foi publicada a punição contra o professor...: uma advertência escrita...!

Essa denúncia mostra perfeitamente o domínio da corporação na rede pública de ensino. Todo ano "comemoramos" o assunto - mas este ano tem novidade!!! Nosso amigo Mauro, o craque dos craques na análise dos números da educação, fez uma comparação entre as notas do Saresp da EE Octacílio e da EE Adelaide, para onde foi promovido o professor que apelidaremos de "bicha" (já que ele certamente não vai se ofender, não é mesmo? afinal é apenas uma brincadeira, rsrsrs). Essa análise mostra que, em três anos de coordenação, esse professor "bicha" conseguiu afundar a escola para onde foi transferido, que teve um desempenho ainda pior do que a péssima escola de origem...

Será que essa escola merece aquilo que o Mauro chama de "bônus da vergonha"?

E mais: o aluno merece ser chamado de "bicha" pelo seu professor?...

Leia completo aqui http://www.geocities.com/coepdeolho/posts/cre_190308.htm e confira a matéria do JT que "incentivou" a Secretaria da Educação a agilizar o processo que resultou na "punição" de advertência escrita para o professor http://www.geocities.com/coepdeolho/jt240305.htm

18 março 2008

É a Glória!


A melhor professora que eu coheço é a nossa amiga Glória Reis. A mais bonita! Como disse Vinícius,

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental.
É preciso que haja qualquer coisa
de flor em tudo isso...

A Glória foi educadora a vida inteira. Suas lembranças do magistério estão reunidas no livro Escola, instituição da tortura. Hoje, aposentada, leva as pétalas da sua competência, carinho, dedicação e coragem para crianças e adolescentes necessitados e muitas vezes abandonados pela escola. Ao contrário dessas professoras que fazem de tudo para se aposentar precocemente e dão graças a Deus por poderem "gozar a vida" ou fazer a viagem "dos seus sonhos", Glória dedica seus dias para crianças carentes e para adultos que já foram excluídos na infância e povoam a cadeia de Leopoldina, Minas Gerais. A beleza da Glória foi "premiada" por uma condenação que a tornou notícia nacional. Leia a última reportagem e prestigie sempre o blog da Glória:

A professora que incomodou a Justiça

Coluna Ruth de Aquino
Revista Época - Edição 513
17 de Março de 2008

O crime de uma professora aposentada foi escrever contra as péssimas condições de uma cadeia pública mineira.

Poucos a conheciam até que ela foi condenada a quatro meses de prisão por difamar um juiz. Maria da Glória Costa Reis é uma daquelas pessoas melhores que nós. Professora estadual aposentada, Glória se dedica a atender, como voluntária, "adolescentes em situação de risco social". E edita desde 2001 um pequeno jornal em que os presos de Leopoldina, Minas Gerais, escrevem artigos. O crime de Glória foi escrever um editorial contra as péssimas condições da cadeia pública da cidade e a negligência de juízes e advogados.

A professora, de 63 anos, magra, 1,65 metro e pouco vaidosa, com óculos de aro grande e forte senso de justiça, nunca imaginou que os 200 exemplares do jornal Recomeço pudessem incomodar tanto. Ela ganhou súbita fama, por obra de dois juízes. O juiz José Alfredo Jünger de Souza Vieira a processou, sentindo-se caluniado.O detalhe é que Glória não acusou ninguém no editorial, publicado em 2005. O doutor Vieira vestiu a carapuça. A professora escreveu: "Não é aceitável a conivência de magistrados, fiscais da lei, advogados, enfim, operadores do Direito, com tamanha barbárie". Ela denunciava a violação, em Leopoldina, de direitos fundamentais dos detentos. Como a falta de banho de sol.

O juiz Vieira, ex-titular da Vara Criminal e de Execução Penal em Leopoldina, abriu inquérito contra Glória. Há dois meses, a juíza Tânia Maria Elias Chain condenou a professora criminalmente por difamação, com base na Lei de Imprensa. Como Glória é ré primária, a pena foi convertida em prestação em dinheiro. Ela não irá para uma cela, mas se sente num labirinto. Já chorou de indignação e impotência. Como pode uma defensora de direitos humanos ser condenada pelo crime de denunciar violações de direitos humanos? O certo e urgente, num país civilizado, não seria investigar se a cadeia de Leopoldina desrespeita a Constituição? Só mesmo citando Kafka, como faz a professora em seu blog:
(http://jornalrecomeco.blogspot.com/):

"O que aconteceu comigo é apenas um caso isolado e não teria grande importância se não resumisse a maneira como se procede com muitos outros além de mim. É por eles que falo aqui, e não por mim" (trecho do livro O Processo, do escritor tcheco que viveu de 1883 a 1924).

O caso de Glória Reis já atravessou as fronteiras do país como exemplo de repressão à liberdade de expressão e abuso do Poder Judiciário. A sociedade, de maneira geral, está pouco se lixando para o que acontece nas prisões. Motins costumam emocionar apenas as famílias dos detentos. É como se nós, do lado de fora, nada tivéssemos a ver com o inferno da superlotação e dos abusos. É um raciocínio equivocado. Todos pagamos essa conta.

Em agosto do ano passado, 25 presos morreram num incêndio na cadeia de Ponte Nova, em Minas, após uma rebelião. Morreram abraçados. Vários estavam ali irregularmente. Deputados da CPI Carcerária pediram, no mês passado, a interdição da cadeia de Contagem, também em Minas. Prevista para receber 18 presos, ampliada para 40, tem hoje 122 detentos. O deputado Domingos Dutra (PT-MA) resumiu o caos: "Eles dormem no chão e precisam fazer revezamento. Alguns dormem no banheiro. Não há banho de sol. O inferno parece suave diante disso". O presidente Lula admitiu em discurso recente o descalabro dos presídios. "Se porrada educasse as pessoas, bandido saía da cadeia santo", disse.

Isso quer dizer exatamente o quê, excelentíssimos juízes doutores José Alfredo Vieira e Tânia Chain? Que nossas cadeias estão bem e devemos encarcerar a professora? Se eu fosse o governador Aécio Neves, convidaria Glória Reis para uma audiência, com direito a cafezinho e pão-de-queijo, e a trataria como bem merece. Como cidadã acima de qualquer suspeita.
Veja também o vídeo da matéria veiculada no Jornal Nacional:

17 março 2008

Comunidade presente???


A violência tem-se constituído num dos principais desafios contemporâneos aos responsáveis por políticas públicas. Sua manifestação está em todas as instâncias do tecido social. Concepções estabelecendo a origem da violência como fenômeno unicamente vinculado à existência da pobreza mostraram-se insuficientes para compreender e explicar as situações concretas dos dias atuais. Certamente, os componentes inerentes à violência encontram o cenário apto para suas manifestações onde a pobreza se traduz em restrição permanente. Porém, hoje parece não haver dúvidas acerca da relação entre a violência, a agressividade e a exclusão social, que perpassa a sociedade como um todo, independentemente, de sua situação sócio-econômica e cultural. A violência está associada a questões mais amplas, de natureza estrutural, revelando problemas INSTITUCIONAIS, SOCIAIS, POLÍTICOS.

O texto acima foi retirado do site da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo http://www.educacao.sp.gov.br/, esse “paquiderme” a serviço da corporação, onde não se encontra uma palavra sequer sobre a eleição do Conselho de Escola, o órgão que permite a gestão democrática e participativa dos pais de alunos. Esse texto bem que poderia ser o fundamento teórico para introduzir esse assunto, já que fala em “questões mais amplas, de natureza estrutural, revelando problemas INSTITUCIONAIS, SOCIAIS, POLÍTICOS”.

Mas não é nada disso! O texto acima se refere ao Programa Comunidade Presente da SEE, que tem o objetivo de “sensibilizar e instrumentalizar assistentes técnico pedagógicos (ATPs), diretores, professores, funcionários, pais e alunos, para que as escolas sejam espaços de exercício de participação e de organização dessa comunidade. As interfaces indivíduo/família/sociedade/governo podem possibilitar o estabelecimento de medidas preventivas de caráter educativo, complementando outras ações na área da segurança pública que venham atuar sobre fatores geradores da violência”.

Palavras muito bonitas! As intenções são bem menos...
Em primeiro lugar, “sensibilizar” os profissionais da educação da importância da participação dos pais não é o que está na lei! Depois que a própria Constituição prevê a participação da comunidade na gestão da escola http://educaforumtxt.blogspot.com/2007/01/gesto-participativa-na-escola.html, não se pode voltar ao estágio anterior, de “sensibilizar” os profissionais a abrir as portas da escola para os pais. Essas portas já precisam estar abertas! E o caminho é a eleição democrática do Conselho de Escola, órgão sequer mencionado no site da SEE. O discurso da corporação costuma repetir que é difícil “aproximar” os pais da escola... Conversa mole para boi dormir! Que o digam os pais de alunos que nos procuram constantemente, queixando-se do autoritarismo de professores, coordenadores e diretores de escola, apoiados nas Diretorias e Coordenadorias de Ensino, bem como nas Secretarias da Educação.

A fim de evitar minha habitual verborragia, vou tentar resumir os problemas tão bem colocados no texto da SEE (e tão mal administrados na própria rede de ensino!):

Problemas INSTITUCIONAIS
A gestão democrática e participativa da escola, que está na Constituição, é sumariamente boicotada pela buRRocracia oficial, que não é nem um pouco ingênua, acredite... Não interessa para a INSTITUIÇÃO escola ter a participação da comunidade em sua gestão. É por isso que 98% das escolas procedem à eleição do Conselho de forma irregular e é também por isso que o site da SEE, da SME e da maioria das Secretarias da Educação em todo o Brasil não mencionam uma vírgula sobre essa eleição, que deveria ocorrer no primeiro mês do ano letivo...

Problemas SOCIAIS
O perfil dos profissionais da educação na rede pública é muito diferente do perfil do usuário. A prova é que a maioria deles têm seus filhos estudando na rede particular. Por mais polêmica que seja esta questão, em algumas situações a classe docente mostra direitinho o abismo que a separa do usuário da rede. É quando o professor se dirige ao seu aluno desta forma:
“Aqui eu falto mesmo! Não posso é faltar na escola particular, onde meu filho estuda e onde garanto a sua educação.”
(Muitos alunos já ouviram seus professores falarem dessa forma, inclusive meus filhos.)
Será que interessa para o profissional da educação encurtar as distâncias sociais que os separam de seu aluno?...

Problemas POLÍTICOS
Esta é meu ver a questão mais complexa, pois pode ser abordada de várias formas:
  • A falta de VONTADE POLÍTICA da maioria dos diretores de escola em dividir seu PODER com a comunidade.
  • O poder POLÍTICO da classe docente, talvez a maior base eleitoral de toda a sociedade, disputado a tapa pela CLASSE POLÍTICA brasileira. Será que interessa aos Secretários da Educação, que se encontram em CARGOS DE CONFIANÇA, perder a simpatia e o apoio de seus maiores CABOS ELEITORAIS, a favor de uma comunidade que, talvez, só venha a criticar suas obras?...
  • Por último, mas não menos importante, o prazer POLÍTICO de adultos imaturos em testar seu PODER sobre crianças e adolescentes, seres em formação e com suas defesas ainda incompletas.

Finalizando, gostaria de citar mais uma “pérola” do texto da SEE retirado de seu próprio site e colocado como argumento para a implantação do seu Projeto Comunidade Presente:

"Conscientizar a comunidade a ocupar melhor seus ESPAÇOS DE DIREITO."

Ora bolas! O ESPAÇO DE DIREITO da comunidade escolar é dentro do Conselho de Escola. E esse espaço costuma ser-lhe negado, ou então lhe é oferecido de forma precária e em condições inconfessáveis. Enquanto não houver paridade de condições na gestão da escola pública, qualquer outro programa será pura cortina de fumaça. E a violência na escola vai continuar!

16 março 2008

Imprensa gazeteira


Imprensa gazeteira é o título do melhor artigo que eu já li sobre educação, publicado em O Estado de São Paulo na época em que esse jornal ainda dava uma cobertura decente do assunto Educação. A autoria é do excelente jornalista Luiz Weis e o texto data de, pelo menos, quinze anos... (ainda vou escarafunchar em minhas papeladas e copiá-lo aqui!). De lá para cá, a qualidade da cobertura da educação na mídia brasileira foi escorregando ladeira abaixo até cair no abismo. Leia abaixo os comentários do nosso amigo Mauro, do Coep, sobre mais um texto "light" da hoje maior autoridade jornalística do Brasil (!) em educação, Gilberto Dimenstein.

Ah, que saudades do Luiz Weis, do José Nêumanne, da Rosa Baptistella... Acho que estou ficando velha, rsrs.
Só discordo de um ponto do amigo Mauro: hoje o aluno percebe direitinho que não aprende nada na escola...

No artigo "País do faz-de-conta" (Folha de São Paulo, 16/03/2008), o jornalista Gilberto Dimenstein comentou os resultado do Saresp 2007:

"Está aí o custo daquela brincadeira de que, no Brasil, o aluno faz de conta que aprende e a escola faz de conta que ensina -o resultado final é a cidadania do faz-de-conta."

Esta frase demonstra um enorme preconceito contra nossos alunos e comete um equívoco absurdo: coloca no mesmo nível a responsabilidade do aluno (pessoas de 7 a 15 anos) com a direção escolar (profissionais com mais de 8 anos de magistério). Pior do que isso só mesmo o fato do jornalista usar uma frase que ignora as responsabilidades dos "professores" e as dos governantes!

A realidade das escolas brasileiras é mais sinistra: O aluno pensa que aprende, o professor finge que ensina, o coordenador finge que coordena, o diretor finge que dirige a escola, o supervisor finge que fiscaliza, e o governante finge que prioriza a educação... Mas o trouxa do contribuinte sempre paga a conta deste "cabidão de empregos" e os alunos carregam as marcas da ignorância por toda a vida.

Há mais de 10 anos o Movimento Comunidade de Olho na Escola Pública (COEP) vem dizendo que SP tem uma das piores escolas do Brasil. A novidade do Saresp 2007 foi a divulgação das notas por escola. Mas a corporação de professores, diretores e governantes já conhecem estes dados catastróficos desde 1996. Os 10 anos do Fundef (Fundo do Ensino Fundamental) aumentaram o rendimento dos professores em mais de 100%. Mas a falta de fiscalização e de punição para os que não cumprissem as metas levou ao absurdo de piorar uma educação que já era péssima.

Mauro Alves da Silva

15 março 2008

Ouvir o aluno


No post Gestão democrática na escola http://educaforum.blogspot.com/2008/03/gesto-democrtica-na-escola.html trouxemos o excelente exemplo do professor Braz Rodrigues, diretor da EMEF Campos Salles, na favela Heliópolis, São Paulo. Hoje trazemos o exemplo de outro diretor de escola em São Paulo, a EMEF Garcia d´Ávila. Trata-se do professor Waldir Romero, que em poucos anos conseguiu transformar uma escola popularmente chamada de “maloquinha” em referência para toda a rede municipal. O segredo do sucesso desse excelente diretor foi... OUVIR O ALUNO...

O secretário Alexandre Schneider deveria aproveitar esses dois exemplos de sucesso em sua rede para orientar os demais diretores e acabar com o autoritarismo que impera em escolas como a EMEF Imperatriz Dona Amélia, onde quem manda e desmanda é uma diretora incompetente e sem escrúpulos. A seguir, o texto parcial da revista Nova Escola que traz a informação. A matéria completa você pode ler aqui
http://revistaescola.abril.com.br/online/reportagem/repsemanal_273372.shtml
No bairro do Parque Peruche, na zona norte da capital paulista, o desafio do professor Waldir Romero parecia quase impossível quando ele assumiu a diretoria da Escola Municipal de Ensino Fundamental Comandante Garcia D´Avila. “A escola era conhecida pelo apelido de maloquinha. Daí vocês já podem imaginar a situação de violência, descuido e depredação que ela se encontrava”, relata Waldir.

Composta predominantemente por negros que migraram de bairros colonizados por estrangeiros, como o Bexiga, a população do Parque Peruche é marcada pelo descompasso entre os baixos índices de escolaridade e os alarmantes dados de deliqüência juvenil. Para ser aceito neste ambiente e começar a mudar a realidade que enxergava, o diretor Waldir resolveu fazer o que há muito tempo não se praticava na EMEF Garcia D´Avila: ouvir os alunos.

A partir das necessidades apresentadas pelos estudantes, Waldir começou a organizar eventos para integrar a escola com a comunidade e envolver todos em um projeto de ensino. “O primeiro pedido deles foi que organizássemos um baile na escola. Isso mesmo, um baile! Então fomos lá e fizemos, mesmo com um monte de gente falando que aquilo não ia dar em nada. O primeiro baile foi em 1996 e a tradição continua até hoje”, conta o diretor, orgulhoso.
A partir desse primeiro passo, Waldir conseguiu desarmar a agressividade e a revolta dos alunos e começou a envolver toda a comunidade do bairro em ações de formação continuada para professores, aulas sobre a história e os personagens da comunidade e diversas parcerias com instituições dentro e fora do bairro. “Trouxemos o samba para a sala de aula", conta o diretor. "Temos três escolas de samba no bairro e, todo ano, a escola se envolve com a fabricação de fantasias e as letras dos sambas-enredo são discutidas dentro do programa das aulas de português”, explica o diretor que já está há 12 anos à frente da Garcia D´Ávila.

A escola também passou a organizar a festa de aniversário do bairro, com direito a bolo comemorativo e desfile de carnaval. Também conseguiram patrocínio para editar um livro sobre a história da comunidade. “Começou a fazer sentido para as crianças morar no Peruche e estudar naquela escola. Deixou de ser uma vergonha para ser um orgulho. É assim que estamos transformando a maloquinha numa escola pública popular de qualidade”, orgulha-se Waldir.

14 março 2008

É o sexto documento. Será que ele leu pelo menos um?...


A apuração preliminar referente à EMEF Imperatriz Dona Amélia, concluída em dezembro, está finalmente na mesa do Secretário. Mas será que ele está a par dos acontecimentos? Leia o novo documento que lhe enviamos hoje, o sexto!

E d u c a F ó r u m
http://educaforum.blogspot.com/

Sr. Alexandre Alves Schneider
Secretário da Educação do Município de São Paulo
claudiaoliveira@prefeitura.sp.gov.br

Cópia Sr. Waldecir Navarrete Pelissoni
Chefe de Gabinete
wpelissoni@prefeitura.sp.gov.br

Cópia para Sra. Hatsue Ito
Coordenadora de Ensino de S. Mateus
smecesaomateusadm@prefeitura.sp.gov.br

Ref. Graves denúncias sobre a EMEF Imperatriz Dona Amélia – São Mateus - 6º documento

Sr. Secretário,

Em aditamento ao nosso 5º documento, enviado em 27/02/08, informamos que, na falta de sua resposta e em vista de que as mães da EMEF estão tentando em vão agendar uma reunião com V.Sa. desde o início das aulas, resolvemos investigar o assunto da apuração preliminar, que teria sido concluída em dezembro, conforme informação da própria coordenadora.

Soubemos que a documentação está, desde ontem, dia 13/03/08, na sua mesa para despacho. Gostaríamos de ter certeza de que V.Sa. teve a oportunidade de ler nossos e-mails, pois o último relata uma situação extremamente grave, em que a diretora da escola provocou deliberadamente um conflito entre alunos. É dessa forma que certos profissionais costumam praticar represálias contra os filhos daqueles pais que têm a coragem de denunciar irregularidades. No caso dessa EMEF, as represálias continuam, cada vez mais graves. Por esse motivo, pedimos que V.Sa. verifique os últimos acontecimentos e peça o livro de ocorrências da escola, pois, se a apuração foi concluída em dezembro do ano passado, ela está desatualizada!

Preferimos acreditar que V.Sa. não teve acesso aos nossos documentos e nem ao pedido de reunião das mães. Ele resume com muita propriedade os problemas que elas e seus filhos estão sofrendo na escola. Esperamos que finalmente V.Sa. lhes conceda uma reunião e que essas mães sejam atendidas dentro de uma sala fechada. De qualquer maneira, desta vez elas não levarão as crianças, a fim de evitar-lhes uma decepção ainda maior do que a primeira, quando foram atendidas no saguão da secretaria, ao lado dos toaletes.

Sr. Secretário, mais uma vez percebemos o desinteresse da SME em ouvir os pais de alunos. Até hoje essas mães, que pertencem ao Conselho de Escola, foram apenas intimidadas, constrangidas e humilhadas, aliás, desde o início do ano elas têm o acesso ao interior da escola vedado.

Agradecemos sua atenção, na esperança de que V.Sa. seja finalmente inteirado do autoritarismo que domina essa EMEF e que tome providências.

Atenciosamente

EducaFórum e Movimento Ideamos
Leia aqui todo o dossiê sobre a EMEF Imperatriz Dona Amélia:

13 março 2008

Quais as próximas vítimas?

Já que alguns leitores não se convenceram da inocência da garota acusada de atear fogo à lixeira da classe em São João da Boa Vista, publicamos o documento que enviamos à Secretaria Estadual da Educação em 29 de fevereiro e que aguarda resposta da Coordenadoria de Ensino do Interior. Tomara que agora a situação fique clara e que o nível da discussão possa ser aprofundado.

E d u c a F ó r u m
http://educaforum.blogspot.com/

São Paulo, 29 de fevereiro de 2008

Profª Maria Helena de Castro – Secretária Estadual da Educação (mhcastro@sp.gov.br)
Profª Edna Matos – Coordenadora do Interior (edna.matos@edunet.sp.gov.br)
Diretoria de Ensino de São João da Boa Vista (de.sjboavista@edunet.sp.gov.br)

Ref.: Assunto EE Padre Josué Silveira de Mattos, São João da Boa Vista / Quais as próximas vítimas?

Prezadas Autoridades,

Agradecemos o relatório recebido e gostaríamos de dar as últimas informações sobre o assunto, bem como tecer alguns comentários e fazer algumas perguntas.

Durante a audiência do dia 25/02, o juiz se convenceu da inocência da aluna, pois os alunos arrolados como "testemunhas da acusação" entraram em contradições grosseiras, como, por exemplo, um declarar que a ré havia usado isqueiro e outro que ela havia usado fósforo, para colocar fogo à lixeira da classe. Em cinco minutos o juiz arquivou o processo e declarou aos alunos que, se eles fossem maiores de idade, os colocaria atrás das grades por falso testemunho.

Entendemos que, do ponto de vista pedagógico, o caso não está encerrado, aliás tomou um viés bastante delicado, que gostaríamos de discutir:

Se a SEE acredita que o Conselho de Escola é "soberano" em suas decisões, mesmo no caso de violar a Constituição Federal e o ECA, que garantem ao aluno o direito à educação e a permanência na escola, então entendemos que os "processos" simulados nos tribunais de exceção instaurados durante as reuniões do CE deveriam ser conduzidos com um mínimo de rigor. Em nosso documento anterior anexamos as atas das reuniões de Conselho de Escola de 13 e 17/04/07, onde fica absolutamente claro que não houve a apuração dos fatos. Se o juiz, em cinco minutos e após apenas algumas perguntas, percebeu que as "testemunhas da acusação" entraram em profundas contradições, então perguntamos:
É possível que, durante duas reuniões de Conselho de Escola e mais duas reuniões prévias com os alunos da classe da garota (das quais ela foi excluída, pois já estava suspensa das aulas e não teve o direito de se defender na presença dos colegas), nenhum fato tenha sido apurado? Repetimos aqui trecho da ata de reunião do CE de 17/04/07, já mencionado em nosso documento anterior:

“Foi realizada nos dias 9 e 11 de abril uma reunião com os alunos da 1ª Série F, direção, coordenação e professoras Ivani e Vaneska, com o objetivo de esclarecer e apurar as denúncias feitas pelos próprios alunos, em relação à responsabilidade pelo ato de atear fogo no lixo da sala de aula. Obteve-se como resultado que, de vinte e oito alunos presentes no total, vinte e dois alunos apontaram a aluna Francieli Machado Domingos como autora da prática e os seis restantes como ‘não sei’, conforme documento anexo”.

Então perguntamos como funcionam esses "tribunais de exceção" armados nas escolas, seja nos Conselhos, seja dentro das salas de aula: trata-se de simples votação, sem qualquer apuração de fatos? É assim que se decide a expulsão (transferência compulsória) de um aluno? Por simples votação?...

O principal motivo desta pergunta é que recebemos a cópia da ata do CE sem o "documento anexo" mencionado na mesma. Perguntamos também se a SEE recebe informações pontuais e/ou mantém algum registro das transferências compulsórias efetuadas nas escolas da rede durante cada ano letivo. Gostaríamos que essas perguntas fossem respondidas do ponto de vista pedagógico. No entanto, do ponto de vista legal, continuamos acreditando que se trata de graves violações à Constituição e ao ECA e gostaríamos de obter o parecer do seu Departamento Jurídico. Esta solicitação, aliás, data de anos!

A pergunta que mais nos aflige, agora que a aluna foi definitivamente inocentada - e acreditamos que ninguém irá contestar a autoridade do juiz - é a seguinte: o que vai acontecer com os quatro alunos arrolados como "testemunhas da acusação"? Essa pergunta exige também outras respostas: como foram "arroladas" essas quatro testemunhas? Que tipo de pressão, lavagem cerebral, enfim, qual CONSTRANGIMENTO esses alunos sofreram para aceitarem desempenhar esse papel? Se houve duas reuniões com os alunos da classe onde ocorreu o fato, uma no dia 9 e outra no dia 11/04/07, foi porque uma única reunião não foi suficiente para chegar a um "veredicto". Entendemos portanto que houve, no mínimo, duas reuniões de uma hora cada. O que aconteceu durante essas duas horas em que os alunos estiveram com a "Direção, Coordenação e professoras Ivani e Vaneska"? Qual foi a fala da Direção, Coordenação e das professoras? Qual foi a fala dos alunos? Se, em cinco minutos de conversa com os alunos, o juiz percebeu graves contradições nos testemunhos, como é possível que, durante duas reuniões, quatro profissionais da educação não tenham conseguido esclarecer os fatos?

Prezadas Autoridades, pedimos que tudo isso seja apurado com o máximo rigor, para evitar que toda essa história sórdida de injustiças, vingança e manipulação de alunos que dura já quase um ano não resulte em mais vítimas inocentes. Entendemos que a responsabilidade dos desdobramentos absurdos de um simples fato de indisciplina não pode ser imputada a alunos adolescentes. Entendemos também que a responsabilidade final das conseqüências desses fatos é da SEE, que tem sido exaustivamente avisada da instauração de "tribunais de exceção" para a expulsão (transferência compulsória) de alunos. No mínimo, o caso atual deveria servir de exemplo para toda a rede, de COMO NÃO SE DEVE TRATAR um ato de indisciplina escolar.

No aguardo de seu posicionamento, mais uma vez agradecemos sua disposição ao diálogo.

Atenciosamente,
EducaFórum
PAIS, ALUNOS, EDUCADORES E CIDADÃOS QUE LUTAM PELA ESCOLA PÚBLICA E PELA CIDADANIA

Para os leitores que estejam entrando neste blog pela primeira vez, seguem os links dos posts anteriores referentes ao assunto:
http://educaforum.blogspot.com/2008/02/uma-filmagem-vale-mais-do-que.html
http://educaforum.blogspot.com/2008/02/denncia.html
http://educaforum.blogspot.com/2008/02/parabns-juiz-misael.html

Conselho de escola? Para quê?!


Você que acha exageradas nossas queixas sobre a falta de transparência no processo de eleição dos Conselhos de Escola, veja essa:
Amanhã, 14 de março, deveria se realizar a eleição do Conselho da “famosa” EMEF Imperatriz Dona Amélia, São Paulo, escola alvo de apuração de uma série de irregularidades noticiadas no ano passado. Pois bem: na minha ingenuidade pensei que, tendo um processo administrativo em curso, a direção da escola tomaria um certo cuidado para programar a eleição do Conselho dentro de um mínimo de retidão. Ledo engano!

Na reunião do dia 25 de fevereiro, a diretora da escola declarou que ia “correr” com a eleição, pois o prazo máximo dado pela SME seria o dia 14 de março. De lá para cá, os pais não foram avisados de absolutamente nada, nem mesmo o horário da eleição foi marcado.
E muito menos os pais receberam alguma comunicação por escrito! Nem mesmo aquela famosa papeleta de 2 cm foi distribuída através dos alunos...

Hoje, às 11h00, telefonamos para a Secretaria Municipal da Educação e tentamos falar com o Chefe de Gabinete, Waldemar Pelissoni: em reunião. Pedimos então para falar com Cláudia Oliveira, secretária do Secretário Alexandre Schneider: ainda não tinha chegado. Perguntamos quem era responsável pelo assunto “eleição de Conselho de Escola” e transferiram para a Rita, secretária da ATT. Perguntamos para ela se a SME havia estipulado uma única data para a eleição dos Conselhos de Escola na rede, mas ela não sabia. Perguntamos quem era a autoridade que respondia pelo assunto: ela não sabia, mas iria se informar e nos comunicar "em seguida". Perguntamos então como é que ela conseguia trabalhar em um lugar onde ninguém sabe nada de nada e resolve menos ainda!...

Entenderam agora que NENHUMA REDE DE ENSINO PÚBLICO quer os pais dentro da escola?

12 março 2008

Onze perguntas sem resposta


A Folha de São Paulo realizou ontem um debate com a Secretária de Educação do Estado de São Paulo, Maria Helena de Castro. O mediador foi um cada vez mais deslumbrado Gilberto Dimenstein, que chegou a chamá-la de “estrela da educação”.

É óbvio que as perguntas foram “light” e que os pais de alunos vão continuar sem respostas.

Nosso amigo Mauro, do Coep, elaborou dez perguntinhas básicas que não teriam chance alguma de serem colocadas para a Secretária. Faço questão de reproduzi-las aqui, para mostrar como estamos longe de obter alguma transparência na educação:

  1. O PSDB está governando São Paulo há treze anos. Sendo você do PSDB, também se sente responsável pelo baixo nível educacional em São Paulo?
  2. Um ex-secretário, conhecido como “Alice no país das maravilhas”, que é seu colega no PSDB, chegou a confessar que havia cerca de duas mil denúncias anuais contra escolas que praticavam violências contra alunos, pais e comunidade. Mas ele acredita no mito de que professorinha é santa e abnegada, não merecendo nenhuma crítica. Você também acredita no mito da professorinha abnegada? Qual é o medo que você tem em divulgar dados sobre a violência das escolas e a solução de cada caso denunciado?
  3. Você concorda com o Relatório da SEE dizendo que “É normal professor chamar aluno de bicha”? Isso garante a promoção automática do professor a coordenador pedagógico? Quem vai, de fato, indicar os novos 12 mil coordenadores pedagógicos?
  4. Por que as escolas não estão sendo punidas por descumprir a Resolução SE nº80/2002, que determina a elaboração do registro mensal de violências?
  5. Por que você tem medo de que os alunos, pais e comunidade conheçam as notas individuais de cada escola? A nota do aluno não deveria ser a nota do professor?
  6. Existe um mito de que diretor de escola em SP é concursado. Como é possível, então, termos escolas em que passam 2, 3 ou mais diretores em um único ano? Quem indica esses diretores? Quem tem medo de eleição direta para diretor de escola?
  7. Qual é o seu medo em divulgar diariamente as faltas de cada professor por unidade escolar? Os alunos não têm direitos a 800 horas de aulas em 200 dias letivos?
  8. Em junho de 2007, várias escolas foram flagradas cobrando taxas ilegais dos alunos (prova, xerox, carteirinha, uniforme etc). O governador Serra falou em crime e chantagem. A Secretaria enviou questionários a todas as escolas pedindo informações sobre essas cobranças ilegais. Por que você não divulga as respostas dos questionários e nem pune as escolas que praticam estes atos criminosos e de chantagem contra nossas crianças?
  9. Nestes seus mais de 30 anos na área da educação, você sabe de algum professor que tenha sido demitido por baixo desempenho na educação básica?
  10. Não é falta de vergonha na cara dar bônus para professor que não ensina, para diretor que não cumpre a lei ou para supervisor de ensino que protege maus diretores, maus professores e maus funcionários das escolas públicas paulistas?

    Mauro Alves da Silva
    http://cremilda.blig.ig.com.br/

Para terminar e não perder o costume, a perguntinha básica que todo ano o Educafórum costuma fazer à SEE, à SME e ao MEC:

11. Por que a eleição dos Conselhos de Escola não é amplamente divulgada na rede e na comunidade? Por que seu site oficial não dá ao menos uma chamada sobre o assunto? Seu site é privativo da corporação, que quer a comunidade fora da escola?

11 março 2008

Chora, professor, chora!


Professor está sempre chorando por um salário "melhor". Cansamos de pedir para que um deles nos mostrasse seu holerite, nunca conseguimos...

De mão beijada, direto do site da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (o site privativo da corporação, dona da escola pública), uma informação bem objetiva:

Um professor na rede estadual ganha hoje, de início, para 24 horas semanais, R$ 1.036,00.
A seguir o trecho completo, "escondido" no interior do site da SEE dentro de um texto que se refere à contratação de coordenadores pedagógicos...
O salário inicial de professor-coordenador de ciclo 1 é de R$ 1.773,71. Para ciclo 2 e Ensino Médio é de R$ 1.975,55. Um professor na rede estadual ganha hoje, de início, para 24 horas semanais, R$ 1.036,00.

Que profissional de outra área tem um salário inicial de mais de mil reais para trabalhar meia jornada, com direito a dois períodos de férias por ano, N faltas abonadas & outras mordomias?...

A SEE vai premiar os profissionais mais competentes e dedicados com bônus e acréscimos nos salários. Isto significa que o professor mais ineficiente e relapso poderá continuar empurrando o aluno com a barriga. Pra que sacrifício???...

Gestão democrática na escola


Muitas vezes percebo que estamos pregando no “deserto”, de tanto que batemos sempre nas mesmas teclas. Mas, de vez em quando e muito timidamente, a mídia mostra exemplos que vêm de encontro às nossas propostas. Infelizmente são casos pontuais, que não recebem o aval das Secretarias da Educação, a não ser apoios “entusiasmados” das autoridades de plantão nos telejornais. Falar é muito fácil e estamos cansados de blá-blá-blá!...

É o caso da Gestão Participativa na Escola, assunto que estamos desenvolvendo há pelo menos quinze anos e que está na lei, ou melhor, na Constituição!!! Refrescando a memória, leia aqui nosso “eterno” artigo Gestão participativa na escola: a exclusão da comunidade
http://educaforumtxt.blogspot.com/2007/01/gesto-participativa-na-escola.html

A aplicação das medidas básicas que permitiriam a realização desse processo esbarra no autoritarismo da rede pública de ensino. Quem manda é a corporação, que mantém o cabresto bem apertado. E que os Secretários da Educação, principalmente Maria Helena de Castro e Alexandre Schneider, responsáveis pelas redes do maior estado e município do País, não venham com o argumento de que fazem “o possível” para implantar a gestão democrática em suas redes! A prova cabal do contrário é a seguinte:

Nunca se viu, nos sites das Secretarias Municipal e Estadual da Educação de São Paulo, qualquer incentivo às escolas e, principalmente, aos diretores, para que se realizasse a eleição democrática dos Conselhos de Escola, muitos deles reduzidos a tribunais de exceção para a expulsão de alunos, conforme os inúmeros casos já trazidos aqui no blog.

É isso que não cabe na “cachola” dos nossos Secretários da Educação: em primeiro lugar, é necessário atuar sobre os diretores de escola, garantindo que eles aceitem e apóiem a gestão participativa. Mas, macacos velhos que somos ( rsrs) sabemos muito bem que não é do interesse das próprias Secretarias de Educação a real democratização da rede pública de ensino. Caso contrário, muitos diretores autoritários e até perversos seriam simplesmente demitidos.
Exceções existem e é sempre um prazer vê-las publicadas na mídia. Todas elas provam por A+B que é impossível a gestão democrática numa escola, sem a adesão do diretor. Leiam aqui a matéria da Revista Nova Escola de março, O líder que faz a diferença
http://revistaescola.abril.com.br/edicoes/0210/aberto/mt_271324.shtml
Aliás, também nesses casos, na falta de incentivo oficial, a iniciativa de democratizar a gestão da escola partiu dos próprios diretores...

Destaca-se nessa edição o depoimento do diretor Braz Rodrigues, da EMEF Campos Salles, em Heliópolis, que encontrou uma forma estratégica de “conquistar” a comunidade local: após saber que seria o novo diretor da escola, começou a freqüentar a favela sem se identificar como educador, inclusive pulando o muro da escola para jogar bola junto com outros moradores... Muito admira que ele não tenha sido “escorraçado” pelo antigo diretor, rsrs. Pois é, se fosse do interesse das Secretarias da Educação que as escolas fossem geridas de forma participativa, nenhum diretor de escola precisaria se apresentar como cidadão “comum” para merecer a simpatia dos pais e alunos, rsrs. Que o digam os pais e alunos vítimas das “jararacas” protagonistas dos episódios resumidos aqui
http://educaforum.blogspot.com/2008/02/rainhas-da-cocada-preta.html

07 março 2008

Qual dia não é nosso?


Desejo hoje um Brasil mais feminino, mais acolhedor, mais voltado para o cuidado das pessoas, das crianças. O que somos nós, mulheres, sem os nossos filhos, sobrinhos, netos, sem o sorriso dos bebês, sem a risada espontânea das crianças e a energia do adolescente? Desejo um Brasil menos mesquinho, menos corrupto, menos panfletário, menos autoritário e burRocrático.
Desejo um Brasil mais humano, preocupado com a preservação da vida, disposto a abrir novos caminhos na conquista do conhecimento, da sabedoria, da seriedade sem a qual nenhum futuro é possível.

Leia só se tiver estômago


Talvez você já saiba - ou não - mas o aluno de Ribeirão Preto que agrediu a professora após ela ter xingado sua mãe já se encontra na Febem local. Desse "monstro" a sociedade está salva! Acredite que ele será mantido preso os três anos que a lei determina para adolescentes que cometem crimes "hediondos" como esse. A professora que xingou a mãe do garoto encontra-se no gozo de merecida licença, enquanto o aluno que revidou já tem seu futuro condenado.
Graças à minha, à sua, à nossa omissão!...

Se você tiver estômago, leia a seguir um fragmento do relatório sobre a intervenção ocorrida numa unidade da Febem de Ribeirão Preto em agosto de 2003. Mas, por favor, não caia no "conto da carochinha" de acreditar que após a mudança do nome da instituição para "Casa" tudo mudou para melhor!
Entretanto, se você é da turma que torce pelo extermínio da nossa juventude, vai apreciar a íntegra do relatório. Leia aqui http://www.geocities.com/fecharfebem/RelFebemRP.htm

Na manhã de 7 de agosto de 2003, alguns adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de internação, que ocupavam o Módulo 2 da Unidade de Internação Rio Pardo, recusaram-se a ingressar em sala de aula, pois pretendiam brincar com skate.
O então Diretor da Unidade, Adauto Pereira, não estava lá e, durante toda a manhã, tentou-se resolver a questão, por meio de outros funcionários, dentre eles o encarregado técnico Reginaldo de Souza Coelho. Os adolescentes não usaram o skate, mas também não assistiram à aula.
Logo após o almoço, alguns adolescentes do Módulo 2 jogaram pedaços de carteiras escolares e pedras por cima da muralha. Já no local, Adauto Pereira chamou um grupo de funcionários estranhos àquela Unidade, conhecido como “Grupo de Intervenção” ou “Choquinho”, para que procedessem à intervenção. Frise-se que esse grupo era integrado por funcionários de outras unidades do Estado de São Paulo.

Membros do “Grupo de Intervenção”, dentre eles, Vagner Roberto Barbieri, de alcunha “Blady”, Carlos Ulisses Baraviera, de alcunha “Boca de Lata”, Joaquim Carmo da Silva Filho, Antonio Carlos Santos, Noel Fernando Pereira e Rodolfo César Falconi, munidos com pedaços de pau e gritando muito alto, entraram no Módulo 2, correndo atrás dos adolescentes e os espancando.
Após a primeira sessão de espancamento e sob o comando dos funcionários, os adolescentes ficaram nus. Trajando apenas cueca, sentaram no chão do pátio, “encaixados” (um atrás do outro, presos pelas pernas), com as cabeças baixas e as mãos sobre as nucas. Os funcionários agrediram, com safanões, os adolescentes que não suportavam ficar por muito tempo com a cabeça baixa, utilizando a seguinte expressão: “Ei vagabundo! Abaixa essa cabeça, ladrão!”.
Alguns adolescentes foram “destacados” do grupo que estava sentado no pátio e levados para trás do prédio onde se situam os quartos. Ali, os funcionários desferiram tapas, socos, pontapés e pauladas nos adolescentes.

Funcionários daquela Unidade colaboraram com o “Grupo de Intervenção”, agredindo física e verbalmente os adolescentes, dentre eles, o diretor Adauto Pereira, José Luiz Teles da Silva, João Paulo Meneia Arroyo Júnior, Celso Antonio Ribeiro, Marcos Alberto dos Santos e Anderson de Souza.
Durante horas, os adolescentes do Módulo 2 foram submetidos a tratamento violento, desumano, vexatório, aterrorizante e constrangedor.
Os funcionários cortaram os cabelos de todos os adolescentes, deixando-os com as cabeças raspadas.
Como se as agressões físicas não fossem o bastante, os funcionários humilharam e ofenderam verbalmente os adolescentes.
Os funcionários Vagner Roberto Barbieri e Carlos Ulisses Baraviera protagonizaram as piores cenas de terror e humilhação. Por ordem deles, os adolescentes foram obrigados a dizer que eram “suínos” e “tangas soltas e atoladas” (expressão utilizada no sentido de homossexual) e que “amavam os funça” (corruptela da palavra funcionário).
Carlos Ulisses, o “Boca de Lata”, dirigiu-se aos adolescentes, em voz alta, usando as seguintes palavras: “Vocês estão tomados pelo demônio e agora vocês encontraram Deus! Vocês serão libertos pelo ‘Exu Caibrada’. Aleluia!”. Vagner apresentou-se como “Professor do Capeta” e disse que iria “chupar o sangue” dos adolescentes.
Um dos adolescentes chegou a vomitar e foi obrigado a sentar e a esfregar-se sobre o vômito. Outro adolescente urinou e foi obrigado a ficar de pé, expondo-se aos funcionários e aos demais adolescentes, com a cueca e as pernas molhadas. A agravar o tratamento vexatório, essa vítima teve de ouvir a seguinte manifestação de um dos funcionários: “Olha! Ele mijou na cueca”. Outros, ainda, ao serem chamados para o corte de cabelo, levantaram-se do chão e se apresentaram com o pênis ereto. Os funcionários do “Grupo de Intervenção” dirigiram-se a eles usando a seguinte expressão: “Oh! Mocinha ... fica de pé para todo mundo ver. Só porque você estava encostado nele ficou de pau duro!”. Um adolescente negro foi agredido verbalmente por funcionário que usou a seguinte expressão: “Neguinho tem esse bico de tanto fumar maconha”.

Os pertences dos adolescentes (fotos, cartas, artesanatos, exemplares da Bíblia Sagrada, cuecas, escovas de dente, etc.) foram retirados dos quartos pelos funcionários do “Grupo de Intervenção” e jogados no pátio. Funcionários cataram e separaram esses pertences, colocando-os em sacos.
Os adolescentes foram obrigados a fazer faxina na unidade e, após banho de ducha e troca de roupa, foram colocados nos quartos.

Motivação na aprendizagem


O artigo abaixo, indicado por um amigo, é de autoria de Cássia Ravena Mulin de Assis Medel, orientadora pedagógica carioca. Achei o texto extremamente lógico e ao mesmo tempo revelador. Cabe ressaltar que a autora trabalha em duas escolas da rede pública de ensino, não tem portanto uma visão meramente teórica. Me pergunto se é por coincidência que os bons exemplos que nos indicam vêm do Estado do Rio de Janeiro. Será que se trata de uma "ilha" nesse mar de incompetência que assola o país?...

Os professores estão sempre se perguntando sobre o que devem fazer para que os alunos realmente aprendam. Segundo o dicionário Silveira Bueno, motivação quer dizer exposição de motivos ou causas; animação; entusiasmo. Através dessas definições, pode-se constatar que estar motivado é estar animado, entusiasmado. Para isso, é necessário ter motivos para se chegar a esse estado.

Qualquer coisa que se faça na vida, é necessário primeiro a vontade de realizá-la, senão nada acontece. Isso também ocorre na educação. Educação requer Ação e como resultado dessa ação há o APRENDIZADO. Mas para que se realize a ação e esta resulte no aprendizado é necessário, inicialmente, que haja a VONTADE, nesse caso, a vontade de aprender. O professor deve descobrir estratégias, recursos para fazer com que o aluno queira aprender, em outras palavras, deve fornecer estímulos para que o aluno se sinta motivado a aprender. Como por exemplo:
  • Dar tratamento igual a todos os alunos.
  • Aproveitar as vivências que o aluno já tem e traz para a escola no momento de montar o currículo, incluir temas que tenham relação, isto é, estejam ligados à realidade do aluno, a sua história de vida, respeitando a sua vida social, familiar.
  • Mostrar-se disponível para o aluno, ou seja, mostrar que ele pode contar sempre com o professor.
  • Ser paciente e compreensivo com o aluno.
  • Procurar elevar a auto-estima do aluno, respeitando-o e valorizando-o.
  • Utilizar métodos e estratégias variadas e propostas de atividades desafiadoras.
  • Mostrar-se aberto e afetivo para e com o aluno.
  • “Acolher” realmente o aluno.
  • Dar carinho e limites na medida certa e no momento adequado.
  • Manter sempre um bom relacionamento com o aluno, e consequentemente, um clima de harmonia.
  • Fazer de cada aula um momento de real reflexão.
  • Ter expectativas positivas acerca do aluno.
  • Saber ouvir o aluno.
  • Não ridicularizá-lo jamais.
  • Amar muito o que faz, a sua profissão de professor.
  • Mostrar para o aluno que ele pode fazer a DIFERENÇA, isto é, que ele tem o seu lugar e o seu valor no mundo.
  • Perceber que ele, o professor, pode fazer a DIFERENÇA, para o aluno.
  • O professor deve ensinar o aluno a ser ético e crítico, mostrando a ele que a crítica é boa , desde que feita de maneira adequada e que a ética é fundamental em qualquer relacionamento humano, em qualquer ambiente: Familiar, Social, Escolar, entre outros.
Cássia Ravena Mulin de Assis Medel

03 março 2008

Violência nas escolas - O círculo vicioso


A questão da violência nas escolas ainda é assunto tabu, pois a mídia costuma mostrar apenas um viés: a violência do aluno contra o professor, às vezes de forma absurdamente incompetente ou francamente tendenciosa, como mostra o vídeo da reportagem veiculada no Jornal Hoje, da Globo, em 25/02/08 ttp://jornalhoje.globo.com/JHoje/0,19125,VJS0-3076-20080225-316955,00.html. É impressionante como a mídia atende aos “apelos” dos sindicatos da educação, sem se preocupar em ouvir o “outro lado”, veiculando matérias prolixas e confusas que só servem para alimentar o viés anti-aluno.

A partir do momento que foi proibido – a pedido de professores! - o uso do celular nas salas de aula, os alunos perderam toda e qualquer possibilidade de registrar os atos de violência de que são vítimas, principalmente os mais sórdidos e “sutis”.

Por exemplo: se os alunos da EMEF Imperatriz Dona Amélia pudessem ter filmado a diretora da escola colocando o Livro de Ocorrências na mesa de um aluno, para que ele espalhasse na classe os nomes das mães que registraram sua indisciplina, seria muito fácil mostrar a atitude perversa dessa “educadora”, que provocou brigas e até ameaças de morte entre os alunos nos dias seguintes. Infelizmente esse ato se deu entre quatro paredes e o testemunho de alunos não tem valor nenhum dentro de um sistema que considera a criança e o adolescente um ser mentiroso em potencial. A não ser que o interesse seja da diretora da escola, como na EE Padre Josué Silveira de Mattos, em São João da Boa Vista, que arrolou quatro alunos como “testemunhas da acusação” de uma menina inocente. Após apenas cinco minutos de depoimento, o juiz percebeu que a garota havia sido vítima de armação e arquivou o processo...

O que acabo de relatar são fatos já bastante documentados neste blog (leia o resumo no post http://educaforum.blogspot.com/2008/02/rainhas-da-cocada-preta.html),
mas eles não sensibilizam uma sociedade voltada para a defesa do adulto e das “autoridades”, em detrimento da criança e do adolescente. Não é à toa que foi necessário criar o ECA no Brasil... E até hoje essa lei federal é desprestigiada e tratada dessa forma: Éééééca!, principalmente nas escolas.

Como diz Mário Sérgio Cortella no vídeo acima, a violência na escola é reflexo da violência na sociedade, mas dentro da sala de aula ela toma proporções mais dramáticas, pois entende-se que, dentro de uma escola, tudo é “pedagógico” - ou não...
O que a reportagem não mostrou e o Prof. Mário Sérgio perdeu uma boa oportunidade de colocar, pois ele sabe do que estamos falando, é a questão da violência contra o aluno por parte de “educadores” pagos com os nossos suados impostos e, ainda mais grave, a violência de alunos contra alunos, fomentada por manobras “sutis” como a da diretora da EMEF acima citada.

Não vemos muita saída para essa questão, pois, nos poucos casos em que a mídia registrou a violência contra alunos, os mesmos sofreram sérias represálias e perseguições, que resultaram na sua evasão. Esse fenômeno ocorre por dois motivos: em primeiro lugar as respectivas Secretarias da Educação não movem uma palha para proteger os alunos ameaçados, haja vista os dois episódios relatados acima. No caso da escola estadual de São João da Boa Vista, a Secretaria declarou que não é da sua alçada interferir em ações judiciais movidas pelos diretores de escola, pois sua atuação se dá apenas no âmbito de processos administrativos. No caso da EMEF acima citada, a apuração “preliminar” está sendo empurrada com a barriga e os alunos continuam à mercê de uma diretora mal intencionada. O segundo motivo que conduz à evasão dos alunos que têm a coragem de denunciar as agressões sofridas é a falta de acompanhamento do assunto pela mesma mídia que veicula a notícia. Na medida em que o assunto cai no esquecimento, a perseguição contra o aluno se intensifica e ele é tratado como a “laranja podre que expôs a escola publicamente”. Por outro lado, os meios de comunicação não se interessam em acompanhar as denúncias, pois filho de jornalista estuda na rede particular e, além disso, as Secretarias da Educação investem pesado em propaganda.

É ou não é um círculo vicioso?

02 março 2008

A quem serve a suspensão de alunos?


Esse é um assunto que não me canso de abordar. Afinal, o nosso interesse aqui é levantar tudo o que mantém a escola brasileira no limbo do subdesenvolvimento. Se os problemas não forem detectados, encarados e enfrentados, nada vai mudar. A mídia costuma discutir apenas a questão da qualidade do ensino, deixando de lado fenômenos extremamente graves que provocam a evasão e a exclusão de milhares de crianças e adolescentes em todo o país.

A suspensão de alunos é algo que agrada à sociedade brasileira. Mais ainda do que a suspensão, a expulsão goza de grande simpatia junto àquela parcela de cidadãos que preferem enfiar a cabeça na areia, como o avestruz, do que perceber a gravidade de atirar uma criança ou um jovem da escola para a marginalidade. A expulsão é um fenômeno contra o qual temos tido bastante êxito, pois trata-se de uma violação grave demais para passar em brancas nuvens – desde que os alunos e/ou seus pais tenham a coragem de enfrentar um tribunal de exceção e lutar contra a perseguição de certos “educadores”. Ao contrário, a suspensão de alunos, mesmo coletiva, é considerada um procedimento corriqueiro e “justo”, na suposição de que ele tenha o poder de manter a ordem e a disciplina na escola.

De nada adianta afirmar que a suspensão é ilegal, que o aluno tem o direito de acesso à sala de aula em qualquer situação e nada pode impedi-lo, seja a falta de material, de uniforme etc. A suspensão, instrumento jurássico de punição, infelizmente caiu no gosto popular. Por que será?

A quem serve a suspensão de alunos?...

Os únicos que se “beneficiam” dela são os maus profissionais da educação:

  • O professor relapso, que, por exemplo, vê um cesto de lixo pegar fogo e sai tranqüilamente para dar aula em outra classe...

  • O coordenador pedagógico “estressado” que costuma ralhar com o mesmo aluno toda semana e, portanto, agradece sua suspensão...

  • O diretor de escola, cansado de receber esse aluno em sua sala, com queixas do professor relapso e do coordenador estressado.

Profissionais desse tipo têm um único desejo: se livrar dos alunos, principalmente dos mais inteligentes e corajosos, aqueles que revidam ao serem humilhados, constrangidos ou agredidos. Para esses indivíduos, bom mesmo é uma escola vazia, onde possam ficar sentados papeando, tomando café e esperando o bônus de “produtividade” cair em sua conta bancária, rsrs (rir para não chorar, não é?).

A imagem do “bom” profissional da educação, no Brasil, ainda é tão antiquada quanto a idéia da necessidade da suspensão, da expulsão de alunos e da repetência, essa praga responsável pela exclusão de milhares de crianças e adolescentes. O profissional que continua no gosto popular é sisudo, autoritário, fala grosso, manda e desmanda. Em resumo, o professor, o coordenador e o diretor de escola “respeitados”, no Brasil, ainda são os que berram, suspendem, expulsam e largam o problema para outro professor, no ano seguinte. Na minha opinião, a suspensão e os demais instrumentos de punição só “servem" aos maus profissionais da educação (se é que é possível alguém conseguir se satisfazer prejudicando outra pessoa...).